A histria do movimento psicanaltico, artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos















VOLUME XIV
(1914-1916)














Dr. Sigmund Freud








A HISTRIA DO MOVIMENTO PSICANALTICO (1914)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         ZUR GESCHICHTE DER  PSYCHOANALYTUSCHEN BEWEGUNG
         
         (a)EDIES ALEMS:
         1914 Jb. Psychoan., 6, 207-260.
         1918 S.K.S.N., 4, 1-77. (1922, 2 ed.)
         1924 G.S., 4, 411-480.
         1924 Leipzig, Viena e Zurique: Internationaler Psychoanalytischer Verlag. Pg. 72.
         1946 G.W., 10, 44-113.
         
         (b) TRADUES INGLESAS:
         "The History of the Psychoanalytic Movement"
         1916 Psychoan. Rev., 3, 406-454. (Trad. A. A. Brill.)
         1917 Nova Iorque: Nervous & Mental Disease Publishing Co. (Srie de               Monografias N 25). Pg. 58. (Mesmo tradutor.)
         1938 Em The Basic Writings of Sigmund Freud. Nova Iorque: Modern     Librar. Pgs. 933-977. (Mesmo tradutor.)
         "On the History of the Psycho-Analytic Movement"
         1924 C.P., 1, 287-359. (Trad. Joan Riviere.)
         
         A presente traduo  uma verso modificada da publicada em 1924.
         Nas edies alems anteriores a 1924 a data 'fevereiro de 1914' aparece no final da obra. Parece de fato ter sido escrita em janeiro e fevereiro daquele 
ano. Algumas alteraes de menor importncia foram feitas na edio de 1924, tendo-se acrescentado a longa nota de rodap nas pgs. 33-4. Esta somente agora est 
sendo publicada em ingls.
         Um relato completo da situao que levou Freud a escrever esta obra  apresentado no Captulo V do segundo volume de sua biografia escrita por Ernest Jones 
(1955, 142 e seg.) Aqui basta fazer um pequeno resumo da situao. As discordncias de Adler quanto aos pontos de vista de Freud culminaram em 1910, e as de Jung 
uns trs anos depois. Apesar das divergncias que os afastaram de Freud, ambos persistiam, entretanto, em descrever suas teorias como "psicanlise". A finalidade 
do presente artigo foi estabelecer claramente os postulados e hipteses fundamentais da psicanlise, demonstrar que as teorias de Adler e Jung eram totalmente incompatveis 
com eles, e inferir que s levaria  confuso conjuntos de pontos de vista contraditrios receberem todos a mesma designao. E embora por muitos anos a opinio 
popular continuasse a insistir em que havia "trs escolas de psicanlise", o argumento de Freud finalmente prevaleceu. Adler j escolhera a designao de "Psicologia 
Individual" para as suas teorias e logo depois Jung adotou a de "Psicologia Analtica" para as suas.
         A fim de tornar os princpios essenciais da psicanlise perfeitamente simples, Freud traou a histria do seu desenvolvimento desde os primrdios pr-analticos. 
A primeira seo do artigo abrange o perodo em que ele prprio foi a nica pessoa interessada - isto , at cerca de 1902. A segunda seo continua a histria at 
mais ou menos 1910 -, poca em que os pontos de vista psicanalticos comearam a se estender a crculos mais amplos. S na terceira seo  que Freud chega ao exame 
dos pontos de vista dissidentes, primeiro de Adler e a seguir Jung, e assinala os pontos fundamentais em que eles se afastam das descobertas da psicanlise. Nessa 
ltima seo e tambm de uma certa maneira no restante do artigo, encontramos Freud adotando um tom muito mais beligerante do que em qualquer outro dos seus trabalhos. 
E, tendo em vista suas experincias nos trs ou quatro anos anteriores, esse estado de humor diferente no pode ser considerado surpreendente.
         Debates sobre os pontos de vista de Adler e Jung encontram-se em duas outras obras de Freud contemporneas  presente. No artigo sobre "Narcisismo" (1914c), 
que vinha sendo elaborado quase na mesma poca que a "Histria", alguns pargrafos de discordncia de Jung aparecem no final da Seo I (S.E., 14, pgs. 79 e segs.) 
e um trecho semelhante sobre Adler no incio da Seo III (pg. 92). A anamnese do "Homem Lobo" (1918b), escrita sobretudo no fim de 1914, embora somente publicada 
(com trechos adicionais) em 1918, destinou-se em grande parte a uma refutao emprica de Adler e Jung, e encerra muitos ataques contra as suas teorias. Nas obras 
ulteriores de Freud existem muitas referncias esparsas a essas controvrsias (principalmente em trabalhos expositivos ou semi-autobiogrficos), mas estes so sempre 
em tom mais seco e nunca muito extensos. Meno especial, entretanto, deve ser feita a uma discusso rigorosamente argumentada dos pontos de vista de Adler sobre 
as foras motoras conducentes  represso na seo final do artigo de Freud sobre as fantasias de espancamento (1919e), S. E., 17, pgs. 201 segs.
         Quanto aos aspectos puramente histricos e autobiogrficos da obra, deve-se observar que Freud repetiu mais ou menos o que se encontra em seu Estudo Autobiogrfico 
(1925d), embora o Estudo suplemente este trabalho em alguns pontos. Para uma abordagem bem mais ampla do assunto, o leitor deve procurar a biografia de Freud, em 
trs volumes, escrita por Ernest Jones. Nas notas de rodap  presente traduo no se tentou seguir o mesmo caminho trilhado por aquela obra. 
         
         FLUCTUAT NEC MERGITUR (NO BRASO DA CIDADE DE PARIS)
         
                                                       I
         No  de se estranhar o carter subjetivo desta contribuio que me proponho trazer  histria do movimento psicanaltico, nem deve causar surpresa o papel 
que nela desempenho, pois a psicanlise  criao minha; durante dez anos fui a nica pessoa que se interessou por ela, e todo o desagrado que o novo fenmeno despertou 
em meus contemporneos desabafou sobre a minha cabea em forma de crticas. Embora de muito tempo para c eu tenha deixado de ser o nico psicanalista existente, 
acho justo continuar afirmando que ainda hoje ningum pode saber melhor do que eu o que  a psicanlise, em que ela difere de outras formas de investigao da vida 
mental, o que deve precisamente ser denominado de psicanlise e o que seria melhor chamar de outro nome qualquer. Ao repudiar assim o que me parece nada menos que 
uma usurpao, estou indiretamente levando ao conhecimento dos leitores deste Jahrbuch os fatos que provocaram modificaes em sua editoria e formato.
         Em 1909, no salo de conferncias de uma universidade norte-americana, tive a primeira oportunidade de falar em pblico sobre a psicanlise. A ocasio foi 
de grande importncia para a minha obra, e movido por este pensamento declarei ento que no havia sido eu quem criara a psicanlise: o mrito cabia a Joseph Breuer, 
cuja obra tinha sido realizada numa poca em que eu era apenas um aluno preocupado em passar nos exames (1880-2). Depois que fiz aquelas conferncias, entretanto, 
alguns amigos bem intencionados suscitaram em mim uma dvida: no teria eu, naquela oportunidade, manifestado minha gratido de uma maneira exagerada? Na opinio 
deles, devia ter feito o que j estava acostumado a fazer: encarado o "mtodo catrtico" de Breuer como um estgio preliminar da psicanlise, e a psicanlise em 
si como tendo tido incio quando deixei de usar a tcnica hipntica e introduzi as associaes livres. Seja como for, no tem grande importncia que a histria da 
psicanlise seja considerada como tendo incio com o mtodo catrtico ou com a modificao que nele introduzi; menciono esse detalhe pouco interessante simplesmente 
porque certos adversrios de psicanlise tm o hbito de lembrar vez por outra que, afinal de contas, a arte da psicanlise no foi inveno minha e sim de Breuer. 
Isto s acontece, naturalmente, quando seus pontos de vista permitem que eles vejam na psicanlise algo merecedor de ateno, pois, quando h uma rejeio absoluta, 
nem se discute que a psicanlise  obra somente minha. Que eu saiba, a grande participao que teve Breuer na criao da psicanlise jamais fez cair sobre ele o 
equivalente em crticas e injrias. Como h muito j reconheci que provocar oposio e despertar rancor  o destino inevitvel da psicanlise, cheguei  concluso 
de que devo ser eu o verdadeiro criador do que lhe  mais caracterstico. Alegra-me poder acrescentar que nenhuma dessas tentativas de minimizar meu papel na criao 
desta to difamada psicanlise jamais partiu de Breuer, nem contou sequer com seu apoio.
         As descobertas de Breuer j foram descritas tantas vezes que posso dispensar um exame detalhado das mesmas aqui. O fundamental delas era o fato de que os 
sintomas de pacientes histricos baseiam-se em cenas do seu passado que lhes causaram grande impresso mas foram esquecidas (traumas); a teraputica, nisto apoiada, 
que consistia em faz-los lembrar e reproduzir essas experincias num estado de hipnose (catarse); e o fragmento de teoria disto inferido, segundo o qual esses sintomas 
representavam um emprego anormal de doses de excitao que no haviam sido descarregadas (converso). Sempre que Breuer, em sua contribuio terica aos Estudos 
Sobre a Histeria (1895), referia-se a esse processo de converso, acrescentava meu nome entre parnteses, como se coubesse a mim a prioridade desta primeira tentativa 
de avaliao terica. Creio que, na realidade, esta distino s se aplica ao termo, e que a concepo nos ocorreu simultaneamente e em conjunto. 
          sabido tambm que depois de Breuer ter feito sua primeira descoberta do mtodo catrtico deixou-o de lado durante anos e s veio a retom-lo por instigao 
minha, quando de volta dos meus estudos com Charcot. Breuer tinha uma grande clientela que exigia muito dele; quanto a mim, apenas assumira a contragosto a profisso 
mdica, mas tinha naquela poca um forte motivo para ajudar as pessoas que sofriam de afeces nervosas ou pelo menos para desejar compreender algo sobre o estado 
delas. Adotei a fisioterapia, e me senti completamente desanimado com os resultados desapontadores do meu estudo da Elektrotherapie de Erb [1882], que apresentava 
tantas indicaes e recomendaes. Se na poca no cheguei por conta prpria  concluso que Moebius estabeleceu depois - de que os xitos do tratamento eltrico 
em doentes nervosos so efeito de sugesto -, foi, sem dvida alguma, apenas por causa da total ausncia desses prometidos xitos. O tratamento pela sugesto durante 
a hipnose profunda, que aprendi atravs das impressionantes demonstraes de Libeault e Bernheim, pareciam ento oferecer um substituto satisfatrio para o malogrado 
tratamento eltrico. Mas a prtica de investigar pacientes em estado hipntico, com a qual me familiarizou Breuer - prtica que combinava um modo de agir automtico 
com a satisfao da curiosidade cientfica - era, sem dvida, incomparavelmente mais atraente do que as proibies montonas e foradas usadas no tratamento pela 
sugesto, proibies que criavam um obstculo a qualquer pesquisa.
         H pouco tempo nos foi dada uma sugesto - que se propunha representar um dos mais recentes desenvolvimentos da psicanlise -, no sentido de que o conflito 
do momento e o fator desencadeante da doena devem ser trazidos para o primeiro plano na anlise. Ora, isto era exatamente o que Breuer e eu fazamos quando comeamos 
a trabalhar com o mtodo catrtico. Conduzamos a ateno do paciente diretamente para a cena traumtica na qual o sintoma surgira e nos esforvamos por descobrir 
o conflito mental envolvido naquela cena, e por liberar a emoo nela reprimida. Ao longo deste trabalho, descobrimos o processo mental, caracterstico das neuroses, 
que chamei depois de "regresso". As associaes do paciente retrocediam, a partir da cena que tentvamos elucidar, at as experincias mais antigas, e compeliam 
a anlise, que tencionava corrigir o presente, a ocupar-se do passado. Esta regresso nos foi conduzindo cada vez mais para trs; a princpio parecia nos levar regularmente 
at a puberdade; em seguida, fracassos e pontos que continuavam inexplicveis levaram o trabalho analtico ainda mais para trs, at os anos da infncia que at 
ento permaneciam inacessveis a qualquer espcie de explorao. Essa direo regressiva tornou-se uma caracterstica importante da anlise. Era como se a psicanlise 
no pudesse explicar nenhum aspecto do presente sem se referir a algo do passado; mais ainda, que toda experincia patognica implicava uma experincia prvia que, 
embora no patognica em si, havia, no obstante, dotado esta ltima de sua qualidade patognica. Entretanto, a tentao de limitar a ateno ao fator desencadeante 
conhecido, do momento, era to forte que, mesmo em anlises posteriores, cedi a ela. Na anlise da paciente a quem dei o nome de "Dora" [1905e], realizada em 1899, 
tive conhecimento da cena que ocasionou a irrupo da doena daquele momento. Tentei inmeras vezes submeter essa experincia  anlise, mas nem mesmo exigncias 
diretas conseguiram da paciente mais que a mesma descrio pobre e incompleta. S depois de ter sido feito um longo desvio, que a levou de volta  mais tenra infncia, 
surgiu um sonho que, ao ser analisado, lhe trouxe  mente detalhes daquela cena, at ento esquecidos, e assim uma compreenso e soluo do conflito do momento tornaram-se 
possveis.
         Este nico exemplo mostra quanto desacerto havia na sugesto acima referida e que grau de regresso cientfica representaria o abandono, por ela proposto, 
da regresso na tcnica analtica.
         Minha primeira divergncia com Breuer surgiu de uma questo relativa ao mecanismo psquico mais apurado da histeria. Ele dava preferncia a uma teoria que, 
se poderia dizer, ainda era at certo ponto fisiolgica; tentava explicar a diviso mental nos pacientes histricos pela ausncia de comunicao entre vrios estados 
mentais ("estados de conscincia", como os chamvamos naquela poca), e construiu ento a teoria dos "estados hipnides" cujos produtos se supunham penetrar na "conscincia 
desperta" como corpos estranhos no assimilados. Eu via a questo de forma menos cientfica; parecia discernir por toda parte tendncias e motivos anlogos aos da 
vida cotidiana, e encarava a prpria diviso psquica como o efeito de um processo de repulso que naquela poca denominei de "defesa", e depois de "represso". 
Fiz uma tentativa efmera de permitir que os dois mecanismos existissem lado a lado separados um do outro, mas como a observao me mostrava sempre uma nica e mesma 
coisa, dentro de pouco tempo minha teoria da "defesa" passou a se opor  teoria "hipnide" de Breuer.
         Estou bem certo, contudo, de que esta oposio entre os nossos pontos de vista nada teve que ver com o rompimento de nossas relaes que se seguiu pouco 
depois. Este teve causas mais profundas, mas ocorreu de forma tal que de incio no o compreendi; s depois  que, atravs de claras indicaes, pude interpret-lo. 
Como se sabe, Breuer disse de sua primeira e famosa paciente que o elemento de sexualidade estava surpreendentemente no desenvolvido nela e que em nada contribura 
para o riqussimo quadro clnico do caso. Sempre fiquei a imaginar por que os crticos no citam com mais freqncia esta afirmao de Breuer como argumento contra 
minha alegao referente  etiologia sexual das neuroses, e at hoje no sei se devo considerar a omisso como prova de tato ou de descuido da parte deles. Quem 
quer que leia agora a histria do caso de Breuer  luz dos conhecimentos adquiridos nos ltimos vinte anos, perceber, de imediato, o simbolismo nele existente - 
as cobras, o enrijecimento, a paralisia do brao - e, levando em conta a situao da jovem  cabeceira do pai enfermo, facilmente chegar  verdadeira interpretao 
dos sintomas; a opinio do leitor sobre o papel desempenhado pela sexualidade na vida mental da paciente ser, portanto, bem diferente daquela do seu mdico. No 
tratamento desse caso, Breuer usou, para com a paciente, de um rapport sugestivo muito intenso, que nos poder servir como um perfeito prottipo do que chamamos 
hoje de "transferncia". Tenho agora fortes razes para suspeitar que, depois de ter aliviado todos os sintomas de sua cliente, Breuer deve ter descoberto por outros 
indcios a motivao sexual dessa transferncia, mas que a natureza universal deste fenmeno inesperado lhe escapou, resultando da que, como se tivesse sido surpreendido 
por um "fato inconveniente", ele tenha interrompido qualquer investigao subseqente. Breuer nunca me falou isso assim, mas me disse o bastante em diferentes ocasies 
para justificar esta minha reconstituio do acontecido. Quando depois comecei, cada vez com mais persistncia, a chamar a ateno para a significao da sexualidade 
na etiologia das neuroses, ele foi o primeiro a manifestar a reao de desagrado e repdio que posteriormente iria tornar-se to familiar a mim, mas que naquela 
ocasio eu no tinha ainda aprendido a reconhecer como meu destino inexorvel.
         O surgimento da transferncia sob forma francamente sexual - seja de afeio ou de hostilidade -, no tratamento das neuroses, apesar de no ser desejado 
ou induzido pelo mdico nem pelo paciente, sempre me pareceu a prova mais irrefutvel de que a origem das foras impulsionadoras da neurose est na vida sexual. 
A este argumento nunca foi dado o grau de ateno que ele merece, pois se isso tivesse acontecido, as pesquisas neste campo no deixariam nenhuma outra concluso 
em aberto. No que me diz respeito, este argumento continua a ser decisivo, mas decisivo mesmo do que qualquer das descobertas mais especficas do trabalho analtico.
         O consolo que tive em face da reao negativa provocada, mesmo no meu crculo de amigos mais ntimos, pelo meu ponto de vista de uma etiologia sexual nas 
neuroses - pois formou-se rapidamente um vcuo em torno de mim -, foi o pensamento de que estava assumindo a luta por uma idia nova e original. Mas, um belo dia, 
vieram-me  mente certas lembranas que perturbaram esta idia agradvel, mas que, por outro lado, me proporcionaram uma percepo (insight) valiosa dos processos 
da atividade criativa humana e da natureza dos conhecimentos humanos. A idia pela qual eu estava me tornando responsvel de modo algum se originou em mim. Fora-me 
comunicada por trs pessoas cujos pontos de vista tinham merecido meu mais profundo respeito - o prprio Breuer, Charcot e Chrobak, o ginecologista da universidade, 
talvez o mais eminente de todos os nossos mdicos de Viena. Esses trs homens me tinham transmitido um conhecimento que, rigorosamente falando, eles prprios no 
possuam. Dois deles, mais tarde, negaram t-lo feito quando lhes lembrei o fato; o terceiro (o grande Charcot) provavelmente teria feito o mesmo se me tivesse sido 
dado v-lo novamente. Mas essas trs opinies idnticas, que ouvira sem compreender, tinham ficado adormecidas em minha mente durante anos, at que um dia despertaram 
sob a forma de uma descoberta aparentemente original.
         Um dia, quando eu era ainda um jovem mdico residente, passeava com Breuer pela cidade, quando se aproximou de ns um homem que evidentemente desejava falar-lhe 
com urgncia. Deixei-me ficar para trs. Logo que Breuer ficou livre, contou-me com seu jeito amistoso e instrutivo que aquele homem era marido de uma paciente sua 
e que lhe trouxera algumas notcias a respeito dela. A esposa, acrescentou, comportava-se de maneira to peculiar em sociedade que lhe fora levada para tratamento 
como um caso de doena nervosa. Concluiu ele: "Estas coisas so sempre "secrets d'alcve!" Perguntei-lhe assombrado o que queria dizer e respondeu explicando-me 
o termo alcve ("leito conjugal"), pois no se deu conta de quo extraordinrio o assunto de sua declarao me parecia.
         Alguns anos depois, numa recepo em casa de Charcot, aconteceu-me estar de p perto do grande mestre no momento em que ele parecia estar contando a Brouardel 
uma histria muito interessante sobre algo que me ocorrera durante o trabalho do dia. Mal ouvi o incio, mas pouco a pouco minha ateno foi-se prendendo ao que 
ele dizia: um jovem casal de um pas distante do Oriente - a mulher, um caso de doena grave, o homem impotente ou excessivamente desajeitado. "Tchez donc", ouvi 
Charcot repetindo, "j vous assure, vous y arriverez". Brouardel, que falava mais baixo, deve ter externado o seu espanto de que sintomas como os da esposa pudessem 
ter sido produzidos por tais circunstncias, pois Charcot de sbito irrompeu com grande animao: "Mais, dans des cas pareils, c'est toujours la chose gnitale, 
toujours... toujours... toujours"; e cruzou os braos sobre o estmago, abraando-se a si mesmo e pulando para cima e para baixo na ponta dos ps vrias vezes com 
a animao que lhe era caracterstica. Sei que por um momento fiquei quase paralisado de assombro e disse para mim mesmo: "Mas se ele sabe disso, por que no diz 
nunca?". Mas a impresso logo foi esquecida; a anatomia do crebro e a induo experimental de paralisias histricas absorviam todo o meu interesse.
         Um ano depois, iniciara a minha carreira mdica em Viena como professor-adjunto de doenas nervosas, e em relao a tudo o que dizia respeito  etiologia 
das neuroses ainda era to ignorante e inocente quanto se poderia esperar de um aluno promissor recm-sado de uma universidade. Certo dia, recebi um recado simptico 
de Chrobak, pedindo-me que visse uma cliente sua a quem no podia dedicar o tempo necessrio, por causa de sua recente nomeao para o cargo de professor universitrio. 
Cheguei  casa da cliente antes dele e verifiquei que ela sofria de acessos de ansiedade sem sentido, e s conseguia se acalmar com informaes precisas de onde 
se encontrava o seu mdico a cada momento do dia. Quando Chrobak chegou, levou-me a um canto e me disse que a ansiedade da paciente era devida ao fato de que, embora 
estivesse casada h dezoito anos, ainda era virgo intacta. O marido era absolutamente impotente. Nesses casos, disse ele, o mdico nada podia fazer a no ser resguardar 
esta infelicidade domstica com sua prpria reputao, e resignar-se quando as pessoas dessem de ombros e dissessem dele: "No vale nada se no pode cur-la depois 
de tantos anos". A nica receita para essa doena acrescentou, nos  bastante familiar, mas no podemos prescrev-la.  a seguinte:
                                            "R. Penis normalis dosim repetatur!"
         Jamais ouvira tal receita, e tive vontade de fazer ver ao meu protetor que eu reprovava o seu cinismo.
         No revelei a paternidade ilustre desta idia escandalosa com o intuito de atribuir a outros a responsabilidade dela. Dou-me conta muito bem de que uma 
coisa  externar uma idia uma ou duas vezes sob a forma de um aperu passageiro, e outra bem diferente  lev-la a srio, tom-la ao p da letra e persistir nela, 
apesar dos detalhes contraditrios, at conquistar-lhe um lugar entre as verdades aceitas.
          a diferena entre um flerte fortuito e um casamento legal com todos os seus deveres e dificuldades. "pouser les ides de..." no  uma figura de linguagem 
pouco comum, pelo menos em francs.
         Entre os outros novos fatores que foram acrescentados ao processo catrtico como resultado de meu trabalho e que o transformou em psicanlise, posso mencionar 
em particular a teoria da represso e da resistncia, o reconhecimento da sexuaidade infantil e a interpretao e explorao de sonhos como fonte de conhecimento 
do inconsciente.
         A teoria da represso sem dvida alguma ocorreu-me independentemente de qualquer outra fonte; no sei de nenhuma impresso externa que me pudesse t-la 
sugerido, e por muito tempo imaginei que fosse inteiramente original, at que Otto Rank (1911a) nos mostrou um trecho da obra de Schopenhauer World as Will and Idea 
na qual o filsofo procura dar uma explicao da loucura. O que ele diz sobre a luta contra a aceitao da parte dolorosa da realidade coincide to exatamente com 
o meu conceito de represso que, mais uma vez, devo a chance de fazer uma descoberta ao fato de no ser uma pessoa muito lida. Entretanto, outros leram o trecho 
e passaram por ele sem fazer essa descoberta e talvez o mesmo tivesse acontecido a mim se na juventude tivesse tido mais gosto pela leitura de obras filosficas. 
Em anos posteriores, neguei a mim mesmo o enorme prazer da leitura das obras de Nietzsche, com o propsito deliberado de no prejudicar, com qualquer espcie de 
idias antecipatrias, a elaborao das impresses recebidas na psicanlise. Tive, portanto, de me preparar - e com satisfao - para renunciar a qualquer pretenso 
de prioridade nos muitos casos em que a investigao psicanaltica laboriosa pode apenas confirmar as verdades que o filsofo reconheceu por intuio.
         A teoria da represso  a pedra angular sobre a qual repousa toda a estrutura da psicanlise.  a parte mais essencial dela e todavia nada mais  seno 
a formulao terica de um fenmeno que pode ser observado quantas vezes se desejar se se empreende a anlise de um neurtico sem recorrer a hipnose. Em tais casos 
encontra-se uma resistncia que se ope ao trabalho da anlise e, a fim de frustr-lo, alega falha de memria. O uso da hipnose ocultava essa resistncia; por conseguinte, 
a histria da psicanlise propriamente dita s comea com a nova tcnica que dispensa a hipnose. A considerao terica, decorrente da coincidncia dessa resistncia 
com uma amnsia, conduz inevitavelmente ao princpio da atividade mental inconsciente, peculiar  psicanlise, e que tambm a distingue muito nitidamente das especulaes 
filosficas em torno do inconsciente. Assim talvez se possa dizer que a teoria da psicanlise  uma tentativa de explicar dois fatos surpreendentes e inesperados 
que se observam sempre que se tenta remontar os sintomas de um neurtico a suas fontes no passado: a transferncia e a resistncia. Qualquer linha de investigao 
que reconhea esses dois fatos e os tome como ponto de partida de seu trabalho tem o direito de chamar-se psicanlise, mesmo que chegue a resultados diferentes dos 
meus. Mas quem quer que aborde outros aspectos do problema, evitando essas duas hipteses, dificilmente poder escapar  acusao de apropriao indbita por tentativa 
de imitao, se insistir em chamar-se a si prprio de psicanalista. Eu me oporia com maior nfase a quem procurasse colocar a teoria da represso e da resistncia 
entre as premissas da psicanlise em vez de coloc-las entre as suas descobertas. Essas premissas, de natureza psicolgica e biolgica geral, na verdade existem 
e seria til consider-las em outra ocasio; mas a teoria da represso  um produto do trabalho psicanaltico, uma inferncia terica legitimamente extrada de inmeras 
observaes.
         Outro produto dessa espcie foi a hiptese da sexualidade infantil. Isto, porm, foi feito numa data muito ulterior. Nos primeiros dias da investigao 
experimental pela anlise, no se pensou em tal coisa. De incio, observou-se apenas que os efeitos das experincias presentes tinham de ser remontados a algo no 
passado. Mas os investigadores geralmente encontram mais do que procuram. Fomos puxados cada vez mais para o passado; espervamos poder parar na puberdade, perodo 
ao qual se atribui tradicionalmente o despertar dos impulsos sexuais. Mas em vo; as pistas conduziam ainda mais para trs,  infncia e aos seus primeiros anos. 
No caminho, tivemos de superar uma idia errada que poderia ter sido quase fatal para a nova cincia. Influenciados pelo ponto de vista de Charcot quanto  origem 
traumtica da histeria, estvamos de pronto inclinados a aceitar como verdadeiras e etiologicamente importantes as declaraes dos pacientes em que atribuam seus 
sintomas a experincias sexuais passivas nos primeiros anos da infncia - em outras palavras,  seduo. Quando essa etiologia se desmoronou sob o peso de sua prpria 
improbabilidade e contradio em circunstncias definitivamente verificveis, ficamos, de incio, desnorteados. A anlise nos tinha levado at esses traumas sexuais 
infantis pelo caminho certo e, no entanto, eles no eram verdadeiros. Deixamos de pisar em terra firme. Nessa poca, estive a ponto de desistir por completo do trabalho, 
exatamente como meu estimado antecessor, Joseph Breuer, quando fez sua descoberta indesejvel. Talvez tenha perseverado apenas porque j no tinha outra escolha 
e no podia ento comear uma outra coisa. Por fim, veio a reflexo de que, afinal de contas, no se tem o direito de desesperar por no ver confirmadas as prprias 
expectativas; deve-se fazer uma reviso dessas expectativas. Se os pacientes histricos remontam seus sintomas e traumas que so fictcios, ento o fato novo que 
surge  precisamente que eles criam tais cenas na fantasia, e essa realidade psquica precisa ser levada em conta ao lado da realidade prtica. Essa reflexo foi 
logo seguida pela descoberta de que essas fantasias destinavam-se a encobrir a atividade auto-ertica dos primeiros anos de infncia, embelez-la e elev-la a um 
plano mais alto. E agora, de detrs das fantasias, toda a gama da vida sexual da criana vinha  luz. 
         Com a atividade sexual dos primeiros anos de infncia tambm foi reconhecida a constituio herdada do indivduo. A disposio e a experincia esto aqui 
ligadas numa unidade etiolgica indissolvel, pois a disposio exagera impresses - que de outra forma teriam sido inteiramente comuns e no teriam nenhum efeito 
-, de modo a transform-las em traumas que do margem a estmulos e fixaes; por outro lado, as experincias despertam fatores na disposio que, sem elas, poderiam 
ter ficado adormecidos por muito tempo e talvez nunca se desenvolvessem. Abraham (1907) deu a ltima palavra sobre a questo da etiologia traumtica quando ressaltou 
que a constituio sexual peculiar s crianas  calculada precisamente para provocar experincias sexuais de uma natureza particular, ou seja, traumas.
         No comeo, minhas declaraes sobre a sexualidade infantil basearam-se quase exclusivamente nos achados, da anlise de adultos, que remontavam ao passado. 
No tive nenhuma oportunidade de fazer observaes diretas em crianas. Foi, portanto, uma grande vitria quando, anos depois, tornou-se possvel confirmar quase 
todas as minhas dedues atravs da observao direta e da anlise de crianas muito pequenas - vitria que foi perdendo a sua magnitude  medida que pouco a pouco 
compreendamos que a natureza da descoberta era tal que na realidade deveramos envergonhar-nos de ter tido de faz-la. Quanto mais se levassem adiante as observaes 
em crianas, mais evidentes os fatos se tornavam; porm o mais surpreendente de tudo era constatar que tivesse havido tanta preocupao em menosprez-los.
         Essa convico da existncia e da importncia da sexualidade infantil, entretanto, s pode ser obtida, pelo mtodo da anlise, partindo-se dos sintomas 
e peculiaridades dos neurticos e acompanhando-os at suas fontes ltimas, cuja descoberta ento explica o que h nelas de explicvel e permite que se modifique 
o que h de modificvel.
         Compreendo que se possa chegar a resultados diferentes se, como fez recentemente C. G. Jung, se forma primeiro uma concepo terica da natureza do instinto 
sexual e procura-se ento explicar a vida das crianas a partir dessa base. Uma concepo dessa natureza ser forosamente uma escolha arbitrria ou dependente de 
consideraes irrelevantes, e corre o risco de evidenciar-se inadequada ao campo a que se est procurando aplic-la.  verdade que tambm o mtodo analtico leva 
a certas dificuldades e obscuridades finais no tocante  sexualidade e  sua relao com a vida total do indivduo. Mas esses problemas no podem ser eliminados 
pela especulao; devem aguardar soluo atravs de outras observaes ou mediante observaes em outros campos.
         Pouco preciso dizer sobre a interpretao de sonhos. Surgiu como os prenncios da inovao tcnica que eu adotara quando, aps um vago pressentimento, resolvi 
substituir a hipnose pela livre associao. Minha busca de conhecimentos no se dirigira, de incio, para a compreenso dos sonhos. No sei de nenhuma influncia 
externa que tivesse atrado meu interesse para esse assunto ou que me tivesse inspirado qualquer expectativa valiosa. Antes de Breuer e eu nos separarmos, apenas 
tinha tido tempo de comunicar-lhe, e numa nica frase, que eu, quela altura, estava sabendo como traduzir os sonhos. Visto ter sido assim a descoberta, conclui-se 
que o simbolismo na linguagem dos sonhos foi quase a ltima coisa a tornar-se acessvel a mim, pois as associaes da pessoa que sonha nos ajudam muito pouco a compreender 
smbolos. Como tenho o hbito de estudar sempre as prprias coisas antes de procurar informaes sobre elas em livros, pude chegar eu mesmo ao simbolismo dos sonhos 
antes de ser a ele levado pela obra de Scherner sobre o assunto [1861]. S depois  que vim a apreciar em sua plena extenso essa modalidade de expresso dos sonhos. 
Isso ocorreu em parte por influncia das obras de Stekel, cujos primeiros trabalhos tm muito mrito, mas que depois se desencaminhou totalmente. A estreita ligao 
entre a interpretao psicanaltica dos sonhos e a arte de interpret-los segundo a prtica tida em to alta conta na antigidade, s tornou-se clara para mim muito 
depois. Mais tarde, descobri a caracterstica essencial e a parte mais importante da minha teoria dos sonhos, ou seja, que a distoro dos sonhos  conseqncia 
de um conflito interno, uma espcie de desonestidade interna - num autor que embora ignorando a medicina, no ignorava a filosofia, o famoso engenheiro J. Popper, 
que publicou sua Phantasien einer Realisten [1899] sob o nome de Lynkeys.
         A interpretao de sonhos foi para mim um alvio e um apoio naqueles rduos primeiros anos da anlise, quando tive de dominar a tcnica, os fenmenos clnicos 
e a teraputica das neuroses, tudo ao mesmo tempo. Naquele perodo fiquei completamente isolado e, no emaranhado de problemas e acmulo de dificuldades, muitas vezes 
tive medo de me desorientar e de perder a confiana em mim mesmo. A comprovao de minha hiptese de que uma neurose tinha de tornar-se inteligvel atravs da anlise 
se arrastava, em muitos pacientes, por um perodo de tempo desesperador; mas os sonhos desses pacientes, que poderiam ser considerados anlogos aos seus sintomas, 
quase sempre confirmavam a hiptese.
         Foi o meu xito nessa direo que me permitiu perseverar. Vem dessa poca o hbito que adquiri de aferir a medida da compreenso de um psiclogo pela sua 
atitude em face da interpretao de sonhos; e tenho observado com satisfao que a maior parte dos adversrios da psicanlise evitam esse campo por completo, ou 
ento, revelam uma flagrante inabilidade quando tentam lidar com ele. Alm do mais; logo me dei conta da necessidade de levar a efeito uma auto-anlise, e o fiz 
com a ajuda de uma srie de meus prprios sonhos que me conduziram de volta a todos os fatos da minha infncia, sendo ainda hoje de opinio que essa espcie de anlise 
talvez seja o suficiente para uma pessoa que sonhe com freqncia e no seja muito anormal.
         Com este relato da histria do desenvolvimento da psicanlise creio ter mostrado, melhor do que com uma descrio sistemtica, o que ela . De incio no 
percebi a natureza peculiar do que descobrira. Sem hesitar, sacrifiquei minha crescente popularidade como mdico, e restringi o nmero de clientes nas minhas horas 
de consulta, para poder proceder a uma investigao sistemtica dos fatores sexuais em jogo na causao das neuroses de meus pacientes; e isso me trouxe um grande 
nmero de fatos novos que finalmente confirmavam minha convico quanto  importncia prtica do fator sexual. Ingenuamente dirigi-me a uma reunio da Sociedade 
de Psiquiatria e Neurologia de Viena, presidida ento por Krafft-Ebing (cf. Freud, 1896c), na esperana de que as perdas materiais que voluntariamente sofri fossem 
compensadas pelo interesse e reconhecimento dos meus colegas. Considerava minhas descobertas contribuies normais  cincia e esperava que fossem recebidas com 
esse mesmo esprito. Mas o silncio provocado pelas minhas comunicaes, o vazio que se formou em torno de mim, as insinuaes que me foram dirigidas, pouco a pouco 
me fizeram compreender que as afirmaes sobre o papel da sexualidade na etiologia das neuroses no podem contar com o mesmo tipo de tratamento dado ao comum das 
comunicaes. Compreendi que daquele momento em diante eu passara a fazer parte do grupo daqueles que "perturbaram o sono do mundo", como diz Hebbel e que no poderia 
contar com objetividade e tolerncia. Entretanto, desde que minha convico quanto  exatido geral de minhas observaes e concluses era cada vez maior, e que 
a confiana no meu prprio julgamento e minha coragem moral no era exatamente o que se pode chamar de pequena, o resultado da situao no poderia ser posto em 
dvida. Dispus-me a acreditar que tinha tido a sorte de descobrir fatos e ligaes particularmente importantes, e resolvi aceitar o destino que s vezes acompanha 
essas descobertas.
         Imaginei o futuro da seguinte forma: - o xito teraputico do novo mtodo provavelmente garantiria a minha subsistncia, mas a cincia me ignoraria por 
completo enquanto eu vivesse; dcadas depois, algum infalivelmente chegaria aos mesmos resultados - para os quais no era ainda chegada a hora -, conseguiria que 
eles fossem reconhecidos e me honraria como um precursor cujo fracasso fora inevitvel. Enquanto isso, como Robinson Cruso, eu me instalava com o maior conforto 
possvel em minha ilha deserta. Quando lano um olhar retrospectivo queles anos solitrios, longe das presses e confuses de hoje, parece-me uma gloriosa poca 
de herosmo. Meu "splendid isolation" no deixou de ter suas vantagens e encantos. No tinha obrigao de ler publicaes nem de ouvir adversrios mal informados; 
no estava sujeito  influncia de qualquer setor; no havia nada a me apressar. Aprendi a controlar as tendncias especulativas e a seguir o conselho no esquecido 
de meu mestre, Charcot: olhar as mesmas coisas repetidas vezes at que elas comecem a falar por si mesmas. Minhas publicaes, para as quais encontrei editor, no 
sem um pouco de dificuldade, sempre podiam no somente atrasar-me muito em relao aos meus conhecimentos mas tambm serem adiadas quando eu quisesse, desde que 
no havia nenhuma "prioridade" duvidosa a ser defendida. A Interpretao de Sonhos, por exemplo, foi concluda, no essencial, no incio de 1896 mas s foi escrita 
em definitivo no vero de 1899. A anlise de "Dora" terminou no fim de 1899 [1900]; a histria clnica foi escrita nas duas semanas seguintes, mas s foi publicada 
em 1905. Enquanto isso, minhas obras no constavam das resenhas crticas das revistas mdicas, ou, quando excepcionalmente constavam, era para serem rechaadas com 
expresses desdenhosas ou de superioridade compassiva. Ocasionalmente, um colega fazia referncia a mim em uma de suas publicaes - sempre muito curta e nunca lisonjeira 
- em que eram usadas palavras como "excntrico", "extremista", ou "muito estranho". Uma vez, um assistente da clnica de Viena, em cuja Universidade eu dava ciclos 
de conferncias pediu-me permisso para freqentar o curso. Prestava muita ateno, mas no dizia nada; depois da ltima conferncia, ofereceu-se para acompanhar-me. 
Enquanto caminhvamos, disse-me que, com o conhecimento de seu chefe, escrevera um livro combatendo os meus pontos de vista; lamentava muito, contudo, no haver 
antes se informado melhor acerca dos mesmos atravs de minhas conferncias, pois nesse caso teria escrito o livro de maneira bem diferente. Chegara a perguntar na 
clnica se no seria melhor ler antes A Interpretao de Sonhos, mas aconselharam-no a no faz-lo - no valia o esforo. Ento ele prprio comparou a estrutura 
da minha teoria, at onde a compreendia, com a da Igreja Catlica no tocante  consistncia interna. No interesse da salvao de sua alma, acredito que essa observao 
implicava certa dose de simpatia. Mas ele concluiu dizendo que era tarde demais para alterar qualquer coisa no livro, visto que j se achava no prelo. No julgou 
necessrio fazer posteriormente nenhuma confisso pblica da mudana de seus pontos de vista em relao  psicanlise; preferiu, na qualidade de crtico regular 
de uma revista mdica, acompanhar o desenvolvimento desse assunto com comentrios irreverentes.
         Minha suscetibilidade pessoal tornou-se embotada, durante esses anos, para vantagem minha. S no me tornei uma pessoa amargurada por uma circunstncia 
que nem sempre est presente para ajudar os descobridores solitrios. Eles so, em geral, atormentados pela necessidade de explicar a falta de simpatia ou a averso 
de seus contemporneos e sentem essa atitude como uma contradio angustiante  segurana de suas prprias convices. Eu no precisava me sentir assim, pois a teoria 
psicanaltica me capacitava a compreender a atitude de meus contemporneos e v-la como uma conseqncia natural das premissas analticas fundamentais. Se era verdade 
que o conjunto de fatos que eu descobri foram mantidos fora do conhecimento dos prprios pacientes por resistncias internas de natureza emocional, ento essas resistncias 
forosamente apareceriam tambm em pessoas sadias logo que alguma fonte externa as levasse a um confronto com o que fora reprimido. No era de surpreender que fossem 
capazes de justificar essa rejeio de minhas idias com razes intelectuais, embora a razo fosse, de fato, de origem emocional. A mesma coisa aconteceu seguidamente 
com pacientes; os argumentos que apresentavam eram os mesmos e no muito brilhantes. Nas palavras de Falstaff, os argumentos so "to abundantes quanto as amoras 
silvestres." A nica diferena era que com pacientes estvamos em condies de pression-los a fim de induzi-los a perceber (insight) suas resistncias e super-las, 
ao passo que lidando com pessoas pretensamente sadias no contvamos com essa vantagem. Como compelir essas pessoas sadias a examinarem o assunto com esprito frio 
e cientificamente objetivo constitua um problema insolvel que era melhor deixar que o tempo elucidasse. Na histria da cincia, podemos ver claramente que, com 
freqncia, proposies que de incio s provocam contradio, posteriormente vm a ser aceitas, embora no tenham sido apresentadas novas provas das mesmas.
         Entretanto, ningum poderia esperar que, durante os anos em que eu sozinho representava a psicanlise, pudesse ter desenvolvido um respeito especial pela 
opinio do mundo ou qualquer tendncia  acomodao intelectual. 
         
                                                     II
         A partir do ano de 1902, certo nmero de jovens mdicos reuniu-se em torno de mim com a inteno expressa de aprender, praticar e difundir o conhecimento 
da psicanlise. O estmulo proveio de um colega que experimentara, ele prprio, os efeitos benficos da teraputica analtica. Reunies regulares realizavam-se  
noite em minha casa, travavam-se debates de acordo com certas normas, e os participantes se esforavam por encontrar sua orientao nesse novo e estranho campo de 
pesquisa, e de despertar em outros o interesse por ele. Um belo dia um jovem que fora aprovado numa escola de ensino tcnico apresentou-se com um manuscrito que 
indicava compreenso fora do comum. Persuadimo-lo a cursar o Gymnasium [escola secundria] e a Universidade e a dedicar-se ao aspecto no-mdico da psicanlise. 
A pequena sociedade adquiriu nele um secretrio zeloso e digno de confiana e eu ganhei em Otto Rank um auxiliar e colaborador dos mais fiis.
         O pequeno crculo logo se ampliou e no transcorrer dos cinco anos seguintes muitas vezes mudou de composio. De um modo geral, podia dizer a mim mesmo 
que quase no era inferior, em riqueza e variedade de talento,  equipe de qualquer professor de clnica. Inclua, desde o incio, os que mais tarde viriam a desempenhar 
papel considervel, embora nem sempre aceitvel, na histria do movimento psicanaltico. Naquela poca, entretanto, no se poderia ainda prever esses desenvolvimentos. 
Eu tinha todos os motivos para estar satisfeito, e penso que fiz o possvel para transmitir meu conhecimento e experincia aos outros. Houve apenas duas circunstncias 
inauspiciosas que terminaram por me afastar internamente do grupo. No consegui estabelecer entre os seus membros as relaes amistosas que devem prevalecer entre 
homens que se acham empenhados no mesmo trabalho difcil, nem consegui evitar a competio pela prioridade a que d margem, com tanta freqncia, esse tipo de trabalho 
em equipe. As dificuldades particularmente grandes ligadas ao ensino da prtica da psicanlise - responsveis por grande parte das dissenes havidas - eram patentes 
nessa Sociedade Psicanaltica de Viena, de carter particular. Eu mesmo no me aventurei a expor uma tcnica e teoria ainda inacabadas e em formao, com a autoridade 
que provavelmente teria capacitado os outros a evitar certos desvios e suas conseqncias desastrosas. A autoconfiana de trabalhadores intelectuais, sua independncia 
prematura do mestre,  sempre gratificante de um ponto de vista psicolgico, mas s traz vantagens para a cincia se esses trabalhadores preencherem certas condies 
pessoais que no so, de maneira nenhuma, comuns. Para a psicanlise, em particular, uma longa e severa disciplina, alm de treinamento na autodisciplina, teria 
sido necessria. Em vista da coragem revelada pela devoo a um assunto olhado com tanta reserva, e to pobre de perspectivas, estava disposto a tolerar dos membros 
do grupo muita coisa que no devia tolerar numa situao diferente. Alm de mdicos, o crculo inclua outras pessoas - homens instrudos que haviam reconhecido 
algo importante na psicanlise; escritores, pintores etc. Minha Interpretao de Sonhos e meu livro sobre chistes, entre outros, mostraram desde o incio que as 
teorias da psicanlise no podem ficar restritas ao campo mdico, mas so passveis de aplicao a vrias outras cincias mentais.
         Em 1907, contra todas as expectativas, a situao mudou de repente. Parecia que a psicanlise havia discretamente despertado interesse e angariado adeptos 
e que havia at mesmo alguns cientistas que estavam prontos a reconhec-la. Uma comunicao de Bleuler me informara antes disso que minhas obras tinham sido estudadas 
e aplicadas no Burghlzli. Em janeiro de 1907, pela primeira vez veio a Viena um membro da clnica de Zurique - o Dr. Eitingon. Outras visitas se seguiram, que levaram 
a uma animada troca de idias. Finalmente, a convite de C.G.Jung, naquela poca ainda mdico assistente de Burghlzli, realizou-se uma primeira reunio em Salzburg 
na primavera de 1908, que congregou adeptos da psicanlise de Viena, Zurique e outros lugares. Um dos primeiros resultados desse primeiro Congresso Psicanaltico 
foi a fundao de um peridico intitulado Jahrbuch fr psychoanalytische und psycho-pathologische Forschungen sob a direo de Bleuler e Freud e editado por Jung, 
que apareceu pela primeira vez em 1909. Essa publicao expressava a estreita cooperao entre Viena e Zurique. 
         Repetidas vezes reconheci com gratido os grandes servios prestados pela Escola de Psiquiatria de Zurique na difuso da psicanlise, em particular por 
Bleuler e Jung, e no hesito em faz-lo ainda hoje, quando as circunstncias mudaram tanto. Na verdade, no foi o apoio da Escola de Zurique que fez despertar a 
ateno do mundo cientfico para a psicanlise naquela poca. O que acontecera foi que o perodo de latncia tinha terminado e por toda parte a psicanlise se tornava 
objeto de interesse cada vez maior. Mas em todos os outros lugares, esse aumento de interesse de incio no produziu seno um vivo repdio, quase sempre apaixonado, 
ao passo que em Zurique, pelo contrrio, um acordo em linhas gerais foi a nota dominante. Alm disso, em nenhum outro lugar havia um grupo to coeso de partidrios, 
nem uma clnica pblica posta a servio das pesquisas psicanalticas, nem um professor de clnica que inclusse as teorias psicanalticas como parte integrante de 
seu curso de psiquiatria. O grupo de Zurique tornou-se assim o ncleo de pequena associao que lutava pelo reconhecimento da anlise. A nica oportunidade de aprender 
a nova arte e de nela trabalhar estava ali. A maior parte dos meus seguidores e colaboradores de hoje chegou a mim via Zurique, mesmo aqueles que se encontravam 
geograficamente muito mais perto de Viena do que da Sua. Em relao  Europa ocidental, onde esto os grandes centros de nossa cultura, Viena ocupa uma posio 
marginal; e seu prestgio tem sido afetado, h muitos anos, por fortes preconceitos. Os representantes das naes mais importantes se renem na Sua, onde a atividade 
intelectual  to vvida; um foco de infeco ali estava destinado a ser de grande importncia para a difuso da "epidemia psquica", como Hoche de Freiburg a denominou.
         Segundo o testemunho de um colega que presenciou acontecimentos no Burghlzli, parece que a psicanlise despertou interesse ali muito cedo. Na obra de Jung 
sobre fenmenos ocultos, publicada em 1902, j havia aluso ao meu livro sobre a interpretao de sonhos. A partir de 1903 ou 1904, a psicanlise ocupava o primeiro 
plano de interesse. Depois de estabelecidas relaes pessoais entre Viena e Zurique, uma sociedade informal foi tambm iniciada, em meados de 1907, no Burghlzli, 
onde os problemas da psicanlise eram debatidos em reunies regulares. Na aliana entre as escolas de Viena e Zurique, os suos no eram de modo algum meros recipientes. 
J haviam produzido trabalhos cientficos de grande mrito, cujos resultados foram teis  psicanlise. As experincias de associao iniciadas pela Escola de Wundt 
tinham sido interpretadas por eles num sentido psicanaltico e revelaram possibilidades de aplicao inesperadas. Atravs delas, tornara-se possvel chegar a uma 
rpida confirmao experimental das observaes psicanalticas e a demonstrar diretamente a estudantes conexes a respeito das quais um analista poderia apenas falhar-lhes. 
A primeira ponte ligando a psicologia experimental  psicanlise fora levantada.
         No tratamento psicanaltico, os experimentos de associao permitem uma anlise provisria qualitativa do caso, mas no proporcionam nenhuma contribuio 
essencial  tcnica, podendo-se prescindir deles na prtica analtica. Mais importante, contudo, foi outra realizao da Escola de Zurique, ou de seus lderes, Bleuler 
e Jung. O primeiro mostrou que se poderia esclarecer grande nmero de casos, puramente psiquitricos, reconhecendo neles os mesmos processos reconhecidos pela psicanlise 
como presentes nos sonhos e nas neuroses (mecanismos freudianos); e Jung [1907] aplicou com xito o mtodo analtico de interpretao s manifestaes mais estranhas 
e obscuras da demncia precoce (esquizofrenia), de modo a trazer  luz suas fontes presentes na histria da vida e nos interesses do paciente. Depois disso, foi 
impossvel aos psiquiatras ignorar por mais tempo a psicanlise. A grande obra de Bleuler sobre a esquizofrenia (1911), na qual o ponto de vista psicanaltico foi 
colocado em p de igualdade com o clnico-sistemtico, completou esse sucesso.
         No deixarei de ressaltar uma divergncia que j se podia observar naquela poca entre os rumos seguidos pelo trabalho das duas escolas. J em 1897 eu publicara 
a anlise de um caso de esquizofrenia, o qual, contudo, era de natureza paranide, de modo que a soluo do mesmo no podia ser influenciada pela impresso causada 
pelas anlises de Jung. Mas para mim o ponto importante fora no tanto a possibilidade de interpretar os sintomas, mas o mecanismo psquico da doena e, acima de 
tudo, a concordncia desse mecanismo com o da histeria, que j fora descoberto. Naquela poca, nenhuma luz fora lanada sobre as diferenas entre os dois mecanismos, 
pois eu ainda visava a uma teoria da libido nas neuroses, que iria explicar todos os fenmenos neurticos e psicticos como procedentes de vicissitudes anormais 
da libido, isto , como desvios do seu emprego normal. Este ponto de vista escapou aos pesquisadores suos. Que eu saiba, at hoje Bleuler defende o ponto de vista 
de que as vrias formas de demncia precoce tm uma causao orgnica; e no Congresso de Salzburg, em 1908, Jung, cujo livro sobre essa doena surgira em 1907, apoiou 
a teoria txica de sua causao, que no leva em conta a teoria da libido, embora,  verdade, no a exclua. Posteriormente (1912), foi desastrado nesse mesmo ponto, 
dando demasiada importncia ao material que antes se recusara a utilizar.
         H uma terceira contribuio feita pela Escola Sua, a ser talvez atribuda totalmente a Jung,  qual eu no dou tanto valor quanto outros, menos ligados 
a esses assuntos do que eu. Refiro-me  teoria dos "complexos" que decorreu dos Diagnostische Assoziationsstudien [Estudos sobre Associao de Palavras] (1906). 
Nem ela em si mesma produziu uma teoria psicolgica, nem mostrou-se capaz de fcil incorporao ao contexto da teoria psicanaltica. O termo "complexo", por outro 
lado, foi naturalizado, por assim dizer, pela linguagem psicanaltica;  um termo conveniente e muitas vezes indispensvel para resumir um estado psicolgico de 
maneira descritiva. Nenhuma das outras palavras inventadas pela psicanlise para atender s suas prprias necessidades alcanou uma popularidade to generalizada 
ou foi to mal aplicada em prejuzo da formao de conceitos mais claros. Os analistas comearam a falar entre si de "retorno de um complexo" quando queriam dizer 
um "retorno do reprimido", ou adquiriram o hbito de dizer "tenho um complexo contra ele", quando a expresso correta seria "uma resistncia contra ele".
         A partir de 1907, quando as Escolas de Viena e Zurique se uniram, a psicanlise tomou o extraordinrio impulso cujo mpeto ainda hoje se sente; isto  indicado 
tanto pela difuso da literatura psicanaltica e pelo constante aumento do nmero de mdicos que a praticam ou estudam, como pela freqncia com que  atacada em 
congressos e associaes eruditas. Penetrou nas terras mais distantes e por toda a parte no somente deixou perplexos os psiquiatras, como dominou a ateno do pblico 
culto e de investigadores de outros campos da cincia. Havelock Ellis, que tem acompanhado seu desenvolvimento com simpatia, embora sem jamais se intitular um adepto, 
escreveu em 1911 num relatrio para o Congresso Mdico de Australsia: "A psicanlise de Freud  agora defendida e praticada no somente na ustria e na Sua, como 
tambm nos Estados Unidos, Inglaterra, ndia, Canad, e, no duvido, na Australsia. Um mdico do Chile (provavelmente alemo) falou no Congresso Internacional de 
Buenos Aires, em 1910, em favor da existncia da sexualidade infantil e exaltou os efeitos da teraputica psicanaltica sobre os sintomas obsessivos. Um neurologista 
ingls da ndia Central (Berkeley-Hill) informou-me, atravs de um ilustre colega que visitava a Europa, que as anlises de indianos muulmanos por ele feitas demonstraram 
que a etiologia de suas neuroses no era diferente das que encontramos em nossos pacientes europeus.
         A introduo da psicanlise na Amrica do Norte foi acompanhada de homenagens muito especiais. No outono de 1909, Stanley Hall, Presidente da Clark University, 
de Worcester, Massachusetts, convidou a Jung e a mim para participarmos das comemoraes do vigsimo aniversrio da fundao da Universidade, pronunciando uma srie 
de conferncias em alemo. Para nossa grande surpresa, verificamos que os membros daquela Universidade, especializada em educao e filosofia, pequena mas muito 
prestigiada, eram to desprovidos de preconceitos, que estavam familiarizados com toda a literatura psicanaltica e a haviam includo em suas aulas. Na Amrica to 
puritana foi possvel, pelo menos nos crculos acadmicos, debater livre e cientificamente tudo o que na vida comum  considerado censurvel. As cinco conferncias 
que improvisei em Worcester apareceram numa traduo inglesa no Americam Journal of Psychology [1910a], e foram pouco depois publicadas em alemo sob o ttulo Uber 
Psychoanalyse. Jung leu um trabalho sobre experincias de associao no diagnstico e outro sobre os conflitos da mente da criana. Fomos agraciados com o ttulo 
honorrio de Doutor em Leis. Durante aquela semana de comemoraes em Worcester, a psicanlise foi representada por cinco pessoas: alm de Jung e de mim, l estava 
Ferenczi, que me acompanhou na viagem, Ernest Jones, ento na Universidade de Toronto (Canad) e agora em Londres, e A.A. Brill, que j exercia a psicanlise em 
Nova Iorque.
         A relao pessoal mais importante que resultou da reunio em Worcester foi com James J. Putnam, Professor de Neuropatologia na Universidade de Harvard. 
Anos antes, revelara um ponto de vista desfavorvel  psicanlise, mas tendo naquela ocasio se reconciliado rapidamente com ela passou a recomend-la aos seus compatriotas 
e colegas numa srie de conferncias que eram to ricas de contedo quanto brilhantes na forma. O prestgio que tinha em toda a Amrica graas ao seu elevado carter 
moral e inflexvel amor  verdade, foi de grande valia para a psicanlise e a protegeu das denncias, que muito provavelmente a teriam de outra forma aniquilado. 
Mais tarde, entregando-se demais  acentuada inclinao tica e filosfica de sua natureza, Putnam fez o que se me afigura uma exigncia impossvel - esperava que 
a psicanlise se colocasse a servio de uma concepo filosfico-moral particular do Universo - mas continua a ser a coluna mestra da psicanlise em sua terra natal.
         A difuso posterior do movimento deve muito a Brill e a Jones: em suas publicaes chamaram a ateno de seus compatriotas, com incansvel persistncia, 
para os fatos fundamentais facilmente observveis da vida cotidiana, dos sonhos e da neurose. Brill reforou essa contribuio com sua atividade mdica e com as 
tradues de minhas obras, e Jones com suas conferncias instrutivas e seu talento para o debate nos congressos dos Estados Unidos. A ausncia de uma tradio cientfica 
profundamente enraizada e a menor rigidez da autoridade oficial nos Estados Unidos foram uma vantagem decisiva para o impulso dado por Stanley Hall. Aquele pas 
caracterizou-se, desde o incio, pelo fato de diretores e superintendentes de hospitais de doentes mentais demonstrarem tanto interesse pela anlise quanto os clnicos 
independentes. Mas, por isso mesmo,  evidente que teria de ser nos velhos centros de cultura, onde maior resistncia foi revelada, que se iria travar a luta decisiva 
em favor da psicanlise.
         Entre os pases europeus, a Frana se tem mostrado at agora o menos receptivo  psicanlise, embora um trabalho de mrito em francs, de autoria de A. 
Maeder de Zurique, tenha facilitado o acesso s teorias psicanalticas. Os primeiros sinais de simpatia partiram das provncias: Morichau-Beauchant (Pointers) foi 
o primeiro francs a aderir publicamente  psicanlise. Rgis e Hesnard (Bordus) recentemente [1914] tentaram diluir os preconceitos dos seus compatriotas contra 
as novas idias com uma minuciosa exposio, a qual, entretanto, nem sempre denota compreenso, sobretudo no tocante ao simbolismo. Na prpria Paris, ainda parece 
reinar a convico ( qual o prprio Janet deu eloqente expresso no Congresso de Londres em 1913) de que tudo de bom na psicanlise  repetio dos pontos de vista 
de Janet com insignificantes modificaes, e o mais no presta. Nesse Congresso, na verdade, Janet teve de submeter-se a uma srie de retificaes feitas por Ernest 
Jones, que pde assim faz-lo ver seu conhecimento insuficiente do assunto . Mesmo discordando de suas pretenses, no podemos, entretanto, esquecer o valor de sua 
contribuio na psicologia das neuroses.
         Na Itlia, depois de incios promissores, no surgiu nenhum interesse real. Quanto  Holanda, a anlise logo teve ali o acesso facilitado pelas ligaes 
pessoais com: Van Emden, Van Ophuijsen, Van Renterghem (Freud en zijn School) [1913] e os dois Strckes que l trabalham ativamente, ocupados tanto com a prtica 
como com a teoria. Nos crculos cientficos da Inglaterra o interesse pela psicanlise vem-se desenvolvendo muito lentamente, mas tudo leva a crer que o sentido 
prtico dos ingleses e seu grande amor  justia lhe asseguraro ( psicanlise) um brilhante futuro.
         Na Sucia, P. Bjerre, sucessor da clnica de Wetterstrand, abandonou a sugesto hipntica, pelo menos por algum tempo, em favor do tratamento analtico. 
R. Vogt (Cristnia) j havia demonstrado simpatia pela psicanlise em seu Psykiatriens grundtraek, publicado em 1907, de modo que o primeiro livro didtico de psiquiatria 
a fazer referncia  psicanlise foi escrito na Noruega. Na Rssia, a psicanlise tornou-se bastante conhecida e amplamente difundida; quase todas as minhas obras, 
assim como as de outros adeptos da anlise, foram traduzidas para o russo. Mas uma compreenso verdadeiramente profunda das teorias analticas ainda no se revelou 
na Rssia, de modo que as contribuices de mdicos russos at o momento no so muito importantes. O nico mdico com formao analtica naquele pas    M. Wulff, 
que exerce a clnica em Odessa. A introduo da psicanlise nos  crculos cientficos e literrios poloneses deve-se, sobretudo, a L. Jekels. Da Hungria, geograficamente 
to perto da ustria, e cientificamente to distante, surgiu um nico colaborador, S. Ferenczi, mas que, em compensao, vale por uma sociedade inteira.
         Da posio da psicanlise na Alemanha, o que se pode dizer  que ela ocupa o ponto central dos debates cientficos e provoca as mais enfticas expresses 
de discordncia tanto entre mdicos como entre leigos; essas discusses ainda no terminaram, ao contrrio, esto constantemente irrompendo de novo, por vezes, com 
intensidade ainda maior. L nenhuma instituio educacional reconheceu at agora a psicanlise. Clnicos bem-sucedidos que a empregam so poucos; s algumas instituies, 
como as de Binswanger em Kreuzlingen (solo suo) e a de Marcinowski, no Holstein, lhe abriram as portas. Um dos mais ilustres representantes da anlise, Karl Abraham, 
ex-assistente de Bleuler, afirma-se na atmosfera crtica de Berlim. Pode parecer estranho que esse estado de coisas continue inalterado por tantos anos se no se 
levar em conta que o relato aqui apresentado s representa os aspectos exteriores. No se deve atribuir demasiada importncia  rejeio dos representantes oficiais 
da cincia, e dos chefes de instituies e suas equipes de colaboradores.  natural que os adversrios da psicanlise manifestem com veemncia seus pontos de vista, 
enquanto seus adeptos intimidados mantm silncio. Alguns desses ltimos, cujas primeiras contribuies  anlise criaram expectativas favorveis, ultimamente se 
retiraram do movimento sob a presso das circunstncias. O prprio movimento avana com segurana, embora em silncio; vem constantemente ganhando novos adeptos 
entre psiquiatras e leigos, atrai um nmero cada vez maior de novos leitores para a literatura psicanaltica e, exatamente por esse motivo, obriga os adversrios 
a esforos defensivos cada vez mais violentos. Pelo menos uma dzia de vezes durante os ltimos anos li em relatrios de congressos e de rgos cientficos, ou em 
resenhas crticas de certas publicaes, que agora a psicanlise est morta, derrotada e eliminada de uma vez por todas. A melhor resposta a isso seria nos termos 
do telegrama de Mark Twain ao jornalista que publicou a notcia falsa de sua morte: "Informao sobre minha morte muito exagerada". Depois de cada um desses obiturios 
a psicanlise ganhava novos adeptos e colaboradores ou adquiria novos canais de publicidade. Afinal de contas, ser declarado morto  melhor do que ser enterrado 
em silncio.
         Passo a passo com a expanso da psicanlise no espao processou-se uma expanso no seu contedo; estendeu-se do campo das neuroses e da psiquiatria a outros 
campos do conhecimento. No vou entrar em detalhes sobre esse aspecto de seu desenvolvimento visto que isso j foi muito bem feito por Rank e Sachs [1913] num volume 
(um dos Grenzfragen de Lwenfeld) que aborda, em mincias, precisamente esse aspecto da pesquisa analtica. Alm do mais, esse desenvolvimento est ainda na infncia; 
pouco trabalho foi feito e ele consiste, em sua maior parte, em experincias apenas iniciadas e, de resto, em nada mais que planos. Nenhuma pessoa sensata ver nisso 
motivo de censura. Uma enorme massa de trabalho se apresenta a um pequeno nmero de trabalhadores, a maioria dos quais tem como ocupao principal outro tipo de 
atividade e s pode apresentar as qualificaes de um amador em relao aos problemas tcnicos dessas reas da cincia, que desconhecem. Esses trabalhadores, procedentes 
da psicanlise, no fazem nenhum segredo de ser amadorismo. Sua finalidade  aenas servir de sinaleiros e de substitutos provisrios dos especialistas e pr  disposio 
deles a tcnica e os princpios analticos at a poca em que possam, os prprios especialistas, tomar a si o trabalho. Que os resultados alcanados no tenham deixado, 
apesar de tudo, de ser considerveis, deve-se em parte  fertilidade do mtodo analtico e, em parte,  circunstncia de que j existem alguns pesquisadores no-mdicos 
que fizeram da aplicao da psicanlise s cincias mentais sua profisso na vida.
         A maior parte dessas aplicaes da anlise remonta, sem dvida, a uma sugesto feita em minhas primeiras obras analticas. O exame analtico de pessoas 
neurticas e os sintomas neurticos de pessoas normais me levaram a supor a existncia de condies psicolgicas que haveriam de ultrapassar a rea do conhecimento 
na qual tinham sido descobertos. Sendo assim, a anlise nos proporcionou no somente a explicao de manifestaes patolgicas, como revelou sua conexo com a vida 
mental normal e desvendou relaes insuspeitadas entre a psiquiatria e as demais cincias que lidam com as atividades da mente. Certos sonhos tpicos, por exemplo, 
ofereceram a explicao de alguns mitos e contos de fada. Riklin [1908] e Abraham [1909] seguiram essa pista e iniciaram as pesquisas dos mitos, que foram completadas 
de forma a atender s exigncias, mesmo de padres tcnicos, nas obras de Rank sobre mitologia [p. ex. 1909, 1911b]. Investigaes posteriores sobre o simbolismo 
dos sonhos levaram ao mago dos problemas da mitologia, do folclore (Jones [p. ex. 1910 e 1912] e Storfer [1914]) e s abstraes da religio. Causou profunda impresso 
 audincia de um dos Congressos psicanalticos a demonstrao feita por um discpulo de Jung, da correspondncia entre as fantasias esquizofrnicas e as cosmogonias 
dos tempos e raas primitivos. O material mitolgico recebeu depois ulterior elaborao (que, embora discutvel, no deixou de ser muito interessante) por parte 
de Jung, em obras que tentavam correlacionar as neuroses com fantasias religiosas e mitolgicas.
         A partir da investigao dos sonhos, uma outra pista nos levou  anlise de obras de imaginao e por fim  anlise de seus criadores - os escritores e 
artistas. Ainda numa fase inicial, descobriu-se que os sonhos inventados por escritores muitas vezes prestam-se  anlise da mesma forma que os sonhos verdadeiros 
(cf. Gradiva [1907a]). A concepo da atividade mental inconsciente possibilitou fazer-se uma idia preliminar da natureza da atividade criadora na literatura de 
imaginao, e a compreenso, adquirida no estudo dos neurticos, do papel desempenhado pelos impulsos instintivos nos permitiu descobrir as fontes da produo artstica 
e nos colocou face a dois problemas: como o artista reage a essa instigao e quais os meios que ele emprega para disfarar suas reaes. A maioria dos analistas 
que tm interesses gerais j contriburam com algo para a soluo desses problemas, que so os mais fascinantes das aplicaes possveis da psicanlise. Naturalmente, 
aqui tambm no faltou a hostilidade da parte de pessoas que nada sabiam da psicanlise, apresentando as mesmas manifestaes que ocorreram no campo original da 
pesquisa psicanaltica - as mesmas concepes errneas e rejeies veementes. Era de esperar-se desde o incio que, quaisquer que fossem as regies em que a psicanlise 
penetrasse, ela teria inevitavelmente de enfrentar as mesmas lutas com os donos do campo. Alguns setores, entretanto, ainda no tiveram sua ateno despertada para 
essas tentativas de invaso que os aguardam no futuro. Entre as aplicaes rigorosamente cientficas da anlise  literatura, o exaustivo trabalho de Rank sobre 
o tema do incesto [1912]  certamente o mais importante. O assunto est fadado a despertar a maior impopularidade. At agora tem sido pouco o trabalho de aplicao 
da psicanlise s cincias da linguagem e da histria. Eu prprio me aventurei a abordar pela primeira vez os problemas colocados pela psicologia da religio traando 
um paralelo entre o ritual religioso e os cerimoniais dos neurticos (1907b). O Dr. Pfister, pastor em Zurique, remontou a origem do fanatismo religioso s perverses 
erticas, em seu livro sobre a devoo do Conde von Zinzendorf [1910], bem como em outras contribuies. Nas ltimas obras da escola de Zurique, entretanto, constatamos 
a presena de idias religiosas na anlise em lugar do resultado oposto que estivera em vista.
         Nos quatro ensaios intitulados Totem e Tabu [1912-13] tentei examinar os problemas de antropologia social  luz da psicanlise; esta linha de investigao 
leva diretamente s origens das instituies mais importantes de nossa civilizao - da estrutura do Estado, da moralidade e da religio - e, alm disso, da proibio 
contra o incesto e da conscincia. Sem dvida, ainda  muito cedo para saber at que ponto essas concluses podero resistir  crtica.
         O primeiro exemplo de uma aplicao da modalidade analtica de pensamento aos problemas da esttica estava contido em meu livro sobre chistes [1905c]. Afora 
isso, tudo est ainda aguardando trabalhadores, que podem esperar uma colheita particularmente rica neste campo. Ressentimo-nos da ausncia absoluta de colaboradores 
especializados em todos esses ramos do conhecimento, e com o fim de atra-los, Hanns Sachs fundou, em 1912, o peridico Imago editado por ele e Rank. Hitschmann 
e von Winterstein deram um primeiro passo, examinando sob o ngulo psicanaltico sistemas filosficos e a personalidade de seus autores: nesse campo h grande necessidade 
de uma investigao mais ampla e profunda. 
         As descobertas revolucionrias da psicanlise no tocante  vida mental das crianas - o papel nela desempenhado pelos impulsos sexuais (von Hug-Hellmuth 
[1913]) e o destino daqueles componentes da sexualidade inteis para a reproduo - necessariamente cedo fariam a ateno voltar-se para a educao e promoveriam 
tentativas de colocar os pontos de vista analticos na vanguarda desse campo de trabalho. Deve-se ao Dr. Pfister ter iniciado, com verdadeiro entusiasmo, a aplicao 
da psicanlise nessa direo e ter chamado para ela as atenes de clrigos e de interessados em educao. (Cf. The Psycho-Analytic Method, 1913). Conseguiu granjear 
a simpatia e a participao de grande nmero de professores suos. Diz-se que outros colegas de profisso compartilham de seus pontos de vista mas preferem manter-se 
cautelosamente em segundo plano. Uma parte dos psicanalistas de Viena que se afastaram da psicanlise parece ter chegado a uma espcie de combinao de medicina 
com educao.
         Com este esboo incompleto tentei dar uma idia da riqueza ainda incalculvel de conexes que surgiram entre a psicanlise mdica e outros campos da cincia. 
Existe a material de trabalho para uma gerao de pesquisadores, e no duvido de que ele ser realizado to logo as resistncias contra a psicanlise sejam superadas 
em seu campo de origem.
         Escrever a histria dessas resistncias seria, creio eu, infrutfero e inoportuno, no momento. A histria no  muito lisonjeira para os homens de cincia 
dos nossos dias. Mas devo logo acrescentar que jamais me ocorreu menosprezar os adversrios da psicanlise simplesmente por serem adversrios - exceo feita aos 
poucos indivduos indignos, aos aventureiros e aproveitadores, que sempre aparecem em ambos os lados nos tempos de guerra. Sabia muito bem como explicar o comportamento 
desses antagonistas e, alm disso, aprendera que a psicanlise traz  tona o que h de pior nas pessoas. Mas resolvera no dar resposta aos meus adversrios e, na 
medida de minha influncia, evitar que outros se envolvessem em polmicas. Tendo em vista a peculiaridade da controvrsia sobre a psicanlise, pareceu-me bem pouco 
provvel que o debate pblico ou por escrito levasse a alguma coisa; j sabia o caminho a ser seguido pela maioria em congressos e reunies e nunca fiz muita f 
na razoabilidade e educao dos cavalheiros que a mim se opunham. A experincia demonstra que apenas pouqussimas pessoas conseguem manter a linha - para no falar 
na objetividade - numa discusso cientfica, e a impresso que me causam essas brigas cientficas sempre foi odiosa. Essa minha atitude talvez tenha sido mal interpretada; 
talvez me tenham julgado de to boa natureza ou to facilmente intimidvel que no havia necessidade de se ter considerao por mim. Isso era um engano; posso insultar 
e me enfurecer tanto quanto qualquer um; mas no tenho a arte de expressar essas emoes subjacentes de forma publicvel e, por isso, prefiro abster-me por completo.
         Sob certos aspectos talvez tivesse sido melhor que eu houvesse dado livre curso a minhas prprias paixes e s dos que me cercavam. Todos j ouvimos falar 
da interessante tentativa de explicar a psicanlise como um produto do ambiente de Viena. Janet no se acanhou de utilizar esse argumento, j agora em 1913, embora 
ele prprio com certeza se orgulhe de ser parisiense, e Paris no possa ser considerada uma cidade de moral mais rigorosa que Viena. Segundo essa teoria, a psicanlise, 
e em particular a idia de que as neuroses decorrem de perturbaes da vida sexual, s poderia ter surgido numa cidade como Viena - de uma atmosfera de sensualidade 
e imoralidades estranhas a outras cidades - no passando de um reflexo, uma projeo terica por assim dizer, dessas condies peculiares a Viena. Ora, no sou nenhum 
bairrista; mas essa teoria, me parece de um absurdo fora do comum - to absurda mesmo, que s vezes me sinto inclinado a supor que me acusarem de ser vienense  
apenas um substitutivo eufemstico de outra acusao que ningum ousa fazer abertamente. Se as premissas nas quais se baseia o argumento fossem o oposto do que so, 
ento talvez valesse a pena dar-lhes ouvido. Se houvesse uma cidade na qual os habitantes se impusessem restries excepcionais no tocante  satisfao sexual, e 
ao mesmo tempo revelassem acentuada tendncia a graves perturbaes neurticas, essa cidade poderia por certo dar margem, na mente de um observador,  idia de que 
as duas circunstncias tinham alguma relao entre si, e que uma dependia da outra. Mas nenhuma dessas duas circunstncias se aplica a Viena. Os vienenses no so 
mais abstinentes nem mais neurticos do que os habitantes de qualquer outra capital. Existe um pouco menos de constrangimento - menos pudiccia - em relao a sexo 
do que nas cidades do oeste e do norte que tanto se orgulham de sua castidade. Essas caractersticas peculiares de Viena serviriam mais provavelmente para desorientar 
o observador do que para esclarec-lo quanto  acusao das neuroses.
         No entanto, Viena tem feito o possvel para negar sua participao na gnese da psicanlise. Em nenhum outro lugar, a indiferena hostil da parte erudita 
e educada da populao para com o analista  to evidente como em Viena.
         Pode ser que minha poltica de evitar ampla publicidade seja, em parte, responsvel por isso. Se eu tivesse incentivado ou permitido tempestuosos debates 
com as sociedades mdicas de Viena sobre a psicanlise, talvez eles tivessem servido para descarregar todas as paixes e para dar livre curso a todas as injrias 
e ofensas que estavam na lngua ou no corao dos nossos adversrios - da, talvez, o antema contra a psicanlise tivesse sido superado e ela agora no fosse mais 
uma estranha em sua cidade natal. Alis, o poeta deve estar com a razo quando faz Wallestein dizer:
                               Doch das vergeben mir die Wiener nicht,
                                 dass ich um ein Spektakel sie betrog.
         A tarefa que estava acima da minha capacidade de fazer ver os adversrios da psicanlise suaviter in modo sua injustia e arbitrariedade - foi realizada 
com grande habilidade por Bleuler num artigo escrito em 1910, "A Psicanlise de Freud: Uma Defesa e Algumas Observaes Crticas". Seria mais do que natural meu 
elogio a esse trabalho (que faz crticas a ambos os lados); por isso apresso-me em apontar nele as coisas das quais discordo. Acho que ainda  parcial, ou seja, 
complacente demais com os defeitos dos inimigos da psicanlise e muito rigoroso com as falhas de seus partidrios. Essa caracterstica do artigo talvez explique 
por que o parecer pblico de um psiquiatra de tamanha reputao, de capacidade e independncia to indiscutveis, no teve uma influncia maior sobre seus colegas. 
No deveria surpreender ao autor de Affectivit (Afetividade) (1906) que a influncia de uma obra seja determinada no pelo peso dos argumentos, mas pelo tom emocional 
da obra. Outra parte de sua influncia - esta sobre os seguidores da psicanlise - foi destruda posteriormente pelo prprio Bleuler, quando em 1913 mostrou o lado 
oposto de sua atitude para com a psicanlise no seu "Criticism of the Freudian Theory" ("Crtica da Teoria Freudiana"). Nesse artigo, ele abala tanto a estrutura 
da teoria psicanaltica que nossos adversrios devem ter ficado satisfeitos com a ajuda que lhes foi dada por esse defensor da psicanlise. Esses julgamentos contrrios 
de Bleuler, entretanto, no se baseiam em novos argumentos ou melhores observaes e sim na insuficincia de seus prprios conhecimentos, a qual ele no mais admite, 
como o fez em suas primeiras obras. Parecia, portanto, que uma perda quase irreparvel ameaava a psicanlise. Mas em sua ltima publicao, "Criticisms of my Schizophrenia" 
("Crticas ao meu livro Esquizofrenia") (1914), Bleuler rene suas foras em face dos ataques feitos contra ele por haver introduzido a psicanlise em seu livro 
sobre esquizofrenia, e faz o que ele prprio denomina de uma "afirmao pretensiosa". "Mas agora farei uma afirmao pretensiosa: considero que at o momento as 
vrias escolas de psicologia contriburam muito pouco para a explicao da natureza das doenas e sintomas psicognicos, mas que a psicologia profunda tem algo a 
oferecer a uma psicologia ainda por nascer, da qual precisam os mdicos para poderem compreender seus pacientes e cur-los racionalmente; e creio mesmo que em minha 
Schizophrenia dei um passo, ainda que muito pequeno, no sentido dessa compreenso. As duas primeiras afirmaes por certo so corretas; a ltima talvez esteja errada."
         Visto que por "psicologia profunda" ele no quer dizer outra coisa seno psicanlise, podemos por enquanto contentar-nos com esse reconhecimento. 
         
                                                            lII
         Mach es kurz!
         Am Jngsten Tag ist's nur ein Furz!
         GOETHE
         Dois anos depois do primeiro Congresso privado de psicanlise, realizou-se o segundo, dessa vez em Nuremberg, em maro de 1910. No intervalo entre os dois, 
influenciado em parte pela boa receptividade obtida nos Estados Unidos, pela hostilidade cada vez maior nos pases de lngua alem e pelo inesperado apoio da escola 
de Zurique, fiz um projeto que, com a ajuda de meu amigo Ferenczi, realizei nesse segundo Congresso. O que tinha em mente era organizar o movimento psicanaltico, 
transferir o seu centro para Zurique e dot-lo de um chefe que cuidasse de seu futuro. Como esse esquema encontrou muita oposio entre os partidrios da psicanlise, 
apresentarei, em detalhes, os motivos que me levaram a formul-lo. Espero que esses motivos me justifiquem, muito embora reconhea que o que fiz no foi, na verdade, 
muito prudente.
         Achava que a localizao do novo movimento em Viena longe de servir-lhe de recomendao, muito pelo contrrio, o comprometia. Um lugar como Zurique, no 
corao da Europa, onde um professor universitrio havia aberto as portas de sua instituio  psicanlise, parecia-me muito mais promissor. Via tambm uma segunda 
desvantagem em minha prpria pessoa, sobre a qual era difcil formar uma opinio por causa das manifestaes de admirao e de dio provenientes das diferentes faces: 
ou era um comparado a Colombo Darwin e Kepler ou taxado de PGP (paralisia geral progressiva). Desejei, portanto, retirar para o segundo plano tanto a mim como  
cidade onde nasceu a psicanlise. Alm disso, eu j no era jovem; vi que havia uma longa estrada  frente, e me oprimia a idia de que o dever de ser um lder tivesse 
recado em mim to tarde na vida. Sentia, porm, que deveria haver algum na liderana. Conhecia muito bem as armadilhas que aguardam quem quer que comece a exercer 
a psicanlise e esperava poder evit-las delegando poderes a uma autoridade que estivesse preparada para aconselhar e orientar. Essa posio, que fora de incio 
ocupada por mim, dado o meu acerto de quinze anos de experincias, devia ser agora transferida para um homem mais jovem, que ento, naturalmente, ocuparia meu lugar 
aps a minha morte. Esse homem s poderia ser C. G. Jung, uma vez que Bleuler era de minha prpria gerao; tinha a seu favor dotes excepcionais, as contribuies 
que j prestara  psicanlise, sua posio independente e a impresso de firme energia que sua personalidade transmitia. Alm disso, parecia estar disposto a entrar 
num bom relacionamento pessoal comigo e, em considerao a mim, a abrir mo de certos preconceitos raciais que alimentara anteriormente. Eu no tinha, na ocasio, 
a menor idia de que apesar de todas essas vantagens a escolha era a mais infeliz possvel, que eu havia escolhido uma pessoa incapaz de tolerar a autoridade de 
outra, mais incapaz ainda de exerc-la ele prprio, e cujas energias se voltavam inteiramente para a promoo de seus prprios interesses.
         Julguei necessrio formar uma associao oficial porque temia os abusos a que a psicanlise estaria sujeita logo que se tornasse popular. Deveria haver 
alguma sede cuja funo seria declarar: "Todas essas tolices nada tm que ver com a anlise; isto no  psicanlise". Nas sesses dos grupos locais (que reunidos 
constituram a associao internacional) seria ensinada a prtica da psicanlise e seriam preparados mdicos, cujas atividades recebiam assim uma espcie de garantia. 
Alm disso, visto que a cincia oficial lanara um antema solene contra a psicanlise e tinha declarado um boicote contra mdicos e instituies que a praticassem, 
achei que seria conveniente os partidrios da psicanlise se reunirem para uma troca de idias amistosa, e para apoio mtuo.
         Isso, e nada mais, foi o que esperava alcanar com a fundao da "Associao Psicanaltica Internacional". Mas tudo leva a crer que era querer demais. Do 
mesmo modo que os meus adversrios iriam descobrir que no era possvel lutar contra a corrente do novo movimento, assim tambm eu acabaria percebendo que este no 
seguiria a direo que eu desejava v-lo seguir. As propostas feitas por Ferenczi em Nuremberg foram adotadas,  verdade; Jung foi eleito presidente e escolheu Riklin 
para seu Secretrio; concordou-se quanto  publicao de um boletim que devia ligar a Central Executiva com os grupos locais. Declarou-se que o objetivo da Associao 
era "promover e apoiar a cincia da psicanlise fundada por Freud, tanto como psicologia pura como em sua aplicao  medicina e s cincias mentais e cultivar o 
apoio mtuo entre os seus membros para que fossem desenvolvidos todos os esforos no sentido da aquisio e difuso de conhecimentos psicanalticos". S o grupo 
de Viena ops-se vivamente ao projeto. Adler afirmou, com grande agitao, temer que se pretendesse exercer a "censura e restries sobre a liberdade cientfica". 
Finalmente, os vienenses cederam, depois de se haverem assegurado de que a sede da Associao no seria sempre Zurique, e sim o local de residncia do Presidente 
que seria eleito por dois anos.
         Nesse Congresso, trs grupos locais foram constitudos: um em Berlim, sob a presidncia de Abraham; outro em Zurique, cujo chefe se tornara o Presidente 
de toda a Associao; e outro em Viena, cuja direo confiei a Adler. Um quarto grupo, em Budapeste, s pde ser formado depois. Bleuler no participara do Congresso 
por motivo de doena, e depois mostrou certa hesitao em fazer parte da Associao, por motivos de ordem geral; deixou-se persuadir, depois de uma conversa pessoal 
comigo, mas logo afastou-se novamente em conseqncia de discordncias havidas em Zurique. Isto cortou a ligao entre o grupo de Zurique e a Instituio de Burghlzli.
         Um dos resultados do Congresso de Nuremberg foi a fundao da Zentralblatt fr Psychoanalyse [Revista Central de Psicanlise], para a qual se uniram Adler 
e Stekel. O propsito original era, claramente, representar a Oposio: tinha como objetivo reconquistar para Viena a hegemonia ameaada pela eleio de Jung. Mas 
quando os dois fundadores da revista, em meio s dificuldades de encontrar um editor, me garantiram suas intenes pacficas, e como prova de sua sinceridade me 
deram o direito de veto, aceitei a direo da mesma e trabalhei com energia para o novo rgo, havendo o seu primeiro nmero aparecido em setembro de 1910.
         Prosseguirei agora com a histria dos Congressos Psicanalticos. O terceiro Congresso realizou-se em setembro de 1911, em Weimar, e foi ainda mais bem-sucedido 
do que os anteriores quanto  atmosfera geral e ao interesse cientfico. J. J. Putnam, que estava presente nessa ocasio, declarou depois nos Estados Unidos o grande 
prazer que a reunio lhe proporcionou e externou seu respeito pela "atitude mental" dos participantes, citando algumas palavras que, disseram, eu havia empregado 
com referncia a eles: "Aprenderam a suportar um pouco de verdade." (Putnam 1912). De fato, ningum que j houvesse comparecido a outros congressos cientficos poderia 
deixar de levar a uma impresso favorvel da Associao Psicanaltica. Eu prprio tinha presidido os dois primeiros Congressos e permitira a cada orador tempo suficiente 
para expor seu trabalho, deixando que os debates se processassem depois em carter particular entre os membros. Jung, como Presidente, assumiu a direo em Weimar 
e voltou a adotar debates formais depois de cada trabalho, o que, entretanto, no trouxe nenhum problema.
         Mas as coisas se passaram de forma bem diferente no quarto Congresso realizado em Munique dois anos depois, em setembro de 1913. Todos os que a ele estiveram 
presentes ainda o trazem bem vivo na memria. Foi dirigido por Jung de maneira desagradvel e incorreta; os oradores tiveram seu tempo de exposio limitado e os 
debates sufocaram os trabalhos apresentados. Por uma infeliz coincidncia aconteceu que aquele gnio do mau, Hoche, se instalara no mesmo prdio onde se realizavam 
as sesses. Diante do comportamento dos analistas, Hoche no deve ter tido dificuldade em perceber quanto se enganara ao descrev-los como membros de uma seita fantica 
que obedeciam cegamente ao seu lder. Os debates cansativos e nada construtivos terminaram com a reeleio de Jung para a Presidncia da Associao Psicanaltica 
Internacional, que ele aceitou, embora dois quintos dos presentes lhe negassem apoio. Dispersamo-nos sem nenhuma vontade de nos reunirmos outra vez.
         Mais ou menos na poca desse Congresso o estado da Associao Psicanaltica Internacional era o seguinte: os grupos locais de Viena, Berlim e Zurique j 
estavam formados desde o Congresso de Nuremberg, em 1910. Em maio de 1911, surgiu o grupo de Munique, sob a presidncia do Dr. L. Seif. No mesmo ano, formou-se o 
primeiro grupo local norte-americano sob a presidncia de A. A. Brill, com o nome de "The New York Psychoanalytic Society". No Congresso de Weimar foi autorizada 
a fundao de um segundo grupo norte-americano que comeou a funcionar no ano seguinte sob a denominao de "The American Psychoanalytic Association", e compreendia 
membros do Canad e de todos os Estados Unidos; Putnam foi eleito Presidente e Ernest Jones, Secretrio. Pouco antes do Congresso de Munique, de 1913, formou-se 
o grupo local de Budapeste sob a presidncia de Ferenczi. Logo depois, foi constitudo o primeiro grupo ingls por Ernest Jones, que havia retornado a Londres. O 
quadro social desses grupos locais, oito ao todo, no pode, naturalmente, servir de base para calcular-se o nmero de estudantes e adeptos no organizados da psicanlise.
          necessrio tambm dizer algumas palavras sobre o desenvolvimento dos peridicos a servio da psicanlise. O primeiro deles foi uma srie de monografias 
intitulada Schriften zur angewandsten Seelenkunde ["Artigos sobre Cincia Mental Aplicada"] que apareceram irregularmente desde 1907 e agora ai o nmero de quinze 
exemplares. (O editor pretendia comear com Heller em Viena e depois F. Deuticke.) Incluem obras de Freud (Nos. 1 e 7), Riklin, Jung, Abraham (Nos. 4 e 11), Rank 
(Nos. 5 e 13), Sadger, Pfister, Max Graf, Jones (Nos. 10 e 14), Storfer e von Hug-Hellmuth. Com a fundao da revista Imago, esse gnero de publicao perdeu parte 
de sua importncia. Aps a reunio de Salzburg, em 1908, fundou-se o Jahrbuch fr psychoanalytische und psychopathologische Forschungen [Anurio de Pesquisas Psicanalticas 
e Psicopatolgicas], o qual veio a lume durante cinco anos sob a diretoria de Jung e que agora ressurgiu, com dois novos redatores e com ligeira alterao no ttulo 
- passou a chamar-se Jahrbuch der Psyuchoanalyse [Anurio da Psicanlise.] No mais se destina a ser, como o foi em anos recentes, um simples repositrio para publicao 
de obras autnomas. Em vez disso, seus editores se empenharo em cumprir a finalidade de registrar todos os trabalhos realizados e todos os progressos alcanados 
no campo da psicanlise. A Zentrablatt fr Psychoanalyse, que, como j disse, foi lanada por Adler e Stekel aps a fundao da Associao Psicanaltica Internacional 
em Nuremberg, 1910, teve uma existncia breve e tumultuada. J no dcimo nmero do primeiro volume [julho de 1911] apareceu um aviso na pgina de frontispcio comunicando 
que, por motivo de divergncias cientficas de opinio com o diretor, o Dr. Alfred Adler resolvera afastar-se voluntariamente da editoria. Depois disso, o Dr. Stekel 
continuou o nico redator (a partir do vero de 1911). No Congresso de Weimar [setembro de 1911] a Zentralblatt foi elevada  posio de rgo oficial da Associao 
Internacional e passou a ser remetida a todos os scios mediante um aumento da contribuio anual. A partir do terceiro nmero do segundo volume (inverno [dezembro], 
1912), Stekel tornou-se o nico responsvel pelo seu contedo. Seu comportamento, do qual  impossvel publicar um relato, me obrigou a exonerar-me de sua direo 
e a criar, s pressas, um novo rgo para a psicanlise - a Internationale Zeitschrift fr rztliche Psychoanalyse [Revista International de Psicanlise Mdica]. 
Os esforos conjuntos de quase todos os nossos colaboradores e de Hugo Heller, o novo editor, resultaram no surgimento do primeiro nmero, em janeiro de 1913, havendo 
logo tomado o lugar da Zentralblatt como rgo oficial da Associao Psicanaltica Internacional.
         Enquanto isso, no incio de 1912, um novo peridico, Imago (publicado por Heller), destinado exclusivamente  aplicao da psicanlise s cincias mentais, 
foi fundado pelo Dr. Hanns Sachs e pelo Dr. Otto Rank. Imago encontra-se agora na metade de seu terceiro volume, sendo lida com interesse por um nmero sempre crescente 
de assinantes, alguns deles com pouca ligao com a anlise mdica.
         Afora essas quatro publicaes peridicas (Schriften zur angewandten Seelenkunde, Jahrbuch, Zeitschrift e Imago), outros peridicos alemes e estrangeiros 
publicam trabalhos que merecem um lugar na literatura psicanaltica. The Journal of Abnormal Psychology, dirigido por Morton Prince, costuma publicar tantas e to 
boas contribuies analticas que deve ser considerado como o principal representante da literatura analtica nos Estados Unidos. No inverno de 1913, White e Jellife 
em Nova Iorque lanaram um novo peridico (The Psychoanalytic Review) dedicado exclusivamente  psicanlise, sem dvida levando em conta o fato de que para a maioria 
dos mdicos americanos interessados na psicanlise, a lngua alem  um obstculo.
         Devo agora mencionar duas deseres que houve entre os partidrios da psicanlise; a primeira ocorreu entre a fundao da Associao em 1910 e o Congresso 
de Weimar em 1911; a segunda verificou-se aps esse Congresso e evidenciou-se em Munique em 1913. O desapontamento que me causaram talvez tivesse sido evitado se 
eu tivesse prestado mais ateno s reaes de pacientes sob tratamento analtico. Sabia muito bem, naturalmente, que qualquer pessoa, ao primeiro contato com as 
realidades desagradveis da anlise, pode reagir fugindo; eu prprio sempre havia sustentado que na compreenso da anlise, cada indivduo  limitado por suas prprias 
represses (ou antes, pelas resistncias que as sustentam) de modo que no pode ir alm de um certo ponto em sua relao com a anlise. Mas eu no esperava que algum 
que houvesse alcanado certa profundidade na compreenso da anlise pudesse renunciar a essa compreenso e perd-la. E, no entanto, a experincia cotidiana com pacientes 
havia demonstrado que a rejeio total do conhecimento analtico pode ocorrer sempre que surge uma resistncia especialmente forte em qualquer profundidade da mente. 
s vezes conseguimos, depois de muito trabalho, fazer com que um paciente aprenda algumas partes do conhecimento analtico e possa lidar com elas como posses suas, 
e mesmo assim podemos v-lo, sob o domnio da prpria resistncia seguinte, lanar tudo o que aprendeu s urtigas e ficar na defensiva como o fez nos dias em que 
era um principiante despreocupado. Tive de aprender que a mesmssima coisa pode acontecer tanto com psicanalistas como com pacientes em anlise.
         No constitui tarefa fcil nem invejvel escrever a histria dessas duas deseres, em parte porque estou desprovido de qualquer motivo pessoal forte para 
faz-lo - no esperava gratido nem sou particularmente vingativo - e em parte porque sei que agindo assim ficarei ao sabor das ofensas de meus adversrios, nada 
escrupulosos, e vou oferecer aos inimigos da psicanlise o espetculo que eles to ardentemente desejam - "os psicanalistas se degladiando entre si". Depois de tanto 
autodomnio para no entrar em choque com adversrios fora da anlise, vejo-me agora forado a pegar em armas contra os seus ex-seguidores ou pessoas que ainda denominam 
a si prprias de seguidores. No tenho escolha, porm: se ficasse calado seria por indolncia ou covardia, e o silncio seria mais prejudicial  psicanlise do que 
uma exposio franca dos danos j causados. Quem quer que tenha acompanhado o desenvolvimento de outros movimentos cientficos sabe que as mesmas convulses e divergncias 
ocorrem neles com freqncia. Pode ser que se tenham preocupado mais em ocult-los; mas a psicanlise, que repudia tantas idias convencionais, tambm nessa questo 
 mais honesta.
         Outro problema muito srio  que no posso abster-me inteiramente de utilizar os conhecimentos psicanalticos no exame desses dois movimentos de oposio. 
A anlise, entretanto, no se presta a uso polmico; pressupe o consentimento da pessoa que est sendo analisada e uma situao na qual existam um superior e um 
subordinado. Da, quem quer que empreenda uma anlise com fins polmicos pode esperar que a pessoa analisada utilize, por sua vez, a anlise contra ela, de modo 
que a discusso atingir um ponto que exclui inteiramente a possibilidade de convencer qualquer outra pessoa imparcial. Restringirei, portanto, a um mnimo o uso 
do conhecimento analtico, e, com ele, a indiscrio e a agressividade contra meus adversrios; devo tambm ressaltar que no estou me baseando nesse terreno para 
nenhuma crtica de carter cientfico. No estou interessado na verdade que possa estar contida nas teorias que venho rejeitando, nem tentarei refut-las. Deixarei 
essa tarefa a outros trabalhadores qualificados no campo da psicanlise, tendo sido ela, na verdade, j em parte realizada. Desejo apenas mostrar que essas teorias 
contrariam os princpios fundamentais da psicanlise (e em que pontos os contrariam) e que por essa razo no devem ser conhecidas pelo nome de psicanlise. Assim 
vou-me valer da psicanlise apenas para explicar como essas divergncias dela podem surgir entre os analistas. Entretanto, quando toco os pontos nos quais as divergncias 
ocorreram, no posso deixar de defender os justos direitos da psicanlise com algumas observaes de natureza puramente crtica.
         A primeira tarefa com que se defrontou a psicanlise foi a de explicar as neuroses; utilizou a resistncia e a transferncia como pontos de partida e, levando 
em considerao a amnsia, explicou os trs fatos com as teorias da represso, das foras sexuais motivadoras da neurose e do inconsciente. A psicanlise jamais 
pretendeu oferecer uma teoria completa da atividade mental humana em geral, mas esperava apenas que o que ela oferecia pudesse ser aplicado para suplementar e corrigir 
o conhecimento adquirido por outros meios. A teoria de Adler, entretanto, vai muito alm disso, procurando de um s golpe explicar o comportamento e o carter dos 
seres humanos bem como de suas doenas neurticas e psicticas. Na realidade, presta-se mais a qualquer outro campo do que ao da neurose, embora por motivos ligados 
 histria do seu desenvolvimento ainda situe isso no primeiro plano. Por muitos anos, tive oportunidade de estudar o Dr. Adler e jamais me recusei a reconhecer 
sua rara capacidade, associada a uma inclinao particularmente especulativa. Como exemplo da "perseguio" a que, ele afirma, eu o submeti, posso lembrar do fato 
de ter-lhe passado a liderana do grupo de Viena aps a fundao da Associao. S depois de insistentes reclamaes feitas por todos os membros da sociedade  que 
me deixei persuadir a ocupar novamente a presidncia nas suas reunies cientficas. Quando percebi quo pouco dotado era Adler para o julgamento de material inconsciente, 
mudei minha opinio para uma esperana de que ele conseguisse descobrir as ligaes da psicanlise com a psicologia e com os fundamentos biolgicos dos processos 
instintivos - esperana justificada, em certo sentido, pelo seu valioso trabalho sobre "a inferioridade dos rgos". E ele, na verdade, realizou algo nesse gnero, 
mas seu trabalho transmite uma impresso "como se" - para empregar seu prprio "jargo" - destinada a provar que a psicanlise estava errada em tudo e que atribura 
tanta importncia s foras sexuais motivadoras, por causa de sua facilidade em acreditar nas afirmaes dos neurticos. Posso at mesmo falar publicamente da motivao 
de ordem pessoal do seu trabalho, desde que ele prprio a anunciou na presena de um pequeno crculo de membros do grupo de Viena: - "O Senhor pensa que  um grande 
prazer para mim ficar a vida inteira  sua sombra?" Naturalmente, no acho nada condenvel que um homem mais jovem admita francamente sua ambio - o que j era 
evidente ser um dos incentivos do seu trabalho. Mas mesmo uma pessoa dominada por um motivo desses, deve saber evitar ser o que os ingleses, com seu requintado tato 
social, chamam de "unfair" (desleal) - que em alemo s pode ser dito com uma palavra muito mais grosseira. Quo pouco Adler foi bem-sucedido nisso  indicado pela 
profuso de mesquinhas exploses de malevolncia que desfiguram suas obras e pelos indcios que refletem um anseio desenfreado de prioridade. Na Sociedade Psicanaltica 
de Viena ouvimo-lo uma vez reivindicar para si a prioridade do conceito da "unidade das neuroses" e do "ponto de vista dinmico" delas. Isso foi para mim uma grande 
surpresa, pois sempre pensei que esses dois princpios tivessem sido por mim enunciados antes de ter conhecido Adler.
         Essa luta de Adler por um lugar ao sol teve, no entanto, um resultado que est destinado a ser benfico  psicanlise. Quando divergncias cientficas inconciliveis 
me obrigaram a fazer Adler demitir-se da direo de Zentralblatt, ele abandonou tambm a sociedade de Viena, e fundou uma nova que, de incio, teve o nome curioso 
de "Sociedade de Psicanlise Livre" ["Verein fr freie Psychoanalyse"]. Mas pessoas de fora, que no esto ligadas  psicanlise, so to incapazes de perceber as 
diferenas entre os pontos de vista de dois psicanalistas quanto os europeus de fazer distino entre as caras de dois chineses. A psicanlise "livre" permaneceu 
 sombra da psicanlise "oficial", "ortodoxa", e foi tratada simplesmente como um apndice dela. Adler ento tomou uma atitude pela qual lhe somos gratos; cortou 
todas as ligaes com a psicanlise, e deu a sua teoria o nome de "Psicologia Individual". H bastante espao nesse mundo de Deus, e todos tm o direito de perambular 
nele sem serem impedidos; mas no  conveniente que pessoas que deixaram de se compreender e que se tornaram incompatveis permaneam sob o mesmo teto. A "Psicologia 
Individual" de Adler  agora uma das numerosas escolas de psicologia contrrias  psicanlise e o seu ulterior desenvolvimento j no nos diz respeito.
         A teoria adleriana foi desde o comeo um "sistema" - que a psicanlise teve o cuidado de evitar vir a ser.  tambm um exemplo notvel de "reviso secundria", 
tal como ocorre, por exemplo, no processo ao qual o pensamento desperto submete o material dos sonhos. No caso de Adler, substitui-se o material dos sonhos pelo 
novo material obtido atravs de estudos psicanalticos; este  ento encarado puramente do ponto de vista do ego, reduzido a categorias com as quais o ego est familiarizado, 
traduzido, distorcido e - exatamente como acontece na formao dos sonhos - mal compreendido. Alm disso, a teoria adleriana caracteriza-se menos pelo que afirma 
do que pelo que nega, de modo que consiste em trs espcies de elementos de valor bem desigual: contribuies teis  psicologia do ego, tradues suprfluas, porm 
admissveis, dos fatos analticos para o novo "jargo", e distores e inverses desses fatos quando no obedecem s exigncias do ego.
         Os elementos do primeiro tipo nunca foram ignorados pela psicanlise, embora no merecessem dela nenhuma ateno especial; estava mais interessada em demonstrar 
que toda tendncia do ego encerra componentes libidinais. A teoria adleriana d nfase  contrapartida disso, ou seja, o constituinte egostico dos impulsos instintivos 
da libido. Isso teria sido uma aquisio aprecivel se Adler no tivesse utilizado essa observao em todas as ocasies para negar os impulsos libidinais em favor 
de seus componentes instintivos egosticos. Sua teoria se comporta como todo paciente e como nosso pensamento consciente, ou seja, faz uso de uma racionalizao, 
como Jones [1908] a denominou, para ocultar o motivo inconsciente. Adler  to coerente nisso que chega a considerar que a fora motivadora mais poderosa no ato 
sexual  a inteno do homem de afirmar-se como senhor da mulher - de estar "por cima". No sei se ele expressou essas idias monstruosas em suas obras. 
         A psicanlise cedo reconheceu que todo sintoma neurtico deve sua possibilidade de existncia a uma transao. Todo sintoma deve, portanto, de alguma forma 
obedecer s exigncias do ego, o qual manipula a represso; deve oferecer alguma vantagem, ter alguma aplicao proveitosa, ou haveria de ter o mesmo destino que 
o prprio impulso instintivo original que foi desviado. A expresso "vantagem da doena" levou isso em conta;  at justificvel que se queira fazer distino entre 
a vantagem "primria" do ego, que deve estar atuante na ocasio da gnese do sintoma, e uma parte "secundria", que sobrevm ligada a outras finalidades do ego, 
a fim de que o sintoma persista. De h muito se sabe que a eliminao dessa vantagem da doena, ou seu desaparecimento em conseqncia da modificao de circunstncias 
externas reais, constitui um dos mecanismos da cura de um sintoma. Na doutrina adleriana, a nfase principal recai sobre essas ligaes facilmente verificveis e 
claramente inteligveis, enquanto se menospreza inteiramente o fato de que em inmeras ocasies o ego est apenas transformando em virtude a necessidade de submeter-se 
(por causa de sua utilidade) ao sintoma muito desagradvel que lhe  imposto - por exemplo, ao aceitar a ansiedade como um meio de segurana. O ego est a desempenhando 
o papel ridculo de um palhao de circo que, pelos gestos, tenta convencer a platia de que toda mudana no picadeiro est sendo executada por ordem sua. Mas s 
as crianas se deixam enganar por ele.
         A psicanlise v-se obrigada a apoiar o segundo constituinte da teoria de Adler como o faria a algo seu que aquele autor extraiu de fontes abertas a todos 
durante dez anos de trabalho em comum e que agora rotulou como descoberta sua, atravs de uma simples mudana de nomenclatura. Eu mesmo considero "reasseguramento 
[Sicherung]", por exemplo, um termo melhor do que "medida protetora [schutzmassregel]", empregado por mim, mas no posso descobrir nenhuma diferena no significado 
de ambos. Alm disso, encontramos um grande nmero de caractersticas familiares nas proposies de Adler quando ele restaura termos mais antigos como "fantasiado" 
e "fantasia" no lugar de "fingido" [fingiert], "fictcio" e "fico". A psicanlise insistiria que esses termos so idnticos, mesmo se o seu autor no houvesse 
tomado parte em nosso trabalho comum por um perodo de muitos anos.
         A terceira parte da teoria adleriana, as interpretaes deturpadas e as distores dos fatos desagradveis revelados pela anlise, so o que separa definitivamente 
a "Psicologia Individual", como agora deve ser denominada, da psicanlise. Como sabemos, o princpio do sistema de Adler  que o propsito de auto-afirmao do indivduo, 
sua "vontade de poder",  o que, sob a forma de um "protesto masculino", desempenha papel dominante na sua conduta, na formao do carter e na neurose. Entretanto, 
esse "protesto masculino", a fora motivadora adleriana, nada mais  seno a represso desligada do seu mecanismo psicolgico e, alm do mais, sexualizada - o que 
est bem pouco de acordo com a to apregoada expulso da sexualidade do seu lugar na vida mental. O "protesto masculino" sem dvida existe, mas se for transformado 
na [nica] fora motivadora da vida mental estamos menosprezando os fatos observados como se abandonssemos um trampolim depois de o havermos utilizado para o salto. 
Consideremos uma das situaes fundamentais em que se sente desejo na infncia: a de uma criana que observa o ato sexual entre adultos. A anlise demonstra, no 
caso de pessoas cuja vida o mdico estudar depois, que, nesses momentos, dois impulsos se apoderam do espectador imaturo. Nos meninos, um  o impulso de colocar-se 
no lugar do homem ativo, e o outro, a contracorrente,  o impulso de identificar-se com a mulher passiva. O conflito entre esses dois impulsos esgota as possibilidades 
de prazer da situao. Somente o primeiro pode ser classificado como protesto masculino, se quisermos dar um sentido a esse conceito. O segundo, entretanto, cujo 
curso ulterior Adler no leva na devida considerao ou desconhece inteiramente,  o que se tornar mais importante na neurose subseqente. Adler foi absorvido de 
tal forma pela estreiteza ciumenta do ego que leva em conta apenas os impulsos instintivos agradveis ao ego e por ele estimulados; a situao neurtica, na qual 
os impulsos se opem ao ego,  precisamente aquela que fica alm do horizonte de Adler.
          em relao  tentativa - que a psicanlise tornou necessria - de correlacionar o princpio fundamental de sua teoria com a vida mental das crianas, 
que Adler apresenta os desvios mais srios da observao real e a confuso mais fundamental de seus conceitos. Os significados biolgico, social e psicolgico de 
"masculino" e "feminino" esto aqui irremediavelmente confundidos.  impossvel, e negado pela observao, que uma criana, quer do sexo masculino, quer feminino, 
baseie seu plano de vida numa depreciao original do sexo feminino e faa do desejo de ser um homem verdadeiro sua "diretriz". Para comear, as crianas no fazem 
nenhuma idia da importncia da distino entre os sexos; pelo contrrio, partem da suposio de que ambos possuem o mesmo rgo genital (o masculino); no iniciam 
suas pesquisas sexuais com o problema da distino entre os sexos, e a depreciao social das mulheres lhes  completamente estranha. H mulheres em cuja neurose 
o desejo de ser homem no desempenhou nenhum papel. O que houve de protesto masculino pode-se facilmente remontar a uma perturbao do narcisismo primrio devido 
a ameaas de castrao ou s primeiras coeres das atividades sexuais. Todas as controvrsias sobre a psicognese das neuroses terminaro sempre por ser resolvidas 
no campo das neuroses da infncia. A disseco cuidadosa de uma neurose na mais tenra infncia pe termo a todos os equvocos sobre a etiologia das neuroses e a 
todas as dvidas sobre o papel que os instintos sexuais nela desempenham. Eis por que, em sua crtica ao trabalho de Jung, "Conflitos na Mente da Criana" [1910c], 
Adler [1911a] foi obrigado a recorrer ao argumento de que os fatos do caso haviam sido ordenados unilateralmente, "sem dvida pelo pai" [da criana].
         No me estenderei mais sobre o aspecto biolgico da teoria adleriana nem discutirei se  a "inferioridade do rgo" real [ver em [1]] ou o sentimento subjetivo 
do mesmo - no se sabe qual - que pode, na verdade, servir de fundamento ao sistema de Adler. Limitar-me-ei a comentar de passagem que, se fosse assim, a neurose 
seria um subproduto de toda espcie de decrepitude fsica, ao passo que a observao mostra que uma grande maioria de pessoas feias, deformadas, aleijadas e infelizes 
deixam de reagir a seus defeitos atravs da neurose. Tampouco abordarei a interessante afirmao segundo a qual a inferioridade deve ser remontada ao sentimento 
de ser um criana, que revela o disfarce sob o qual o fator do infantilismo, a que a psicanlise deu tanta nfase, reaparece na "Psicologia Individual". Por outro 
lado, devo frisar como todas as aquisies psicolgicas da psicanlise foram jogadas fora por Adler. Em seu livro ber den nervsen Charakter [1912] o inconsciente 
ainda aparece como uma peculiaridade psicolgica, sem, entretanto, qualquer relao com seu sistema. Posteriormente, ele declarou repetidas vezes que  uma questo 
indiferente para ele se uma idia  consciente ou inconsciente. Para comear, Adler nunca deu o menor sinal de ter compreendido o que  a represso. No resumo de 
um trabalho lido por ele na Sociedade de Viena (fevereiro de 1911) escreveu que se deve ressaltar que, num caso especfico, ficou demonstrado que o paciente nunca 
havia reprimido sua libido, mas vinha continuamente "reassegurando-se" dela. Pouco depois, num debate na Sociedade de Viena, disse: "Se perguntarmos de onde vem 
a represso, nos respondem, 'da civilizao', mas se perguntarmos depois de onde vem a civilizao, nos dizem, 'da represso'. Como vem,  simplesmente um jogo 
de palavras." Uma parte mnima da agudeza e engenhosidade que Adler usou para desmascarar os dispositivos defensivos do "carter nervoso" teria sido suficiente para 
indicar-lhe a sada desse argumento capcioso. O que se quer dizer  simplesmente que a civilizao se baseia nas represses efetuadas por geraes anteriores, e 
que se exige de cada nova gerao que mantenha essa civilizao efetuando as mesmas represses. Certa vez ouvi falar de uma criana que julgava que as pessoas zombavam 
dela, e comeou a chorar, porque quando perguntou de onde vm os ovos disseram-lhe que "das galinhas", e quando perguntou novamente de onde vinham as galinhas responderam-lhe 
"dos ovos". Mas no estavam fazendo um jogo de palavras; pelo contrrio, estavam dizendo-lhe a verdade.
         Tudo que Adler tem a dizer sobre sonhos, a pedra de toque da psicanlise,  igualmente vazio e destitudo de sentido. Inicialmente, ele considerava os sonhos 
como um desvio da linha feminina para a masculina - o que  simplesmente uma traduo da teoria da realizao de desejos dos sonhos para a linguagem do "protesto 
masculino". Depois descobriu que a essncia dos sonhos est em permitir que os homens realizem inconscientemente o que lhes  negado conscientemente. Cabe tambm 
a Adler [1911b, 215n.] o mrito da prioridade no confundir sonhos com pensamentos onricos latentes - confuso na qual se baseia a descoberta de sua "tendncia prospectiva". 
Maeder [1912] seguiu-lhe o exemplo em relao a isso posteriormente. Aqui se menospreza totalmente o fato de que toda interpretao de um sonho que  incompreensvel 
em sua forma manifesta se baseia precisamente no prprio mtodo de interpretao de sonhos cujas premissas e concluses so objeto de controvrsia. No tocante  
resistncia, Adler nos informa que ela serve  finalidade de pr um vigor a oposio do paciente ao mdico. Isso por certo  verdade; vale tanto quanto dizer que 
ela serve  finalidade da resistncia. De onde provm, contudo, ou como acontece que suas manifestaes fiquem  disposio do paciente, no  objeto de ulterior 
indagao, como sendo de nenhum interesse para o ego. O mecanismo pormenorizado dos sintomas e manifestaes de doenas, a explicao da mltipla variedade dessas 
doenas e suas formas de expresso, so negligenciados in toto; pois tudo  igualmente posto a servio do protesto masculino, da auto-afirmao e do enaltecimento 
da personalidade. O sistema est completo; produzi-lo custou enorme volume de trabalho de reformulao de interpretao, ao passo que ele prprio no forneceu uma 
nica observao nova. Creio ter deixado claro que ele nada tem que ver com a psicanlise.
         A viso da vida refletida no sistema adleriano fundamenta-se exclusivamente no instinto agressivo; nele no h lugar para o amor. Talvez nos surpreenda 
que essa Weltanschauung to melanclica tenha merecido alguma ateno, mas no devemos esquecer que os seres humanos, vergados sob o fardo de suas necessidades sexuais, 
esto prontos a aceitar qualquer coisa se pelo menos a "superao da sexualidade" lhes for oferecida como isca.
         A desero de Adler ocorreu antes do Congresso de Weimar em 1911; depois dessa data teve incio a dos suos. Os primeiros sinais dela, o que  bastante 
curioso, foram certas observaes de Riklin em uns artigos populares aparecidos em publicaes suas, de modo que o grande pblico soube, antes do que aqueles mais 
intimamente ligados ao assunto, que a psicanlise havia superado alguns erros lamentveis que anteriormente a haviam desacreditado. Em 1912, Jung vangloriou-se, 
numa carta procedente dos Estados Unidos, de que suas modificaes da psicanlise haviam vencido as resistncias de muitas pessoas que at ento no queriam nada 
com ela. Repliquei que aquilo no constitua nenhum motivo de vanglria, e que quanto mais ele sacrificasse as verdades da psicanlise conquistadas arduamente, mais 
veria as resistncias desaparecendo. Essa modificao, da qual os suos tanto se orgulharam, mais uma vez nada mais era do que impelir para o segundo plano o fator 
sexual na teoria psicanaltica. Confesso que desde o comeo considerei esse "avano" como um ajustamento muito exagerado s exigncias da realidade.
         Esses dois movimentos de afastamento da psicanlise, que eu agora devo comparar um com o outro, assinalam outro ponto em comum: ambos cortejam uma opinio 
favorvel mediante a formulao de certas idias elevadas, que encaram as coisas, por assim dizer, sub specie aeternitatis. Em Adler, esse papel  desempenhado pela 
relatividade de todo conhecimento e pelo direito da personalidade de basear uma interpretao artificial nos dados de conhecimento de acordo com o gosto individual; 
em Jung, faz-se apelo ao direito histrico da juventude de romper os grilhes com os quais a tirania dos mais velhos e seus pontos de vista tacanhos procuram aprision-la. 
Algumas palavras devem ser dedicadas ao esclarecimento da falcia dessas idias.
         A relatividade do nosso conhecimento  uma considerao que pode ser formulada contra todas as outras cincias, do mesmo modo que contra a psicanlise. 
Origina-se de conhecidas correntes reacionrias do pensamento atual hostis  cincia, e pretende o surgimento de uma superioridade a que ningum pode aspirar. Nenhum 
de ns pode adivinhar qual ser o julgamento final da humanidade sobre nossos esforos tericos. Existem exemplos em que a rejeio das trs primeiras geraes foi 
corrigida pela seguinte e transformada em reconhecimento. Depois de se ter ouvido com cuidado a voz da autocrtica e de haver prestado certa ateno s crticas 
dos adversrios, no resta mais nada a fazer seno sustentar, com todas as foras, as prprias convices baseadas na experincia. A pessoa deve contentar-se em 
agir com o mximo de honestidade, no devendo assumir o papel de juiz, reservado ao futuro remoto. Dar nfase a opinies pessoais arbitrrias, em assuntos cientficos, 
 mau; constitui claramente uma tentativa de questionar o direito da psicanlise de ser considerada uma cincia - alis, depois de j ter sido esse valor depreciado 
pelo que foi dito antes [sobre a natureza relativa de todo o conhecimento]. Quem quer que d grande valor ao pensamento cientfico procurar, antes, todos os meios 
e mtodos possveis para limitar o fator predilees pessoais fantasiosas tanto quanto possvel, onde quer que ele desempenhe papel grande demais. Alm disso, vale 
a pena lembrar que no tem cabimento o excessivo zelo em defendermos a ns mesmos. Esses argumentos de Adler no tm inteno sria. Destinam-se apenas a ser utilizados 
contra seus adversrios; no se referem s suas prprias teorias, nem impediram seus seguidores de aclam-lo como o Messias, para cujo advento a humanidade ansiosa 
foi preparada por grande nmero de precursores. O Messias certamente no  nenhum fenmeno relativo.
         O argumento ad captandam benevolentiam de Jung repousa na suposio demasiado otimista de que o progresso da raa humana, da civilizao e do conhecimento 
sempre seguiu uma linha ininterrupta, como se no tivesse havido perodos de decadncia, reaes e restauraes aps cada revoluo, e geraes no tivessem dado 
um passo para trs e abandonado as vantagens de seus antecessores. Sua abordagem do ponto de vista das massas, sua renncia a uma inovao que foi mal recebida, 
tornam a priori pouco provvel que a verso jungiana da psicanlise possa com justia pretender ser uma atitude jovem de liberao. Afinal de contas, no  a idade 
do autor que decide isso, mas o carter da ao.
         Dos dois movimentos em discusso, o de Adler , sem dvida alguma, o mais importante; embora radicalmente falso, apresenta consistncia e coerncia. Alm 
disso, se baseia, apesar de tudo, numa teoria dos instintos. A modificao de Jung, por outro lado, afrouxa a conexo dos fenmenos com a vida instintiva; e alm 
disso, conforme seus crticos (p. ex. Abraham, Ferenczi e Jones) ressaltaram,  to obscura, ininteligvel e confusa a ponto de se tornar difcil assumir uma posio 
em relao a ela. Quando se pensa que se entendeu alguma coisa, pode-se ficar preparado para ouvir dizer que no se entendeu e no se pode saber como tirar uma concluso 
correta. Tudo  formulado de uma maneira particularmente vacilante, ora como "uma divergncia sutil que no justifica o escarcu que se fez em torno dela" (Jung), 
ora como uma nova mensagem de salvao que ir iniciar uma nova era para a psicanlise, e mais ainda, uma nova Weltanschauung para todos.
         Quando se pensa nas vrias incoerncias reveladas em diversos pronunciamentos pblicos e privados feitos pelo movimento jungiano, somos levados a perguntar 
quanto disso se deve  falta de clareza e quanto  falta de sinceridade. Deve-se admitir, contudo, que os expoentes da nova teoria se encontram numa posio difcil. 
Combatem agora coisas que anteriormente defendiam, e o fazem, alm disso, no baseados em novas observaes que lhes poderiam ter ensinado algo mais, mas em conseqncia 
de novas interpretaes que fazem com que as coisas que vem lhes paream diferentes do que viam antes. Por esse motivo no esto dispostos a abrir mo da ligao 
com a psicanlise, como representantes da qual se tornaram conhecidos perante o mundo, e preferem anunciar que a psicanlise mudou. No Congresso de Munique achei 
necessrio esclarecer essa confuso, e o fiz declarando que no reconhecia as inovaes dos suos como continuaes legtimas e desenvolvimentos ulteriores da psicanlise 
que se originou comigo. Crticos alheios ao movimento psicanaltico (como Furtmller) j haviam observado isso antes, e Abraham tem razo em dizer que Jung se afastou 
inteiramente da psicanlise.  claro que sou perfeitamente capaz de admitir que cada um tem o direito de pensar e escrever o que quiser, mas no tem o direito de 
apresent-lo como uma coisa que no .
         Da mesma forma que a investigao de Adler trouxe algo de novo  psicanlise - uma contribuio  psicologia do ego - e cobrou por esse presente um preo 
demasiado alto jogando fora todas as teorias fundamentais da anlise, assim tambm Jung e seus seguidores prepararam o caminho para a sua luta contra a psicanlise 
presenteando-a com uma nova aquisio. Investigaram em detalhes (como Pfister fizera antes deles) o caminho atravs do qual o material das idias sexuais pertencentes 
ao complexo de famlia e  escolha de objeto incestuoso  utilizado na representao dos interesses ticos e religiosos mais elevados do homem, isto , aclarando 
assim um importante exemplo de sublimao das foras erticas instintivas e de sua transformao em tendncias que no podem mais ser chamadas de erticas. Isso 
concordava perfeitamente com todas as expectativas da psicanlise e poderia harmonizar-se muito bem com a idia segundo a qual nos sonhos e neuroses uma dissoluo 
regressiva dessa sublimao, como de todas as outras, se torna visvel. Mas o mundo inteiro teria protestado indignado contra a sexualizao da tica e da religio. 
Pelo menos dessa vez no consigo deixar de pensar teologicamente e concluir que esses descobridores no tinham condies de enfrentar essa tormenta de indignao, 
talvez mesmo presente no ntimo deles prprios.
         A pr-histria teolgica de tantos suos no explica sua atitude para com a psicanlise mais do que a pr-histria socialista de Adler explica o desenvolvimento 
de sua psicologia. Isso nos faz lembrar a famosa histria de Mark Twain sobre as coisas que aconteceram a seu relgio, e suas palavras conclusivas: "E ele ficava 
imaginando que fim tinham levado os funileiros, e armeiros, e sapateiros, e ferreiros fracassados; mas ningum sabia dizer."
         Suponhamos - para fazer uma comparao - que num determinado grupo social vive um parvenu (aventureiro) que se vangloria de ser descendente de uma famlia 
nobre que reside em outro lugar. Um dia se descobre que seus pais moram na vizinhana, e so pessoas muito modestas. S h uma maneira de contornar essa dificuldade 
e ele se agarra a ela. J no pode repudiar os pais, mas insiste em que so de linhagem nobre e que simplesmente perderam sua posio social  no mundo; e consegue 
uma rvore genealgica de alguma fonte oficial complacente. Parece-me que os suos foram obrigados a se comportar da mesma maneira. Se no se permitiu que a tica 
e a religio fossem sexualizadas porque tinham de ser algo de origem mais "elevada" e se, no obstante, as idias nelas contidas pareciam ter-se, inegavelmente, 
originado do complexo de dipo e do complexo familiar, s podia haver uma sada; que esses complexos no tenham o sentido que aparentam, mas contenham um elevado 
sentido "anaggico" (como Silberer o denomina) que tenha tornado possvel o seu emprego nas abstratas seqncias de pensamento da tica e do misticismo religioso.
         No ser surpresa para mim ouvir dizer novamente que no compreendi a substncia e objetivo da teoria neozuriquiana; mas o que me interessa  protestar 
antecipadamente contra pontos de vista contrrios s minhas teorias que possam ser encontrados nas publicaes daquela escola sendo atribudos a mim e no a eles. 
No vejo outro meio de tornar inteligvel a mim prprio o conjunto de inovaes de Jung, e de apreender todas as suas implicaes. As modificaes que Jung props 
que se fizessem na psicanlise decorrem todas de sua inteno de eliminar o lado reprovvel dos complexos familiares para no voltar a encontr-lo na religio e 
na tica. A libido sexual foi substituda por um conceito abstrato, sobre o qual se pode dizer com segurana que continua to enigmtico e incompreensvel para os 
entendidos quanto para os leigos. O complexo de dipo tem um significado meramente "simblico": a me, nele, representa o inacessvel, a que se tem de renunciar 
no interesse da civilizao; o pai que  assassinado no mito de dipo  o pai "interior", de quem nos devemos libertar a fim de nos tornarmos independentes. Outras 
partes do material das idias sexuais sero, por certo, submetidas a reinterpretaes semelhantes no decorrer do tempo. Em lugar de um conflito entre as tendncias 
erticas ego-distnicas e as autopreservadoras, surge um conflito entre as "tarefas da vida" e a "inrcia psquica"; o sentimento de culpa do neurtico corresponde 
a sua auto-recriminao por no cumprir adequadamente seu "trabalho de viver". Dessa forma, criou-se um novo sistema tico-religioso, que, tal qual o sistema adleriano, 
estava destinado a reinterpretar, distorcer ou alijar os achados efetivos da anlise. A verdade  que essas pessoas detectaram algumas nuanas culturais da sinfonia 
da vida e mais uma vez no deram ouvidos  poderosa e primordial melodia dos instintos.
         A fim de preservar intacto esse sistema, foi necessrio afastar-se inteiramente da observao e da tcnica da psicanlise. Vez por outra, o entusiasmo pela 
causa deu margem at mesmo  inobservncia da lgica cientfica - quando Jung acha, por exemplo, que o complexo de dipo no  bastante "especfico" para a etiologia 
das neuroses, e passa a atribuir essa qualidade especfica  inrcia, a caracterstica mais universal de toda matria, animada e inanimada! Deve-se notar, a propsito, 
que o "complexo de dipo" representa apenas um tpico com o qual as foras mentais do indivduo tm de lidar, e no , em si prprio, uma fora, como a "inrcia 
psquica". O estudo dos indivduos tinha demonstrado (e sempre demonstrar) que os complexos sexuais em seu sentido original esto vivos neles. Em conseqncia disso, 
a investigao de indivduos foi relegada a segundo plano [nas novas teorias] e substituda por concluses baseadas em provas oriundas da pesquisa antropolgica. 
O maior risco de defrontar-se com o sentido original e sem disfarces desses complexos reinterpretados seria na tenra infncia de cada indivduo; em conseqncia, 
na terapia estabeleceu-se a injuno de que essa histria passada deve ser resolvida o mnimo possvel e a nfase principal posta no conflito do presente, no qual, 
alm do mais, a coisa essencial de modo algum deveria ser o que era acidental e pessoal, mas o que era geral - de fato, a no-realizao das tarefas da vida. Como 
sabemos, no entanto, o conflito de um neurtico torna-se compreensvel e admite soluo somente quando  remontado  sua pr-histria, quando uma pessoa volta atrs 
ao longo do caminho que sua libido seguiu quando ela adoeceu.
         A forma assumida pela teraputica neozuriquiana sob essas influncias pode ser expressa nas palavras de um paciente que vivenciou isso pessoalmente: "Dessa 
vez nenhum vestgio de ateno foi dado ao passado ou  transferncia. Onde quer que eu pensava haver apreendido esta ltima, diziam-me tratar-se de um puro smbolo 
libidinal. Os ensinamentos morais eram muito bonitos e eu os seguia fielmente, mas no avancei um passo. Isso era, naturalmente, muito mais incmodo para mim do 
que para ele, mas como poderia evit-lo?... Em vez de libertar-me pela anlise, cada dia fazia-me novas e tremendas exigncias, que tinham de ser cumpridas se se 
quisesse que a neurose fosse dominada - por exemplo: concentrao interior atravs da introverso, meditao religiosa, nova vida em comum com uma mulher com amor 
e dedicao etc. Isso estava quase alm das foras de qualquer um; visava a uma radical transformao de toda a minha natureza interna. Deixei a anlise como um 
pobre pecador, com intensos sentimentos de arrependimento e as melhores intenes, mas ao mesmo tempo totalmente desanimado. Qualquer sacerdote teria aconselhado 
o que ele recomendava, mas onde iria eu encontrar foras para isso?" O paciente chegou mesmo a lembrar ter ouvido falar que a anlise do passado e da transferncia 
deveria ser compreendida primeiramente, mas lhe haviam dito que disso ele j tivera o bastante. Desde que essa primeira espcie de anlise no o havia ajudado mais, 
parece-me justificada a concluso de que o paciente no tivera dela o bastante. Por certo, o tratamento subseqente, que j no podia pretender chamar-se de psicanlise, 
no melhorou as coisas.  impressionante que os membros da escola de Zurique tivessem de fazer uma volta to longa e passar por Viena para chegar  vizinha cidade 
de Berna, onde Dubois cura as neuroses por meio de incentivos morais, de uma maneira mais sensata.
         A incompatibilidade total desse novo movimento com a psicanlise tambm se revela na maneira de Jung encarar a represso, que quase j no  mencionada 
em suas obras, na m compreenso dos sonhos - como Adler [ver em [1]], Jung confunde sonhos com pensamentos onricos latentes, sem levar em considerao a psicologia 
dos sonhos - e na perda de toda a compreenso do inconsciente; em suma, em todos os pontos que devo considerar como a essncia da psicanlise. Quando Jung nos diz 
que o complexo de incesto  meramente "simblico", que apesar de tudo no possui existncia "real", que afinal de contas um selvagem no sente nenhum desejo por 
uma mulher velha, prefere uma jovem e bonita, somos tentados a concluir que "simblico" e "sem existncia real" simplesmente significam algo que, em virtude de suas 
manifestaes e efeitos patognicos,  descrito pela psicanlise como "existindo inconscientemente" - descrio que elimina a contradio aparente.
         Se se tiver em mente que os sonhos so algo diferente dos pensamentos onricos latentes que eles elaboram, no h nada de surpreendente em que os pacientes 
sonhem com coisas com as quais suas mentes tenham estado repletas durante o tratamento, sejam elas as "tarefas da vida", "ficar por cima" ou "por baixo". No h 
a menor dvidade que os sonhos de pessoas em anlise podem ser dirigidos, da mesma maneira que o so por estmulos produzidos com fins experimentais. Pode-se determinar 
uma parte do material que aparece num sonho; nada da essncia ou do mecanismo dos sonhos  alterado por isso. Tambm no acredito que os sonhos "biogrficos", como 
so chamados, ocorram fora da anlise. Se, por outro lado, se analisam sonhos tidos antes do tratamento, ou se se consideram os prprios acrscimos do sonhador ao 
que lhe tem sido sugerido no tratamento, ou se se evita atribuir-lhe qualquer tarefa dessa natureza, ento  fcil convencer-se como est longe da finalidade de 
um sonho produzir tentativas de soluo para as tarefas da vida. Os sonhos so apenas uma forma de pensar; jamais se pode alcanar uma compreenso dessa forma tomando 
como ponto de referncia o contedo dos pensamentos; somente uma apreciao do trabalho dos sonhos nos levar a essa compreenso.
         No  difcil refutar com argumentos concretos as concepes errneas de Jung sobre a psicanlise e os desvios dela. Toda anlise conduzida de maneira adequada, 
e em particular toda anlise de criana, fortalece as convices sobre as quais se fundamenta a teoria da psicanlise, negando as reinterpretaes feitas tanto pelos 
sistemas de Jung como de Adler. Nos dias que antecederam sua iluminao, o prprio Jung [1910b, v. pg. 40] levou a efeito e publicou uma anlise dessa espcie, 
de uma criana; resta ver se ele empreender uma nova interpretao dos resultados dessa anlise com a ajuda de um diferente "arranjo unilateral dos fatos", para 
utilizar a expresso empregada por Adler nesse sentido (ver em [1] e [2]).
         O ponto de vista de que a representao sexual de pensamentos "mais elevados" nos sonhos e na neurose nada mais  seno uma modalidade arcaica de expresso, 
, naturalmente, inconcilivel com o fato de que na neurose esses complexos sexuais provam ser os portadores das quantidades de libido subtradas  utilizao na 
vida real. Se isso fosse apenas uma questo de "jargo" sexual, no alteraria de maneira nenhuma a economia da libido. O prprio Jung admite isso no seu Darstellung 
der psychoanalytischen Theorie [1913] e formula a tarefa da terapia como o desligamento das catexias libidinais desses complexos. Entranto, isso jamais pode ser 
realizado desviando-se o paciente delas e concitando-o a sublimar, e sim atravs do exame exaustivo das mesmas que as torne plena e completamente conscientes. O 
primeiro item de realidade com o qual o paciente deve lidar  a sua doena. Esforos no sentido de poupar-lhe essa tarefa indicam incapacidade do mdico em ajud-lo 
a superar suas resistncias, ou ento o medo que tem o mdico dos resultados do seu trabalho.
         Por ltimo, pode-se dizer que com sua "modificao" da psicanlise Jung nos oferece um equivalente da famosa faca de Lichtenberg. Mudou o cabo e botou uma 
lmina nova, e porque gravou nela o mesmo nome espera que seja considerada como o instrumento original.
         Creio ter deixado claro que, pelo contrrio, a nova teoria que visa a substituir a psicanlise significa um abandono da anlise e uma desero da mesma. 
Algumas pessoas podem ser inclinadas a temer que essa desero esteja fadada a ter conseqncias mais graves para a anlise do que outras, devido ao fato de ter 
sido iniciada por homens que desempenharam um papel to grande no movimento e contriburam tanto para o seu avano. Eu no compartilho dessa apreenso.
         Os homens so fortes enquanto representam uma idia forte; se enfraquecem quando se opem a ela. A psicanlise sobreviver a essa perda e a compensar com 
a conquista de novos partidrios. Para concluir, quero expressar o desejo de que a sorte proporcione um caminho de elevao muito agradvel a todos aqueles que acharam 
a estada no submundo da psicanlise desagradvel demais para o seu gosto. E possamos ns, os que ficamos, desenvolver at o fim, sem atropelos, nosso trabalho nas 
profundezas.
         Fevereiro de 1914.
         
         
         
         
























SOBRE O NARCISISMO: UMA INTRODUO (1914)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         ZUR EINFHRUNG DES NARIZSSMUS
         (a)EDIES ALEMS:
         1914 Jb. Psychoan., 6, 1-24.
         1918 S.K.S.N., 4, 78-112. (1922, 2 ed.)
         1924 Leipzig, Viena e Zurique: Internationaler Psychoanalytischer Verlag. Pg. 35.
         1925 G.S. 6, 155-187.
         1931 Theoretische Schriften, 25-57.
         1946 G.W., 10, 138-170.
         (b)TRADUO INGLESA:
         'On Narcissism: an Introduction'
         1925C.P., 4, 30-59. (Trad. C. M. Baines.)
         
         A presente traduo inglesa baseia-se na que foi publicada em 1925.
         A traduo mais literal do ttulo deste artigo seria 'Sobre a Introduo do Conceito de Narcisismo'. Freud j vinha empregando o termo h muitos anos. Sabemos 
por Ernest Jones (1955, 388) que numa reunio da Sociedade Psicanaltica de Viena, a 10 de novembro de 1909, Freud havia declarado que o narcisismo era uma fase 
intermediria necessria entre o auto-erotismo e o amor objetal. Mais ou menos na mesma poca, ele preparava a segunda edio dos Trs Ensaios sobre a Teoria da 
Sexualidade (1905d) para o prelo (o prefcio traz a data de 'dezembro de 1909'), e parece provvel que a primeira meno pblica do novo termo se encontra numa nota 
de rodap acrescentada quela edio (Edio Standard Brasileira, Vol. VII, pg. 144-5 n, IMAGO Editora, 1972), presumindo-se, vale dizer, que a nova edio tenha 
aparecido no incio de 1910, pois no fim de maio do mesmo ano apareceu o livro de Freud sobre Leonardo (1910c), no qual se faz referncia consideravelmente mais 
extensa ao narcisismo (Edio Standard Brasileira, Vol. XI, pg. 92, IMAGO Editora, 1970). Um artigo de Rank sobre o assunto, mencionado por Freud no incio do presente 
estudo, foi publicado em 1911, e outras referncias do prprio Freud logo se seguiram: por exemplo, na Seo III da anlise de Schreber (1911c) e em Totem e Tabu 
(1912-13), Edio Standard Brasileira, Vol. XIII, pgs. 111-13, IMAGO Editora, 1974.
         A idia de escrever o presente artigo surgiu nas cartas de Freud pela primeira vez em junho de 1913, tendo ele concludo uma primeira minuta do mesmo no 
correr de umas frias que passara em Roma na terceira semana de setembro do mesmo ano. Somente no fim de fevereiro de 1914  que foi comeada a verso final, concluda 
um ms depois.
         Trata-se de um dos mais importantes trabalhos de Freud, podendo ser considerado como um dos fatores centrais na evoluo de seus conceitos. Resume suas 
primeiras discusses sobre o tema do narcisismo e considera o lugar ocupado pelo narcisismo no desenvolvimento sexual, indo, porm, alm disso, pois penetra nos 
problemas mais profundos das relaes entre o ego e os objetos externos, traando a nova distino entre 'libido do ego' e 'libido objetal'. Outrossim - e talvez 
seja este o ponto mais importante -, introduz os conceitos do 'ideal do ego' e do agente auto-observador a ele relacionado, que constituram a base do que, finalmente, 
veio a ser descrito como o 'superego' em The Ego and the Id (1923b). E, alm disso tudo, em duas passagens do artigo - no final da primeira seo e no incio da 
terceira - aborda as controvrsias com Adler e Jung, que foram o principal tema da 'Histria do Movimento Psicanaltico', escrita mais ou menos simultaneamente ao 
presente trabalho durante os primeiros meses de 1914. Na realidade, um dos motivos de Freud para escrever esse artigo foi, sem dvida, demonstrar que o conceito 
de narcisismo oferece uma alternativa  'libido' no-sexual de Jung e ao 'protesto masculino' de Adler.
         Estes esto longe de ser os nicos tpicos levantados no artigo, e por isso mesmo no causa surpresa sua aparncia inusitada de ser supercondensado - sua 
estrutura prestes a estourar pela quantidade de material que contm. O prprio Freud parece ter sentido algo semelhante. Conta-nos Ernest Jones (1955-340) que 'ele 
ficou muito insatisfeito com o resultado' e escreveu a Abraham: 'O "Narcisismo" teve um parto difcil e traz todas as marcas de uma deformao correspondente'.
         Por mais que isso possa ser assim, o artigo exige e recompensa um estudo prolongado, tendo sido o ponto de partida de muitas linhas de raciocnio ulteriores. 
Algumas destas, por exemplo, foram desenvolvidas em 'Luto e Melancolia' (1917e [1915]), pg. 249 mais adiante, e nos Captulos VIII e XI de Group Psychology (1921c). 
O tema do narcisismo, pode-se acrescentar, ocupa a maior parte da Conferncia XXVI das Introductory Lectures (1916-17). O ulterior desenvolvimento dos novos conceitos 
sobre a estrutura da mente, que j comeam a se tornar evidentes no presente artigo, levou Freud a reavaliar algumas das afirmaes feitas aqui, mormente no tocante 
ao funcionamento do ego. Nesse sentido, deve-se ressaltar que o significado que Freud atribuiu a 'das Ich' (quase invariavelmente traduzido por o 'ego' nesta edio) 
passou por gradativas modificaes. De incio, ele empregou a expresso sem grande preciso, tal como poderamos falar de 'o eu'; mas em seus ltimos escritos deu-lhe 
um significado muito mais definido e restrito. O presente artigo ocupa um ponto de transio nesse desenvolvimento. O tpico, em sua totalidade,  examinado mais 
amplamente na Introduo do Editor Ingls a The Ego and the Id (1923b).
         Trechos da traduo desse artigo publicados em 1925 foram includos em A General Selection from the Works of Sigmund Freud, de Rickman (1937, 118-41).
         
         
         
         
         
         
         SOBRE O NARCISISMO: UMA INTRODUO
         
                                                         I
         O termo narcisismo deriva da descrio clnica e foi escolhido por Paul Ncke em 1899 para denotar a atitude de uma pessoa que trata seu prprio corpo da 
mesma forma pela qual o c.orpo de um objeto sexual  comumente tratado - que o contempla, vale dizer, o afaga e o acaricia at obter satisfao completa atravs 
dessas atividades. Desenvolvido at esse grau, o narcisismo passa a significar uma perverso que absorveu a totalidade da vida sexual do indivduo, exibindo, conseqentemente, 
as caractersticas que esperamos encontrar no estudo de todas as perverses.
         Observadores psicanalticos foram subseqentemente surpreendidos pelo fato de que aspectos individuais da atitude narcisista so encontrados em muitas pessoas 
que sofrem de outras perturbaes - por exemplo, conforme Sadger ressaltou, em homossexuais -, e finalmente afigurou-se provvel que uma localizao da libido que 
merecesse ser descrita como narcisismo talvez estivesse presente em muito maior extenso, podendo mesmo reivindicar um lugar no curso regular do desenvolvimento 
sexual humano. Dificuldades do trabalho psicanaltico em neurticos conduziram  mesma suposio, pois parecia que, neles, essa espcie de atitude narcisista constitua 
um dos limites  sua susceptibilidade  influncia. O narcisismo nesse sentido no seria uma perverso, mas o complemento libidinal do egosmo do instinto de autopreservao, 
que, em certa medida, pode justificavelmente ser atribudo a toda criatura viva.
         Um motivo premente para nos ocuparmos com a concepo de um narcisismo primrio e normal surgiu quando se fez a tentativa de incluir o que conhecemos da 
demncia precoce (Kraepelin) ou da esquizofrenia (Bleuler) na hiptese da teoria da libido. Esse tipo de pacientes, que eu propus fossem denominados de parafrnicos, 
exibem duas caractersticas fundamentais: megalomania e desvios de seu interesse do mundo externo - de pessoas e coisas. Em conseqncia da segunda modificao, 
tornam-se inacessveis  influncia da psicanlise e no podem ser curados por nossos esforos. Mas o afastamento do parafrnico do mundo externo necessita ser mais 
precisamente caracterizado. Um paciente que sofre de histeria ou de neurose obsessiva, enquanto sua doena persiste, tambm desiste de sua relao com a realidade. 
Mas a anlise demonstra que ele de modo algum corta suas relaes erticas com as pessoas e as coisas. Ainda as retm na fantasia, isto , ele substitui, por um 
lado, os objetos imaginrios de sua memria por objetos reais, ou mistura os primeiros com os segundos, e, por outro, renuncia  iniciao das atividades motoras 
para a obteno de seus objetivos relacionados queles objetos. Essa  a nica condio da libido a que podemos legitimamente aplicar o termo 'introverso' da libido, 
empregado por Jung indiscriminadamente. Com o parafrnico a situao  diferente. Ele parece realmente ter retirado sua libido de pessoas e coisas do mundo externo, 
sem substitu-las por outras na fantasia. Quando realmente as substitui, o processo parece ser secundrio e constituir parte de uma tentativa de recuperao, destinada 
a conduzir a libido de volta a objetos.
         Surge a questo: Que acontece  libido que foi afastada dos objetos externos na esquizofrenia? A megalomania caracterstica desses estados aponta o caminho. 
Essa megalomania, sem dvida, surge a expensas da libido objetal. A libido afastada do mundo externo  dirigida para o ego e assim d margem a uma atitude que pode 
ser denominada de narcisismo. Mas a prpria megalomania no constitui uma criao nova; pelo contrrio, , como sabemos, ampliao e manifestao mais clara de uma 
condio que j existia previamente. Isso nos leva a considerar o narcisismo que surge atravs da induo de catexias objetais como sendo secundrio, superposto 
a um narcisismo primrio que  obscurecido por diversas influncias diferentes.
         Desejo ressaltar que no me proponho aqui explicar ou penetrar ainda mais no problema da esquizofrenia, limitando-me meramente a reunir o que j foi dito 
em outras ocasies, a fim de justificar a introduo do conceito de narcisismo.
         Essa extenso da teoria da libido - em minha opinio, legtima - recebe reforo de um terceiro setor, a saber, de nossas observaes e conceitos sobre a 
vida mental das crianas e dos povos primitivos. Nos segundos, encontramos caractersticas que, se ocorressem isoladamente, poderiam ser atribudas  megalomania: 
uma superestima do poder de seus desejos e atos mentais, a 'onipotncia de pensamentos', uma crena na fora taumatrgica das palavras, e uma tcnica para lidar 
com o mundo externo - 'mgica' - que parece ser uma aplicao lgica dessas premissas grandiosas. Nas crianas de hoje, cujo desenvolvimento  muito mais obscuro 
para ns, esperamos encontrar uma atitude exatamente anloga em relao ao mundo externo. Assim, formamos a idia de que h uma catexia libidinal original do ego, 
parte da qual  posteriormente transmitida a objetos, mas que fundamentalmente persiste e est relacionada com as catexias objetais, assim como o corpo de uma ameba 
est relacionado com os pseudpodes que produz. Em nossas pesquisas, tomando, como se tomou, os sintomas neurticos como ponto de partida, essa parte da localizao 
da libido permaneceu necessariamente oculta para ns no incio. Tudo que observamos foram emanaes dessa libido - as catexias objetais, que podem ser transmitidas 
e retiradas novamente. Tambm vemos, em linhas gerais, um anttese entre a libido do ego e a libido objetal. Quanto mais uma  empregada, mais a outra se esvazia. 
A libido objetal atinge sua fase mais elevada de desenvolvimento no caso de uma pessoa apaixonada, quando o indivduo parece desistir de sua prpria personalidade 
em favor de uma catexia objetal, ao passo que temos a condio oposta na fantasia do paranico (ou autopercepo) do 'fim do mundo'. Finalmente, no tocante  diferenciao 
das energias psquicas, somos levados  concluso de que, para comear, durante o estado de narcisismo, elas existem em conjunto, sendo nossa anlise demasiadamente 
tosca para estabelecer uma distino entre elas. Somente quando h catexia objetal  que  possvel discriminar uma energia sexual - a libido - de uma energia dos 
instintos do ego.
         Antes de prosseguir, devo tocar em duas questes que nos levam ao mago das dificuldades de nosso assunto. Em primeiro lugar, qual a relao entre o narcisismo 
de que tratamos e o auto-erotismo, que descrevemos como um estado inicial da libido? Em segundo, se concedemos ao ego uma catexia primria da libido, por que h 
necessidade de distinguir ainda uma libido sexual de uma energia no-sexual dos instintos do ego? A postulao de uma nica espcie de energia psquica no nos pouparia 
de todas as dificuldades que residem em diferenciar uma energia dos instintos do ego da libido do ego, e a libido do ego da libido objetal?
         No tocante  primeira questo, posso ressaltar que estamos destinados a supor que uma unidade comparvel ao ego no pode existir no indivduo desde o comeo; 
o ego tem de ser desenvolvido. Os instintos auto-erticos, contudo, ali se encontram desde o incio, sendo, portanto, necessrio que algo seja adicionado ao auto-erotismo 
- uma nova ao psquica - a fim de provocar o narcisismo.
         Provocaremos uma inquietao perceptvel em qualquer analista de quem se exija uma resposta definitiva  segunda questo. No  agradvel a idia de abandonar 
a observao pela controvrsia terica estril, mas nem por isso nos devemos esquivar de uma tentativa de elucidao.  verdade que noes tais como a de uma libido 
do ego, uma energia dos instintos do ego, e assim por diante, no so particularmente fceis de apreender, nem suficientemente ricas de contedo; uma teoria especulativa 
das relaes em questo deveria comear por buscar como base um conceito nitidamente definido. Mas sou da opinio de que  exatamente nisso que consiste a diferena 
entre uma teoria especulativa e uma cincia erigida a partir da interpretao emprica. Esta ltima no invejar a especulao por seu privilgio de ter um fundamento 
suave, logicamente inatacvel, contentando-se, de bom grado, com conceitos bsicos nebulosos mal imaginveis, que espera apreender mais claramente no decorrer de 
seu desenvolvimento, ou que est at mesmo preparada para substituir por outros, pois essas idias no so o fundamento da cincia, no qual tudo repousa: esse fundamento 
 to- somente a observao. No so a base, mas o topo de toda a estrutura, e podem ser substitudas e eliminadas sem prejudic-la. Em nossos dias, a mesma coisa 
vem acontecendo na cincia da fsica, cujas noes bsicas no tocante a matria, centros de fora, atrao etc. so quase to discutveis quanto as noes correspondentes 
em psicanlise.
         O valor dos conceitos 'libido do ego' e 'libido do objeto' reside no fato de que se originam do estudo das caractersticas ntimas dos processos neurticos 
e psicticos. A diferenciao da libido numa espcie que  adequada ao ego e numa outra que est ligada a objetos  o corolrio inevitvel de uma hiptese original 
que estabelecia distino entre os instintos sexuais e os instintos do ego. Seja como for, a anlise das neuroses de pura transferncia (neurose de histeria e obsessiva) 
compeliu-me a fazer essa distino, e sei apenas que todas as tentativas para explicar esses fenmenos por outros meios foram inteiramente infrutferas.
         Na ausncia total de qualquer teoria dos instintos que nos ajude a encontrar nossa orientao, podemos permitir-nos, ou antes, cabe-nos comear por elaborar 
alguma hiptese para a sua concluso lgica, at que ela ou se desintegre ou seja confirmada. Existem vrios pontos a favor da hiptese de ter havido desde o incio 
uma separao entre os instintos sexuais e os outros instintos do ego, alm da utilidade de tal hiptese na anlise das neuroses de transferncia. Admito que somente 
essa segunda considerao no seria destituda de ambigidade, porquanto poderia tratar-se de uma energia psquica indiferente que s se torna libido atravs do 
ato de catexizao de um objeto. Mas, em primeiro lugar, a distino feita nesse conceito corresponde  distino popular comum entre a fome e o amor. Em segundo 
lugar, h consideraes biolgicas a seu favor. O indivduo leva realmente uma existncia dplice: uma para servir as suas prprias finalidades e a outra como um 
elo numa corrente, que ele serve contra sua vontade ou pelo menos involuntariamente. O indivduo considera a sexualidade como um dos seus prprios fins, ao passo 
que, de outro ponto de vista, ele  um apndice de seu germoplasma, a cuja disposio pe suas energias em troca de uma retribuio de prazer. Ele  o veculo mortal 
de uma substncia (possivelmente) imortal - como o herdeiro de uma propriedade inalienvel, que  o nico dono temporrio de um patrimnio que lhe sobrevive. A separao 
dos instintos sexuais dos instintos do ego simplesmente refletiria essa funo dplice do indivduo. Em terceiro lugar, devemos recordar que todas as nossas idias 
provisrias em psicologia presumivelmente algum dia se basearo numa subestrutura orgnica. Isso torna provvel que as substncias especiais e os processos qumicos 
sejam os responsveis pela realizao das operaes da sexualidade, garantindo a extenso da vida individual na da espcie. Estamos levando essa probabilidade em 
conta ao substituirmos as substncias qumicas especiais por foras psquicas especiais.
         Tento em geral manter a psicologia isenta de tudo que lhe seja diferente em natureza, inclusive das linhas biolgicas de pensamento. Por essa mesma razo, 
gostaria, nessa altura, de admitir expressamente que a hiptese de instintos do ego e instintos sexuais separados (isto , a teoria da libido) est longe de repousar, 
inteiramente, numa base psicolgica, extraindo seu principal apoio da biologia. Mas serei suficientemente coerente [com minha norma geral] para abandonar essa hiptese, 
se o prprio trabalho psicanaltico vier a produzir alguma outra hiptese mais til sobre os instintos. At agora, isso no aconteceu. Pode ocorrer que, com mais 
fundamento e numa viso de maior alcance, a energia sexual - a libido - seja apenas o produto de uma diferenciao na energia que atua generalizadamente na mente. 
Mas tal assertiva no tem qualquer relevncia. Relaciona-se com assuntos que se acham to afastados dos problemas de nossa observao, e a respeito dos quais conhecemos 
to pouco, que  igualmente ocioso contest-la ou afirm-la; essa identidade primordial talvez tenha to pouco que ver com nossos interesses analticos quanto o 
parentesco primordial de todas as raas da humanidade tem que ver com a prova de parentesco exigida a fim de se estabelecer um direito legal de herana. Todas essas 
especulaes no nos levam a parte alguma. Visto no podermos esperar que outra cincia nos apresente as concluses finais sobre a teoria dos instintos,  muito 
mais objetivo tentar ver que luz pode ser lanada sobre esse problema bsico da biologia por uma sntese dos fenmenos psicolgicos. Enfrentemos a possibilidade 
de erro, mas no nos deixemos dissuadir de buscar as implicaes lgicas da hiptese, que em primeiro lugar adotamos, de uma anttese entre os instintos do ego e 
os instintos sexuais (hiptese  qual fomos forosamente conduzidos pela anlise das neuroses de transferncia), e de verificar se ela se mostra destituda de contradies 
e se  profcua, e se pode ser aplicada tambm a outras perturbaes, como a esquizofrenia.
         Seria, naturalmente, uma questo diferente se se provasse que a teoria da libido j fracassou na tentativa de explicar essa segunda doena. Isso foi asseverado 
por C. G. Jung (1912) e  por causa disso que me vi obrigado a entrar nessa ltima discusso, da qual gostaria de ter sido poupado. Teria preferido seguir at o 
fim o caminho trilhado na anlise do caso Schreber sem qualquer discusso de suas premissas. Mas a assero de Jung , para dizer o mnimo, prematura. Os fundamentos 
que apresenta para ela so deficientes. Em primeiro lugar, recorre a uma confisso, que eu teria feito, de que fora obrigado, devido s dificuldades da anlise de 
Schreber, a estender o conceito de libido (isto , a desistir de seu contedo sexual) e a identificar a libido com o interesse psquico em geral. Ferenczi (1913b), 
numa crtica exaustiva  obra de Jung, j disse tudo o que  necessrio a ttulo de correo dessa interpretao errnea. Posso apenas corroborar sua crtica e repetir 
que jamais fiz tal retratao no tocante  teoria da libido. Outro argumento de Jung, a saber, que no podemos supor que a retirada da libido seja em si mesma suficiente 
para acarretar a perda da funo normal da realidade, no  um argumento, mas um ditame. 'Incorre em petio de princpio' e poupa discusso, pois se e como isso 
 possvel era precisamente o ponto que devia estar sob investigao. Em sua grande obra seguinte, Jung (1913 [339-40]) simplesmente falha na soluo que eu havia 
indicado: 'Ao mesmo tempo', escreve, 'ainda h o seguinte a ser levado em considerao (um ponto ao qual, incidentalmente, Freud se refere em sua obra sobre o caso 
Schreber [1911c]) - que a introverso da libido sexualis conduz a uma catexia do "ego", e que possivelmente  isso que produz o resultado de uma perda da realidade. 
 realmente uma possibilidade tentadora explicar a psicologia da perda da realidade dessa maneira'. Mas Jung no vai muito alm no exame dessa possibilidade. Algumas 
linhas adiante ele a pe de lado com a observao de que essa determinante 'resultaria na psicologia de um anacoreta asctico, no em demncia precoce'. Quo pouco 
essa analogia inadequada pode ajudar-nos a resolver a questo fica claro pela considerao de que um anacoreta dessa espcie, que 'tenta erradicar todos os traos 
de interesse sexual' (mas s no sentido popular da palavra 'sexual'), nem sequer necessariamente exibe qualquer localizao patognica da libido. Ele pode ter desviado 
inteiramente seu interesse sexual dos seres humanos; contudo, pode t-lo sublimado num interesse elevado pelo divino, pela natureza, ou pelo reino animal, sem que 
sua libido tenha sofrido introverso at suas fantasias ou retorno a seu ego. Essa analogia pareceria excluir por antecipao a possibilidade de se estabelecer uma 
diferenciao entre o interesse que emana de fontes erticas e os outros. Recordemos, alm disso, que as pesquisas da escola sua, por mais valiosas que sejam, 
elucidaram apenas duas facetas do quadro da demncia precoce - a presena nele de complexos que conhecemos tanto em indivduos saudveis como em neurticos e a similaridade 
das fantasias que nele ocorrem com mitos populares -, mas no puderam lanar mais luz alguma sobre o mecanismo da doena. Podemos, ento, repudiar a assero de 
Jung, segundo a qual a teoria da libido no s malogrou na tentativa de explicar a demncia precoce, como tambm, portanto,  eliminada em relao s outras neuroses.
         
         
                                                         II
         Parece-me que certas dificuldades especiais perturbam o estudo direto do narcisismo. Nosso principal meio de acesso a ele continuar a ser provavelmente 
a anlise das parafrenias. Assim como as neuroses de transferncia nos permitiram traar os impulsos instintuais libidinais, tambm a demncia precoce e a parania 
nos fornecero uma compreenso interna (insight) da psicologia do ego. Mais uma vez, a fim de chegar  compreenso do que parece to simples em fenmenos normais, 
teremos de recorrer ao campo da patologia com suas distores e exageros. Ao mesmo tempo, outros meios de abordagem nos permanecem acessveis, e atravs deles podemos 
obter um conhecimento melhor do narcisismo. Passarei a examin-los agora, na seguinte ordem: o estudo da doena orgnica, da hipocondria e da vida ertica dos sexos.
         Ao avaliar a influncia da doena orgnica sobre a distribuio da libido, sigo uma sugesto que me foi feita verbalmente por Sndor Ferenczi.  do conhecimento 
de todos, e eu o aceito como coisa natural, que uma pessoa atormentada por dor e mal-estar orgnico deixa de se interessar pelas coisas do mundo externo, na medida 
em que no dizem respeito a seu sofrimento. Uma observao mais detida nos ensina que ela tambm retira o interesse libidinal de seus objetos amorosos: enquanto 
sofre, deixa de amar. A banalidade desse fato no justifica que deixemos de traduzi-lo nos termos da teoria da libido. Devemos ento dizer: o homem enfermo retira 
suas catexias libidinais de volta para seu prprio ego, e as pe para fora novamente quando se recupera. 'Concentrada est a sua alma', diz Wilhelm Busch a respeito 
do poeta que sofre de dor de dentes, 'no estreito orifcio do molar'.
         Aqui a libido e o interesse do ego partilham do mesmo destino e so mais uma vez indistiguveis entre si. O egosmo familiar do enfermo abrange os dois. 
Achamos isso to natural porque estamos certos de que, na mesma situao, nosso comportamento seria idntico. A maneira pela qual os sentimentos de quem ama, por 
mais fortes que sejam, so banidos pelos males corpreos, e de sbito substitudos por uma indiferena completa, constitui um tema que tem sido consideravelmente 
explorado por escritores humorsticos.
         A condio do sono tambm se assemelha  doena, por acarretar uma retirada narcisista das posies da libido at o prprio eu do indivduo, ou, mais precisamente, 
at o desejo nico de dormir. O egosmo dos sonhos ajusta-se muito bem nesse contexto. [ver em [1]]. Em ambos os estados temos, pelo menos, exemplos de alteraes 
na distribuio da libido que so resultantes de uma modificao no ego.
         A hipocondria, da mesma forma que a doena orgnica, manifesta-se em sensaes corpreas aflitivas e penosas, tendo sobre a distribuio da libido o mesmo 
efeito que a doena orgnica. O hipocondraco retira tanto o interesse quanto a libido - a segunda de forma especialmente acentuada - dos objetos do mundo externo, 
concentrando ambos no rgo que lhe prende a ateno. Torna-se agora evidente uma diferena entre a hipocondria e a doena orgnica: na segunda, as sensaes aflitivas 
baseiam-se em mudanas demonstrveis [orgnicas]; na primeira, isso no ocorre. Mas estaria inteiramente de acordo com nossa concepo geral dos processos de neurose, 
se resolvssemos dizer que a hipocondria deve estar certa: deve-se supor que as modificaes orgnicas tambm esto presentes nela.
         Mas o que seriam essas mudanas? Deixar-nos-emos guiar, nessa altura, por nossa experincia, a qual mostra que as sensaes corpreas de natureza desagradvel, 
comparveis s da hipocondria, ocorrem tambm nas outras neuroses. J tive ocasio de dizer que me inclino a classificar a hipocondria, juntamente com a neurastenia 
e a neurose de angstia, como uma terceira neurose 'real' Provavelmente no seria ir muito longe supor que, no caso das outras neuroses, uma pequena dose de hipocondria 
tambm se forma regularmente ao mesmo tempo. Temos o melhor exemplo disso, creio eu, na neurose de angstia com sua superestrutura de histeria. Ora, o prottipo 
familiar de um rgo que  dolorosamente delicado, que de alguma forma  alterado e que, contudo, no est doente no sentido comum do termo,  o rgo genital em 
seus estados de excitao. Nessa condio, ele fica congestionado de sangue, intumescido e umectado, sendo a sede de uma multiplicidade de sensaes. Descrevamos 
agora, tomando qualquer parte do corpo, sua atividade de enviar estmulos sexualmente excitantes  mente, como sendo sua 'erogenicidade', e reflitamos, ainda, que 
as consideraes nas quais se baseou nossa teoria da sexualidade de h muito nos habituou  idia de que certas outras partes do corpo - as zonas 'ergenas' - podem 
atuar como substitutos dos rgos genitais e se comportarem analogamente a eles. Temos ento apenas mais um passo a dar. Podemos decidir considerar a erogenicidade 
como uma caracterstica geral de todos os rgos e, ento, podemos falar de um aumento ou diminuio dela numa parte especfica do corpo. Para cada uma das modificaes 
na erogenicidade dos rgos poderia, ento, verificar-se uma modificao paralela da catexia libidinal no ego. Tais fatores constituram aquilo que acreditamos estar 
subjacente  hipocondria e aquilo que pode exercer o mesmo efeito sobre a distribuio da libido tal como produzida por uma doena material dos rgos.
         Vemos que, se acompanharmos essa linha de raciocnio, nos defrontaremos no s com o problema da hipocondria, mas tambm com o das outras neuroses 'reais' 
- a neurastenia e a neurose de angstia. Paremos, portanto, nesse ponto. No pertence ao mbito de uma indagao puramente psicolgica penetrar tanto nas fronteiras 
da pesquisa fisiolgica. Mencionarei simplesmente que, a partir desse ponto de vista, podemos suspeitar que a relao da hipocondria com a parafrenia  semelhante 
 das outras neuroses 'reais' com a histeria e a neurose obsessiva: podemos desconfiar, vale dizer, que ela est na dependncia da libido do ego, assim como as outras 
esto na da libido objetal, e que a ansiedade hipocondraca  a contrapartida, enquanto provm da libido do ego, da ansiedade neurtica. Alm disso, visto j estarmos 
familiarizados com a idia de que o mecanismo do adoecer e da formao de sintomas nas neuroses de transferncia - o caminho da introverso para a regresso - deve 
ficar vinculado a um represamento da libido objetal, podemos tambm ficar mais perto da idia de um represamento da libido do ego, e podemos estabelecer uma relao 
dessa idia com os fenmenos da hipocondria e da parafrenia.
         Nesse ponto, nossa curiosidade naturalmente perguntar por que esse represamento da libido no ego teria de ser experimentado como desagradvel. Contentar-me-ei 
com a reposta de que o desprazer  sempre a expresso de um grau mais elevado de tenso, e que, portanto, o que ocorre  que uma quantidade no campo dos acontecimentos 
materiais  transformada, aqui como em outros lugares, na qualidade psquica do desprazer. No obstante, talvez o fator decisivo para a gerao do desprazer no 
seja a magnitude absoluta do acontecimento material, mas antes alguma funo especfica dessa magnitude absoluta. Aqui podemos at mesmo aventurar-nos a abordar 
a questo de saber o que torna absolutamente necessrio para a nossa vida mental ultrapassar os limites do narcisismo e ligar a libido a objetos. A resposta decorrente 
de nossa linha de raciocnio mais uma vez seria a de que essa necessidade surge quando a catexia do ego com a libido excede certa quantidade. Um egosmo forte constitui 
uma proteo contra o adoecer, mas, num ltimo recurso, devemos comear a amar a fim de no adoecermos, e estamos destinados a cair doentes se, em conseqncia da 
frustrao, formos incapazes de amar. Isso acompanha mais ou menos os versos do quadro que Heine traa sobre a psicognese da Criao:
         Krankheit ist wohl der letzte GrundDes ganzen Schpferdrangs gewesen;Erschaffend konnte ich genesen,Erschaffend wurde ich gesund.
         Reconhecemos nosso aparelho mental como sendo, acima de tudo, um dispositivo destinado a dominar as excitaes que de outra forma seriam sentidas como aflitivas 
ou teriam efeitos patognicos. Sua elaborao na mente auxilia de forma marcante um escoamento das excitaes que so incapazes de descarga direta para fora, ou 
para as quais tal descarga , no momento, indesejvel. No primeiro caso, contudo,  indiferente que esse processo interno de elaborao seja efetuado em objetos 
reais ou imaginrios. A diferena no surge seno depois - caso a transferncia da libido para objetos irreais (introverso) tenha ocasionado seu represamento. Nos 
parafrnicos, a megalomania permite uma semelhante elaborao interna da libido que voltou ao ego; talvez apenas quando a megalomania falhe, o represamento da libido 
no ego se torne patognico e inicie o processo de recuperao que nos d a impresso de ser uma doena.
         Tentarei aqui penetrar um pouco mais no mecanismo da parafrenia e reunirei os conceitos que j me paream merecedores de considerao. A diferena entre 
as afeces parafrnicas e as neuroses de transferncia parecem-me estar na circunstncia de que, nas primeiras, a libido liberada pela frustrao no permanece 
ligada a objetos na fantasia, mas se retira para o ego. A megalomania corresponderia, por conseguinte, ao domnio psquico dessa ltima quantidade de libido, e seria 
assim a contrapartida da introverso para as fantasias que  encontrada nas neuroses de transferncia; uma falha dessa funo psquica d margem  hipocondria da 
parafrenia, e isso  homlogo  ansiedade das neuroses de transferncia. Sabemos que essa ansiedade pode ser transformada por uma elaborao psquica ulterior, isto 
, por converso, formao de reao ou construo de protees (fobias). O processo correspondente nos parafrnicos consiste numa tentativa de restaurao,  qual 
se devem as surpreendentes manifestaes da doena. De uma vez que a parafrenia com freqncia, se no geralmente, acarreta apenas um desligamento parcial da libido 
dos objetos, podemos distinguir trs grupos de fenmenos no quadro clnico: (1) os que representam o que resta de um estado normal de neurose (fenmenos residuais); 
(2) os que representam o processo mrbido (afastamento da libido dos seus objetos e, alm disso, megalomania, hipocondria, perturbaes afetivas e todo tipo de regresso); 
(3) os que representam a restaurao, nos quais a libido  mais uma vez ligada a objetos, como uma histeria (na demncia precoce ou na parafrenia propriamente dita), 
ou como numa neurose obsessiva (na parania). Essa nova catexia libidinal difere da primria por partir de outro nvel e sob outras condies. A diferena entre 
as neuroses de transferncia que ocorrem no caso de nova espcie de catexia libidinal e as formaes correspondentes onde o ego  normal devem ser capazes de nos 
proporcionar a compreenso interna (insight) mais profunda da estrutura de nosso aparelho mental.
         Uma terceira maneira pela qual podemos abordar o estudo do narcisismo  atravs da observao da vida ertica dos seres humanos, com suas vrias espcies 
de diferenciao no homem e na mulher. Assim como a libido objetal inicialmente ocultava de nossa observao a libido do ego, tambm em relao  escolha de objeto 
nas crianas de tenra idade (e nas crianas em crescimento) o que primeiro notamos foi que elas derivavam seus objetos sexuais de suas experincias de satisfao. 
As primeiras satisfaes sexuais auto-erticas so experimentadas em relao com funes vitais que servem  finalidade de autopreservao. Os instintos sexuais 
esto, de incio, ligados  satisfao dos instintos do ego; somente depois  que eles se tornam independentes destes, e mesmo ento encontramos uma indicao dessa 
vinculao original no fato de que os primeiros objetos sexuais de uma criana so as pessoas que se preocupam com sua alimentao, cuidados e proteo: isto , 
no primeiro caso, sua me ou quem quer que a substitua. Lado a lado, contudo, com esse tipo e fonte de escolha objetal, que pode ser denominado o tipo 'anacltico', 
ou de 'ligao', a pesquisa da psicanlise revelou um segundo tipo, que no estvamos preparados para encontrar. Descobrimos, de modo especialmente claro, em pessoas 
cujo desenvolvimento libidinal sofreu alguma perturbao, tais como pervertidos e homossexuais, que em sua escolha ulterior dos objetos amorosos elas adotaram como 
modelo no sua me mas seus prprios eus. Procuram inequivocamente a si mesmas como um objeto amoroso, e exibem um tipo de escolha objetal que deve ser denominado 
'narcisista'. Nessa observao, temos o mais forte dos motivos que nos levaram a adotar a hiptese do narcisismo.
         No conclumos, contudo, que os seres humanos se acham divididos em dois grupos acentuadamente diferenciados, conforme sua escolha objetal se coadune com 
o tipo anacltico ou o narcisista; pelo contrrio, presumimos que ambos os tipos de escolha objetal esto abertos a cada indivduo, embora ele possa mostrar preferncia 
por um ou por outro. Dizemos que um ser humano tem originalmente dois objetos sexuais - ele prprio e a mulher que cuida dele - e ao faz-lo estamos postulando a 
existncia de um narcisismo primrio em todos, o qual, em alguns casos, pode manifestar-se de forma dominante em sua escolha objetal.
         Uma comparao entre os sexos masculino e feminino indica ento que existem diferenas fundamentais entre eles no tocante a seu tipo de escolha objetal, 
embora essas diferenas naturalmente no sejam universais. O amor objetal completo do tipo de ligao , propriamente falando, caracterstico do indivduo do sexo 
masculino. Ele exibe a acentuada supervalorizao sexual que se origina, sem dvida, do narcisismo original da criana, correspondendo assim a uma transferncia 
desse narcisismo para o objeto sexual. Essa supervalorizao sexual  a origem do estado peculiar de uma pessoa apaixonada, um estado que sugere uma compulso neurtica, 
cuja origem pode, portanto, ser encontrada num empobrecimento do ego em relao  libido em favor do objeto amoroso. J com o tipo feminino mais freqentemente encontrado, 
provavelmente o mais puro e o mais verdadeiro, o mesmo no ocorre. Com o comeo da puberdade, o amadurecimento dos rgos sexuais femininos, at ento em estado 
de latncia, parece ocasionar a intensificao do narcisismo original, e isso  desfavorvel para o desenvolvimento de uma verdadeira escolha objetal com a concomitante 
supervalorizao sexual. As mulheres, especialmente se forem belas ao crescerem, desenvolvem certo autocontentamento que as compensa pelas restries sociais que 
lhes so impostas em sua escolha objetal. Rigorosamente falando, tais mulheres amam apenas a si mesmas, com uma intensidade comparvel  do amor do homem por elas. 
Sua necessidade no se acha na direo de amar, mas de serem amadas; e o homem que preencher essa condio cair em suas boas graas. A importncia desse tipo de 
mulher para a vida ertica da humanidade deve ser levada em grande considerao. Tais mulheres exercem o maior fascnio sobre os homens, no apenas por motivos estticos, 
visto que em geral so as mais belas, mas tambm por uma combinao de interessantes fatores psicolgicos, pois parece muito evidente que o narcisismo de outra pessoa 
exerce grande atrao sobre aqueles que renunciaram a uma parte de seu prprio narcisismo e esto em busca do amor objetal. O encanto de uma criana reside em grande 
medida em seu narcisismo, seu autocontentamento e inacessibilidade, assim como tambm o encanto de certos animais que parecem no se preocupar conosco, tais como 
os gatos e os grandes animais carniceiros. Realmente, mesmo os grandes criminosos e os humoristas, conforme representados na literatura, atraem nosso interesse pela 
coerncia narcisista com que conseguem afastar do ego qualquer coisa que o diminua.  como se os invejssemos por manterem um bem-aventurado estado de esprito - 
uma posio libidinal inatacvel que ns prprios j abandonamos. O grande encanto das mulheres narcisistas tem, contudo, o seu reverso; grande parte da insatisfao 
daquele que ama, de suas dvidas quanto ao amor da mulher, de suas queixas quanto  natureza enigmtica da mulher, tem suas razes nessa incongruncia entre os tipos 
de escolha de objeto.
         Talvez no seja fora de propsito apresentar aqui a certeza de que essa descrio da forma feminina de vida ertica no se deve a qualquer desejo tendencioso 
de minha parte no sentido de depreciar as mulheres. Afora o fato de essa tendenciosidade ser inteiramente estranha a mim, sei que essas diferentes linhas de desenvolvimento 
correspondem  diferenciao de funes num todo biolgico altamente complicado; alm disso, estou pronto a admitir que existe um nmero bem grande de mulheres que 
amam de acordo com os moldes do tipo masculino e que tambm desenvolvem a supervalorizao sexual prpria quele tipo.
         Mesmo para as mulheres narcisistas, cuja atitude para com os homens permanece fria, h um caminho que eleva ao amor objetal completo. Na criana que geram, 
uma parte de seu prprio corpo as confronta como um objeto estranho, ao qual, partindo de seu prprio narcisismo, podem ento dar um amor objetal completo. Existem 
ainda outras mulheres que no tm de esperar por um filho a fim de darem um passo no desenvolvimento do narcisismo (secundrio) para o amor objetal. Antes da puberdade, 
sentem-se masculinas e se desenvolvem de alguma forma ao longo de linhas masculinas; depois de essa tendncia ter sido interrompida de repente ao alcanarem a maturidade 
feminina, ainda retm a capacidade de anseio por um ideal masculino - ideal que  de fato uma sobrevivncia da natureza de menino que outrora possuram.
         O que eu disse at agora  guisa de indicao pode ser concludo por um breve sumrio dos caminhos que levam  escolha de um objeto.
         Uma pessoa pode amar:
         (1)Em conformidade com o tipo narcisista:
         (a) o que ela prpria  (isto , ela mesma),
         (b) o que ela prpria foi,
         (c) o que ela prpria gostaria de ser,
         (d) algum que foi uma vez parte dela mesma.
         (2)Em conformidade com o tipo anacltico (de ligao):
         (a) a mulher que a alimenta,
         (b) o homem que a protege,
         e a sucesso de substitutos que tomam o seu lugar. A incluso do caso (c) do primeiro tipo no pode ser justificada at uma etapa posterior deste exame. 
[ver em [1]]
         A significncia da escolha objetal narcisista para a homossexualidade nos homens deve ser considerada em relao a outra coisa.
         O narcisismo primrio das crianas por ns pressuposto e que forma um dos postulados de nossas teorias da libido  menos fcil de apreender pela observao 
direta do que de confirmar por alguma outra inferncia. Se prestarmos ateno  atitude de pais afetuosos para com os filhos, temos de reconhecer que ela  uma revivescncia 
e reproduo de seu prprio narcisismo, que de h muito abandonaram. O indicador digno de confiana constitudo pela supervalorizao, que j reconhecemos como um 
estigma narcisista no caso da escolha objetal, domina, como todos ns sabemos, sua atitude emocional. Assim eles se acham sob a compulso de atribuir todas as perfeies 
ao filho - o que uma observao sbria no permitiria - e de ocultar e esquecer todas as deficincias dele. (Incidentalmente, a negao da sexualidade nas crianas 
est relacionada a isso.) Alm disso, sentem-se inclinados a suspender, em favor da criana, o funcionamento de todas as aquisies culturais que seu prprio narcisismo 
foi forado a respeitar, e a renovar em nome dela as reivindicaes aos privilgios de h muito por eles prprios abandonados. A criana ter mais divertimentos 
que seus pais; ela no ficar sujeita s necessidades que eles reconheceram como supremas na vida. A doena, a morte, a renncia ao prazer, restries  sua vontade 
prpria no a atingiro; as leis da natureza e da sociedade sero ab-rogadas em seu favor; ela ser mais uma vez realmente o centro e o mago da criao - 'Sua Majestade 
o Beb', como outrora ns mesmos nos imaginvamos. A criana concretizar os sonhos dourados que os pais jamais realizaram - o menino se tornar um grande homem 
e um heri em lugar do pai, e a menina se casar com um prncipe como compensao para sua me. No ponto mais sensvel do sistema narcisista, a imortalidade do ego, 
to oprimida pela realidade, a segurana  alcanada por meio do refgio na criana. O amor dos pais, to comovedor e no fundo to infantil, nada mais  seno o 
narcisismo dos pais renascido, o qual, transformado em amor objetal, inequivocamente revela sua natureza anterior. 
         
                                                          III
         Os distrbios aos quais o narcisismo original de uma criana se acha exposto, as reaes com que ela procura proteger-se deles e os caminhos aos quais fica 
sujeita ao faz-lo - tais so os temas que proponho deixar de lado, como importante campo de trabalho ainda por explorar. Sua parte mais importante, contudo, pode 
ser isolada sob a forma do 'complexo de castrao' (nos meninos, a ansiedade em relao ao pnis; nas meninas, a inveja do pnis) e tratada em conexo com o efeito 
da coero inicial da atividade sexual. A pesquisa psicanaltica em geral nos permite reconstituir as vicissitudes sofridas pelos instintos libidinais quando estes, 
isolados dos instintos do ego, ficam em oposio a eles; mas no campo especfico do complexo de castrao, ela nos permite inferir a existncia de uma poca e de 
uma situao psquica nas quais os dois grupos de instintos, ainda atuando em unssono e inseparavelmente mesclados, surgem como interesses narcisistas. Foi desse 
contexto que Adler [1910] extraiu seu conceito de 'protesto masculino', quase elevando-o  posio de nica fora motora na formao tanto do carter quanto da neurose, 
e baseando-o no numa tendncia narcisista, e portanto ainda libidinal, mas numa valorizao social. A pesquisa psicanaltica reconheceu, desde o incio, a existncia 
e a importncia do 'protesto masculino' mas o tem considerado, contrariamente a Adler, como sendo narcisista em sua natureza e oriundo do complexo de castrao. 
O 'protesto masculino' est relacionado  formao do carter, em cuja gnese penetra juntamente com muitos outros fatores, sendo, contudo, inteiramente inadequado 
para explicar os problemas das neuroses, no tocante s quais Adler nada leva em conta, a no ser a maneira pela qual elas servem aos instintos do ego. Acho inteiramente 
impossvel situar a gnese da neurose na estreita base do complexo de castrao, por mais poderosamente que, nos homens, esse complexo ocupe o primeiro plano entre 
suas resistncias  cura de uma neurose. Incidentalmente, conheo casos de neuroses em que o 'protesto masculino' ou, como o encaramos, o complexo de castrao, 
no desempenha qualquer papel patognico, nem sequer chegando a aparecer.
         A observao de adultos normais revela que sua megalomania antiga foi arrefecida e que as caractersticas psquicas a partir das quais inferimos seu narcisismo 
infantil foram apagadas. Que aconteceu  libido do ego? Devemos supor que toda ela se converteu em catexias objetais? Essa possibilidade  claramente contrria ao 
encaminhamento de nossa argumentao; podemos, porm, encontrar uma sugesto em outra resposta para a pergunta na psicologia da represso.
         Sabemos que os impulsos instintuais libidinais sofrem a vicissitude da represso patognica se entram em conflito com as idias culturais e ticas do indivduo. 
Com isso, nunca queremos dizer que o indivduo em questo dispe de um conhecimento meramente intelectual da existncia de tais idias; sempre queremos dizer que 
ele as reconhece como um padro para si prprio, submetendo-se s exigncias que elas lhe fazem. A represso, como dissemos, provm do ego; poderamos dizer com 
maior exatido que provm do amor-prprio do ego. As mesmas impresses, experincias, impulsos e desejos aos quais um homem se entrega, ou que pelo menos elabora 
conscientemente, sero rejeitados com a maior indignao por outro, ou mesmo abafados antes que entrem na conscincia. A diferena entre os dois, que encerra o fator 
condicionante da represso, pode ser facilmente expressa em termos que permitem seja ela explicada pela teoria da libido. Podemos dizer que o primeiro homem fixou 
um ideal em si mesmo, pelo qual mede seu ego real, ao passo que o outro no formou qualquer ideal desse tipo. Para o ego, a formao de um ideal seria o fator condicionante 
da represso.
         Esse ego ideal  agora o alvo do amor de si mesmo (self-love) desfrutado na infncia pelo ego real. O narcisismo do indivduo surge deslocado em direo 
a esse novo ego ideal, o qual, como o ego infantil, se acha possudo de toda perfeio de valor. Como acontece sempre que a libido est envolvida, mais uma vez aqui 
o homem se mostra incapaz de abrir mo de uma satisfao de que outrora desfrutou. Ele no est disposto a renunciar  perfeio narcisista de sua infncia; e quando, 
ao crescer, se v perturbado pelas admoestaes de terceiros e pelo despertar de seu prprio julgamento crtico, de modo a no mais poder reter aquela perfeio, 
procura recuper-la sob a nova forma de um ego ideal. O que ele projeta diante de si como sendo seu ideal  o substituto do narcisismo perdido de sua infncia na 
qual ele era o seu prprio ideal.
         Somos naturalmente levados a examinar a relao entre essa formao de um ideal e a sublimao. A sublimao  um processo que diz respeito  libido objetal 
e consiste no fato de o instinto se dirigir no sentido de uma finalidade diferente e afastada da finalidade da satisfao sexual; nesse processo, a tnica recai 
na deflexo da sexualidade. A idealizao  um processo que diz respeito ao objeto; por ela, esse objeto, sem qualquer alterao em sua natureza,  engrandecido 
e exaltado na mente do indivduo. A idealizao  possvel tanto na esfera da libido do ego quanto na da libido objetal. Por exemplo, a supervalorizao sexual de 
um objeto  uma idealizao do mesmo. Na medida em que a sublimao descreve algo que tem que ver com o instinto, e a idealizao, algo que tem que ver com o objeto, 
os dois conceitos devem ser distinguidos um do outro.
         A formao de um ideal do ego  muitas vezes confundida com a sublimao do instinto, em detrimento de nossa compreenso dos fatos. Um homem que tenha trocado 
seu narcisismo para abrigar um ideal elevado do ego, nem por isso foi necessariamente bem-sucedido em sublimar seus instintos libidinais.  verdade que o ideal do 
ego exige tal sublimao, mas no pode fortalec-la; a sublimao continua a ser um processo especial que pode ser estimulado pelo ideal, mas cuja execuo  inteiramente 
independente de tal estmulo.  precisamente nos neurticos que encontramos as mais acentuadas diferenas de potencial entre o desenvolvimento de seu ideal do ego 
e a dose de sublimao de seus instintos libidinais primitivos; e em geral  muito mais difcil convencer um idealista a respeito da localizao inconveniente de 
sua libido do que um homem simples, cujas pretenses permaneceram mais moderadas. Alm disso, a formao de um ideal do ego e a sublimao se acham relacionadas, 
de forma bem diferente,  causao da neurose. Como vimos, a formao de um ideal aumenta as exigncias do ego, constituindo o fator mais poderoso a favor da represso; 
a sublimao  uma sada, uma maneira pela qual essas exigncias podem ser atendidas sem envolver represso. 
         No nos surpreenderamos se encontrssemos um agente psquico especial que realizasse a tarefa de assegurar a satisfao narcisista proveniente do ideal 
do ego, e que, com essa finalidade em vista, observasse constantemente o ego real, medindo-o por aquele ideal. Admitindo-se que esse agente de fato exista, de forma 
alguma seria possvel chegar a ele como se fosse uma descoberta - podemos to-somente reconhec-lo, pois podemos supor que aquilo que chamamos de nossa 'conscincia' 
possui as caractersticas exigidas. O reconhecimento desse agente nos permite compreender os chamados 'delrios de sermos notados' ou, mais corretamente, de sermos 
vigiados, que constituem sintomas to marcantes nas doenas paranides, podendo tambm ocorrer como uma forma isolada de doena, ou intercalados numa neurose de 
transferncia. Pacientes desse tipo queixam-se de que todos os seus pensamentos so conhecidos e suas aes vigiadas e supervisionadas; eles so informados sobre 
o funcionamento desse agente por vozes que caracteristicamente lhes falam na terceira pessoa ('Agora ela est pensando nisso de novo', 'Agora ele est saindo'). 
Essa queixa  justificada; ela descreve a verdade. Um poder dessa espcie, que vigia, que descobre e que critica todas as nossas intenes, existe realmente. Na 
realidade, existe em cada um de ns em nossa vida normal.
         Os delrios de estar sendo vigiado apresentam esse poder numa forma regressiva, revelando assim sua gnese e a razo por que o paciente fica revoltado contra 
ele, pois o que induziu o indivduo a formar um ideal do ego, em nome do qual sua conscincia atua como vigia, surgiu da influncia crtica de seus pais (transmitida 
a ele por intermdio da voz), aos quais vieram juntar-se,  medida que o tempo passou, aqueles que o educaram e lhe ensinaram, a inumervel e indefinvel coorte 
de todas as outras pessoas de seu ambiente - seus semelhantes - e a opinio pblica.
         Dessa forma, grandes quantidades de libido de natureza essencialmente homossexual so introduzidas na formao do ideal do ego narcisista, encontrando assim 
um escoadouro e satisfao em conserv-lo. A instituio da conscincia foi, no fundo, uma personificao, primeiro da crtica dos pais, e, subseqentemente, da 
sociedade - processo que se repete quando uma tendncia  represso se desenvolve de uma proibio ou obstculo que proveio, no primeiro caso, de fora. As vozes, 
bem como a multido indefinida, so reconduzidas ao primeiro plano pela doena, e assim a evoluo da conscincia se reproduz de forma regressiva. Mas a revolta 
contra esse 'agente de censura' brota no s do desejo, por parte do indivduo (de acordo com o carter fundamental de sua doena), de libertar-se de todas essas 
influncias, a comear pela dos pais, mas tambm do fato de retirar sua libido homossexual delas. A conscincia do paciente ento se confronta com ele de maneira 
regressiva, como sendo uma influncia hostil vinda de fora.
         As queixas feitas pelos paranicos tambm revelam que, no fundo, a autocrtica da conscincia coincide com a auto-observao na qual ela se baseia. Assim, 
a atividade da mente que assumiu a funo da conscincia tambm se coloca a servio da pesquisa interna, que proporciona  filosofia o material para as suas operaes 
intelectuais. Isso pode ter certa relao com a tendncia, caracterstica dos paranicos, de formar sistemas especulativos.
         Por certo ser de grande importncia para ns encontrar provas da atividade desse agente criticamente observador - que se torna elevada na conscincia e 
na introspeco filosfica - tambm em outros campos. Mencionarei aqui o que Herbert Silberer denominou de 'fenmeno funcional', um dos poucos acrscimos indiscutivelmente 
valiosos  teoria dos sonhos. Silberer, como sabemos, demonstrou que em estados entre o sono e a viglia podemos observar diretamente a traduo dos pensamentos 
em imagens visuais, mas que, nessas circunstncias, com freqncia temos a representao, no de um contedo do pensamento, mas do estado real (disposio, fadiga 
etc.) da pessoa que luta contra o sono. De forma semelhante, revelou que as concluses de alguns sonhos ou de algumas divises de seu contedo significam meramente 
a prpria percepo, por parte daquele que sonha, do seu estado de sono ou de viglia. Silberer demonstrou assim o papel desempenhado pela observao - no sentido 
dos delrios do paranico quanto a estar sendo vigiado - na formao dos sonhos. Esse papel no  constante. Provavelmente, desprezei-o por no desempenhar um papel 
relevante em meus prprios sonhos; nas pessoas filosoficamente dotadas e habituadas  introspeco ele pode tornar-se bastante evidente.
         Lembremo-nos aqui de j termos verificado que a formao de sonhos ocorre sob o domnio de uma censura que fora a distoro dos pensamentos onricos. No 
figuramos, contudo, essa censura como tendo um poder especial, mas escolhemos o termo para designar uma faceta das tendncias repressivas que regem o ego, a saber, 
a faceta que est voltada para os pensamentos onricos. Se penetrarmos ainda mais na estrutura do ego, tambm poderemos reconhecer, no ideal do ego e nas expresses 
orais dinmicas da conscincia, o censor dos sonhos. Se esse censor estiver, at certo ponto, alerta, mesmo durante o sono, poderemos compreender como sua atividade 
sugerida de auto-observao e de autocrtica - com pensamentos tais como 'agora ele est com muito sono para pensar', 'agora ele est despertando' - presta uma contribuio 
ao contedo do sonho.
         Nessa altura, podemos tentar um exame da atitude de auto-estima nas pessoas normais e nos neurticos.
         Em primeiro lugar, parece-nos que a auto-estima expressa o tamanho do ego; os vrios elementos que iro determinar esse tamanho so aqui irrelevantes. Tudo 
o que uma pessoa possui ou realiza, todo remanescente do sentimento primitivo de onipotncia que sua experincia tenha confirmado, ajuda-a a aumentar sua auto-estima.
         Aplicando nossa distino entre os instintos sexuais e os do ego, devemos reconhecer que a auto-estima depende intimamente da libido narcisista. Aqui somos 
apoiados por dois fatos fundamentais: o de que, nos parafrnicos, a auto-estima aumenta, enquanto que nas neuroses de transferncia ela se reduz; e o de que, nas 
relaes amorosas, o fato de no ser amado reduz os sentimentos de auto-estima, enquanto que o de ser amado os aumenta. Como j tivemos ocasio de assinalar, a finalid-ade 
e satisfao em uma escolha objetal narcisista consiste em ser amado.
         Alm disso,  fcil observar que a catexia objetal libidinal no eleva a auto-estima. A dependncia ao objeto amado tem como efeito a reduo daquele sentimento: 
uma pessoa apaixonada  humilde. Um indivduo que ama priva-se, por assim dizer, de uma parte de seu narcisismo, que s pode ser substituda pelo amor de outra pessoa 
por ele. Sob todos esses aspectos, a auto-estima parece ficar relacionada com o elemento narcisista do amor.
         A compreenso da impotncia, da prpria incapacidade de amar, em conseqncia de perturbao fsica ou mental, exerce um efeito extremamente diminuidor 
sobre a auto-estima. Aqui, em minha opinio, devemos procurar uma das fontes dos sentimentos de inferioridade experimentados por pacientes que sofrem de neuroses 
de transferncia, sentimentos que esses pacientes esto prontos a relatar. A principal fonte desses sentimentos , contudo, o empobrecimento do ego, por causa das 
enormes catexias libidinais dele retiradas - por causa, vale dizer, do dano sofrido pelo ego em funo de tendncias sexuais que j no esto sujeitas a controle.
         Adler [1907] tem razo quando sustenta que, quando uma pessoa dotada de vida mental ativa reconhece uma inferioridade em um de seus rgos, isso age como 
estmulo, provocando nessa pessoa um nvel mais elevado de realizao mediante supercompensao. Mas, definitivamente, incorreramos em exagero se, seguindo o exemplo 
de Adler, procurssemos atribuir toda realizao bem-sucedida a essa inferioridade original de um rgo. Nem todos os pintores so desfavorecidos por uma viso deficiente, 
e nem todos os oradores foram originariamente gagos. E existem numerosos exemplos de excelentes realizaes que brotam de propriedades orgnicas superiores. Na etiologia 
das neuroses, a inferioridade orgnica e o desenvolvimento imperfeito desempenham papel insignificante - semelhante ao desempenhado por material perceptual geralmente 
ativo na formao dos sonhos. As neuroses fazem uso de tais inferioridades como um pretexto, assim como o fazem em relao a qualquer outro fator que se preste a 
isso. Somos tentados a acreditar numa paciente neurtica quando ela nos diz que era inevitvel adoecer, visto que, por ser feia, deformada ou carente de encantos, 
ningum poderia am-la; logo, porm, outra neurtica nos prestar melhores esclarecimentos - pois persiste em sua neurose e em sua averso  sexualidade, embora 
parea mais desejvel, e seja, de fato, mais desejada, do que a mulher comum. Em sua maioria, as mulheres histricas so representantes atraentes e mesmo belas de 
seu sexo, ao passo que, por outro lado, a freqncia da fealdade, de defeitos orgnicos e de enfermidades nas classes inferiores da sociedade no aumenta a incidncia 
da doena neurtica entre elas.
         As relaes entre auto-estima e erotismo - isto , catexias objetais libidinais - podem ser expressas concisamente da seguinte forma. Devemos distinguir 
dois casos, conforme as catexias erticas sejam ego-sintnicas, ou, pelo contrrio, tenham sofrido represso. No primeiro caso (onde o uso feito da libido  ego-sintnico), 
o amor  avaliado como qualquer outra atividade do ego. O amar em si, na medida em que envolva anelo e privao, reduz a auto-estima, ao passo que ser amado, ser 
correspondido no amor, e possuir o objeto amado, eleva-a mais uma vez. Quando a libido  reprimida, sente-se a catexia ertica como grave esgotamento do ego; a satisfao 
do amor  impossvel e o reenriquecimento do ego s pode ser efetuado por uma retirada da libido de seus objetos. A volta da libido objetal ao ego e sua transformao 
no narcisismo representa, por assim dizer, um novo amor feliz; e, por outro lado, tambm  verdade que um verdadeiro amor feliz corresponde  condio primeira na 
qual a libido objetal e a libido do ego no podem ser distinguidas.
         A importncia e o grau de extenso dos tpicos constituem minha justificativa para acrescentar algumas poucas observaes de concatenao algo desconexa.
         O desenvolvimento do ego consiste num afastamento do narcisismo primrio e d margem a uma vigorosa tentativa de recuperao desse estado. Esse afastamento 
 ocasionado pelo deslocamento da libido em direo a um ideal do ego imposto de fora, sendo a satisfao provocada pela realizao desse ideal.
         Ao mesmo tempo, o ego emite as catexias objetais libidinais. Torna-se empobrecido em benefcio dessas catexias, do mesmo modo que o faz em benefcio do 
ideal do ego, e se enriquece mais uma vez a partir de suas satisfaes no tocante ao objeto, do mesmo modo que o faz, realizando seu ideal.
         Uma parte da auto-estima  primria - o resduo do narcisismo infantil; outra parte decorre da onipotncia que  corroborada pela experincia (a realizao 
do ideal do ego), enquanto uma terceira parte provm da satisfao da libido-objetal. 
         O ideal do ego impe severas condies  satisfao da libido por meio de objetos, pois ele faz com que alguns deles sejam rejeitados por seu censor como 
sendo incompatveis onde no se formou tal ideal, a tendncia sexual em questo aparece inalterada na personalidade sob a forma de uma perverso. Tornar a ser seu 
prprio ideal, como na infncia, no que diz respeito s tendncias sexuais no menos do que s outras - isso  o que as pessoas se esforam por atingir como sendo 
sua felicidade.
         O estar apaixonado consiste num fluir da libido do ego em direo ao objeto. Tem o poder de remover as represses e de reinstalar as perverses. Exalta 
o objeto sexual transformando-o num ideal sexual. Visto que, com o tipo objetal (ou tipo de ligao), o estar apaixonado ocorre em virtude da realizao das condies 
infantis para amar, podemos dizer que qualquer coisa que satisfaa essa condio  idealizada.
         O ideal sexual pode fazer parte de uma interessante relao auxiliar com o ideal do ego. Ele pode ser empregado para satisfao substitutiva onde a satisfao 
narcisista encontra reais entraves. Nesse caso, uma pessoa amar segundo o tipo narcisista de escolha objetal: amar o que foi outrora e no  mais, ou ento o que 
possui as excelncias que ela jamais teve (cf. (c) [ver em [1]]). A frmula paralela  que se acaba de mencionar diz o seguinte: o que possui a excelncia que falta 
ao ego para torn-lo ideal  amado. Esse expediente  de especial importncia para o neurtico, que, por causa de suas excessivas catexias objetais,  empobrecido 
em seu ego, sendo incapaz de realizar seu ideal do ego. Ele procura ento retornar, de seu prdigo dispndio da libido em objetos, ao narcisismo, escolhendo um ideal 
sexual segundo o tipo narcisista que possui as excelncias que ele no pode atingir. Isso  a cura pelo amor, que ele geralmente prefere  cura pela anlise. Na 
realidade, ele no pode crer em outro mecanismo de cura; em geral traz para o tratamento expectativas dessa espcie, dirigindo-as  pessoa do mdico. A incapacidade 
de amar do paciente, resultante de suas represses extensivas, naturalmente atrapalha um plano teraputico dessa natureza. Muitas vezes, se nos depara um resultado 
no pretendido quando, por meio do tratamento, o paciente  parcialmente liberado de suas represses: ele suspende o tratamento a fim de escolher um objeto amoroso, 
deixando que sua cura continue a se processar por uma vida em comum com quem ele ama. Poderamos ficar satisfeitos com esse resultado, se ele no trouxesse consigo 
todos os perigos de uma dependncia mutiladora em relao quele que o ajuda.
         O ideal do ego desvenda um importante panorama para a compreenso da psicologia de grupo. Alm do seu aspecto individual, esse ideal tem seu aspecto social; 
constitui tambm o ideal comum de uma famlia, uma classe ou uma nao. Ele vincula no somente a libido narcisista de uma pessoa, mas tambm uma quantidade considervel 
de sua libido homossexual,, que dessa forma retorna ao ego. A falta de satisfao que brota da no realizao desse ideal libera a libido homossexual, sendo esta 
transformada em sentimento de culpa (ansiedade social). Originalmente esse sentimento de culpa era o temor de punio pelos pais, ou, mais corretamente, o medo de 
perder o seu amor; mais tarde, os pais so substitudos por um nmero indefinido de pessoas. A freqente causao da parania por um dano ao ego, por uma frustrao 
da satisfao dentro da esfera do ideal do ego,  tornada assim mais inteligvel, bem como a convergncia da formao do ideal e da sublimao no ideal do ego, e 
ainda a involuo das sublimaes e a possvel transformao de ideais em perturbaes parafrnicas. 
         
         
         
         














ARTIGOS SOBRE METAPSICOLOGIA
         
         
         INTRODUO DO EDITOR INGLS
         
         Freud publicou o primeiro relato ampliado de seus conceitos sobre teoria psicolgica no stimo captulo de A Interpretao de Sonhos (1900a) (Edio Standard 
Brasileira, Vols. IV-V, IMAGO Editora, 1972), que incorpora, de forma transmudada, parte da substncia de seu 'Projeto' anterior e indito (1950a [1895]). Afora 
breves apreciaes ocasionais, como a do Captulo VI de seu livro sobre chistes (1905c), dez anos se passaram antes que ele tornasse a penetrar profundamente nos 
problemas tericos. A um artigo exploratrio sobre 'The Two Principles of Mental Functioning' (1911b) seguiram-se outras abordagens mais ou menos experimentais - 
na Parte III de sua anlise de Schreber (1911c), em seu artigo em ingls sobre o inconsciente (1912g), e na longa discusso sobre o narcisismo (1914c). Finalmente, 
na primavera e no vero de 1915, ele mais uma vez empreendeu uma exposio completa e sistemtica de suas teorias psicolgicas.
         Os cinco artigos que se seguem formam uma srie interligada. Conforme sabemos por uma nota de rodap ao quarto desses artigos (ver em [1]), fazem parte 
de uma coletnea que Freud havia originalmente planejado publicar em forma de livro sob o ttulo Zur Verbereitung einer Metapsychologie (Preliminares a uma Metapsicologia). 
Ele acrescenta que a inteno da srie era proporcionar um fundamento terico estvel  psicanlise.
         Embora os trs primeiros desses artigos tivessem sido publicados em 1915 e os dois ltimos em 1917, sabemos pelo Dr. Ernest Jones (1955, 208) que de fato 
todos foram escritos num perodo de cerca de sete semanas entre 15 de maro e 4 de maio de 1915. Tambm sabemos pelo Dr. Jones (ibid., 209) que mais sete artigos 
foram acrescentados  srie durante os trs meses seguintes, tendo sido toda a coletnea de doze concluda em 9 de agosto. Esses outros sete artigos, contudo, nunca 
foram publicados por Freud, parecendo provvel que numa data posterior ele os tenha destrudo, uma vez que no se encontrou vestgio algum dos mesmos. Na realidade, 
sua prpria existncia permaneceu desconhecida ou esquecida at que o Dr. Jones veio a examinar as cartas de Freud. Na poca em que escrevia, em 1915, manteve seus 
correspondentes (Abraham, Ferenczi e Jones) informados do seu andamento, mas parece existir apenas uma nica referncia aos mesmos depois, numa carta a Abraham, 
em novembro de 1917. Esta deve ter sido escrita mais ou menos na mesma poca da publicao dos dois ltimos artigos vindo a lume, e parece dar a entender que os 
sete outros ainda existiam e que ele ainda pretendia public-los, embora sentisse que o momento oportuno no havia chegado.
         Temos conhecimento dos assuntos tratados por cinco dos ltimos sete artigos: Conscincia, Ansiedade, Histeria de Converso, Neurose Obsessiva e as Neuroses 
de Transferncia em Geral, e podemos descobrir possveis referncias aos mesmos nos artigos remanescentes. Podemos at mesmo adivinhar os assuntos que talvez tenham 
sido abordados pelos dois artigos no especificados - a saber, Sublimao e Projeo (ou Parania) -, pois h aluses mais ou menos claras a eles. A coletnea dos 
doze artigos teria sido assim abrangente, tratando dos processos subjacentes na maioria das principais neuroses e psicoses (histeria de converso, histeria de angstia, 
neurose obsessiva, insanidade manaco-depressiva e parania) bem como nos sonhos, com os mecanismos mentais de represso, sublimao, introjeo e projeo, e com 
os dois sistemas mentais da conscincia e o inconsciente.
          difcil exagerar o que perdemos com o desaparecimento desses artigos. Havia uma conjuno sui generis de fatores favorveis na poca em que Freud os escreveu. 
Seu principal trabalho terico (o stimo captulo de A Interpretao de Sonhos) fora escrito quinze anos antes, numa etapa relativamente inicial de seus estudos 
psicolgicos. Agora, contudo, ele contava com cerca de vinte e cinco anos de experincia psicanaltica em que basear suas construes tericas, estando no pice 
de sua capacidade intelectual. E foi nessa poca que a circunstncia acidental da reduo de sua clnica, devida  irrupo da Primeira Guerra Mundial, lhe deu o 
necessrio lazer durante cinco meses, nos quais pde levar a cabo seu projeto. Uma tentativa de consolo reside, sem dvida, na reflexo de que grande parte do contedo 
dos artigos desaparecidos deve ter chegado aos escritos ulteriores de Freud. Mas muito daramos para possuir apreciaes conexas sobre assuntos tais como conscincia 
ou sublimao, em lugar das aluses dispersas e relativamente escassas com as quais temos, de fato, de nos contentar.
         Em vista da importncia especial dessa srie de artigos, a fidelidade de seu raciocnio e a ocasional obscuridade dos tpicos de que tratam, foram enviados 
esforos extraordinrios para exprimi-los com exatido. A traduo em todos os seus pormenores (e especialmente onde h trechos duvidosos) acompanhou to de perto 
o texto alemo quanto possvel, mesmo correndo o risco de tornar rida a sua leitura. (Termos no-ingleses como, por exemplo, 'o reprimido' e 'o mental' foram empregados 
com o mximo de liberdade.) Embora a verso publicada em 1925 tenha servido de base, a que se segue  uma traduo inteiramente nova. Tambm se afigurou razovel 
incluir mais do que a quantidade comum de material introdutrio, anotar o texto com o mximo de liberdade e, em particular, apresentar amplas referncias a outras 
partes dos escritos de Freud que possam lanar luz sobre quaisquer obscuridades. Uma relao dos seus trabalhos tericos mais importantes ser encontrada num apndice, 
no fim da srie (ver em [1]).
         Trechos das tradues publicadas em 1925 de 'Os Instintos e suas Vicissitudes', 'Represso' e 'Luto e Melancolia' foram includos em A General Selection 
from the Works of Sigmund Freud, de Rickman (1937, 79-98, 99-110 e 142-161). 
         
         
         
         
         






OS INSTINTOS E SUAS VICISSITUDES (1915)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         
         TRIEBE UND TRIEBSCHICKSALE
         (a)EDIES ALEMS:
         1915 Int. Z. Psychoanal., 3 (2), 84-100.
         1918 S.K.S.N., 4, 252-278. (1922, 2. ed.)
         1924 G.S., 5, 443-465.
         1924 Techinik und Metapsychol., 165-187.
         1931 Theoretische Schriften, 58-82.
         1946 G.W., 10, 210-232.
         (b)TRADUO INGLESA:
         'Instincts and their Vicissitudes'
         1925 C.P., 4, 69-83. (Trad. C.M. Baines.)
         
         A presente traduo inglesa, embora baseada na de 1925, foi amplamente reescrita.
         Freud comeou a escrever o presente artigo em 15 de maro de 1915; este e o seguinte ('Represso') foram concludos em 4 de abril.
         Deve-se observar,  guisa de prefcio, que aqui (e atravs de toda a Standard Edition) o termo ingls 'instinct' representa o alemo 'Trieb'. A escolha 
desse equivalente ingls de preferncia a possveis alternativas tais como drive ('impulso') ou urge ('nsia') vem examinada na Introduo Geral ao primeiro volume 
da edio. A palavra 'instinto', de qualquer maneira, no  empregada aqui no sentido que parece no momento ser o mais corrente entre os bilogos. Mas Freud assinala, 
no decorrer desse artigo, o significado que atribui  palavra assim traduzida. Inicialmente, ver em [1] adiante, no artigo 'O Inconsciente', ele prprio utiliza 
o termo alemo 'Instikt', embora possivelmente em sentido bem diferente.
         Verifica-se, contudo, uma ambigidade no uso, por Freud, do termo 'Trieb' ('instinto') e 'Triebreprsentanz' ('representante instintual'), para a qual se 
deve chamar a ateno, com o fito de assegurar uma melhor compreenso. Em [1] e [2] ele descreve instinto como sendo 'um conceito situado na fronteira entre o material 
e o somtico,... o representante psquico dos estmulos que se origne dentro do organismo e alcanam a mente.' Em duas ocasies anteriores ele j havia apresentado 
descries quase com as mesmas palavras. Alguns anos antes, perto do final da Seo III de seu exame do caso Schreber (1911c), descreveu o instinto como sendo 'o 
conceito na fronteira entre o somtico e o mental..., o representante psquico das foras orgnicas'. E, novamente, num trecho provavelmente escrito alguns meses 
antes do presente artigo, e acrescentado  terceira edio (publicada em 1915, mas com prefcio datado de 'Outubro de 1914') de seus Trs Ensaios (1905d), Edio 
Standard Brasileira, Vol. VII, pg. 171, IMAGO Editora, 1972, descreveu o instinto como sendo 'o representante psquico de uma fonte de estmulo endossomtica, continuamente 
a fluir... um conceito que se acha na fronteira entre o mental e o fsico'. Essas trs descries parecem tornar claro que Freud no estabelecia qualquer distino 
entre um instinto e seu 'representante psquico'. Aparentemente considerava o prprio instinto como sendo o representante psquico de foras somticas. Se agora, 
contudo, passarmos aos artigos ulteriores dessa srie, teremos a impresso de que Freud traa uma distino muito acentuada entre o instinto e seu representante 
psquico. Isso talvez seja indicado com o mximo de clareza num trecho de 'O Inconsciente' (ver em [1]): 'Um instinto jamais pode tornar-se um objeto da conscincia 
- somente a idia [Vorstellung] que representa o instinto  que pode. Mesmo no inconsciente, alm disso, um instinto no pode ser representado de outra forma seno 
por uma idia... Quando, no obstante, falamos de um impulso instintual inconsciente ou de um impulso instintual reprimido... referimo-nos apenas a um impulso instintual 
cujo representante ideacional  inconsciente'. Esse mesmo conceito aparece em muitos outros trechos. Por exemplo em 'Represso' (ver em [1]) Freud refere-se ao 'representante 
(ideacional) psquico do instinto' e prossegue: '...o representante em questo persiste inalterado e o instinto permanece ligado a ele'; e de novo, no mesmo artigo 
(ver em [1]), escreve sobre o representante instintual como sendo 'uma idia', ou grupo de idias, que  catexizada com uma quota definida de energia psquica (libido, 
interesse) proveniente de um instinto', e continua, dizendo que 'alm da idia, algum outro elemento que representa o instinto tem de ser levado em conta'. Nesse 
segundo grupo de citaes, portanto, o instinto no  mais considerado como sendo o representante psquico de impulsos somticos, mas antes como sendo ele prprio 
algo no-psquico. Esses dois conceitos, aparentemente divergentes, da natureza de um instinto encontram-se em diversas passagens dos escritos subseqentes de Freud, 
embora o segundo predomine. Pode ser, contudo, que a contradio seja mais aparente do que real, e que sua soluo esteja precisamente na ambigidade do prprio 
conceito - um conceito de fronteira entre o fsico e o mental.
         Num grande nmero de trechos, Freud expressou sua insatisfao diante do estado do conhecimento psicolgico sobre os instintos. No muito antes, por exemplo, 
em seu artigo sobre narcisismo (1914c, pg. 85 acima), ele se queixava da ausncia total de qualquer teoria dos instintos que nos ajude 'a encontrar nossa orientao'. 
Tambm depois, em Beyond the Pleasure Principle (1920g), Standard Ed., 18, 34, descreveu os instintos como 'o elemento ao mesmo tempo mais importante e mais obscuro 
da pesquisa psicolgica'; em seu artigo na Encyclopaedia Britannica (1926f ) confessou que 'tambm para a psicanlise a teoria dos instintos  uma regio obscura'. 
O presente artigo  uma tentativa relativamente antiga de lidar com o assunto de maneira abrangente. Seus muitos sucessores corrigiram-no e suplementaram-no em vrios 
pontos; no obstante, esse artigo permanece invicto como o relato mais claro da viso que Freud tinha dos instintos e da forma segundo a qual ele pensava que atuavam. 
Uma reflexo subseqente,  verdade, levou-o a alterar seus conceitos sobre a classificao dos instintos, bem como sobre suas determinantes mais profundas, mas 
esse artigo constitui base indispensvel para a compreenso dos desenvolvimentos que se seguiriam.
         O curso das alteraes pelas quais passaram as opinies de Freud sobre a classificao dos instintos talvez possa ser apropriadamente resumido aqui.  surpreendente 
que os instintos apaream explicitamente num ponto relativamente tardio da seqncia de seus escritos. O termo 'instinto' quase no  encontrado nas obras do perodo 
de Breuer, ou na correspondncia com Fliess, ou mesmo em A Interpretao de Sonhos (1900a). S a partir dos Trs Ensaios (1905d)  que o 'instinto sexual'  livremente 
mencionado como tal; os 'impulsos instintuais', que iriam tornar-se um dos termos mais comuns de Freud, parecem no ter aparecido antes do artigo sobre 'Obsessive 
Actions and Religions Practices' (1907b). Mas isso  primordialmente apenas um aspecto verbal: os instintos apareciam, naturalmente, sob outro nome. Empregavam-se 
amplamente em seu lugar expresses como 'excitaes', 'idias afetivas', 'impulsos anelantes', 'estmulos endgenos', e assim por diante. Por exemplo, traa-se adiante 
(ver em [1]) uma distino entre um 'estmulo', que atua como uma fora geradora de um impacto isolado, e um 'instinto', que sempre atua como constante. Essa distino 
precisa fora traada por Freud vinte anos antes com palavras quase idnticas, salvo que, em vez de 'estmulo' e 'instinto', ele se referiu a excitaes 'endgenas' 
e 'exgenas'. De forma semelhante, Freud ressalta adiante (ver em [1]) que o organismo primitivo no pode atuar de forma evasiva contra as necessidades instintuais 
como o faz contra estmulos externos. Tambm nesse caso ele previra a idia vinte anos antes, embora mais uma vez a expresso empregada fosse 'estmulos endgenos'. 
Esse segundo trecho, na Seo 1da Parte I do 'Projeto' (1950a [1895]), continua dizendo que esses estmulos endgenos 'tm sua origem nas clulas do corpo e do 
lugar s necessidades principais: fome, respirao e sexualidade', mas em nenhuma parte aparece o termo 'instinto'.
         O conflito subjacente s psiconeuroses foi, nesse perodo inicial, s vezes descrito como situado entre 'o ego' e a 'sexualidade', e embora o termo 'libido' 
fosse com freqncia empregado, o conceito era o de uma manifestao de 'tenso sexual somtica', que por sua vez era considerada como um evento qumico. Somente 
nos Trs Ensaios foi a libido explicitamente estabelecida como sendo uma expresso de instinto sexual. O outro elemento do conflito, 'o ego', permaneceu indefinido 
por muito tempo. Foi examinado principalmente em relao a suas funes - em particular a 'represso', a 'resistncia', e o 'teste da realidade' -, mas ( parte 
uma tentativa muito antiga na Seo 14 da Parte I do 'Projeto') pouco se disse quer da sua estrutura, quer da sua dinmica. Quase nunca fez referncia aos instintos 
'autopreservativos', salvo indiretamente em relao  teoria de que a libido se ligara a eles nas fases iniciais de seu desenvolvimento; e parecia no haver razo 
bvia para estabelecer uma conexo entre eles e o papel desempenhado pelo ego enquanto agente repressivo em conflitos neurticos. Ento, de modo aparentemente repentino, 
num breve artigo sobre perturbaes psicognicas da viso (1910i), Freud introduziu a expresso 'instintos do ego', identificando-os, por um lado, com os instintos 
autopreservativos, e, por outro, com a funo repressiva. A partir dessa poca, o conflito foi regularmente representado como estando entre dois conjuntos de instintos 
- os instintos da libido e os instintos do ego.
         A introduo do conceito de 'narcisismo', contudo, originou uma complicao. Em seu artigo sobre aquela teoria (1914c), Freud apresentou a idia da 'libido 
do ego' (ou 'libido narcisista') que catexiza o ego, em contraste com a 'libido objetal' que catexiza objetos (ver em [1] acima). Um trecho desse artigo (loc. cit.), 
bem como uma observao no presente artigo (ver em [1]), j revelam uma inquietao de sua parte quanto  possibilidade de sua classificao 'dualista' dos instintos 
perdurar.  verdade que na anlise de Schreber (1911c) ele insistia na diferena entre 'catexias do ego' e 'libido', e entre 'interesse que emana de fontes erticas' 
e 'interesse em geral' - distino que reaparece na rplica a Jung no artigo sobre narcisismo (pgs. 87-8) acima. O termo 'interesse'  empregado novamente no presente 
artigo (pg. 140); e na Conferncia XXVI das Introductory Lectures (1916-17) 'interesse do ego' ou simplesmente 'interesse'  em geral posto em contraste com 'libido'. 
No obstante, a natureza exata desses instintos no libidinais era obscura. O ponto crucial da classificao dos instintos feita por Freud foi alcanado em Beyond 
the Pleasure Principle (1920g). No Captulo VI daquela obra ele reconheceu francamente a dificuldade da posio que fora alcanada, declarando explicitamente que 
a 'libido narcisista era, sem dvida, uma manifestao da fora do instinto sexual' e que 'tinha de ser identificada com os "instintos autopreservativos."' (Standard 
Ed., 18, pg. 50 e segs.) Ainda sustentava, contudo, que havia instintos do ego e instintos objetais que no eram libidinais; e foi aqui que, ainda vinculado a um 
ponto de vista dualista, introduziu sua hiptese do instinto de morte. Um relato do desenvolvimento de seus conceitos sobre a classificao dos instintos at aquele 
ponto foi apresentado na longa nota de rodap no final do Captulo VI de Beyond the Pleasure Principle, Standard Ed., 18, 60-1, e uma ulterior discusso do assunto, 
 luz de seu quadro recm-concludo da estrutura da mente, ocupou o Captulo IV de The Ego and the Id (1923b). Percorreu todo o terreno mais uma vez com grandes 
detalhes no Captulo VI de O Mal-Estar na Civilizao (1930a) (Edio Standard Brasileira, Vol. XXI, IMAGO Editora, 1974), dispensando ali, pela primeira vez, especial 
considerao aos instintos agressivos e destrutivos. Antes prestara pouca ateno a eles, exceto onde (como no sadismo e no masoquismo) se achavam fundidos com elementos 
libidinais, mas agora os examinava em sua forma pura e os explicava como derivados do instinto de morte. Uma reviso ainda ulterior do assunto ser encontrada na 
segunda metade da Conferncia XXXII das New Introductory Lectures (1933a) e num resumo final, no Captulo II, da obra pstuma Esboo de Psicanlise (1940a [1938]) 
(Edio Standard Brasileira, Vol. XXIII, IMAGO Editora, 1974.)
         
         OS INSTINTOS E SUAS VICISSITUDES
         
         Ouvimos com freqncia a afirmao de que as cincias devem ser estruturadas em conceitos bsicos claros e bem definidos. De fato, nenhuma cincia, nem 
mesmo a mais exata, comea com tais definies. O verdadeiro incio da atividade cientfica consiste antes na descrio dos fenmenos, passando ento a seu agrupamento, 
sua classificao e sua correlao. Mesmo na fase de descrio no  possvel evitar que se apliquem certas idias abstratas ao material manipulado, idias provenientes 
daqui e dali, mas por certo no apenas das novas observaes. Tais idias - que depois se tornaro os conceitos bsicos da cincia - so ainda mais indispensveis 
 medida que o material se torna mais elaborado. Devem, de incio, possuir necessariamente certo grau de indefinio; no pode haver dvida quanto a qualquer delimitao 
ntida de seu contedo. Enquanto permanecem nessa condio, chegamos a uma compreenso acerca de seu significado por meio de repetidas referncias ao material de 
observao do qual parecem ter provindo, mas ao qual, de fato, foram impostas. Assim, rigorosamente falando, elas so da natureza das convenes - embora tudo dependa 
de no serem arbitrariamente escolhidas mas determinadas por terem relaes significativas com o material emprico, relaes que parecemos sentir antes de podermos 
reconhec-las e determin-las claramente. S depois de uma investigao mais completa do campo de observao, somos capazes de formular seus conceitos cientficos 
bsicos com exatido progressivamente maior, modificando-os de forma a se tornarem teis e coerentes numa vasta rea. Ento, na realidade, talvez tenha chegado o 
momento de confin-los em definies. O avano do conhecimento, contudo, no tolera qualquer rigidez, inclusive em se tratando de definies. A fsica proporciona 
excelente ilustrao da forma pela qual mesmo 'conceitos bsicos', que tenham sido estabelecidos sob a forma de definies, esto sendo constantemente alterados 
em seu contedo.
         Um conceito bsico convencional dessa espcie, que no momento ainda  algo obscuro, mas que nos  indispensvel na psicologia,  o de um 'instinto'. Tentemos 
dar-lhe um contedo, abordando-o de diferentes ngulos. 
         Em primeiro lugar, do ngulo da fisiologia. Isso nos forneceu o conceito de um 'estmulo' e o modelo do arco reflexo, segundo o qual um estmulo aplicado 
ao tecido vivo (substncia nervosa) a partir de fora  descarregado por ao para fora. Essa ao  conveniente na medida em que, afastando a substncia estimulada 
da influncia do estmulo, remove-a de seu raio de atuao.
         Qual a relao do 'instinto' com o 'estmulo'? Nada existe que nos impea de subordinar o conceito de 'instinto' ao de 'estmulo' e de afirmar que um instinto 
 um estmulo aplicado  mente. Mas de imediato ficamos prevenidos contra igualar instinto e estmulo mental. Existem evidentemente outros estmulos  mente, alm 
daqueles de natureza instintual, estmulos que se comportam muito mais como fisiolgicos. Por exemplo, a luz forte que incide sobre a vista no  um estmulo instintual; 
j a secura da membrana mucosa da faringe ou a irritao da membrana mucosa do estmago o so.
         Obtivemos agora o material necessrio para traarmos uma distino entre os estmulos instintuais e outros estmulos (fisiolgicos) que atuam na mente. 
Em primeiro lugar, um estmulo instintual no surge do mundo exterior, mas de dentro do prprio organismo. Por esse motivo ele atua diferentemente sobre a mente, 
e diferentes aes se tornam necessrias para remov-lo. Alm disso, tudo que  essencial num estmulo fica encoberto, se presumimos que ele atua com um impacto 
nico, podendo ser removido por uma nica ao conveniente. Um exemplo tpico disso  a fuga motora proveniente da fonte de estimulao. Esses impactos podem, como 
 natural, ser repetidos e acrescidos, mas isso em nada modifica nossa noo a respeito do processo e as condies para a eliminao do estmulo. Um instinto, por 
outro lado, jamais atua como uma fora que imprime um impacto momentneo, mas sempre como um impacto constante. Alm disso, visto que ele incide no a partir de 
fora mas de dentro do organismo, no h como fugir dele. O melhor termo para caracterizar um estmulo instintual seria 'necessidade'. O que elimina uma necessidade 
 a 'satisfao'. Isso pode ser alcanado apenas por uma alterao apropriada ('adequada') da fonte interna de estimulao.
         Imaginemo-nos na situao de um organismo vivo quase inteiramente inerme, at ento sem orientao no mundo, que esteja recebendo estmulos em sua substncia 
nervosa. Esse organismo muito em breve estar em condies de fazer uma primeira distino e uma primeira orientao. Por um lado, estar cnscio de estmulos que 
podem ser evitados pela ao muscular (fuga); estes, ele os atribui a um mundo externo. Por outro, tambm estar cnscio de estmulos contra os quais tal ao no 
tem qualquer valia e cujo carter de constante presso persiste apesar dela; esses estmulos so os sinais de um mundo interno, a prova de necessidadess instintuais. 
A substncia perceptual do organismo vivo ter assim encontrado, na eficcia de sua atividade muscular, uma base para distinguir entre um 'de fora' e um 'de dentro'.
         Chegamos assim  natureza essencial dos instintos, considerando em primeiro lugar suas principais caractersticas - sua origem em fontes de estimulao 
dentro do organismo e seu aparecimento como uma fora constante - e disso deduzimos uma de suas outras caractersticas, a saber, que nenhuma ao de fuga prevalece 
contra eles. No decorrer do presente exame, contudo, no podemos deixar de nos surpreender com alguma coisa que nos obriga a admitir algo mais. Para nossa orientao, 
ao lidarmos com o campo de fenmenos psicolgicos no nos limitamos a aplicar ao nosso material emprico certas convenes  guisa de conceitos bsicos; tambm empregamos 
um bom nmero de postulados complicados. J fizemos aluso ao mais importante destes, bastando-nos agora enunci-lo expressamente. Esse postulado  de natureza biolgica 
e utiliza o conceito de 'finalidade' (ou talvez de convenincia), podendo ser enunciado da seguinte maneira: o sistema nervoso  um aparelho que tem por funo livrar-se 
dos estmulos que lhe chegam, ou reduzi-los ao nvel mais baixo possvel; ou que, caso isso fosse vivel, se manteria numa condio inteiramente no-estimulada. 
No faamos objeo por enquanto  indefinio dessa idia e atribuamos ao sistema nervoso a tarefa - falando em termos gerais - de dominar estmulos. Vemos ento 
at que ponto o modelo simples do reflexo fisiolgico se complica com a introduo dos instintos. Os estmulos externos impem uma nica tarefa: a de afastamento; 
isso  realizado por movimentos musculares, um dos quais finalmente atinge esse objetivo e, sendo o movimento conveniente, torna-se a partir da uma disposio hereditria. 
No podemos aplicar esse mecanismo ao estmulos instintuais, que se originam de dentro do organismo. Estes exigem muito mais do sistema nervoso, fazendo com que 
ele empreenda atividades complexas e interligadas, pelas quais o mundo externo se modifica de forma a proporcionar satisfao  fonte interna de estimulao. Acima 
de tudo, obrigam o sistema nervoso a renunciar  sua inteno ideal de afastar os estmulos, pois mantm um fluxo incessante e inevitvel de estimulao. Podemos, 
portanto, concluir que os instintos, e no os estmulos externos, constituem as verdadeiras foras motrizes por detrs dos progressos que conduziram o sistema nervoso, 
com sua capacidade ilimitada, a seu alto nvel de desenvolvimento atual. Naturalmente, nada existe que nos impea de supor que os prprios instintos sejam, pelo 
menos em parte, precipitados dos efeitos da estimulao externa, que no decorrer da filognese ocasionaram modificaes na substncia viva.
         Quando ainda verificamos que at mesmo a atividade do aparelho mental mais desenvolvido est sujeita ao princpio de prazer, isto , que ela  automaticamente 
regulada por sentimentos pertencentes  srie prazer-desprazer, quase no podemos rejeitar a hiptese ulterior, segundo a qual esses sentimentos refletem a maneira 
pela qual o processo de dominao de estmulos se verifica - certamente no sentido de que os sentimentos desagradveis esto ligados a um aumento e os sentimentos 
agradveis a uma diminuio do estmulo. Preservaremos cuidadosamente, contudo, essa suposio em sua atual forma altamente indefinida, at conseguirmos, caso possvel, 
descobrir que espcie de relao existe entre o prazer e o desprazer, por um lado, e flutuaes nas quantidades de estmulo que afetam a vida mental, por outro. 
 certo que grande nmero de vrias relaes dessa espcie, e relaes no muito simples, so possveis. 
         Se agora nos dedicarmos a considerar a vida mental de um ponto de vista biolgico, um 'instinto' nos aparecer como sendo um conceito situado na fronteira 
entre o mental e o somtico, como o representante psquico dos estmulos que se originam dentro do organismo e alcanam a mente, como uma medida da exigncia feita 
 mente no sentido de trabalhar em conseqncia de sua ligao com o corpo.
         Estamos agora em condies de examinar certos termos utilizados com referncia ao conceito de instinto - por exemplo, sua 'presso', sua 'finalidade', seu 
'objeto' e sua 'fonte'.
         Por presso [Drang] de um instinto compreendemos seu fator motor, a quantidade de fora ou a medida da exigncia de trabalho que ela representa. A caracterstica 
de exercer presso  comum a todos os instintos; , de fato, sua prpria essncia. Todo instinto  uma parcela de atividade; se falarmos em termos gerais de instintos 
passivos, podemos apenas querer dizer instintos cuja finalidade  passiva.
         A finalidade [Ziel] de um instinto  sempre satisfao, que s pode ser obtida eliminando-se o estado de estimulao na fonte do instinto. Mas, embora a 
finalidade ltima de cada instinto permanea imutvel, poder ainda haver diferentes caminhos conducentes  mesma finalidade ltima, de modo que se pode verificar 
que um instinto possui vrias finalidades mais prximas ou intermedirias, que so combinadas ou intercambiadas umas com as outras. A experincia nos permite tambm 
falar de instintos que so 'inibidos em sua finalidade', no caso de processos aos quais se permite progredir no sentido da satisfao instintual, sendo ento inibidos 
ou defletidos. Podemos supor que mesmo processos dessa espcie envolvem uma satisfao parcial.
         O objeto [Objekt] de um instinto  a coisa em relao  qual ou atravs da qual o instinto  capaz de atingir sua finalidade.  o que h de mais varivel 
num instinto e, originalmente, no est ligado a ele, s lhe sendo destinado por ser peculiarmente adequado a tornar possvel a satisfao. O objeto no  necessariamente 
algo estranho: poder igualmente ser uma parte do prprio corpo do indivduo. Pode ser modificado quantas vezes for necessrio no decorrer das vicissitudes que o 
instinto sofre durante sua existncia, sendo que esse deslocamento do instinto desempenha papis altamente importantes. Pode acontecer que o mesmo objeto sirva para 
a satisfao de vrios instintos simultaneamente, um fenmeno que Adler [1908] denominou de 'confluncia' de instintos [Triebverschrnkung]. Uma ligao particularmente 
estreita do instinto com seu objeto se distingue pelo termo 'fixao'. Isso freqentemente ocorre em perodos muito iniciais do desenvolvimento de um instinto, pondo 
fim  sua modalidade por meio de sua intensa oposio ao desligamento.
         Por fonte [Quelle] de um instinto entendemos o processo somtico que ocorre num rgo ou parte do corpo, e cujo estmulo  representado na vida mental por 
um instinto. No sabemos se esse processo  invariavelmente de natureza qumica ou se pode tambm corresponder  liberao de outras foras, por exemplo, foras 
mecnicas. O estudo das fontes dos instintos est fora do mbito da psicologia. Embora os instintos sejam inteiramente determinados por sua origem numa fonte somtica, 
na vida mental ns os conhecemos apenas por suas finalidades. O conhecimento exato das fontes de um instinto no  invariavelmente necessrio para fins de investigao 
psicolgica; por vezes sua fonte pode ser inferida de sua finalidade.
         Devemos supor que os diferentes instintos que se originam no corpo e atuam na mente so tambm distinguidos por qualidades diferentes, e que por isso se 
comportam de formas qualitativamente diferentes na vida mental? Essa suposio no parece ser justificada;  muito mais provvel que achemos suficiente a suposio 
mais simples - a de que todos os instintos so qualitativamente semelhantes e devem o efeito que causam somente  quantidade de excitao que trazem em si, ou talvez, 
alm disso, a certas funes dessa quantidade. O que distingue uns dos outros os efeitos mentais produzidos pelos vrios instintos, pode ser encontrado a partir 
da diferena em suas fontes. Seja como for, s numa relao ulterior seremos capazes de esclarecer o que significa o problema da qualidade dos instintos.
         Que instintos devemos supor que existem, e quantos?  bvio que isso d ampla margem a escolhas arbitrrias. No se pode objetar a que qualquer pessoa empregue 
o conceito de um instinto ldico ou de destruio ou de estado gregrio, quando o assunto o exige e as limitaes da anlise psicolgica o permitem. No obstante, 
no devemos deixar de nos perguntar se motivos instintuais como esses, to altamente especializados, por um lado, no permitem ulterior dissecao de acordo com 
as fontes do instinto, de modo que somente os instintos primordiais - os que no podem ser ulteriormente dissecados - podem reivindicar importncia.
         Propus que se distingam dois grupos de tais instintos primordiais: os instintos do ego, ou autopreservativos, e os instintos sexuais. Mas essa suposio 
no tem status de postulado necessrio, como tem, por exemplo, nossa suposio sobre a finalidade biolgica do aparelho mental (ver em [1] e [2]); ela no passa 
de uma hiptese de trabalho, a ser conservada apenas enquanto se mostrar til, e pouca diferena far aos resultados do nosso trabalho de descrio e classificao 
se for substituda por outra. A ocasio para essa hiptese surgiu no decurso da evoluo da psicanlise, que foi empregada pela primeira vez nas psiconeuroses, ou, 
mais precisamente, no grupo descrito como 'neuroses de transferncia' (histeria e neurose obsessiva); estas revelaram que, na raiz de todas as afeces desse tipo, 
se encontra um conflito entre as exigncias da sexualidade e as do ego.  sempre possvel que um estudo exaustivo das outras afeces neurticas (em especial das 
psiconeuroses narcisistas, das esquizofrenias) possa obrigar-nos a alterar essa frmula e proceder a uma diferente classificao dos instintos primordiais. Mas, 
por enquanto, no conhecemos essa frmula, nem encontramos qualquer argumento desfavorvel para traar esse contraste entre os instintos sexuais e os do ego.
         Tenho as maiores dvidas de que se possa chegar a indicadores decisivos para a diferenciao e classificao dos instintos a partir da elaborao do material 
psicolgico. Essa prpria elaborao parece exigir, at certo ponto, a aplicao de suposies definidas, concernentes  vida instintual, quele material, e seria 
desejvel que essas suposies pudessem ser extradas de algum outro ramo de conhecimento e levadas para a psicologia. Aqui, a contribuio da biologia por certo 
no vai de encontro  distino entre os instintos sexuais e os do ego. A biologia ensina que a sexualidade no deve ser colocada em p de igualdade com outras funes 
do indivduo, pois suas finalidades ultrapassam o indivduo e tm como seu contedo a produo de novos indivduos - isto , a preservao da espcie. Ela mostra, 
ainda, que dois conceitos, ao que tudo indica igualmente bem fundamentados, podem ser adotados quanto  relao entre o ego e a sexualidade. De um ponto de vista, 
o indivduo  a coisa principal, sendo a sexualidade uma das suas atividades e a satisfao sexual uma de suas necessidades; ao passo que, de outro ponto de vista, 
o indivduo  um apndice temporrio e passageiro do idioplasma quase imortal, que  confiado a ele pelo processo de gerao. A hiptese de que a funo sexual difere 
de outros processos corpreos em virtude de uma qumica especial tambm , creio eu, um postulado da escola de pesquisa biolgica de Ehrlich. 
         Visto que um estudo da vida instintual a partir da direo da conscincia apresenta dificuldades quase insuperveis, a principal fonte de nossos conhecimentos 
continua a ser a investigao psicanaltica das perturbaes mentais. A psicanlise, contudo, em conseqncia do curso tomado pelo seu desenvolvimento, at agora 
s tem sido capaz de nos proporcionar informaes de natureza razoavelmente satisfatria acerca dos instintos sexuais, pois este  precisamente o nico grupo que 
pode ser observado isoladamente, por assim dizer, nas psiconeuroses. Com a extenso da psicanlise s outras afeces neurticas, sem dvida, encontraremos tambm 
uma base para o nosso conhecimento dos instintos do ego, embora seja temerrio esperar condies de observao igualmente favorveis nesse outro campo de pesquisa.
         Isso  tudo que pode ser dito  guisa de uma caracterizao geral dos instintos sexuais. So numerosos, emanam de grande variedade de fontes orgnicas, 
atuam em princpio independentemente um do outro e s alcanam uma sntese mais ou menos completa numa etapa posterior. A finalidade pela qual cada um deles luta 
 a consecuo do 'prazer do rgo', somente quando a sntese  alcanada  que eles entram a servio da funo reprodutora, tornando-se ento identificveis, de 
modo geral, como instintos sexuais. Logo que surgem, esto ligados aos instintos da autopreservao, dos quais s gradativamente se separam; tambm na sua escolha 
objetal, seguem os caminhos indicados pelos instintos do ego. Parte deles permanece associada aos instintos do ego pela vida inteira, fornecendo-lhes componentes 
libidinais, que, no funcionamento normal, escapam  observao com facilidade, s sendo revelados de maneira clara no incio da doena. Distinguem-se por possurem 
em ampla medida a capacidade de agir vicariamente uns pelos outros, e por serem capazes de mudar prontamente de objetos. Em conseqncia dessas ltimas propriedades, 
so capazes de funes que se acham muito distantes de suas aes intencionais originais - isto , capazes de 'sublimao'.  
         Nossa investigao sobre as vrias vicissitudes pelas quais passam os instintos no processo de desenvolvimento e no decorrer da vida deve ficar confinada 
aos instintos sexuais, que nos so mais familiares. A observao nos mostra que um instinto pode passar pelas seguintes vicissitudes:
         Reverso a seu oposto.
         Retorno em direo ao prprio eu (self) do indivduo.
         Represso.
         Sublimao.
         Visto que no pretendo tratar aqui da sublimao e que a represso exige um captulo especial [cf. o artigo seguinte,ver em [1]], resta-nos apenas descrever 
e examinar os dois primeiros pontos. Tendo em mente a existncia de foras motoras que impedem que um instinto seja elevado at o fim de forma no modificada, tambm 
podemos considerar essas vicissitudes como modalidades de defesa contra os instintos.
         A reverso de um instinto a seu oposto transforma-se, mediante um exame mais detido, em dois processos diferentes: uma mudana da atividade para a passividade 
e uma reverso de seu contedo. Os dois processos, sendo diferentes em sua natureza, devem ser tratados separadamente.
         Encontram-se exemplos do primeiro processo nos dois pares de opostos: sadismo-masoquismo e escopofilia-exibicionismo. A reverso afeta apenas as finalidades 
dos instintos. A finalidade ativa (torturar, olhar),  substituda pela finalidade passiva (ser torturado, ser olhado). A reverso do contedo encontra-se no exemplo 
isolado da transformao do amor em dio.
         O retorno de um instinto em direo ao prprio eu (self) do indivduo se torna plausvel pela reflexo de que o masoquismo , na realidade, o sadismo que 
retorna em direo ao prprio ego do indivduo, e de que o exibicionismo abrange o olhar para o seu prprio corpo. A observao analtica, realmente, no nos deixa 
duvidar de que o masoquista partilha da fruio do assalto a que  submetido e de que o exibicionista partilha da fruio de [a viso de] sua exibio. A essncia 
do processo , assim, a mudana do objeto, ao passo que a finalidade permanece inalterada. No podemos deixar de observar, contudo, que, nesses exemplos, o retorno 
em direo ao eu do indivduo e a transformao da atividade em passividade convergem ou coincidem. 
         Para elucidar a situao, faz-se essencial uma investigao mais completa.
         No caso do par de opostos sadismo-masoquismo, o processo pode ser representado da seguinte maneira:
         (a) O sadismo consiste no exerccio de violncia ou poder sobre uma outra pessoa como objeto.
         (b) Esse objeto  abandonado e substitudo pelo eu do indivduo. Com o retorno em direo ao eu, efetua-se tambm a mudana de uma finalidade instintual 
ativa para uma passiva.
         (c) Uma pessoa estranha  mais uma vez procurada como objeto; essa pessoa, em conseqncia da alterao que ocorreu na finalidade instintual, tem de assumir 
o papel do sujeito.
         O caso (c)  o que comumente se denomina de masoquismo. Tambm aqui a satisfao segue o caminho do sadismo original, voltando o ego passivo, em fantasia, 
ao seu papel inicial, que foi agora, de fato, assumido pelo sujeito estranho. Se existe, alm disso, uma satisfao masoquista mais direta,  muito duvidoso. Um 
masoquismo primrio, no derivado do sadismo na forma que descrevi, no parece ser encontrado. Veremos que no  suprfluo presumir a existncia da fase (b) pelo 
comportamento do instinto sdico na neurose obsessiva. Ali existe um retorno em direo ao eu do sujeito sem uma atitude de passividade para com outra pessoa: a 
modificao s vai at a fase (b). O desejo de torturar transforma-se em autotortura e autopunio, no em masoquismo. A voz ativa muda, no para a passiva, mas 
para a voz reflexiva mdia.
         Nosso conceito de sadismo fica ainda mais prejudicado pela circunstncia de que esse instinto, lado a lado com sua finalidade geral (ou talvez, de preferncia, 
dentro dela) parece esforar-se pela realizao de uma finalidade bem especial - no s humilhar e dominar, como tambm, alm disso, infligir dor. A psicanlise 
pareceria demonstrar que infligir dor no desempenha um papel entre as aes intencionais originais do instinto. Uma criana sdica no se apercebe de que inflige 
dor ou no, nem pretende faz-lo. Mas, uma vez ocorrida a transformao em masoquismo, a dor  muito apropriada para proporcionar uma finalidade masoquista passiva, 
pois temos todos os motivos para acreditar que as sensaes de dor, assim como outras sensaes desagradveis, beiram a excitao sexual e produzem uma condio 
agradvel, em nome da qual o sujeito, inclusive, experimentar de boa vontade o desprazer da dor. Uma vez que sentir dor se transforme numa finalidade masoquista, 
a finalidade sdica de causar dor tambm pode surgir, retrogressivamente, pois, enquanto essas dores esto sendo infligidas a outras pessoas, so frudas masoquisticamente 
pelo sujeito atravs da identificao dele com o objeto sofredor. Em ambos os casos, naturalmente, no  a dor em si que  fruda, mas a excitao sexual concomitante 
- de modo que isso pode ser feito de uma maneira especialmente conveniente a partir da posio sdica. A fruio da dor seria, assim, uma finalidade originalmente 
masoquista, que s pde tornar-se uma finalidade instintual em algum que era originalmente sdico.
         A bem da inteireza, posso acrescentar que os sentimentos de piedade no podem ser descritos como sendo o resultado de uma transformao do instinto que 
ocorre no sadismo, mas carecem da idia de uma formao de reao contra esse instinto. (Quanto  diferena, ver adiante.)
         Achados bem mais simples e diferentes so proporcionados pela investigao de outro par de opostos - os instintos cuja finalidade respectiva  olhar e exibir-se 
(escopofilia e exibicionismo, na linguagem das perverses). Aqui novamente podemos postular as mesmas fases como no exemplo anterior: - (a) O olhar como uma atividade 
dirigida para um objeto estranho. (b) O desistir do objeto e dirigir o instinto escopoflico para uma parte do prprio corpo do sujeito; com isso, transformao 
no sentido de passividade e o estabelecimento de uma nova finalidade - a de ser olhado. (c) Introduo de um novo sujeito diante do qual a pessoa se exibe a fim 
de ser olhada por ele. Tambm aqui dificilmente se pode duvidar de que a finalidade ativa surge antes da passiva, de que o olhar precede o ser olhado. Mas existe 
uma importante divergncia com respeito ao que acontece no caso do sadismo, pelo fato de que podemos reconhecer no caso do instinto escopoflico uma fase ainda mais 
anterior  descrita em (a). Para o incio de sua atividade, o instinto escopoflico  auto-ertico; ele possui na realidade um objeto, mas esse objeto  parte do 
prprio corpo do sujeito. S mais tarde  que o instinto  levado, por um processo de comparao, a trocar esse objeto por uma parte anloga do corpo de outrem - 
fase (a). Essa fase preliminar  interessante porque constitui a fonte de ambas as situaes representadas no par de opostos resultante, uma ou outra dependendo 
do elemento modificado na situao original. O que se segue poderia servir de quadro diagramtico do instinto escopoflico:
         
         () Algum olhando para um rgo sexual 
         = Um rgo sexual sendo olhado por algum
         
         () Algum olhando para um objeto estranho (escopofilia ativa)
         
         () Um objeto que  algum ou parte de algum sendo olhado por uma pessoa estranha (exibicionismo)
         
         Esse tipo de fase preliminar se acha ausente no sadismo, que desde o comeo  dirigido para um objeto estranho, embora talvez no fosse inteiramente absurdo 
compor tal fase a partir dos esforos da criana para obter controle sobre seus prprios membros.
         No tocante a ambos os instintos que acabamos de tomar como exemplos, deve-se observar que sua transformao por uma reverso da atividade para a passividade 
e por um retorno em direo ao sujeito nunca implica, de fato, toda a quota do impulso instintual. A direo ativa anterior do instinto persiste, em certa medida, 
lado a lado com sua direo passiva ulterior, mesmo quando o processo de sua transformao tenha sido muito extenso. A nica afirmao correta a fazer sobre o instinto 
escopoflico seria a de que todas as fases de seu desenvolvimento, tanto sua fase preliminar auto-ertica quanto sua forma ativa ou passiva final, coexistem lado 
a lado; e a verdade disso se tornar evidente se basearmos nossa opinio, no nas aes s quais o instinto conduz, mas no mecanismo de sua satisfao. Talvez, contudo, 
seja admissvel encarar o assunto e represent-lo ainda de outra forma. Podemos dividir a vida de cada instinto numa srie de ondas sucessivas isoladas, cada uma 
delas homognea durante o perodo de tempo que possa vir a durar, qualquer que seja ele, e cuja relao de umas com as outras  comparvel  de sucessivas erupes 
de lava. Podemos ento talvez figurar a primeira erupo original do instinto como se processando de forma inalterada, sem experimentar qualquer desenvolvimento. 
A onda seguinte seria modificada desde o incio - sendo transformada, por exemplo, de ativa em passiva -, e seria ento, com essa nova caracterstica, acrescentada 
 onda anterior, e assim por diante. Se fssemos ento proceder a um levantamento do impulso instintual desde seu comeo at um determinado ponto, a sucesso de 
ondas que descrevemos inevitavelmente apresentaria o quadro de um desenvolvimento definido do instinto.
         O fato de que, nesse perodo ulterior de desenvolvimento de um impulso instintual, seu oposto (passivo) possa ser observado ao lado dele merece ser assinalado 
pelo termo bem adequado introduzido por Bleuler - 'ambivalncia'. Essa referncia  histria do desenvolvimento dos instintos e a permanncia de suas fases intermedirias 
deve tornar o desenvolvimento dos instintos razoavelmente inteligvel para ns. A experincia mostra que a quantidade de ambivalncia demonstrvel varia muito entre 
indivduos, grupos e raas. A acentuada ambivalncia instintual num ser humano que vive nos dias atuais pode ser considerada como uma herana arcaica, pois temos 
motivos para supor que o papel desempenhado na vida instintual pelos impulsos ativos em sua forma inalterada foi maior nos tempos primevos do que  em mdia hoje 
em dia.
         Ficamos habituados a denominar a fase inicial do desenvolvimento do ego, durante a qual seus instintos sexuais encontram satisfao auto-ertica, de 'narcisismo', 
sem de imediato travarmos um debate sobre a relao entre o auto-erotismo e o narcisismo. Segue-se que a fase preliminar do instinto escopoflico, na qual o prprio 
corpo do sujeito  o objeto da escopofilia, deve ser classificada sob o narcisismo, e que devemos descrev-la como uma formao narcisista. O instinto escopoflico 
ativo desenvolve-se a partir da, deixando o narcisismo para trs. O instinto escopoflico passivo, pelo contrrio, aferra-se ao objeto narcisista. De maneira semelhante, 
a transformao do sadismo em masoquismo acarreta um retorno ao objeto narcisista. E em ambos esses casos [isto , na escopofilia passiva e no masoquismo] o sujeito 
narcisista , atravs da identificao, substitudo por outro ego, estranho. Se levarmos em conta a fase do sadismo preliminar e narcisista que construmos, estaremos 
aproximando-nos de uma compreenso mais geral - a saber, que as vicissitudes instintuais, que consistem no fato de o instinto retornar em direo ao prprio ego 
do sujeito e sofrer reverso da atividade para a passividade, se acham na dependncia da organizao narcisista do ego e trazem o cunho dessa fase. Correspondem 
talvez s tentativas de defesa que, em fases mais elevadas do desenvolvimento do ego, so efetuadas por outros meios. [Ver acima, em [1] e [2].] 
         Nesse ponto podemos recordar que at agora consideramos apenas dois pares de instintos opostos: sadismo-masoquismo e escopofilia-exibicionismo. Estes so 
os instintos sexuais mais conhecidos que aparecem de maneira ambivalente. Os outros componentes da funo sexual ulterior no so ainda suficientemente acessveis 
 anlise para que possamos examin-los de maneira semelhante. Em geral, podemos assegurar, em relao a eles, que suas atividades so auto-erticas; isto , seu 
objeto  insignificante em comparao com o rgo que lhes serve de fonte, via de regra coincidindo com esse rgo. O objeto do instinto escopoflico, contudo, embora 
tambm a princpio seja parte do prprio corpo do sujeito, no  o olho em si; e no sadismo a fonte orgnica, que  provavelmente o aparelho muscular com sua capacidade 
para a ao, aponta inequivocamente para outro objeto que no ele prprio, muito embora esse objeto seja parte do prprio corpo do sujeito. Nos instintos auto-erticos, 
o papel desempenhado pela fonte orgnica  to decisivo que, de acordo com uma sugesto plausvel de Federn (1913) e Jekels (1913), a forma e a funo do rgo determinam 
a atividade ou a passividade da finalidade instintual.
         A mudana do contedo [ver em [1]] de um instinto em seu oposto s  observada num exemplo isolado - a transformao do amor em dio. Visto ser particularmente 
comum encontrar ambos dirigidos simultaneamente para o mesmo objeto, sua coexistncia oferece o exemplo mais importante de ambivalncia de sentimento. [Ver em [1]]
         O caso de amor e dio adquire especial interesse pela circunstncia de que se recusa a ajustar-se a nosso esquema dos instintos.  impossvel duvidar de 
que exista a mais ntima das relaes entre esses dois sentimentos opostos e a vida sexual, mas naturalmente relutamos em pensar no amor como sendo uma espcie de 
instinto componente especfico da sexualidade, da mesma forma que os outros que vimos examinando. Preferiramos considerar o amor como sendo a expresso de toda 
a corrente sexual de sentimento, mas essa idia no elucida nossas dificuldades e no podemos ver que significado poderia ser atribudo a um contedo oposto dessa 
corrente.
         O amor no admite apenas um, mas trs opostos. Alm da anttese 'amar-odiar', existe a outra de 'amar-ser amado'; alm destas, o amar e o odiar considerados 
em conjunto so o oposto da condio de desinteresse ou indiferena. A segunda dessas trs antteses, amar-ser amado, corresponde exatamente  transformao da atividade 
em passividade e pode remontar a uma situao subjacente, da mesma forma que no caso do instinto escopoflico. Essa situao  a de amar-se a si prprio, que consideramos 
como sendo o trao caracterstico do narcisismo. Ento, conforme o objeto ou o sujeito seja substitudo por um estranho, o que resulta  a finalidade ativa de amar 
ou a passiva de ser amado - ficando a segunda perto do narcisismo.
         Talvez cheguemos a uma melhor compreenso dos vrios opostos do amar, se refletirmos que nossa vida mental como um todo se rege por trs polaridades, as 
antteses
         Sujeito (ego) - Objeto (mundo externo),
         Prazer - Desprazer, e
         Ativo - Passivo.
         A anttese ego-no-ego (externo), isto , sujeito-objeto, , como j tivemos oportunidade de dizer [ver em [1]], lanada sobre o organismo individual numa 
fase inicial, pela experincia de que pode silenciar os estmulos externos por meio de ao muscular, mas  inerme contra estmulos instintuais. Essa anttese permanece, 
acima de tudo, soberana em nossa atividade intelectual e cria para a pesquisa a situao bsica que esforo algum pode alterar. A polaridade do prazer-desprazer 
est ligada a uma escala de sentimentos, cuja importncia suprema na determinao de nossas aes (nossa vontade) j foi ressaltada [ver em [1] e [2]]. A anttese 
ativo-passivo no deve ser confundida com a anttese sujeito do ego-objeto do mundo externo. A relao do ego com o mundo externo  passiva na medida em que o primeiro 
recebe estmulos do segundo, e ativa quando reage a eles. Ela  forada por seus instintos a um grau bem especial de atividade para com o mundo externo, de modo 
que talvez pudssemos ressaltar o ponto essencial se dissssemos que o sujeito do ego  passivo no tocante aos estmulos externos, mas ativo atravs de seus prprios 
instintos. A anttese ativo-passivo funde-se depois com a anttese masculino-feminino, a qual, at que isso tenha ocorrido, no possui qualquer significado psicolgico. 
A juno da atividade com a masculinidade e da passividade com a feminilidade nos defronta, na realidade, com um fato biolgico, mas no  de forma alguma to invariavelmente 
completa e exclusiva como tendemos a presumir.
         As trs polaridades da mente esto ligadas umas s outras de vrias maneiras altamente significativas. Existe uma situao psquica primordial na qual duas 
delas coincidem. Originalmente, no prprio comeo da vida mental, o ego  catexizado com os instintos, sendo, at certo ponto, capaz de satisfaz-los em si mesmo. 
Denominamos essa condio de 'narcisismo', e essa forma de obter satisfao, de 'auto-ertica'. Nessa ocasio, o mundo externo no  catexizado com interesse (num 
sentido geral), sendo indiferente aos propsitos de satisfao. Durante esse perodo, portanto, o sujeito do ego coincide com o que  agradvel, e o mundo externo, 
com o que  indiferente (ou possivelmente desagradvel, como sendo uma fonte de estimulao). Se por enquanto definimos o amar como a relao do ego com suas fontes 
de prazer, a situao na qual o ego ama somente a si prprio e  indiferente ao mundo externo, ilustra o primeiro dos opostos que encontramos para 'o amor'.
         Na medida em que o ego  auto-ertico, no necessita do mundo externo, mas, em conseqncia das experincias sofridas pelos instintos de autopreservao, 
ele adquire objetos daquele mundo, e, apesar de tudo, no pode evitar sentir como desagradveis, por algum tempo, estmulos instintuais internos. Sob o domnio do 
princpio de prazer ocorre agora um desenvolvimento ulterior no ego. Na medida em que os objetos que lhe so apresentados constituem fontes de prazer, ele os toma 
para si prprio, os 'introjeta' (para empregar o termo de Ferenczi [1909]); e, por outro lado, expele o que quer que dentro de si mesmo se torne uma causa de desprazer. 
(Ver adiante [ver em [1] e [2]] o mecanismo da projeo).
         Assim, o 'ego da realidade', original, que distinguiu o interno e o externo por meio de um slido critrio objetivo se transforma num 'ego do prazer' purificado, 
que coloca a caracterstica do prazer acima de todas as outras. Para o ego do prazer, o mundo externo est dividido numa parte que  agradvel, que ele incorporou 
a si mesmo, e num remanescente que lhe  estranho. Isolou uma parte do seu prprio eu, que projeta no mundo externo e sente como hostil. Aps esse novo arranjo, 
as duas polaridades coincidem mais uma vez: o sujeito do ego coincide com o prazer, e o mundo externo com o desprazer (com o que anteriormente era indiferente).
         Quando, durante a fase do narcisismo primrio, o objeto faz a sua apario, o segundo oposto ao amar, a saber, o odiar, atinge seu desenvolvimento.
         Como j vimos, o objeto  levado do mundo externo para o ego, a princpio, pelos instintos de autopreservao; no se pode negar que tambm o odiar, originalmente, 
caracterizou a relao entre o ego e o mundo externo alheio com os estmulos que introduz. A indiferena se enquadra como um caso especial de dio ou desagrado, 
aps ter aparecido inicialmente como sendo seu precursor. Logo no comeo, ao que parece, o mundo externo, objetos e o que  odiado so idnticos. Se depois um objeto 
b\vem a ser uma fonte de prazer, ele  amado, mas  tambm incorporado ao ego, de modo que para o ego do prazer purificado mais uma vez os objetos coincidem com 
o que  estranho e odiado.
         Agora, contudo, podemos notar que da mesma forma que o par de opostos amor-indiferena reflete a polaridade ego-mundo externo, assim tambm a segunda anttese 
amor-dio reproduz a polaridade prazer-desprazer, que est ligada  primeira polaridade. Quando a fase puramente narcisista cede lugar  fase objetal, o prazer e 
o desprazer significam relaes entre o ego e o objeto. Se o objeto se torna uma fonte de sensaes agradveis, estabelece-se uma nsia (urge) motora que procura 
trazer o objeto para mais perto do ego e incorpor-lo ao ego. Falamos da 'atrao' exercida pelo objeto proporcionador de prazer, e dizemos que 'amamos' esse objeto. 
Inversamente, se o objeto for uma fonte de sensaes desagradveis, h uma nsia (urge) que se esfora por aumentar a distncia entre o objeto e o ego, e a repetir 
em relao ao objeto a tentativa original de fuga do mundo externo com sua emisso de estmulos. Sentimos a 'repulso' do objeto, e o odiamos; esse dio pode depois 
intensificar-se ao ponto de uma inclinao agressiva contra o objeto - uma inteno de destru-lo.
         Poderamos, num caso de emergncia, dizer que um instinto 'ama' o objeto no sentido do qual ele luta por propsitos de satisfao, mas dizer que um instinto 
'odeia' um objeto, nos parece estranho. Assim, tornamo-nos cnscios de que as atitudes de amor e dio no podem ser utilizadas para as relaes entre os instintos 
e seus objetos, mas esto reservadas para as relaes entre o ego total e os objetos. Mas, se considerarmos o uso lingstico, que por certo no  destitudo de 
significao, veremos que h outra limitao ao significado do amor e do dio. No costumamos dizer que amamos os objetos que servem aos interesses da autopreservao; 
ressaltamos o fato de que necessitamos deles, e talvez expressemos uma espcie de relao adicional diferente para com eles, utilizando-nos de palavras que detonam 
um grau muito reduzido de amor - tais como, por exemplo, 'ser afeioado a', 'gostar' ou 'achar agradvel'.
         Assim, a palavra 'amar' desloca-se cada vez mais para a esfera da pura relao de prazer entre o ego e o objeto, e finalmente se fixa a objetos sexuais 
no sentido mais estrito e queles que satisfazem as necessidades dos instintos sexuais sublimados. A distino entre os instintos do ego e os instintos sexuais que 
impusemos  nossa psicologia  dessa forma encarada como estando em conformidade com o esprito de nossa lngua. O fato de no termos o hbito de dizer que um instinto 
sexual isolado ama o seu objeto, mas considerarmos a relao entre o ego e seu objeto sexual como o caso mais apropriado no qual empregar a palavra 'amor' - esse 
fato nos ensina que a palavra s pode comear a ser aplicada nesse sentido aps ter havido uma sntese de todos os instintos componentes da sexualidade sob a primazia 
dos rgos genitais e a servio da funo reprodutora.
          digno de nota que no uso da palavra 'dio' no aparece essa conexo ntima com o prazer sexual e a funo sexual. A relao de desprazer parece ser a 
nica decisiva. O ego odeia, abomina e persegue, com inteno de destruir, todos os objetos que constituem uma fonte de sensao desagradvel para ele, sem levar 
em conta que significam uma frustrao quer da satisfao sexual, quer da satisfao das necessidades autopreservativas. Realmente, pode-se asseverar que os verdadeiros 
prottipos da relao de dio se originam no da vida sexual, mas da luta do ego para preservar-se e manter-se.
         Vemos, assim, que o amor e o dio, que se nos apresentam como opostos completos em seu contedo, afinal de contas no mantm entre si uma relao simples. 
No surgiram da ciso de uma entidade originalmente comum, mas brotaram de fontes diferentes, tendo cada um deles se desenvolvido antes que a influncia da relao 
prazer-desprazer os transformasse em opostos.
         Resta-nos agora reunir o que sabemos da gnese do amor e do dio. O amor deriva da capacidade do ego de satisfazer auto-eroticamente alguns dos seus impulsos 
instintuais pela obteno do prazer do rgo.  originalmente narcisista, passando ento para objetos, que foram incorporados ao ego ampliado, e expressando os esforos 
motores do ego em direo a esses objetos como fontes de prazer. Tornar-se intimamente vinculado  atividade dos instintos sexuais ulteriores e, quando estes so 
inteiramente sintetizados, coincide com o impulso sexual como um todo. As fases preliminares do amor surgem como finalidades sexuais provisrias enquanto os instintos 
sexuais passam por seu complicado desenvolvimento. Reconhecemos a fase de incorporao ou devoramento como sendo a primeira dessas finalidades - um tipo de amor 
que  compatvel com a abolio da existncia separada do objeto e que, portanto, pode ser descrito como ambivalente. Na fase mais elevada da organizao sdico-anal 
pr-genital, a luta pelo objeto aparece sob a forma de uma nsia (urge) de dominar, para a qual o dano ou o aniquilamento do objeto  indiferente. O amor nessa forma 
e nessa fase preliminar quase no se distingue do dio em sua atitude para com o objeto. S depois de estabelecida a organizao genital  que o amor se torna o 
oposto do dio.
         O dio, enquanto relao com objetos,  mais antigo que o amor. Provm do repdio primordial do ego narcisista ao mundo externo com seu extravasamento de 
estmulos. Enquanto expresso da reao do desprazer evocado por objetos, sempre permanece numa relao ntima com os instintos autopreservativos, de modo que os 
instintos sexuais e os do ego possam prontamente desenvolver uma anttese que repete a do amor e do dio. Quando os instintos do ego dominam a funo sexual, como 
 o caso na fase da organizao anal-sdica, eles transmitem as qualidades de dio tambm  finalidade instintual.
         A histria das origens e relaes do amor nos permite compreender como  que o amor com tanta freqncia se manifesta como 'ambivalente' - isto , acompanhado 
de impulsos de dio contra o mesmo objeto. O dio que se mescla ao amor provm em parte das fases preliminares do amar no inteiramente superadas; baseia-se tambm 
em parte nas reaes de repdio aos instintos do ego, os quais, em vista dos freqentes conflitos entre os interesses do ego e os do amor, podem encontrar fundamentos 
em motivos reais e contemporneos. Em ambos os casos, portanto, o dio mesclado tem como sua fonte os instintos auto-preservativos. Se uma relao de amor com um 
dado objeto for rompida, freqentemente o dio surgir em seu lugar, de modo que temos a impresso de uma transformao do amor em dio. Esse relato do que acontece 
leva ao conceito de que o dio, que tem seus motivos reais,  aqui reforado por uma regresso do amor  fase preliminar sdica, de modo que o dio adquire um carter 
ertico, ficando assegurada a continuidade de uma relao de amor.
         A terceira anttese do amar, a transformao do amar em ser amado, corresponde  atuao da polaridade da atividade e da passividade, devendo ser julgada 
da mesma maneira que os casos de escopofilia e sadismo.
         Podemos resumir dizendo que o trao essencial das vicissitudes sofridas pelos instintos est na sujeio dos impulsos instintuais s influncias das trs 
grandes polaridades que dominam a vida mental. Dessas trs polaridades podemos descrever a da atividade-passividade como a biolgica, a do ego-mundo externo como 
a real, e finalmente a do prazer-desprazer como a polaridade econmica.
         A vicissitude instintual da represso constituir assunto de uma indagao que se segue [no artigo seguinte]. 
         
         
         
         
         






REPRESSO (1915)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS DIE VERDRNGUNG
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1915 Int. Z. Psychoanal., 3 (3), 129-38.
         1918 S.K.S.N., 4, 279-93. (1922, 2 ed.)
         1924 G.S., 5, 466-79.
         1924 Techinik und Metapsychol., 188-201.
         1931 Theoretische Schriften, 83-97.
         1946 G.W., 10, 248-61.
         (b) TRADUO INGLESA:
                  'Repression'
         1925 C.P., 4, 84-97. (Trad. C. M. Baines.)
         
         A presente traduo inglesa, embora baseada na de 1925, foi amplamente reescrita.
         Em sua 'Histria do Movimento Psicanaltico' (1914d), Freud declarou que 'a teoria da represso  pedra angular sobre a qual repousa toda a estrutura da 
psicanlise' (ver em [1] acima); e no presente ensaio, juntamente com a Seo IV do artigo sobre 'O Inconsciente' que a ela se segue (ver em [1] e segs.), oferece-nos 
sua formulao mais elaborada dessa teoria.
         O conceito de represso remonta historicamente aos primrdios da psicanlise. A primeira referncia a ele que foi publicada, consta da 'Comunicao Preliminar' 
de Breuer e Freud (Edio Standard Brasileira, Vol. II, pg. 51, IMAGO Editora, 1974). O termo 'Verdrngung' fora empregado pelo psiclogo Herbart, no incio do 
sculo XIX, e possivelmente chegou ao conhecimento de Freud atravs de seu mestre Meynert, que tinha sido admirador de Herbart. Mas, como o prprio Freud insistiu 
no trecho da 'Histria' j citado (pg. acima), 'a teoria da represso, sem dvida alguma, ocorreu-me independentemente de qualquer outra fonte'. 'Foi uma novidade', 
escreveu em seu Autobiographical Study (1925d), 'e nada semelhante havia sido reconhecido anteriormente na vida mental.' Existem, nos escritos de Freud, vrios relatos 
de como ocorreu a descoberta: por exemplo, nos Estudos sobre a Histeria (1895d), Edio Standard Brasileira, Vol. II, pgs. 324-6, IMAGO Editora, 1974, e novamente 
na 'Histria', pg. 36 acima. Todos esses relatos so unnimes em ressaltar o fato de que o conceito de represso foi inevitavelmente sugerido pelo fenmeno clnico 
da resistncia, que por sua vez foi trazido  luz por uma inovao tcnica - a saber, o abandono da hipnose no tratamento catrtico da histeria.
         Notar-se- que no relato feito nos Estudos o termo realmente empregado para descrever o processo no  'represso' mas 'defesa'. Nesse perodo inicial, 
os dois termos foram utilizados por Freud indiretamente, quase como equivalentes, embora 'defesa' fosse talvez o mais comum. Logo, contudo, como observou em seu 
artigo sobre a sexualidade nas neuroses (1960a), Edio Standard Brasileira, Vol. VII, pg. 288, anamnese do 'Homem dos Ratos' (1909d) Freud examinou o mecanismo 
de 'represso' na neurose obsessiva - isto , o deslocamento da catexia emocional da idia objetvel, em contraste com a expulso completa da idia da conscincia, 
na histeria - e referiu-se a 'duas espcies de represso' (Standard Ed., 10, 196). De fato,  nesse sentido mais amplo que o termo  utilizado no presente artigo, 
como fica demonstrado pela discusso, que aparece quase no final, sobre os diferentes mecanismos de represso nas vrias formas da psiconeurose. Parece bastante 
claro, todavia, que a forma da represso que Freud tinha em mente, aqui, era sobretudo a que ocorre na histeria; e muito mais adiante, no Captulo XI, Seo A (c), 
de Inhibitions, Symptons and Anxiety (1926d), ele props restringir o termo 'represso' a esse nico mecanismo particular, e reviver 'defesa' como 'uma designao 
geral para todas as tcnicas empregadas pelo ego em conflitos que possam levar a uma neurose'. A importncia de estabelecer essa distino foi depois ilustrada por 
ele na Seo V de 'Analysis Terminable and Interminable' (1937c).
         O problema especial da natureza da fora motora, que permite  represso operar, constitui uma fonte constante de preocupao para Freud, embora quase no 
seja abordado no presente artigo. Em particular, havia a questo da relao entre a represso e o sexo, em relao  qual Freud, inicialmente, no tinha uma posio 
definida, como se pode ver em muitos pontos da correspondncia de Fliess (1950a). Subseqentemente, contudo, ele rejeitou com firmeza qualquer tentativa de 'sexualizar' 
a represso. Um exame completo dessa questo (com particular referncia aos conceitos de Adler) ser encontrado na ltima seo de "A Child is Being Beaten", (1919e), 
Standard Ed., 17, 200 e segs. Mais tarde ainda, em Inhibitions Symptons and Anxiety (1926d), especialmente no Captulo IV, e na parte inicial da Conferncia XXXII 
das New Introductory Lectures (1933a), ele lanou nova luz sobre o assunto argumentando que a ansiedade no era, como sustentara anteriormente e como afirma no artigo 
que se segue, por exemplo nas pgs. 157 e 159, uma conseqncia da represso, mas uma das principais foras motoras conducentes  mesma.
         
         REPRESSO
         
         Uma das vicissitudes que um impulso instintual pode sofrer  encontrar resistncias que procuram torn-lo inoperante. Em certas condies, que logo investigaremos 
mais detidamente, o impulso passa ento para o estado de 'represso' ['Verdrngung']. Se o que estava em questo era o funcionamento de um estmulo externo, obviamente 
se deveria adotar a fuga como mtodo apropriado; para o instinto, a fuga no tem qualquer valia, pois o ego no pode escapar de si prprio. Em dado perodo ulterior, 
se verificar que a rejeio baseada no julgamento (condenao) constituir um bom mtodo a ser adotado contra um impulso instintual. A represso  uma etapa preliminar 
da condenao, algo entre a fuga e a condenao; trata-se de um conceito que no poderia ter sido formulado antes da poca dos estudos psicanalticos.
         No  fcil deduzir em teoria a possibilidade de algo como a represso. Por que deve um impulso instintual sofrer uma vicissitude como essa? Condio necessria 
para que ela ocorra deve ser, sem dvida, que a consecuo, pelo instinto, de sua finalidade produza desprazer em vez de prazer. Contudo, no podemos imaginar facilmente 
tal eventualidade. No existem tais instintos: a satisfao de um instinto  sempre agradvel. Teramos de supor a existncia de certas circunstncias peculiares, 
alguma espcie de processo atravs do qual o prazer da satisfao se transforma em desprazer.
         A fim de melhor determinar a represso, examinemos algumas outras situaes instintuais. Pode acontecer que um estmulo externo seja internalizado - corroendo 
e destruindo, por exemplo, algum rgo corpreo -, de modo que surja uma nova fonte de excitao constante e de aumento de tenso. Assim, o estmulo adquire uma 
similaridade de longo alcance com um instinto. Sabemos que um caso desse tipo  experimentado por ns como dor. A finalidade desse pseudo-instinto, no entanto, consiste 
simplesmente na cessao da mudana no rgo e do desprazer que lhe  concomitante. No h outro prazer direto a ser alcanado pela cessao da dor. Alm disso, 
a dor  imperativa; as nicas coisas diante das quais ela pode ceder so a eliminao por algum agente txico ou a influncia da distrao mental.
         O caso da dor  por demais obscuro para nos servir de ajuda em nossos propsitos. Tomemos o caso em que um estmulo instintual como a fome permanece insatisfeito. 
Ele se torna ento imperativo e s pode ser aliviado pela ao que o satisfaz, mantendo uma constante tenso de necessidade. Nesse caso, nada da natureza de uma 
represso, sequer remotamente, parece estar em questo.
         Assim, por certo, a represso no surge nos casos em que a tenso produzida pela falta de satisfao de um impulso instintual  elevada a um grau insuportvel. 
Os mtodos de defesa acessveis ao organismo contra essa situao devem ser examinados em outra conexo.
         Limitemo-nos, portanto,  experincia clnica, tal como encontrada na prtica psicanaltica. Aprendemos ento que a satisfao de um instinto que se acha 
sob represso seria bastante possvel, e, alm disso, que tal satisfao seria invariavelmente agradvel em si mesma, embora irreconcilivel com outras reivindicaes 
e intenes. Ela causaria, por conseguinte, prazer num lugar e desprazer em outro. Em conseqncia disso, torna-se condio para represso que a fora motora do 
desprazer adquira mais vigor do que o prazer obtido da satisfao. Ademais, a observao psicanaltica das neuroses de transferncia leva-nos a concluir que a represso 
no  um mecanismo defensivo que esteja presente desde o incio; que ela s pode surgir quando tiver ocorrido uma ciso marcante entre a atividade mental consciente 
e a inconsciente; e que a essncia da represso consiste simplesmente em afastar determinada coisa do consciente, mantendo-a  distncia. Esse conceito de represso 
ficaria mais completo se supusssemos que, antes de a organizao mental alcanar essa fase, a tarefa de rechaar os impulsos instintuais cabia s outras vicissitudes, 
s quais os instintos podem estar sujeitos - por exemplo, a reverso no oposto ou o retorno em direo ao prprio eu (self) do sujeito [ver em [1]].
         Afigura-se-nos agora que, em vista da grande extenso da correlao entre represso e o que  inconsciente, devemos adiar o exame mais aprofundado da natureza 
da represso at que tenhamos aprendido mais sobre a estrutura da sucesso de agentes psquicos e sobre a diferenciao entre o que  inconsciente e consciente. 
[Ver o artigo seguinte em [1] e segs.] At ento, tudo o que podemos fazer  reunir de maneira puramente descritiva algumas caractersticas da represso que tenham 
sido observadas clinicamente, ainda que corramos o risco de ter de repetir, sem modificao, muito do que j foi dito em outros lugares.
         Temos motivos suficientes para supor que existe uma represso primeva, uma primeira fase de represso, que consiste em negar entrada no consciente ao representante 
psquico (ideacional) do instinto. Com isso, estabelece-se uma fixao; a partir de ento, o representante em questo continua inalterado, e o instinto permanece 
ligado a ele. Isso se deve s propriedades dos processos inconscientes, de que falaremos depois [ver em [1]].
         A segunda fase da represso, a represso propriamente dita, afeta os derivados mentais do representante reprimido, ou sucesses de pensamento que, originando-se 
em outra parte, tenham entrado em ligao associativa com ele. Por causa dessa associao, essas idias sofrem o mesmo destino daquilo que foi primevamente reprimido. 
Na realidade, portanto, a represso propriamente dita  uma presso posterior Alm disso,  errado dar nfase apenas  repulso que atua a partir da direo do consciente 
sobre o que deve ser reprimido; igualmente importante  a atrao exercida por aquilo que foi primevamente repelido sobre tudo aquilo com que ele possa estabelecer 
uma ligao. Provavelmente, a tendncia no sentido da represso falharia em seu propsito, caso essas duas foras no cooperassem, caso no existisse algo previamente 
reprimido pronto para receber aquilo que  repelido pelo consciente.
         Sob a influncia do estudo das psiconeuroses, que coloca diante de ns os importantes efeitos da represso, inclinamo-nos a supervalorizar sua dimenso 
psicolgica e a esquecer, demasiado depressa, o fato de que a represso no impede que o representante instintual continue a existir no inconsciente, se organize 
ainda mais, d origem a derivados, e estabelea ligaes. Na verdade, a represso s interfere na relao do representante instintual com um nico sistema psquico, 
a saber, o do consciente.
         A psicanlise tambm  capaz de nos revelar outras coisas importantes para a compreenso dos efeitos da represso nas psiconeuroses. Mostra-nos, por exemplo, 
que o representante instintual se desenvolver com menos interferncia e mais profusamente, se for retirado da influncia consciente pela expresso. Ele prolifera 
no escuro, por assim dizer, e assume formas extremas de expresso, que uma vez traduzidas e apresentadas ao neurtico iro no s lhe parecer estranhas mas tambm 
assust-lo, mostrando-lhe o quadro de uma extraordinria e perigosa fora do instinto. Essa fora falaz do instinto resulta de um desenvolvimento desinibido da fantasia 
e do represamento ocasionado pela satisfao frustrada. O fato de esse ltimo resultado estar vinculado  represso indica a direo em que a verdadeira importncia 
da represso deve ser procurada.
         Voltando, porm, mais uma vez ao aspecto oposto da represso, deixemos claro que tampouco  correto supor que a represso retira do consciente todos os 
derivados daquilo que foi primevamente reprimido. Se esses derivados se tornarem suficientemente afastados do representante reprimido - quer devido  adoo de distores, 
quer por causa do grande nmero de elos intermedirios inseridos -, eles tero livre acesso ao consciente. Tudo se passa como se a resistncia do consciente contra 
eles constitusse uma funo da distncia existente entre eles e aquilo que foi originalmente reprimido. Ao executarmos a tcnica da psicanlise, continuamos exigindo 
que o paciente produza, de tal forma, derivados do reprimido, que, em conseqncia de sua distncia no tempo, ou de sua distoro, eles possam passar pela censura 
do consciente. Na realidade, as associaes que exigimos que o paciente faa sem sofrer a influncia de qualquer idia intencional consciente ou de qualquer crtica, 
e a partir das quais reconstitumos uma traduo consciente do representante reprimido - essas associaes nada mais so do que derivados remotos e distorcidos desse 
tipo. No correr desse processo, observamos que o paciente pode continuar a desfiar sua meada de associaes, at ser levado de encontro a um pensamento, cuja relao 
com o reprimido fique to bvia, que o force a repetir sua tentativa de represso. Tambm os sintomas neurticos devem satisfazer a essa mesma condio, j que so 
derivados do reprimido, o qual, por intermdio deles, finalmente teve acesso  conscincia, acesso este que anteriormente lhe era negado.
         No podemos formular uma regra geral sobre o grau de distoro e de distncia no tempo necessrio para a eliminao da resistncia por parte do consciente. 
Ocorre aqui um delicado equilbrio, cujo jogo no nos  revelado; no entanto, sua modalidade de atuao nos permite inferir que se trata de pr um paradeiro  catexia 
do inconsciente quando esta alcana certa intensidade - intensidade alm da qual o inconsciente venceria as resistncias, chegando  satisfao. A represso atua, 
portanto, de uma forma altamente individual. Cada derivado isolado do reprimido pode ter sua prpria vicissitude especial; um pouco mais ou um pouco menos de distoro 
altera totalmente o resultado. Nesse sentido, podemos compreender a razo por que os objetos mais preferidos pelos homens, isto , seus ideais, procedem das mesmas 
percepes e experincias que os objetos mais abominados por eles, e porque, originalmente, eles s se distinguiam um dos outros atravs de ligeiras modificaes. 
[ver em [1]] Realmente, tal como verificamos ao remontarmos  origem do fetiche, o representante instintual original pode ser dividido em duas partes: uma que sofre 
represso, ao passo que a restante, precisamente por causa dessa ligao ntima, passa pela idealizao.
         O mesmo resultado oriundo de um aumento ou de uma diminuio do grau de distoro tambm pode ser alcanado na outra extremidade do aparelho, por assim 
dizer, por uma modificao da condio de produo de prazer e desprazer. Desenvolveram-se tcnicas especiais, com o propsito de provocar tais mudanas no jogo 
das foras mentais, que aquilo que de outra forma daria lugar ao desprazer, pudesse, nessa ocasio, resultar em prazer; e, sempre que um dispositivo tcnico desse 
tipo entra em funcionamento, elimina-se a represso de um representante instintual que, de outro modo, seria repudiado. At agora, apenas no que se refere aos chistes, 
essas tcnicas foram estudadas com algum detalhe. Via de regra, a represso s  removida temporariamente, reinstalando-se imediatamente. 
         Observaes como esta, contudo, permitem-nos notar outras caractersticas da represso. Ela  no s individual em seu funcionamento, conforme acabamos 
de assinalar, como tambm  extremamente mbil. O processo de represso no deve ser encarado como um fato que acontece uma vez, produzindo resultados permanentes, 
tal como, por exemplo, se mata um ser vivo que, a partir de ento, est morto; a represso exige um dispndio persistente de fora, e se esta viesse a cessar, o 
xito da represso correria perigo, tornando necessrio um novo ato de represso. Podemos supor que o reprimido exerce uma presso contnua em direo ao consciente, 
de forma que essa presso pode ser equilibrada por uma contrapresso incessante. Assim, a manuteno de uma represso acarreta ininterrupto dispndio de fora, ao 
passo que sua eliminao, encarada de um ponto de vista econmico, resulta numa poupana. Incidentalmente, a mobilidade da represso tambm encontra expresso nas 
caractersticas psquicas do estado do sono, o nico a tornar possvel a formao de sonhos. Com o retorno  vida de viglia, as catexias repressivas absorvidas 
so mais uma vez expulsas.
         Finalmente, no nos devemos esquecer de que, na verdade, ao se estabelecer que um impulso instintual  reprimido, muito pouco se disse a respeito dele. 
Tal impulso pode ocorrer em estados amplamente diferentes, sem prejuzo para sua represso. Pode ser inativo, isto , s muito levemente catexizado com energia mental; 
ou pode ser catexizado em graus variveis, permitindo-se-lhe, assim, que seja ativo.  verdade que sua ativao no resultar numa eliminao direta da represso, 
mas por em movimento todos os processos que terminam na penetrao do impulso na conscincia por caminhos indiretos. Com derivados no reprimidos do inconsciente, 
o destino de uma idia especfica , com freqncia, decidido pelo grau de sua atividade ou catexia. Enquanto esse derivado representa apenas uma pequena quantidade 
de energia, quase sempre permanece no reprimido, embora pudesse calcular que seu contedo entrasse em conflito com o que  dominante na conscincia. O fator quantitativo 
torna-se decisivo para esse conflito: to logo a idia basicamente detestvel ultrapassa certo grau de fora, o conflito se torna real, e  precisamente essa ativao 
que leva  represso. Assim, no tocante  represso, um aumento da catexia energtica atua no mesmo sentido que uma abordagem ao inconsciente, ao passo que uma diminuio 
dessa catexia atua no mesmo sentido que o carter remoto do inconsciente ou da distoro. Vemos que as tendncias repressivas podem encontrar um substituto para 
a represso num enfraquecimento do que  detestvel.
         At esse momento, em nosso exame, tratamos da represso de um representante instintual, entendendo por este ltimo uma idia, ou grupo de idias, catexizadas 
com uma quota definida de energia psquica (libido ou interesse) proveniente de um instinto. Agora, a observao clnica nos obriga a dividir aquilo que at o presente 
consideramos como sendo uma entidade nica, de uma vez que essa observao nos indica que, alm da idia, outro elemento representativo do instinto tem de ser levado 
em considerao, e que esse outro elemento passa por vicissitudes de represso que podem ser bem diferentes das experimentadas pela idia. Geralmente, a expresso 
quota de afeto tem sido adotada para designar esse outro elemento do representante psquico. Corresponde ao instinto na medida em que este se afasta da idia e encontra 
expresso, proporcional  sua quantidade, em processos que so sentidos como afetos. A partir desse ponto, ao descrevermos um caso de represso, teremos de acompanhar 
separadamente aquilo que acontece  idia como resultado da represso e aquilo que acontece  energia instintual vinculada a ela.
         Gostaramos de fazer algumas afirmaes genricas a respeito das vicissitudes de ambos, coisa que, depois de nos situarmos, ser efetivamente possvel. 
A idia que representa o instinto passa por uma vicissitude geral que consiste em desaparecer do consciente, caso fosse previamente consciente, ou em ser afastada 
da conscincia, caso estivesse prestes a se tornar consciente. Essa diferena no  importante, correspondendo  mesma coisa que a diferena entre ordenar a um hspede 
indesejvel que saia da minha sala de visitas (ou do meu hall de entrada), e impedir, aps reconhec-lo, que cruze a soleira de minha porta. O fator quantitativo 
do representante instintual possui trs vicissitudes possveis, tal como podemos verificar pelo breve exame das observaes feitas pela psicanlise: ou o instinto 
 inteiramente suprimido, de modo que no se encontra qualquer vestgio dele, ou aparece como um afeto que de uma maneira ou de outra  qualitativamente colorido, 
ou transformado em ansiedade. As duas ltimas possibilidades nos apontam a tarefa de levar em conta, como sendo uma vicissitude instintual ulterior, a transformao 
em afetos, e especialmente em ansiedade, das energias psquicas dos instintos.
         Recordamos o fato de que o motivo e o propsito da represso nada mais eram do que a fuga ao desprazer. Depreende-se disso que a vicissitude da quota de 
afeto pertencente ao representante  muito mais importante do que a vicissitude da idia, sendo esse fato decisivo para nossa avaliao do processo da represso. 
Se uma represso no conseguir impedir que surjam sentimentos de desprazer ou de ansiedade, podemos dizer que falhou, ainda que possa ter alcanado seu propsito 
no tocante  parcela ideacional. Evidentemente, as represses que falharam exercero maior influncia sobre nosso interesse do que qualquer outra que possa ter sido 
bem-sucedida, j que esta, na maioria das vezes, escapar ao nosso exame.
         Agora, devemos tentar obter uma compreenso interna (insight) do mecanismo do processo de represso. Em particular, desejamos saber se existe apenas um 
mecanismo isolado, ou mais de um, e se cada uma das psiconeuroses se distingue por um mecanismo de represso que lhe  peculiar. Contudo j no incio dessa indagao 
nos defrontamos com complicaes. O mecanismo de uma represso s nos ser acessvel se deduzirmos esse mecanismo a partir do resultado da represso. Limitando nossas 
observaes ao efeito da represso sobre a parcela ideacional do representante, descobrimos que, via de regra, ele cria uma formao substitutiva. Qual  o mecanismo 
atravs do qual esse substituto  formado? Ou ser que devemos, tambm aqui, distinguir vrios mecanismos? Alm disso, sabemos que a represso deixa sintomas em 
seu rastro. Podemos ento supor que a formao de substitutos e a formao de sintomas coincidem, e, admitindo que isso acontea de um modo geral, ser o mecanismo 
formador de sintomas o mesmo que o da represso? A probabilidade geral pareceria ser a de que os dois so amplamente diferentes, e a de que no  a prpria represso 
que produz formaes substitutivas e sintomas, mas que estes ltimos so indicaes de um retorno do reprimido e devem sua existncia a processos inteiramente outros. 
Seria tambm aconselhvel examinar os mecanismos atravs dos quais se formam os substitutos e os sintomas, antes de considerarmos os mecanismos de represso.
         Obviamente no se trata de um assunto para especulao ulterior. O lugar dessa especulao deve ser assumido por uma anlise cuidadosa dos resultados da 
represso observveis nas diferentes neuroses. Sugiro, porm, que tambm adiemos essa tarefa at que tenhamos formado concepes dignas de confiana a respeito da 
relao entre o consciente e o inconsciente. Mas, a fim de que o presente exame no seja de todo infrutfero, direi de antemo que (1) o mecanismo de represso de 
fato no coincide com o mecanismo ou mecanismos da formao de substitutos, (2) existem numerosos e diferentes mecanismos de formao de substitutos e (3) os mecanismos 
de represso tm pelo menos uma coisa em comum: uma retirada da catexia de energia (ou da libido, quando lidamos com os instintos sexuais).
         Alm disso, restringindo-me s trs formas mais conhecidas da psiconeurose, mostrarei por meio de alguns exemplos como os conceitos aqui introduzidos se 
aplicam ao estudo da represso.
         No campo da histeria da ansiedade escolherei um exemplo bem analisado de uma fobia animal. Aqui, o impulso instintual sujeito  represso  uma atitude 
libidinal para com o pai, aliado ao medo dele. Aps a represso, esse impulso desaparece da conscincia: o pai no aparece nela como um objeto da libido. Substituindo 
o pai, encontramos num lugar correspondente um animal que se presta, de modo mais ou menos adequado, a ser um objeto de ansiedade. A formao do substituto para 
a parcela ideacional [do representante instintual] ocorreu por deslocamento ao longo de uma cadeia de conexes determinada de maneira particular. A parcela quantitativa 
no desapareceu, mas foi transformada em ansiedade. O resultado  o medo de um lobo, em vez de uma exigncia, de amor feita aos pais. As categorias empregadas aqui 
no bastam, naturalmente, para explicar de forma adequada nem mesmo o caso mais simples de psiconeurose: h sempre outras consideraes a levar em conta. Deve-se 
descrever uma represso, tal como a que ocorre numa fobia animal, como sendo radicalmente destituda de xito. Ela apenas remove e substitui a idia, falhando inteiramente 
em poupar o desprazer.  tambm por esse motivo que o trabalho da neurose no cessa. Prossegue at uma segunda fase, a fim de atingir seu mais importante e imediato 
propsito. O que se segue  uma tentativa de fuga - a formao da fobia propriamente dita, de um grande nmero de evitaes destinadas a impedir a liberao da ansiedade. 
Uma pesquisa mais especializada permite-nos compreender o mecanismo pelo qual a fobia alcana sua finalidade. [Ver em [1] e segs. adiante.]
         Somos obrigados a adotar um conceito inteiramente distinto a respeito do processo de represso, quando consideramos o quadro de uma verdadeira histeria 
de converso. Aqui, o ponto relevante reside em que  possvel provocar um desaparecimento total da quota de afeto. Quando isso ocorre, o paciente exibe, em relao 
a seus sintomas, aquilo que Charcot denominava de 'la belle indiffrence des hystriques'. Em outros casos, essa supresso no se mostra to bem-sucedida: sensaes 
aflitivas podem ligar-se aos prprios sintomas, ou talvez venha a ser impossvel impedir certa liberao de ansiedade, que por sua vez pe em ao o mecanismo de 
formao de uma fobia. O contedo ideacional do representante instintual  totalmente retirado da conscincia; como um substituto - e ao mesmo tempo como um sintoma 
- temos uma inervao surperforte (em casos tpicos, uma inervao somtica), s vezes de natureza sensorial, s vezes, motora, quer como uma excitao, quer como 
uma inibio. Num exame mais detido, a rea superinervada revela-se como sendo parte do prprio representante instintual reprimido, parte que - como se isso se verificasse 
atravs de um processo de condensao, atrai toda a catexia para si prpria. Evidentemente, essas observaes no trazem  luz o mecanismo completo de uma histeria 
de converso; o fator regresso, em especial, a ser considerado em outra conexo, tambm tem de ser levado em conta. Na medida em que a represso na histeria [de 
converso] s se torna possvel pela extensa formao de substitutos, ela pode ser julgada inteiramente destituda de xito; contudo, ao lidar com a quota de afeto 
- a verdadeira tarefa da represso -, ela geralmente significa um xito total. Na histeria de converso, o processo de represso  completado pela formao do sintoma, 
e no precisa, como na histeria de ansiedade, continuar at uma segunda fase - ou antes, rigorosamente falando, continuar interminavelmente.
         Um quadro totalmente diferente da represso se revela, mais uma vez, na terceira perturbao, que consideraremos para os propsitos de nossa ilustrao 
- na neurose obsessiva. Aqui ficamos inicialmente em dvida quanto ao que devemos considerar como sendo o representante instintual sujeito  represso - se se trata 
de uma tendncia libidinal ou hostil. Essa incerteza surge porque a neurose obsessiva tem por base uma regresso devido  qual uma tendncia sdica foi substituda 
por uma afetiva.  esse impulso hostil contra algum que  amado, que se acha sujeito  represso. O efeito, numa fase inicial, do trabalho da represso  bem diferente 
do que se verifica numa posterior. De incio, a represso  inteiramente cercada de xito; o contedo ideacional  rejeitado, fazendo com que o afeto desaparea. 
Como formao substitutiva, surge no ego uma alterao sob a forma de maior conscincia, quase no se podendo dar a isso o nome de sintoma. Aqui, substituto e sintoma 
no coincidem. Com isso, aprendemos tambm alguma coisa sobre o mecanismo da represso. Nesse exemplo, como em todos os outros, a represso ocasionou um afastamento 
da libido; aqui, porm, ela fez uso da formao da reao para atingir esse propsito, intensificando um oposto. Assim, nesse caso, a formao de um substituto tem 
o mesmo mecanismo que a represso e, no fundo, coincide com ela, ao passo que cronologicamente, tanto quanto conceptualmente,  diferente da formao de um sintoma. 
 bastante provvel que todo esse processo se torne possvel pela relao ambivalente na qual o impulso sdico a ser reprimido  introduzido. No entanto, a represso, 
que foi de incio bem-sucedida, no se firma; no decorrer dos acontecimentos, seu fracasso se torna cada vez mais acentuado. A ambivalncia que permitiu que a represso 
ocorresse atravs da formao de reao, constitui tambm o ponto em que o reprimido consegue retornar. A emoo desaparecida retorna, em sua forma transformada, 
como ansiedade social, ansiedade moral e autocensura ilimitadas; a idia rejeitada  substituda por um substituto por deslocamento, freqentemente um deslocamento 
para algo muito pequeno ou indiferente. Uma tendncia no sentido de um restabelecimento completo da idia reprimida acha-se, em geral, inegavelmente presente. O 
fracasso na represso do fator quantitativo afetivo pe em jogo o mesmo mecanismo de fuga, por meio de evitao e proibies, tal como vimos em funcionamento na 
formao de fobias histricas. A rejeio da idia oriunda do consciente , contudo, obstinadamente mantida, porque provoca a absteno oriunda da ao, um aprisionamento 
motor do impulso. Assim, na neurose obsessiva, o trabalho da represso se prolonga numa luta estril e interminvel.
         A curta srie de comparaes apresentada aqui pode facilmente convencer-nos de que se fazem necessrias pesquisas mais abrangentes, antes que possamos esperar 
compreender inteiramente os processos ligados  represso e  formao de sintomas neurticos. A extraordinria complexidade de todos os fatores a serem levados 
em considerao nos permite apenas uma maneira de apresent-los. Devemos selecionar primeiro um e, depois, outro ponto de vista, e acompanh-lo atravs do material 
enquanto sua aplicao parea proporcionar resultados. Cada abordagem isolada do assunto ser incompleta em si mesma, no podendo deixar de haver obscuridades sempre 
que ela se defrontar com material ainda no examinado; no entanto, podemos esperar que uma sntese final conduza a uma compreenso adequada. 
         
         
         
         
         
















O INCONSCIENTE (1915)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS DAS UNBEWUSSTE
         (a) EDIES ALEMS:
         1915 Int. Z. Psychoanal., 3 (4), 189-203 e (5), 257-69
         1918 S.K.S.N., 4, 294-338. (1922, 2 ed.)
         1924 G.S., 5, 480-519.
         1924 Techinik und Metapsychol., 202-41.
         1931 Theoretische Schriften, 98-140.
         1946 G.W., 10, 264-303.
         (b) TRADUO INGLESA:
                'The Unconscious'
         1925 C.P., 4, 98-136. (Trad. C.M. Baines.)
         
         A presente traduo inglesa, embora baseada na de 1925, foi amplamente reescrita.
         Parece que o presente artigo levou menos de trs semanas para ser escrito - de 4 a 23 de abril de 1915. Posteriormente, no mesmo ano, foi publicado no Internationale 
Zeitschrift em duas partes, a primeira contendo as Sees I-IV e a segunda, as Sees V-VII. Nas edies anteriores a 1924, o artigo no foi dividido em sees, 
mas o que agora constitui os ttulos foi impresso como subttulos na margem. A nica exceo a isso  que a expresso 'O Ponto de Vista Topogrfico', que agora faz 
parte do ttulo da Seo II, se encontra originalmente na margem, no incio do segundo pargrafo da seo,  altura das palavras 'Passando agora...' (ver em [1]). 
Algumas pequenas alteraes tambm foram feitas no texto da edio de 1924.
         Se a srie 'Artigos Sobre Metapsicologia' talvez seja considerada como o mais importante de todos os escritos tericos de Freud, no h dvida alguma de 
que este ensaio sobre 'O Inconsciente' constitui seu ponto culminante.
         O conceito segundo o qual existem processos mentais inconscientes, , naturalmente, fundamental para a teoria psicanaltica. Freud nunca se cansou de insistir 
nos argumentos que o apiam e de combater as objees levantadas contra ele. Na realidade, at mesmo a ltima parte no concluda de seus escritos tericos, o fragmento 
escrito por ele em 1938, a que deu o ttulo, em ingls, de 'Some Elementary Lessons in Psycho-Analysis' (1940b), constitui uma nova justificao daquele conceito.
         Contudo, deve-se esclarecer de imediato que o interesse de Freud por essa suposio jamais foi de natureza filosfica - embora, sem dvida, problemas filosficos 
se encontrassem inevitavelmente prximos. Seu interesse era prtico. Ele achava que, sem fazer essa suposio, era incapaz de explicar ou mesmo de descrever a grande 
variedade de fenmenos com que se defrontava. Por outro lado, procedendo assim, encontrou o caminho aberto para uma regio imensamente frtil em novos conhecimentos.
         Desde o incio, e em seu ambiente mais prximo, no pode ter havido grande resistncia a essa idia. Seus professores diretos - Meynert, por exemplo -, 
na medida em que se interessavam pela psicologia, orientavam-se principalmente pelos conceitos de J. F. Herbart (1776-1841), e parece que um livro de texto contendo 
os princpios herbartianos era usado na escola secundria freqentada por Freud (Jones, 1953, 409 e segs.). O reconhecimento da existncia de processos mentais inconscientes 
desempenhou papel essencial no sistema de Herbart. Apesar disso, porm, Freud no adotou imediatamente essa hiptese nas primeiras fases de suas pesquisas psicopatolgicas. 
 verdade que ele parece, desde o incio, ter sentido a fora do argumento a que d tanta nfase nas pginas iniciais do presente artigo - isto , o argumento segundo 
o qual restringir os fatos mentais aos que so conscientes e entreme-los de fatos puramente fsicos e neurais, 'rompe as continuidades psquicas' e introduz lacunas 
ininteligveis na cadeia de fenmenos observados. Havia, no entanto, duas formas pelas quais essa dificuldade poderia ser superada. Poderamos desprezar os fatos 
fsicos e adotar a hiptese de que as lacunas so preenchidas com eventos mentais inconscientes; mas, por outro lado, poderamos desprezar os fatos mentais conscientes 
e estruturar uma cadeia puramente fsica, ininterrupta, que abrangeria todos os eventos da observao. Para Freud, cuja carreira cientfica, no princpio, fora inteiramente 
voltada para a fisiologia, essa segunda possibilidade mostrou-se de incio irresistivelmente atraente. Atrao esta sem dvida fortalecida pelos conceitos de Hughlings-Jackson, 
por cuja obra Freud revelou admirao em sua monografia sobre afasia (1891b), encontrando-se adiante, no Apndice B (pg. 213), um trecho pertinente  mesma. Conseqentemente, 
Freud comeou por adotar o mtodo neurolgico de descrio dos fenmenos psicopatolgicos, e todos os seus escritos do perodo de Breuer se baseiam confessadamente 
naquele mtodo. Ele ficou intelectualmente fascinado pela possibilidade de construir uma 'psicologia' a partir de ingredientes puramente neurolgicos, tendo dedicado 
vrios meses do ano de 1895  realizao dessa tarefa. Assim, a 27 de abril daquele ano (Freud, 1950a, Carta 23), escrevia ele a Fliess: 'Estou to profundamente 
mergulhado na "Psicologia para Neurologistas", que ela me consome inteiramente, a ponto de me ver obrigado a interromper minhas atividades por excesso de trabalho. 
Jamais estive to intensamente preocupado com alguma coisa. E ser que isso redundar em alguma coisa? Espero que sim, mas a caminhada  rdua e lenta.' Isso redundou 
em alguma coisa muitos meses depois - a obra incompleta que conhecemos como o 'Projeto para uma Psicologia Cientfica', encaminhado a Fliess em setembro e outubro 
de 1895. Essa surpreendente produo visa a descrever e explicar toda a gama do comportamento humano, normal e patolgico, por meio de uma manipulao complicada 
de duas entidades materiais - o neurnio e a 'quantidade numa condio de fluxo', uma energia fsica ou qumica no especificada. A necessidade de postular quaisquer 
processos mentais inconscientes foi, dessa forma, inteiramente evitada: a cadeia de eventos fsicos era ininterrupta e completa.
         Sem dvida, muitas razes contriburam para que o 'Projeto' jamais tenha sido concludo e para que toda a linha de raciocnio por detrs dele fosse logo 
abandonada. O motivo principal, porm, foi que Freud, o neurologista, estava sendo superado e deslocado por Freud, o psiclogo: tornava-se cada vez mais evidente 
que at mesmo o elaborado mecanismo dos sintomas neurnicos era canhestro e grosseiro demais para lidar com as sutilezas que estavam sendo trazidas  luz pela 'anlise 
psicolgica', sutilezas que s poderiam ser explicadas na linguagem dos processos mentais. De fato, vinha ocorrendo, muito gradativamente, um deslocamento do interesse 
de Freud. Na altura da publicao da Afasia, seu tratamento do caso de Frau Emmy von N. j datava de dois ou trs anos, e sua anamnese foi escrita mais de um ano 
antes do 'Projeto'.  numa nota de rodap a essa anamnese (Edio Standard Brasileira, Vol. II, pg. 120, IMAGO Editora, 1974) que se encontra publicado pela primeira 
vez o termo 'o inconsciente'; e, embora a teoria ostensiva subjacente  participao de Freud nos Estudos sobre a Histeria (1895d) pudesse ser neurolgica, a psicologia 
- e com ela a necessidade de processos mentais inconscientes - j se insinuava firmemente. Na realidade, toda a base da teoria de represso da histeria e a do mtodo 
catrtico de tratamento clamavam por uma explanao psicolgica, e s atravs dos mais penosos esforos elas foram explicadas neurologicamente na Parte II do 'Projeto'. 
Alguns anos depois, em A Interpretao de Sonhos (1900a), ocorrera uma estranha transformao: no s o relato neurolgico da psicologia desaparecera completamente, 
como tambm grande parte do que Freud escrevera no 'Projeto' em termos de sistema nervoso se tornara agora vlido, e muito mais inteligvel, ao ser traduzido em 
termos mentais. Estabeleceu-se o inconsciente de uma vez por todas.
         Deve-se, porm, repetir que Freud no estabeleceu uma mera entidade metafsica. O que ele fez no Captulo VII de A Interpretao de Sonhos foi, por assim 
dizer, revestir a entidade metafsica de carne e sangue. Pela primeira vez, revelou o inconsciente, tal como era, como funcionava, como diferia de outras partes 
da mente, e quais eram suas relaes recprocas com elas. So essas as descobertas que ele retoma, ampliando-as e aprofundando-as, no artigo que se segue.
         Numa fase anterior, todavia, tornara-se evidente que o termo 'inconsciente' era ambguo. Trs anos antes, no artigo que escreveu em ingls para a Sociedade 
de Pesquisas Psquicas (1912g), e que, sob muitos aspectos,  preliminar ao presente artigo, Freud investigara cuidadosamente essas ambigidades e estabelecera diferenas 
entre os empregos 'descritivo', 'dinmico' e 'sistemtico' da palavra. Ele repete as distin-es na Seo II deste artigo (ver em, [1] e segs.), embora de forma 
ligeiramente diversa, tendo novamente voltado a elas no Captulo I de The Ego and the Id (1923b) e, numa extenso ainda maior, na Conferncia XXXI das New Introductory 
Lectures (1933a). A maneira desordenada pela qual o contraste entre 'consciente' e 'inconsciente' se ajusta s diferenas entre os vrios sistemas da mente j  
mencionada claramente adiante (ver em [1]); mas a posio em seu todo s foi posta em perspectiva quando, em The Ego and the Id, Freud introduziu um novo quadro 
estrutural da mente. Apesar, contudo, da atuao insatisfatria do critrio 'consciente ou inconsciente', Freud sempre insistiu em dizer (como o faz em dois pontos 
aqui, (ver em [1] e [2] ), e novamente tanto em The Ego and the Id como nas New Introductory Lectures) que esse critrio ', em ltima instncia, o nosso nico farol 
nas trevas da psicologia profunda'.
         
        O INCONSCIENTE
         
         Aprendemos com a psicanlise que a essncia do processo de represso no est em pr fim, em destruir a idia que representa um instinto, mas em evitar 
que se torne consciente. Quando isso acontece, dizemos que a idia se encontra num estado 'inconsciente', e podemos apresentar boas provas para mostrar que, inclusive 
quando inconsciente, ela pode produzir efeitos, incluindo at mesmo alguns que finalmente atingem a conscincia. Tudo que  reprimido deve permanecer inconsciente; 
mas, logo de incio, declaremos que o reprimido no abrange tudo que  inconsciente. O alcance do inconsciente  mais amplo: o reprimido no  apenas uma parte do 
inconsciente.
         Como devemos chegar a um conhecimento do inconsciente? Certamente, s o conhecemos como algo consciente, depois que ele sofreu transformao ou traduo 
para algo consciente. A cada dia, o trabalho psicanaltico nos mostra que esse tipo de traduo  possvel. A fim de que isso acontea, a pessoa sob anlise deve 
superar certas resistncias - resistncias como aquelas que, anteriormente, transformaram o material em questo em algo reprimido rejeitando-o do consciente. 
         
         I - JUSTIFICAO DO CONCEITO DE INCONSCIENTE
         
         Nosso direito de supor a existncia de algo mental inconsciente, e de empregar tal suposio visando s finalidades do trabalho cientfico, tem sido vastamente 
contestado. A isso podemos responder que nossa suposio a respeito do inconsciente  necessria e legtima, e que dispomos de numerosas provas de sua existncia.
         Ela  necessria porque os dados da conscincia apresentam um nmero muito grande de lacunas; tanto nas pessoas sadias como nas doentes ocorrem com freqncia 
atos psquicos que s podem ser explicados pela pressuposio de outros atos, para os quais, no obstante, a conscincia no oferece qualquer prova. Estes no s 
incluem parapraxias e sonhos em pessoas sadias, mas tambm tudo aquilo que  descrito como um sintoma psquico ou uma obsesso nas doentes; nossa experincia diria 
mais pessoal nos tem familiarizado com idias que assomam  nossa mente vindas no sabemos de onde, e com concluses intelectuais que alcanamos no sabemos como. 
Todos esses atos conscientes permanecero desligados e ininteligveis, se insistirmos em sustentar que todo ato mental que ocorre conosco, necessariamente deve tambm 
ser experimentado por ns atravs da conscincia; por outro lado, esses atos se enquadraro numa ligao demonstrvel, se interpolarmos entre eles os atos inconscientes 
sobre os quais estamos conjeturando. Uma apreenso maior do significado das coisas constitui motivo perfeitamente justificvel para ir alm dos limites da experincia 
direta. Quando, ademais, disso resultar que a suposio da existncia de um inconsciente nos possibilita a construo de uma norma bem-sucedida, atravs da qual 
podemos exercer uma influncia efetiva sobre o curso dos processos conscientes, esse sucesso nos ter fornecido uma prova indiscutvel da existncia daquilo que 
havamos suposto. Assim sendo, devemos adotar a posio segundo a qual o fato de exigir que tudo quanto acontece na mente deve tambm ser conhecido pela conscincia, 
significa fazer uma reivindicao insustentvel.
         Podemos ir alm e afirmar, em apoio da existncia de um estado psquico inconsciente, que, em um dado momento qualquer, o contedo da conscincia  muito 
pequeno, de modo que a maior parte do que chamamos conhecimento consciente deve permanecer, por considerveis perodos de tempo, num estado de latncia, isto , 
deve estar psiquicamente inconsciente. Quando todas as nossas lembranas latentes so levadas em considerao, fica totalmente incompreensvel que a existncia do 
inconsciente possa ser negada. Aqui, porm, encontramos a objeo de que essas lembranas latentes j no podem ser descritas como psquicas, pois correspondem a 
resduos de processos somticos a partir dos quais o psquico pode mais uma vez aflorar. A resposta bvia a isso  a de que uma lembrana latente , pelo contrrio, 
um resduo inquestionvel de um processo psquico. Contudo,  mais importante conceber claramente que essa objeo se baseia na equivalncia - que, na verdade, no 
 explicitamente declarada, embora considerada axiomtica - entre o consciente e o mental. Essa equivalncia ou  um petitio principii, que incorre em petio de 
princpio ao supor que tudo que  psquico  tambm necessariamente consciente, ou  uma questo de conveno, de nomenclatura. Nesse ltimo caso, como qualquer 
outra conveno, no est evidentemente sujeita  refutao. Permanece, contudo, a questo de saber se a conveno  suficientemente adequada para estarmos propensos 
a adot-la. A isso podemos responder que a equivalncia convencional entre o psquico e o consciente  totalmente inadequada. Ela rompe as continuidades psquicas, 
mergulha-nos nas dificuldades insolveis do paralelismo psicofsico, est sujeita  censura de, sem um motivo bvio, superestimar o papel desempenhado pela conscincia, 
forando-nos prematuramente a abandonar o campo da pesquisa psicolgica sem ser capaz de nos oferecer qualquer compensao de outros campos.
         Est claro, em todo caso, que essa questo - a de saber se os estados latentes da vida mental, cuja existncia  inegvel, devem ser concebidos como estados 
mentais conscientes ou como estados fsicos - ameaa transformar-se numa controvrsia verbal. Portanto,  melhor focalizarmos nossa ateno naquilo que conhecemos 
com certeza a respeito da natureza desses estados controvertidos. No que se refere s suas caractersticas fsicas, elas nos so totalmente inacessveis: nenhum 
conceito psicolgico ou processo qumico pode dar-nos qualquer idia a respeito de sua natureza. Por outro lado, sabemos com certeza que possuem abundantes pontos 
de contato com processos mentais conscientes; com o auxlio de um pouco de trabalho podem ser transformados em processos mentais conscientes ou substitudos por 
eles, e todas as categorias que empregamos para descrever os atos mentais conscientes, tais como idias, propsitos, resolues, e assim por diante, podem ser aplicadas 
a eles. Na verdade, somos forados a dizer de alguns desses estados latentes que o nico aspecto em que diferem dos estados conscientes  precisamente na ausncia 
de conscincia. Assim, no hesitaremos em trat-los como objetos de pesquisa psicolgica, e em manipul-los na mais ntima conexo com atos mentais conscientes.
         A obstinada recusa em atribuir um carter psquico aos atos mentais latentes se deve  circunstncia de que a maioria dos fenmenos em foco no fora estudada 
fora da psicanlise. Basta que qualquer pessoa no familiarizada com os fatos patolgicos, que considera as parapraxias de pessoas normais como acidentais, e que 
est satisfeita com o velho adgio de que os sonhos so futilidades ['Trume sind Schume'], ignore mais alguns problemas da psicologia da conscincia, para abster-se 
de qualquer necessidade de admitir uma atividade mental inconsciente. Incidentalmente, mesmo antes da poca da psicanlise, as experincias com a hipnose, especialmente 
a sugesto ps-hipntica, j tinham demonstrado tangivelmente a existncia e o modo de operao do inconsciente mental.
         A suposio de um inconsciente , alm disso, uma suposio perfeitamente legtima, visto que ao postul-la no nos estamos afastando um s passo de nosso 
habitual e geralmente aceito modo de pensar. A conscincia torna cada um de ns cnscio apenas de seus prprios estados mentais; que tambm outras pessoas possuam 
uma conscincia  uma deduo que inferimos por analogia de suas declaraes e aes observveis, a fim de que sua conduta fique inteligvel para ns. (Indubitavelmente, 
seria psicologicamente mais correto express-lo da seguinte maneira: que sem qualquer reflexo especial atribumos a todos os demais a nossa prpria constituio, 
e portanto tambm a nossa conscincia, e que essa identificao  uma condio sine qua non para a nossa compreenso.) Essa inferncia (ou essa identificao) foi 
anteriormente estendida pelo ego a outros seres humanos, a animais, a plantas, a objetos inanimados e ao mundo em geral, e revelou-se til enquanto sua semelhana 
com o ego individual era esmagadora; contudo, tornou-se menos digna de confiana na medida em que a diferena entre o ego e esses 'outros' aumentou. Hoje em dia, 
nosso julgamento crtico j se pe em dvida quanto  questo da existncia de conscincia nos animais; recusamo-nos a admiti-la nas plantas e encaramos como misticismo 
a suposio de sua existncia nas coisas inanimadas. Mas, mesmo onde a inclinao original  identificao resistiu  crtica - isto , quando os 'outros' so nossos 
semelhantes - a suposio da existncia de uma conscincia neles se apia numa inferncia, e no pode participar da certeza imediata que possumos a respeito de 
nossa prpria conscincia.
         A psicanlise exige apenas que tambm apliquemos esse processo de inferncia a ns mesmos - procedimento a que, na verdade, no estamos por natureza inclinados. 
Se o fizermos, deveremos dizer: todos os atos e manifestaes que noto em mim mesmo, e que no sei como ligar ao resto de minha vida mental, devem ser julgados como 
se pertencessem a outrem; devem ser explicados por uma vida mental atribuda a essa outra pessoa. Alm disso, a experincia mostra que compreendemos muito bem como 
interpretar em outras pessoas (isto , como encaixar em sua cadeia de eventos mentais) os mesmos atos que nos recusamos a aceitar como mentais em ns mesmos. Aqui, 
evidentemente, algum impedimento especial desvia nossas investigaes de nosso prprio eu, impedindo que obtenhamos dele um conhecimento real.
         Esse processo de inferncia, quando aplicado ao prprio indivduo, apesar da oposio interna, no leva, contudo,  revelao de um inconsciente; leva, 
logicamente,  suposio de uma outra segunda conscincia que, no prprio eu do indivduo, est unida  conscincia que se conhece. Mas, a essa altura, certas crticas 
mostram-se cabveis. Em primeiro lugar, uma conscincia a respeito da qual seu prprio possuidor nada conhece  algo muito diferente de uma conscincia pertencente 
a outra pessoa, e  discutvel que tal conscincia, carente, como est, de sua caracterstica mais importante, merea qualquer exame. Aqueles que resistiram  suposio 
de um elemento psquico inconsciente provavelmente no esto dispostos a troc-lo por uma conscincia inconsciente. Em segundo lugar, a anlise revela que os diferentes 
processos mentais latentes que inferimos desfrutam de alto grau de independncia mtua, como se no tivessem ligao um com o outro, e nada soubessem um do outro. 
Nesse caso, devemos estar preparados para supor a existncia em ns no apenas de uma segunda conscincia, mas tambm de uma terceira, de uma quarta, talvez de um 
nmero ilimitado de estados de conscincia, todos desconhecidos para ns e desconhecidos entre si. Em terceiro lugar - e este  o mais convincente de todos os argumentos 
-, devemos levar em conta o fato de que a investigao analtica revela alguns desses processos latentes como possuidores de caractersticas e peculiaridades que 
parecem estranhas a ns, ou mesmo incrveis, e que vo diretamente de encontro aos atributos da conscincia que nos so familiares. Assim, temos motivos para modificar 
nossa inferncia a respeito de ns mesmos e dizer que o que est provado no  a existncia de uma segunda conscincia em ns, mas a existncia de atos psquicos 
que carecem de conscincia. Tambm estaremos certos em rejeitar o termo 'subconscincia' como incorreto e enganoso. Os casos notrios de 'double cosncience' (diviso 
da conscincia) nada provam contra nossa concepo. Podemos descrev-los com o mximo de propriedade como casos de uma diviso das atividades mentais em dois grupos, 
e dizer que essa mesma conscincia se volta, alternadamente, para um ou outro desses grupos.
         Na psicanlise, no temos outra opo seno afirmar que os processos mentais so inconscientes em si mesmos, e assemelhar a percepo deles por meio da 
conscincia  percepo do mundo externo por meio dos rgos sensoriais. Podemos mesmo esperar que novos conhecimentos sejam adquiridos a partir dessa comparao. 
A suposio psicanaltica a respeito da atividade mental inconsciente nos aparece, por um lado, como uma nova expanso de animismo primitivo, que nos fez ver cpias 
de nossa prpria conscincia em tudo o que nos cerca, e, por outro, como uma extenso das correes efetuadas por Kant em nossos conceitos sobre percepo externa. 
Assim como Kant nos advertiu para no desprezarmos o fato de que as nossas percepes esto subjetivamente condicionadas, no devendo ser consideradas como idnticas 
ao que, embora incognoscvel,  percebido, assim tambm a psicanlise nos adverte para no estabelecermos uma equivalncia entre as percepes adquiridas por meio 
da conscincia e os processos mentais inconscientes que constituem seu objeto. Assim como o fsico, o psquico, na realidade, no  necessariamente o que nos parece 
ser. Teremos satisfao em saber, contudo, que a correo da percepo interna no oferecer dificuldades to grandes como a correo da percepo externa - que 
os objetos internos so menos incognoscveis do que o mundo externo.
         
         II - VRIOS SIGNIFICADOS DE 'O INCONSCIENTE'  O PONTO DE VISTA TOPOGRFICO
         
         Antes de prosseguirmos, enunciemos o fato importante, embora inconveniente, de que o atributo de ser inconsciente  apenas um dos aspectos do elemento psquico, 
de modo algum bastando para caracteriz-lo. H atos psquicos de valor muito varivel que, no entanto, concordam em possuir a caracterstica de ser inconsciente. 
O inconsciente abrange, por um lado, atos que so meramente latentes, temporariamente inconscientes, mas que em nenhum outro aspecto diferem dos atos conscientes, 
e, por outro lado, abrange processos tais como os reprimidos, que, caso se tornassem conscientes, estariam propensos a sobressair num contraste mais grosseiro com 
o restante dos processos conscientes. Acabaramos com todos os mal-entendidos se, doravante, ao descrevermos os vrios tipos de atos psquicos, desprezssemos a 
questo de saber se so conscientes ou inconscientes, e os classificssemos e correlacionssemos apenas em funo de sua relao com instintos e finalidades, de 
sua composio e da hierarquia dos sistemas psquicos a que pertencem. Isso, contudo, e por vrias razes,  impraticvel, de modo que no podemos escapar  ambigidade 
de empregar as palavras 'consciente' e 'inconsciente' algumas vezes num sentido descritivo, algumas vezes num sentido sistemtico, sendo que, neste ltimo, elas 
significam a incluso em sistemas particulares e a posse de certas caractersticas. Podemos tentar evitar a confuso, atribuindo aos sistemas psquicos que distinguimos 
certos nomes arbitrariamente escolhidos, sem qualquer referncia ao atributo de ser consciente. Apenas, temos que primeiro especificar os motivos pelos quais distinguimos 
os sistemas, e, ao faz-lo, talvez no sejamos capazes de fugir ao atributo de sermos conscientes, visto que ele constitui o ponto de partida de todas as nossas 
investigaes. Talvez nos possamos valer da proposta para empregar, pelo menos por escrito, a abreviao Cs. para conscincia e Ics., para o que  inconsciente, 
quando estivermos usando as duas palavras em seu sentido sistemtico.
         Passando agora para um relato das descobertas positivas da psicanlise, podemos dizer que, em geral, um ato psquico passa por duas fases quanto a seu estado, 
entre as quais se interpe uma espcie de teste (censura). Na primeira fase, o ato psquico  inconsciente e pertence ao sistema Ics; se, no teste, for rejeitado 
pela censura, no ter permisso para passar  segunda fase; diz-se ento que foi 'reprimido', devendo permanecer inconsciente. Se, porm, passar por esse teste, 
entrar na segunda fase e, subseqentemente, pertencer ao segundo sistema, que chamaremos de sistema Cs. Mas o fato de pertencer a esse sistema ainda no determina 
de modo inequvoco sua relao com a conscincia. Ainda no  consciente, embora, certamente, seja capaz de se tornar consciente (para usar a expresso de Breuer) 
- isto , pode agora, sob certas condies, tornar-se um objeto da conscincia sem qualquer resistncia especial. Em vista dessa capacidade de se tornar consciente, 
tambm denominamos o sistema Cs. de 'pr-consciente'. Se ocorrer que uma certa censura tambm desempenhe um papel em determinar se o pr-consciente se torna consciente, 
procederemos a uma discriminao mais acentuada entre os sistemas Pcs. e Cs. [ver em [1] e segs.]. Por ora contentemo-nos em ter em mente que o sistema Pcs. participa 
das caractersticas do sistema Cs., e que a censura rigorosa exerce sua funo no ponto de transio do Ics. para o Pcs. (ou Cs.).
         Aceitando a existncia desses dois (ou trs) sistemas psquicos, a psicanlise desviou-se mais um passo da 'psicologia da conscincia' descritiva e levantou 
novos problemas, adquirindo um novo contedo. At o momento, tem diferido daquela psicologia devido principalmente a seu conceito dinmico dos processos mentais; 
agora, alm disso, parece levar em conta tambm a topografia psquica, e indicar, em relao a determinado ato mental, dentro de que sistema ou entre que sistemas 
ela se verifica. Ainda por causa dessa tentativa, recebeu a designao de 'psicologia profunda'. Viremos a saber que ela poder ser bem mais enriquecida se ainda 
se levar em conta um outro ponto de vista. [ver em [1].]
         Se vamos considerar seriamente a topografia dos atos mentais, devemos dirigir nosso interesse para uma dvida que surge nesse ponto. Quando um ato psquico 
(limitemo-nos aqui a um ato que seja da natureza de uma idia)  transposto do sistema Ics. para o sistema Cs. (ou Pcs.), devemos ns supor que essa transio acarreta 
um registro novo - por assim dizer, um segundo registro - da idia em questo, que, assim, pode tambm ser situada numa nova localidade psquica, paralelamente  
qual o registro inconsciente original continua a existir? Ou, antes, devemos acreditar que a transposio consiste numa mudana no estado da idia, mudana que envolve 
o mesmo material e ocorre na mesma localidade? Essa questo pode parecer obscura, mas deve ser levantada, caso desejemos formar um conceito mais definido a respeito 
da topografia psquica, da dimenso da profundidade na mente. Isso  difcil, porque vai alm da psicologia pura e aborda as relaes entre o mecanismo mental e 
a anatomia. Sabemos que, mesmo no sentido mais grosseiro, tais relaes existem. A pesquisa nos tem fornecido provas irrefutveis de que a atividade mental est 
vinculada  funo do crebro como a nenhum outro rgo. Avanamos - no sabemos at que ponto - com a descoberta da importncia desigual das diferentes partes do 
crebro e de suas relaes especiais com partes especficas do corpo e com atividades mentais especficas. Mas todas as tentativas para, a partir disso, descobrir 
uma localizao dos processos mentais, todos os esforos para conceber idias armazenadas em clulas nervosas e excitaes que percorrem as fibras nervosas, tm 
fracassado redondamente. O mesmo fim aguardaria qualquer teoria que tentasse reconhecer, digamos, a posio anatmica do sistema Cs. - atividade mental consciente 
- como estando situada no crtex, e localizar os processos inconscientes nas partes subcorticais do crebro. Verifica-se aqui um hiato que, por enquanto, no pode 
ser preenchido, e no constitui tarefa da psicologia preench-lo. Nossa topografia psquica, no momento, nada tem que ver com a anatomia; refere-se no a localidades 
anatmicas, mas a regies do mecanismo mental, onde quer que estejam situadas no corpo.
         A esse respeito, ento, nosso trabalho est desembaraado, podendo prosseguir em funo de suas prprias necessidades. Contudo, ser til lembrar que, no 
p em que as coisas esto, nossas hipteses nada mais exprimem do que ilustraes grficas. A primeira das duas possibilidades que consideramos - isto , que a fase 
Cs. de uma idia acarreta um novo registro dessa idia, situado em outro lugar -,  sem dvida a mais grosseira, embora tambm mais conveniente. A segunda hiptese 
- a de uma mudana de estado meramente funcional -   priori mais provvel, embora menos plstica, menos fcil de manipular.  primeira hiptese, a topogrfica, 
est estreitamente vinculada a de uma separao topogrfica dos sistemas Ics. e Cs., e tambm a possibilidade de que uma idia possa existir simultaneamente em dois 
lugares no mecanismo mental - na realidade, a possibilidade de que, se no estiver inibida pela censura, ela avanar regularmente de uma posio para outra, sem 
perder talvez sua primeira localizao ou registro.
         Essa concepo talvez parea estranha, mas pode ser apoiada por observaes da prtica psicanaltica. Se comunicamos a um paciente uma idia reprimida por 
ele em certa ocasio, mas que conseguimos descobrir, o fato de lhe dizermos isso no provoca de incio qualquer mudana em sua condio mental. Acima de tudo, no 
remove a represso nem anula seus efeitos, como talvez se pudesse esperar do fato de a idia previamente inconsciente ter-se tornado agora consciente. Pelo contrrio, 
tudo o que de incio conseguiremos ser uma nova rejeio da idia reprimida. No entanto, agora, o paciente tem de modo concreto a mesma idia, sob duas formas, 
em diferentes lugares em seu mecanismo mental: primeiro, ele possui a lembrana consciente do trao auditivo da idia, transmitido no que lhe dissemos; segundo, 
tambm possui - como temos certeza - a lembrana inconsciente de sua experincia - em sua forma primitiva. Realmente, no h supresso de represso at que a idia 
consciente, aps as resistncias terem sido vencidas, entre em ligao com o trao de lembrana inconsciente. S quando este ltimo se torna consciente  que se 
alcana o xito. Numa considerao superficial, isso pareceria revelar que as idias conscientes e inconscientes constituem registros distintos, topograficamente 
separados, do mesmo teor. Mas basta uma reflexo momentnea para mostrar que a identidade entre a informao dada ao paciente e sua lembrana reprimida  apenas 
aparente. Ouvir algo e experimentar algo so, em sua natureza psicolgica, duas coisas bem diferentes, ainda que o contedo de ambas seja o mesmo.
         Assim, por ora no estamos em condies de decidir entre as duas possibilidades que acabamos de examinar. Talvez mais tarde venhamos a nos deparar com fatores 
que possam fazer a balana pender a favor de uma ou de outra. Talvez faamos a descoberta de que nossa pergunta foi inadequadamente articulada e de que a diferena 
entre uma idia inconsciente e outra consciente deve ser definida de maneira totalmente diferente. 
         
         III - EMOES INCONSCIENTES
         
         Limitamos a apreciao anterior a idias; agora podemos levantar uma nova questo, cuja resposta se destina a contribuir para a elucidao de nossos conceitos 
tericos. Dissemos que h idias conscientes e inconscientes; contudo, haver tambm impulsos instintuais, emoes e sentimentos inconscientes, ou, nesse caso, no 
ter sentido formar combinaes desse tipo?
         De fato, sou de opinio que a anttese entre consciente e inconsciente no se aplica aos instintos. Um instinto nunca pode tornar-se objeto da conscincia 
- s a idia que o representa pode. Alm disso, mesmo no inconsciente, um instinto no pode ser representado de outra forma a no ser por uma idia. Se o instinto 
no se prendeu a uma idia ou no se manifestou como um estado afetivo, nada poderemos conhecer sobre ele. No obstante, quando falamos de um impulso instintual 
inconsciente ou de um impulso instintual reprimido, a impreciso da fraseologia  inofensiva. Podemos apenas referir-nos a um impulso instintual cuja representao 
ideacional  inconsciente, pois nada mais entra em considerao.
         Devemos esperar que a resposta  questo dos sentimentos, emoes e afetos inconscientes seja dada com igual facilidade. Por certo, faz parte da natureza 
de uma emoo que estejamos cnscios dela, isto , que ela se torne conhecida pela conscincia. Assim, a possibilidade do atributo da inconscincia seria completamente 
excluda no tocante s emoes, sentimentos e afetos. Na prtica psicanaltica, porm, estamos habituados a falar de amor, dio, ira etc. inconscientes, e achamos 
impossvel evitar at mesmo a estranha conjuno 'conscincia inconsciente de culpa', ou uma 'ansiedade inconsciente' paradoxal. Haver mais sentido em empregar 
esses termos do que em falar de 'instintos inconscientes'?
         De fato, os dois casos no so idnticos. Em primeiro lugar, pode ocorrer que um impulso afetivo ou emocional seja sentido mas mal interpretado. Devido 
 represso de seu representante adequado,  forado a ligar-se a outra idia, sendo ento considerado pela conscincia como manifestao dessa idia. Se restaurarmos 
a verdadeira conexo, chamaremos o impulso afetivo original de 'inconsciente'. Contudo, seu afeto nunca foi inconsciente; o que aconteceu foi que sua idia sofreu 
represso. Em geral, o emprego das expresses 'afeto inconsciente' e 'emoo inconsciente' refere-se a vicissitudes sofridas, em conseqncia da represso, pelo 
fator quantitativo no impulso instintual. Sabemos que trs dessas vicissitudes so possveis: ou o afeto permanece, no todo ou em parte, como ; ou  transformado 
numa quota de afeto qualitativamente diferente, sobretudo em ansiedade; ou  suprimido, isto , impedido de se desenvolver. (Essas possibilidades talvez possam ser 
estudadas mais facilmente na elaborao dos sonhos do que nas neuroses.) Sabemos, tambm, que suprimir o desenvolvimento do afeto constitui a verdadeira finalidade 
da represso, e que seu trabalho ficar incompleto se essa finalidade no for alcanada. Em todos os casos em que a represso consegue inibir o desenvolvimento de 
afetos, denominamos esses afetos (que restauramos quando desfazemos o trabalho da represso) de 'inconscientes'. Assim, no se pode negar que o emprego das expresses 
em causa  coerente, embora, em comparao com idias inconscientes, se verifique a importante diferena de que, aps a represso, idias inconscientes continuam 
a existir como estruturas reais no sistema Ics., ao passo que tudo o que naquele sistema corresponde aos afetos inconscientes  um incio potencial impedido de se 
desenvolver. A rigor, ento, e ainda que no se possa criticar o uso lingstico, no existem afetos inconscientes da mesma forma que existem idias inconscientes. 
Pode, porm, muito bem haver estruturas afetivas no sistema Ics., que, como outras, se tornam conscientes. A diferena toda decorre do fato de que idias so catexias 
- basicamente de traos de memria -, enquanto que os afetos e as emoes correspondem a processos de descarga, cujas manifestaes finais so percebidas como sentimentos. 
No presente estado de nosso conhecimento a respeito dos afetos e das emoes, no podemos exprimir essa diferena mais claramente.
          de especial interesse para ns o estabelecimento do fato de que a represso pode conseguir inibir um impulso instintual, impedindo-o de se transformar 
numa manifestao de afeto. Isso mostra que o sistema Cs. normalmente controla no s a afetividade como tambm o acesso  motilidade, e reala a importncia da 
represso, mostrando que ela resulta no apenas em reter coisas provenientes da conscincia, mas igualmente em cercear o desenvolvimento do afeto e o desencadeamento 
da atividade muscular. Inversamente, tambm, podemos dizer que, enquanto o sistema Cs. controla a afetividade e a motilidade, a condio mental da pessoa em questo 
 considerada como normal. No obstante, h uma diferena inconfundvel na relao entre o sistema de controle e os dois processos contguos de descarga. Enquanto 
que o controle do Cs. sobre a motilidade voluntria se acha firmemente enraizado, suporta regularmente a investida da neurose e s cessa na psicose, o controle do 
Cs. sobre o desenvolvimento dos afetos  menos seguro. Mesmo dentro dos limites da vida normal podemos reconhecer que uma luta constante pela primazia sobre a afetividade 
prossegue entre os sistemas Cs. e Ics., que certas camadas de influncia so eliminadas de cada um deles e que ocorrem misturas entre as foras operativas.
         A importncia do sistema Cs. (Pcs.) no que se refere ao acesso  liberao do afeto e  ao, permite-nos tambm compreender o papel desempenhado pelas 
idias substitutivas na determinao da forma assumida pela doena.  possvel ao desenvolvimento do afeto proceder diretamente do sistema Ics.; nesse caso, o afeto 
sempre tem a natureza de ansiedade, pela qual so trocados todos os afetos 'reprimidos'. Com freqncia, contudo, o impulso instintual tem de esperar at que encontre 
uma idia substitutiva no sistema Cs. O desenvolvimento do afeto pode ento provir desse substituto consciente e a natureza desse substituto determina o carter 
qualitativo do afeto. Afirmamos [ver em [1]] que na represso ocorre uma ruptura entre o afeto e a idia  qual ele pertence, e que cada um deles ento passa por 
vicissitudes isoladas. Descritivamente, isso  incontestvel; na realidade, porm, o afeto, de modo geral, no se apresenta at que o irromper de uma nova apresentao 
no sistema Cs. tenha sido alcanado com xito.
         
         IV - TOPOGRAFIA E DINMICA DA REPRESSO
         
         Chegamos  concluso de que a represso constitui essencialmente um processo que afeta as idias na fronteira entre os sistemas Ics. e Pcs. (Cs.). Podemos 
fazer agora uma nova tentativa de descrever o processo com maiores detalhes.
         Deve tratar-se de uma retirada da catexia; mas a questo : em que sistema ocorre a retirada e a que sistema pertence a catexia retirada? A idia reprimida 
permanece capaz de agir no Ics., e deve, portanto, ter conservado sua catexia. O que foi retirado deve ter sido outra coisa. [ver em [1] e [2], adiante.] Tomemos 
o caso da represso propriamente dita ('presso posterior') [ver em [1]], quando afeta uma idia pr-consciente ou mesmo consciente. Aqui, a represso s pode consistir 
em retirar da idia da catexia (pr)-consciente que pertence ao sistema Pcs. A idia, portanto, ou permanece no catexizada, ou recebe a catexia do Ics., ou retm 
a catexia do Ics. que j possua. Assim, h uma retirada da catexia pr-consciente, uma reteno de catexia inconsciente, ou uma substituio da catexia pr-inconsciente 
por uma inconsciente. Notemos, alm disso, que baseamos essas reflexes (por assim dizer, intencionalmente) na suposio de que a transio do sistema Ics. para 
o sistema seguinte no se processa pela efetuao de um novo registro, mas por uma modificao em seu estado, uma alterao em sua catexia. Aqui, a hiptese funcional 
anulou facilmente a topogrfica. [Ver, acima, em [1] e [2].]
         Mas esse processo de retirada da libido no  suficiente para tornar compreensvel uma outra caracterstica da represso. No est clara a razo por que 
a idia que permaneceu catexizada ou que recebeu a catexia do Ics., no deve, em virtude de sua catexia, renovar a tentativa de penetrar no sistema Pcs. Se pudesse 
faz-lo, a retirada da libido dessa idia teria de ser repetida e o mesmo desempenho se processaria interminavelmente; o resultado, porm, no seria a represso. 
Da mesma forma, quando se trata de descrever a represso primeva, o mecanismo da retirada da catexia pr-consciente, que acabamos de examinar, deixaria de atender 
ao caso, pois aqui estamos lidando com uma idia inconsciente que ainda no recebeu qualquer catexia do Pcs. e, portanto, no pode ter essa catexia retirada dela.
         Necessitamos, por conseguinte, de outro processo que, no primeiro caso, mantenha a represso [isto , o caso da presso posterior] e, no segundo [isto , 
o da represso primeva], assegure o seu estabelecimento e continuidade. Esse outro processo s pode ser encontrado mediante a suposio de uma anticatexia, por meio 
da qual o sistema Pcs. se protege da presso que sofre por parte da idia inconsciente. Veremos, por meio de exemplos clnicos, como tal anticatexia, atuando no 
sistema Pcs., se manifesta.  isso que representa o permanente dispndio [de energia] de uma represso primeva, garantindo, igualmente, a permanncia dessa represso. 
A anticatexia  o nico mecanismo da represso primeva; no caso da represso propriamente dita ('presso posterior') verifica-se, alm disso, a retirada da catexia 
do Pcs.  bem possvel que seja precisamente a catexia retirada da idia a utilizada para a anticatexia.
         Vemos como gradativamente fomos levados a adotar um terceiro ponto de vista em nosso relato dos fenmenos psquicos. Alm dos pontos de vista dinmico e 
topogrfico [ver em [1]], adotamos o econmico. Este se esfora por levar at as ltimas conseqncias as vicissitudes de quantidades de excitao e chegar pelo 
menos a uma estimativa relativa de sua magnitude.
         No ser descabido dar uma denominao especial a essa maneira global de considerar nosso tema, pois ela  a consumao da pesquisa psicanaltica. Proponho 
que, quando tivermos conseguido descrever um processo psquico em seus aspectos dinmico, topogrfico e econmico, passemos a nos referir a isso como uma apresentao 
metapsicolgica. Devemos afirmar, de imediato, que no presente estado de nosso conhecimento h apenas alguns pontos nos quais essa tarefa ter xito.
         Esforcemo-nos tentativamente por apresentar uma descrio metapsicolgica do processo de represso nas trs neuroses de transferncia que nos so familiares. 
Aqui podemos substituir 'catexia' por 'libido', porque, como sabemos, estaremos lidando com as vicissitudes dos impulsos sexuais.
         Na histeria da ansiedade, uma primeira fase do processo  comumente desprezada e talvez, de fato, passe despercebida; mediante detida observao, contudo, 
ela pode ser claramente discernida. Consiste no surgimento da ansiedade sem que o indivduo saiba o que teme. Devemos supor que determinado impulso amoroso se encontrava 
presente no Ics., exigindo ser transposto para o sistema Pcs.; mas a catexia a ele dirigida a partir desse ltimo sistema retrai-se do impulso (como se se tratasse 
de uma tentativa de fuga) e a catexia libidinal inconsciente da idia rejeitada  descarregada sob a forma de ansiedade.
         Por ocasio de uma repetio (caso haja repetio) desse processo, d-se o primeiro passo no sentido de dominar o desenvolvimento importuno da ansiedade. 
A catexia [do Pcs.] que entrou em fuga se apega a uma idia substitutiva - que, por um lado, se relaciona por associao  idia rejeitada e, por outro, escapa  
represso em vista de sua distncia daquela idia. Essa idia substitutiva um 'substituto por deslocamento' [ver em [1]] - permite que o desenvolvimento, at ento 
desinibido, da ansiedade seja racionalizado. Ela passa a desempenhar o papel de uma anticatexia para o sistema Cs. (Pcs.), protegendo-o contra uma emergncia da 
idia reprimida no Cs. Por outro lado, , ou age como se fosse, o ponto de partida para a liberao do afeto revestido de ansiedade, que agora se tornou inteiramente 
desinibida. A observao clnica revela, por exemplo, que uma criana que sofre de uma fobia animal experimenta ansiedade sob duas condies: em primeiro lugar, 
quando seu impulso amoroso reprimido se intensifica e, em segundo, quando percebe o animal que teme. A idia substitutiva atua, no primeiro caso, como um ponto em 
que h uma passagem atravs do sistema Ics. para o sistema Cs., e, no outro, como uma fonte auto-suficiente para liberao da ansiedade. A extensa preponderncia 
do sistema Cs. em geral se manifesta no fato de que a primeira dessas duas modalidades de excitao da idia substitutiva d cada vez mais lugar  segunda. A criana 
talvez possa vir a se comportar como se no tivesse absolutamente qualquer predileo pelo pai, tornando-se inteiramente livre dele, e como se seu medo do animal 
fosse um temor real - exceto, porm, se esse medo do animal, alimentado, como , a partir de uma fonte instintual inconsciente, mostre ser inexorvel e exagerado 
em face de todas as influncias oriundas do sistema Cs. postas em ao, denunciando com isso sua derivao do sistema Ics. - Na segunda fase da histeria de ansiedade, 
portanto, a anticatexia proveniente do sistema Cs. leva  formao do substituto.
         Em breve o mesmo mecanismo encontra nova aplicao. O processo de represso, como sabemos, ainda no est completo, encontrando uma finalidade posterior 
na tarefa de inibir o desenvolvimento da ansiedade proveniente do substituto. Isto  alcanado pelo fato de que todo o ambiente associado da idia substitutiva  
catexizado com intensidade especial, exibindo, assim, um elevado grau de sensibilidade  excitao. A excitao de qualquer ponto dessa estrutura externa, dada sua 
ligao com a idia substitutiva, deve, inevitavelmente, dar lugar a um ligeiro desenvolvimento da ansiedade; isso passa a ser utilizado como um sinal para inibir, 
por meio de uma nova fuga da catexia [do Pcs.], o progresso posterior do desenvolvimento da ansiedade. Quanto mais distantes do substituto temido as sensveis e 
vigilantes anticatexias estiverem situadas, com maior preciso poder funcionar o mecanismo destinado a isolar a idia substitutiva e a proteg-la de novas excitaes. 
Essas precaues, naturalmente, limitam-se a resguardar a idia substitutiva de excitaes que vm de fora, atravs da percepo; nunca a protegem da excitao instintual, 
que alcana a idia substitutiva a partir da direo de seu elo com a idia reprimida. Assim, as preocupaes no comeam a atuar at que o substituto tenha assumido 
satisfatoriamente a representao do reprimido, e jamais podem atuar de maneira inteiramente fidedigna. A cada aumento da excitao instintual, a muralha protetora 
em torno da idia substitutiva deve ser deslocada um pouco mais para fora.  totalidade dessa construo, que  erigida de forma anloga nas demais neuroses, denominamos 
fobia. A fuga de uma catexia consciente da idia substitutiva se manifesta nas evitaes, nas renncias e nas proibies, por meio das quais reconhecemos a histeria 
de ansiedade.
         Fazendo um levantamento de todo o processo, podemos dizer que a terceira fase repete o trabalho da segunda numa escala mais ampla. O sistema Cs. se defende 
agora da ativao da idia substitutiva por meio de uma anticatexia do seu ambiente, da mesma maneira pela qual, anteriormente, se defendia da emergncia da idia 
reprimida por meio de uma catexia da idia substitutiva. Desse modo, prossegue a formao de substitutos por deslocamento. Devemos tambm acrescentar que, embora 
o sistema Cs. s disponha, de incio, de uma pequena rea na qual o impulso instintual reprimido pode irromper, a saber, a idia substitutiva, em ltima instncia 
esse enclave da influncia inconsciente se estende a toda a estrutura externa fbica. Alm disso, podemos dar nfase  interessante considerao de que, pondo-se 
assim em ao todo o mecanismo defensivo, consegue-se projetar para fora o perigo instintual. O ego comporta-se como se o perigo de um desenvolvimento da ansiedade 
o ameaasse, no a partir da direo de um impulso instintual, mas da direo de uma percepo, tornando-se assim capaz de reagir contra esse perigo externo atravs 
das tentativas de fuga representadas por evitaes fbicas. Nesse processo, a represso  bem-sucedida num ponto particular: a liberao da ansiedade pode, at certo 
ponto, ser represada, mas somente  custa de um pesado sacrifcio da liberdade pessoal. Via de regra, porm, as tentativas de fuga s exigncias do instinto so 
inteis, e, apesar de tudo, o resultado da fuga fbica permanece insatisfatrio.
         Grande parte daquilo que verificamos na histeria de ansiedade tambm  vlido para as duas outras neuroses, de modo que podemos limitar nosso exame a seus 
pontos de diferena e ao papel desempenhado pela anticatexia. Na histeria de converso, a catexia instintual da idia reprimida converte-se na inervao do sintoma. 
At que ponto e em que circunstncias a idia inconsciente  esvaziada por essa descarga na inervao, de modo a suspender a presso que exerce sobre o sistema Cs. 
- essas e outras perguntas semelhantes devem ser reservadas para uma investigao especial da histeria. Na histeria de converso o papel desempenhado pela anticatexia 
proveniente do sistemas Cs. (Pcs.)  ntido e se torna manifesto na formao do sintoma.  a anticatexia que decide em que poro do representante instintual pode 
concentrar-se toda a catexia do ltimo. A poro assim escolhida para ser um sintoma atende  condio de expressar a finalidade impregnada de desejo do impulso 
instintual, bem como os esforos defensivos ou punitivos do sistema Cs. na represso no precisa ser to grande quanto a mantida, de ambas as direes, como a idia 
substitutiva na histeria de ansiedade. Dessa circunstncia podemos concluir sem hesitao que a quantidade de energia despendida pelo sistema Cs. na represso no 
precisa ser to grande quanto a energia catexial do sintoma, pois a fora da represso  medida pela quantidade de anticatexia despendida, ao passo que o sintoma 
 sustentado no somente por essa anticatexia, como tambm pela catexia instintual oriunda do sistema Ics. que se acha condensada no sintoma. 
         Quanto  neurose obsessiva, s precisamos acrescentar s observaes formuladas no artigo anterior [ver em [1] e segs.] que  aqui que a anticatexia proveniente 
do sistema Cs. se coloca da forma mais conspcua no primeiro plano.  isso que, organizado como uma formao de reao, provoca a primeira represso, constituindo 
depois o ponto no qual a idia reprimida irrompe. Podemos aventurar a suposio de que  devido  predominncia da anticatexia e  ausncia de descarga que o trabalho 
de represso parece muito menos bem-sucedido na histeria de ansiedade e na neurose obsessiva do que na histeria de converso.
         
         V - AS CARACTERSTICAS ESPECIAIS DO SISTEMA Ics.
         
         A distino que estabelecemos entre os dois sistemas psquicos ganha novo significado quando observamos que os processos em um dos sistemas, o Ics., apresentam 
caractersticas que no tornamos a encontrar no sistema imediatamente acima dele.
         O ncleo do Ics. consiste em representantes instintuais que procuram descarregar sua catexia; isto , consiste em impulsos carregados de desejo. Esses impulsos 
instintuais so coordenados entre si, existem lado a lado sem se influenciarem mutuamente, e esto isentos de contradio mtua. Quando dois impulsos carregados 
de desejo, cujas finalidades so aparentemente incompatveis, se tornam simultaneamente ativos, um dos impulsos no reduz ou cancela o outro, mas os dois se combinam 
para formar uma finalidade intermediria, um meio-termo.
         No h nesse sistema lugar para negao, dvida ou quaisquer graus de certeza: tudo isso s  introduzido pelo trabalho da censura entre o Ics. e o Pcs. 
A negao  um substituto, em grau mais elevado, da represso. No Ics. s existem contedos catexizados com maior ou menor fora.
         As intensidades catexiais [no Ics.] so muito mais mveis. Pelo processo de deslocamento uma idia pode ceder a outra toda a sua quota de catexia; pelo 
processo de condensao pode apropriar-se de toda a catexia de vrias outras idias. Propus que esses dois processos fossem considerados como marcos distintivos 
do assim denominado processo psquico primrio. No sistema Pcs. o processo secundrio  dominante. Quando se permite que um processo primrio siga seu curso em conexo 
com elementos que pertencem ao sistema Pcs., ele parece 'cmico' e provoca o riso.
         
         Os processos do sistema Ics. so intemporais; isto , no so ordenados temporalmente, no se alteram com a passagem do tempo; no tm absolutamente qualquer 
referncia ao tempo. A referncia ao tempo vincula-se, mais uma vez, ao trabalho do sistema Cs. 
         Do mesmo modo os processos Ics. dispensam pouca ateno  realidade. Esto sujeitos ao princpio do prazer; seu destino depende apenas do grau de sua fora 
e do atendimento s exigncias da regulao prazer-desprazer.
         Resumindo: a iseno de contradio mtua, o processo primrio (mobilidade das catexias), a intemporalidade e a substituio da realidade externa pela psquica 
- tais so as caractersticas que podemos esperar encontrar nos processos pertencentes ao sistema Ics.
         Os processos inconscientes se tornam cognoscveis por ns sob as condies de sonho e neurose - vale dizer, quando os processos do sistema Pcs., mais elevado, 
so levados de volta a uma fase anterior, a um nvel mais baixo (pela regresso). Por si ss no so percebidos; na realidade, so at mesmo incapazes de conduzir 
sua existncia, pois o sistema Ics. se acha muito prematuramente sobrecarregado pelo Pcs. que ganhou acesso  conscincia e  motilidade. A descarga do sistema Ics. 
passa a inervao somtica, que leva ao desenvolvimento do afeto; mas mesmo esse caminho da descarga , conforme j vimos [ver em [1] e segs.], contestado pelo Pcs. 
Por si s, o sistema Ics. no seria capaz, em condies normais, de provocar quaisquer atos musculares adequados,  exceo dos j organizados como reflexos.
         S poderamos apreciar a importncia total das caractersticas do sistema Ics. acima descritas contrastando-as e comparando-as com as do sistema Pcs. Mas 
isso nos levaria para to longe, que proponho que paremos mais uma vez e s empreendamos a comparao dos dois quando pudermos faz-lo em relao com nossa apreciao 
do sistema mais elevado. Apenas os pontos mais prementes sero mencionados nessa fase.
         Os processos do sistema Pcs. exibem - no importando se j so conscientes ou somente capazes de se tornarem conscientes - uma inibio da tendncia de 
idias catexizadas  descarga. Quando um processo passa de uma idia para outra, a primeira idia conserva uma parte de sua catexia e apenas uma pequena parcela 
 submetida a deslocamento. Os deslocamentos e as condensaes, tais como ocorrem no processo primrio, so excludos ou bastante restringidos. Essa circunstncia 
levou Breuer a presumir a existncia de dois estados diferentes de energia catexial na vida mental: um em que a energia se acha tonicamente 'vinculada' e outro no 
qual  livremente mvel e pressiona no sentido da descarga. Em minha opinio, essa distino representa a compreenso interna (insight) mais profunda que alcanamos 
at agora a respeito da natureza da energia nervosa, e no vejo como podemos evitar faz-la. Uma apresentao metapsicolgica exigiria com a mxima urgncia um exame 
ulterior desse ponto, embora, talvez, isso fosse ainda um empreendimento muito ousado.
         Alm disso, cabe ao sistema Pcs. efetuar a comunicao possvel entre os diferentes contedos ideacionais de modo que possam influenciar uns aos outros, 
a fim de dar-lhes uma ordem no tempo e estabelecer uma censura ou vrias censuras; tambm o 'teste da realidade', bem como o princpio de realidade, se encontram 
em seu domnio. A lembrana consciente, outrossim, parece depender inteiramente do Pcs. Isso deve ser claramente distinguido dos traos de memria nos quais se fixam 
as experincias do Ics., correspondendo provavelmente a um registro especial como o que propusemos (e depois rejeitamos) para explicar a relao entre as idias 
conscientes e as inconscientes [ver em [1] e segs.]. Nesse sentido, tambm, encontramos meios para pr termo a nossas oscilaes quanto  designao do sistema mais 
elevado - sobre o qual at agora nos referimos de maneira indiferente, s vezes como Pcs., s vezes como Cs.
         A essa altura, tambm no ser fora de propsito fazer uma advertncia contra qualquer generalizao apressada a respeito do que trouxemos  luz no tocante 
 distribuio das vrias funes mentais entre os dois sistemas. Estamos descrevendo o estado de coisas tal como aparece no ser humano adulto, no qual o sistema 
Ics. s atua, rigorosamente falando, como uma fase preliminar da organizao mais elevada. Qual  o contedo e quais so as ligaes desse sistema durante o desenvolvimento 
do indivduo, e, ainda, qual a importncia que possui nos animais - so questes sobre as quais no se pode deduzir qualquer concluso a partir de nossa descrio: 
devem ser investigadas independentemente. Alm disso, devemos estar preparados para encontrar nos seres humanos possveis condies patolgicas sob as quais os dois 
sistemas alteram, ou mesmo permutam, tanto seu contedo como suas caractersticas.  
         
         VI - COMUNICAO ENTRE OS DOIS SISTEMAS
         
         Seria no obstante errneo imaginar que o Ics. permanece em repouso enquanto todo o trabalho da mente  realizado pelo Pcs. - que o Ics.  algo liquidado, 
um rgo vestigial, um resduo do processo de desenvolvimento. Tambm  errneo supor que a comunicao entre os dois sistemas se acha confinada ao ato de represso, 
com o Pcs. lanando tudo que lhe parece perturbador no abismo do Ics. Pelo contrrio, o Ics. permanece vivo e capaz de desenvolvimento, mantendo grande nmero de 
outras relaes com o Pcs., entre as quais a da cooperao. Em suma, deve-se dizer que o Ics. continua naquilo que conhecemos como derivados, que  acessvel s 
impresses da vida, que influencia constantemente o Pcs., e que, por sua vez, est inclusive sujeito  influncia do Pcs.
         O estudo dos derivados do Ics. desapontar inteiramente nossas expectativas quanto a uma distino esquematicamente ntida entre os dois sistemas psquicos. 
Isso, sem dvida, provocar insatisfao no que diz respeito a nossos resultados e, provavelmente, ser utilizado para lanar dvidas sobre o valor do modo pelo 
qual dividimos os processos psquicos. Respondemos, porm, que no temos outra finalidade seno a de traduzir em teoria os resultados da observao, e negamos que 
haja qualquer obrigao de nossa parte de alcanar em nossa primeira tentativa uma teoria completa que se recomende por sua simplicidade. Defenderemos as complicaes 
de nossa teoria enquanto verificarmos que atendem aos resultados da observao, e no abandonaremos nossas expectativas quanto a chegarmos, no final, por meio dessas 
prprias complicaes,  descoberta de um estado de coisas que, embora simples em si, possa explicar todas as complicaes da realidade.
         Entre os derivados dos impulsos instintuais do Ics., do tipo que descrevemos, existem alguns que renem em si caractersticas de uma espcie oposta. Por 
um lado, so altamente organizados, livres de autocontradio, tendo usado todas as aquisies do sistema Cs., dificilmente distinguindo-se, a nosso ver, das formaes 
daquele sistema. Por outro, so inconscientes e incapazes de se tornarem conscientes. Assim, qualitativamente pertencem ao sistema Pcs., mas factualmente, ao Ics. 
 sua origem que decide seu destino. Podemos compar-los a indivduos de raa mestia que, num apanhado geral, se assemelham a brancos, mas que traem sua ascendncia 
de cor por uma ou outra caracterstica marcante, sendo, por causa disso, excludos da sociedade, deixando de gozar dos privilgios dos brancos. Essa  a natureza 
das fantasias de pessoas normais, bem como de neurticas, fantasias que reconhecemos como sendo etapas preliminares da formao tanto dos sonhos como dos sintomas 
e que, apesar de seu alto grau de organizao, permanecem reprimidas, no podendo, portanto, tornar-se conscientes. Aproximam-se da conscincia e permanecem imperturbadas 
enquanto no dispem de uma catexia intensa, mas, to longo excedem certo grau de catexia, so lanadas para trs. As formaes substitutivas tambm so derivados 
altamente organizados do Ics. desse tipo; mas, em circunstncias favorveis, conseguem irromper at a conscincia - por exemplo, caso unam suas foras com uma anticatexia 
proveniente do Pcs.
         Quando, em outro lugar, examinarmos mais detidamente as precondies para se tornarem conscientes, seremos capazes de encontrar uma soluo para algumas 
das dificuldades que surgem nesse ponto. No presente momento, parece um bom plano olhar as coisas sob o ngulo da conscincia, em contraste com nossa abordagem prvia, 
que ascendia a partir do Ics. Para a conscincia, toda a soma dos processos psquicos se apresenta como o domnio do pr-consciente. Grande parte desse pr-consciente 
origina-se no inconsciente, tem a natureza dos seus derivados e est sujeita a censura antes de poder tornar-se consciente. Outra parte do Pcs.  capaz de se tornar 
consciente sem qualquer censura. Aqui, chegamos a uma contradio de uma suposio anterior. Ao ventilarmos o assunto da represso fomos obrigados a situar a censura, 
que  decisiva para o processo de conscientizao, entre os sistemas Ics. e Pcs. [ver em [1]]. Agora, passa a ser provvel que haja uma censura entre o Pcs. e o 
Cs. No obstante, faremos bem em no considerarmos essa complicao como uma dificuldade, mas em presumirmos que, a cada transio de um sistema para o que se encontra 
imediatamente acima dele (isto , cada passo no sentido de uma etapa mais elevada da organizao psquica), corresponde uma nova censura. Isso, pode-se observar, 
elimina a suposio de uma armazenagem contnua de novos registros [ver em [1]].
         A razo de ser de todas essas dificuldades reside na circunstncia de que o atributo de ser consciente, nica caracterstica dos processos psquicos que 
nos  diretamente apresentada, de forma alguma se presta a servir de critrio para a diferenciao de sistemas. [ver em [1], acima.] Independentemente do fato de 
o consciente nem sempre ser consciente, mas tambm s vezes latente, a observao tem demonstrado que grande parte daquilo que partilha das caractersticas do sistema 
Pcs. no se torna consciente; alm disso, sabemos que o ato de se tornar consciente depende de que a ateno do Pcs. esteja voltada para certas direes. Por isso 
a conscincia no se situa numa relao simples, quer com os diferentes sistemas, quer com a represso. A verdade  que no  apenas o psiquicamente reprimido que 
permanece alheio  conscincia, mas tambm alguns dos impulsos que dominam nosso ego - algo, portanto, que forma a mais forte das antteses funcionais ao reprimido. 
Quanto mais procuramos encontrar nosso caminho para uma concepo metapsicolgica da vida mental, mais devemos aprender a nos emancipar da importncia do sistema 
de 'ser consciente'.
         Enquanto ainda nos apegarmos a essa crena, veremos nossas generalizaes regularmente desfeitas por excees. Por um lado, verificamos que derivados do 
Ics. se tornam conscientes na qualidade de formaes e sintomas substitutivos - em geral,  verdade, depois de terem sofrido grande distoro em confronto com o 
inconsciente, embora conservando freqentemente muitas caractersticas que exigem represso. Por outro lado, verificamos que numerosas formaes pr-conscientes 
permanecem inconscientes, embora devssemos esperar que, por sua natureza, pudessem muito bem ter-se tornado conscientes. Provavelmente, no ltimo caso a atrao 
mais forte do Ics. est-se afirmando. Somos levados a procurar a distino mais importante como estando situada, no entre o consciente e o pr-consciente, mas entre 
o pr-consciente e o inconsciente. O Ics.  rechaado, na fronteira do Pcs., pela censura, mas os derivados do Ics. podem contornar essa censura, atingir um alto 
grau de organizao e alcanar certa intensidade de catexia no Pcs. Quando, contudo, essa intensidade  ultrapassada e eles tentam forar sua passagem para a conscincia, 
so reconhecidos como derivados do Ics. e outra vez reprimidos na fronteira da censura, entre o Pcs. e o Cs. Assim, a primeira dessas censuras  exercida contra 
o prprio Ics., e a segunda, contra os seus derivados do Pcs. Poder-se-ia supor que no decorrer do desenvolvimento individual a censura deu um passo  frente. 
         No tratamento psicanaltico fica provada, sem sombra de dvida, a existncia da segunda censura, localizada entre os sistemas Pcs. e Cs. Pedimos ao paciente 
que forme numerosos derivados do Ics., fazemos com que ele se comprometa a superar as objees da censura a essas formaes pr-conscientes que se tornam conscientes, 
e, pondo abaixo essa censura, desbravamos o caminho para ab-rogao da represso realizada pela anterior. A isso acrescentemos que a existncia da censura entre 
o Pcs e o Cs. nos ensina que o tornar-se consciente no constitui um mero ato de percepo, sendo provavelmente tambm uma hipercatexia, um avano ulterior na organizao 
psquica.
         Voltemos s comunicaes entre o Ics. e os outros sistemas, menos para estabelecer algo de novo do que para evitar a omisso daquilo que  mais proeminente. 
Nas razes da atividade instintual, os sistemas se comunicam entre si mais extensivamente. Uma parcela dos processos que l so excitados passa atravs do Ics., 
como que por uma etapa preparatria e atinge o desenvolvimento psquico mais elevado no Cs.; outra parcela  retida como Ics. Mas o Ics.  tambm afetado por experincias 
oriundas da percepo externa. Normalmente, todos os caminhos desde a percepo at o Ics. permanecem abertos e s os que partem do Ics. esto sujeitos ao bloqueio 
pela represso.
         Constitui fato marcante que o Ics. de um ser humano possa reagir ao de outro, sem passar atravs do Cs. Isso merece uma investigao mais detida, principalmente 
com o fim de descobrir se podemos excluir a atividade pr-consciente do desempenho de um papel nesse caso; descritivamente falando, porm, o fato  incontestvel. 
[Cf. um exemplo disso em Freud, 1913i.]
         O contedo do sistema Pcs. (ou Cs.) deriva em parte da vida instintual (por intermdio do Ics.) e em parte da percepo. Desconhecemos at que ponto os 
processos desse sistema podem exercer influncia direta sobre o Ics.; o exame de casos patolgicos muitas vezes revela uma incrvel independncia e uma falta de 
suscetibilidade  influncia por parte do Ics. Uma completa divergncia de suas tendncias, uma total separao dos dois sistemas,  o que acima de tudo caracteriza 
uma condio de doena. No obstante, o tratamento psicanaltico se baseia numa influncia do Ics. a partir da direo do Cs., e pelo menos demonstra que, embora 
se trate de uma tarefa laboriosa, no  impossvel. Os derivados do Ics. que agem como intermedirios entre os dois sistemas desvendam o caminho, conforme j dissemos 
[ver em [1]], para que isso se realize. Contudo, podemos presumir com segurana que uma alterao espontaneamente efetuada no Ics. a partir da direo do Cs. constitui 
um processo difcil e lento.
         A cooperao entre um impulso pr-consciente e um inconsciente, mesmo quando o segundo  intensamente reprimido, pode ocorrer caso haja uma situao na 
qual o impulso inconsciente possa atuar no mesmo sentido que um impulso de uma das tendncias dominantes. Nessa circunstncia, a represso  removida e a atividade 
reprimida  admitida como reforo da atividade pretendida pelo ego. O inconsciente torna-se ego-sintnico no tocante a essa conjuno isolada, sem que ocorra qualquer 
outra modificao em sua represso. Nessa cooperao, a influncia do Ics. inconfundvel: as tendncias reforadas se revelam como sendo, no obstante, diferente 
do normal; possibilitam um funcionamento especial mente perfeito e manifestam, em face da oposio, uma resistncia semelhante  oferecida por exemplo, pelos sintomas 
obsessivos.
         O contedo do Ics, pode ser comparado  presena de uma populao aborgine na mente. Se existem no ser humano formaes mentais herdadas - algo anlogo 
ao instinto nos animais -, elas constituem o ncleo do Ics. Depois, junta-se a elas o que foi descartado durante o desenvolvimento da infncia como sendo intil; 
e isso no precisa diferir, em sua natureza, daquilo que  herdado. Em geral, uma diviso acentuada e final entre o contedo dos dois sistemas no ocorre at a puberdade.
         
         VII - AVALIAO DO INCONSCIENTE
         
         O que reunimos nas apreciaes precedentes  provavelmente tudo que podemos dizer sobre o Ics., enquanto nos limitamos a extrair nossos conhecimentos da 
vida onrica das neuroses de transferncia. Por certo no  muito e em alguns pontos d a impresso de obscuridade e confuso, sendo que, acima de tudo, no nos 
oferece qualquer possibilidade de coordenar ou de fundir o Ics. em um contexto com o qual j estejamos familiarizados. S a anlise de uma das afeces que denominamos 
de psiconeurose narcisista promete proporcionar-nos concepes atravs das quais o enigmtico Ics. ficar mais ao nosso alcance, tornando-se, por assim dizer, tangvel.
         Desde a publicao de uma obra de Abraham (1908) - atribuda por esse consciencioso escritor  minha instigao -, tentamos basear nossa caracterizao 
da 'dementia praecox' de Kraepelin ('esquizofrenia' de Bleuler) em sua posio relativa  anttese entre ego e objeto. Nas neuroses de transferncia (histeria de 
ansiedade, histeria de converso e neurose obsessiva) nada havia que desse especial proeminncia a essa anttese. Sabamos, realmente, que a frustrao quanto ao 
objeto acarreta a irrupo da neurose e que esta envolve uma renncia ao objeto real; sabamos tambm que a libido que  retirada do objeto real reverte primeiro 
a um objeto fantasiado e ento a um objeto reprimido (introverso). Mas nessas perturbaes a catexia objetal geralmente  retida com grande energia, e um exame 
mais pormenorizado do processo de represso nos obrigou a presumir que a catexia objetal persiste no sistema Ics. apesar da represso - ou antes, em conseqncia 
desta. [ver em [1]] Na realidade, a capacidade de transferncia, que usamos com propsitos teraputicos nessas afeces, pressupe uma catexia objetal inalterada.
         No caso da esquizofrenia, por outro lado, fomos levados  suposio de que, aps o processo de represso, a libido que foi retirada no procura um novo 
objeto e refugia-se no ego; isto , que aqui as catexias objetais so abandonadas, restabelecendo-se uma primitiva condio de narcisismo de ausncia de objeto. 
A incapacidade de transferncia desses pacientes (at onde o processo patolgico se estende), sua conseqente inacessibilidade aos esforos teraputicos, seu repdio 
caracterstico ao mundo externo, o surgimento de sinais de uma hipercatexia do seu prprio ego, o resultado final de completa apatia - todas essas caractersticas 
clnicas parecem concordar plenamente com a suposio de que suas catexias objetais foram abandonadas. Quanto  relao dos dois sistemas psquicos entre si, todos 
os observadores se surpreendem com o fato de que muito do que  expresso na esquizofrenia como sendo consciente, nas neuroses de transferncia s pode revelar sua 
presena no Ics. atravs da psicanlise. De incio, porm, no fomos capazes de estabelecer qualquer conexo inteligvel entre a relao do objeto do ego e as relaes 
da conscincia.
         O que procuramos parece apresentar-se da seguinte, e inesperada, maneira. Nos esquizofrnicos observamos - especialmente nas etapas iniciais, to instrutivas 
- grande nmero de modificaes na fala, algumas das quais merecem ser consideradas de um ponto de vista particular. Freqentemente, o paciente devota especial cuidado 
a sua maneira de se expressar, que se torna ' afetada ' e ' preciosa '. A construo de suas frases passa por uma desorganizao peculiar, que as torna incompreensveis 
para ns, a ponto de suas observaes parecerem disparatadas. Referncias a rgos corporais ou a inervaes quase sempre ganham proeminncia no contedo dessas 
observaes. A isso pode-se acrescentar o fato de que, em tais sintomas da esquizofrenia, em comparao com as formaes substitutivas de histeria ou de neurose 
obsessiva, a relao entre o substituto e o material reprimido, no obstante, exibe peculiaridades que nos surpreenderiam nessas duas formas de neuroses.
         O Dr. Victor Tausk, de Viena, ps  minha disposio algumas observaes que fez nas etapas iniciais da esquizofrenia de um paciente, particularmente valiosas, 
visto que a prpria paciente se prontificava a explicar suas manifestaes orais. Lanarei mo de dois dos seus exemplos para ilustrar o conceito que desejo formular, 
e no tenho dvida de que todo observador poderia apresentar material abundante dessa natureza.
         Uma paciente de Tausk, uma moa levada  clnica aps uma discusso com o amante, queixou-se de que seus olhos no estavam direitos, estavam tortos. Ela 
mesma explicou o fato, apresentando, em linguagem coerente, uma srie de acusaes contra o amante. 'De forma alguma ela conseguia compreend-lo, a cada vez ele 
parecia diferente; era hipcrita, um entortador de olhos, ele tinha entortado os olhos dela; agora ela tinha olhos tortos; no eram mais os olhos dela; agora via 
o mundo com olhos diferentes.'
         Os comentrios da paciente sobre sua observao ininteligvel tm o valor de uma anlise, pois contm o equivalente  observao expressa numa forma geralmente 
compreensvel. Lanam luz ao mesmo tempo sobre o significado e sobre a gnese da formao de palavras esquizofrnicas. Concordo com Tausk quando ressalta nesse exemplo 
que a relao da paciente com o rgo corporal (o olho) arrogou-se a si a representao de todo o contedo [dos pensamentos dela]. Aqui a manifestao oral esquizofrnica 
exibe uma caracterstica hipocondraca: tornou-se 'fala do rgo'.
         A mesma paciente fez uma segunda comunicao: 'Ela estava de p na igreja. De sbito sentiu um solavanco: teve de mudar de posio, como se algum a estivesse 
pondo numa posio, como se ela estivesse sendo posta numa certa posio.'
         Veio ento a anlise disso atravs de uma nova srie de acusaes contra o amante. 'Ele era vulgar, ele a tornara vulgar tambm, embora ela fosse naturalmente 
requintada. Ele a fizera igual a ele, levando-a a pensar que era superior a ela; agora ela se tornara igual a ele, porque ela pensava que seria melhor para ela se 
fosse igual a ele. Ele dera uma falsa impresso da posio dele; agora ela era igual a ele' (por identificao), 'ele a pusera numa falsa posio'.
         O movimento fsico de 'mudar-lhe a posio', observa Tausk, retratava as palavras 'pondo-a numa falsa posio' e sua identificao com o amante. Gostaria 
de chamar a ateno mais uma vez para o fato de que todo encadeamento de pensamento  dominado pelo elemento que possui como contedo uma inervao do corpo (ou, 
antes, a sensao dela). Alm disso, no primeiro exemplo, uma histrica teria, de fato, entortado convulsivamente os olhos, e, no segundo, dado solavancos, em vez 
de ter o impulso para agir dessa forma ou a sensao de agir dessa forma; e em nenhum dos dois casos ela teria tido quaisquer pensamentos conscientes concomitantes, 
nem teria sido capaz de expressar quaisquer pensamentos depois.
         Essas duas observaes, ento, atuam a favor do que denominamos de fala hipocondraca ou de 'fala do rgo'. Mas, e isso nos parece mais importante, tambm 
apontam para outra coisa, da qual conhecemos inmeros casos (por exemplo, os casos coligidos na monografia de Bleuler [1911]), que podem ser reduzidos a uma frmula 
definida. Na esquizofrenia, as palavras esto sujeitas a um processo igual ao que interpreta as imagensonricas dos pensamentos onricos latentes - que chamamos 
de processo psquico primrio. Passam por uma condensao, e por meio de deslocamento transferem integralmente suas catexias de umas para as outras. O processo pode 
ir to longe, que uma nica palavra, se for especialmente adequada devido a suas numerosas conexes, assume a representao de todo um encadeamento de pensamento. 
As obras de Bleuler, de Jung e de seus discpulos oferecem grande quantidade de material que apia particularmente essa assertiva.
         Antes de tirarmos qualquer concluso de impresses como essas, consideremos ainda as distines entre a formao de substitutos na esquizofrenia, por um 
lado, e na histeria e neurose obsessiva, por outro - distines sutis que, no obstante, causam uma estranha impresso. Um paciente, que no momento tenho sob observao, 
permitiu-se ficar afastado de todos os interesses da vida em virtude do mau estado da pele de seu rosto. Afirma ter cravos e profundos orifcios no rosto que todo 
mundo nota. A anlise demonstra que ele faz da pele o palco de seu complexo de castrao. De incio, atacava esses cravos sem piedade e ficava muito satisfeito ao 
esprem-los, porque, como dizia, algo esguichava quando o fazia. Comeou ento a pensar que surgia uma profunda cavidade cada vez que se livrava de um cravo, e se 
censurava com a maior veemncia por ter arruinado a pele para sempre 'por no saber deixar as mos sossegadas'. Espremer o contedo dos cravos  para ele, nitidamente, 
um substituto da masturbao. A cavidade que ento surge por sua culpa  o rgo genital feminino, isto , a realizao da ameaa de castrao (ou a fantasia que 
representa essa ameaa) provocada pela sua masturbao. Essa formao substitutiva, apesar de seu carter hipocondraco, assemelha-se consideravelmente a uma converso 
histrica; contudo, temos a sensao de que algo diferente deve estar ocorrendo aqui, que uma formao substitutiva como essa no pode ser atribuda  histeria, 
mesmo antes que possamos dizer em que consiste a diferena. Uma cavidade to minscula como um poro de pele dificilmente seria utilizada por um histrico como smbolo 
da vagina, smbolo este que, de outra forma, ele est pronto para comparar com todo objeto imaginvel que encerre um espao oco. Alm disso, devemos esperar que 
a multiplicidade dessas pequenas cavidades o impea de empreg-las como substituto do rgo genital feminino. A mesma coisa se aplica ao caso de um paciente jovem 
encaminhado por Tausk h alguns anos  Sociedade Psicanaltica de Viena. Esse paciente se comportava, sob outros aspectos, exatamente como se sofresse de uma neurose 
obsessiva; levava horas para tomar banho e se vestir, e assim por diante. Tornou-se observvel, contudo, que ele era capaz de fornecer o significado de suas inibies 
sem qualquer resistncia. Ao calar as meias, por exemplo, ficava perturbado pela idia de que ia separar os pontos da malha, isto , os furos, e para ele cada furo 
era um smbolo do orifcio genital feminino. Isso, mais uma vez,  algo que no podemos atribuir a um neurtico obsessivo. Reitler observou um paciente desse ltimo 
tipo, que tambm sofria por ter de levar muito tempo para calar as meias; esse homem, aps superar suas resistncias, encontrou a explicao de que seu p simbolizava 
um pnis, que calar a meia representava um ato masturbatrio, e que ele tinha de ficar a botar e tirar a meia, em parte para completar o quadro da masturbao, 
em parte para desfazer esse ato.
         Se perguntarmos o que  que empresta o carter de estranheza  formao substitutiva e ao sintoma na esquizofrenia, compreenderemos finalmente que  a predominncia 
do que tem a ver com as palavras sobre o que tem que ver com as coisas. At onde se pode perceber, existe apenas uma similaridade muito pequena entre o espremer 
um cravo e uma emisso do pnis, e ela  ainda menor entre os inmeros poros rasos da pele e a vagina; mas no primeiro caso h, em ambos os exemplos, um 'esguicho', 
enquanto que, no ltimo, o cnico ditado 'um buraco  um buraco'  verdadeiro em seu sentido verbal. O que dita a substituio no  a semelhana entre as coisas 
denotadas, mas a uniformidade das palavras empregadas para express-las. Onde as duas - palavras e coisas - no coincidem, a formao de substitutos na esquizofrenia 
diverge do que ocorre nas neuroses de transferncia.
         Se agora pusermos essa descoberta ao lado da hiptese de que na esquizofrenia as catexiais objetais so abandonadas, seremos obrigados a modificar a hiptese, 
acrescentando que a catexia das apresentaes da palavra de objetos  retida. O que livremente denominamos de apresentao consciente do objeto pode agora ser dividido 
na apresentao da palavra e na apresentao da coisa; a ltima consiste na catexia, se no das imagens diretas da memria da coisa, pelo menos de traos de memria 
mais remotos derivados delas. Agora parece que sabemos de imediato qual a diferena entre uma apresentao consciente e uma inconsciente [ver em [1]]. As duas no 
so, como supnhamos, registros diferentes do mesmo contedo em diferentes localidades psquicas, nem tampouco diferentes estados funcionais de catexias na mesma 
localidade; mas a apresentao consciente abrange a apresentao da coisa mais a apresentao da palavra que pertence a ela, ao passo que a apresentao inconsciente 
 a apresentao da coisa apenas. O sistema Ics. contm as catexias da coisa dos objetos, as primeiras e verdadeiras catexias objetais; o sistema Pcs. ocorre quando 
essa apresentao da coisa  hipercatexizada atravs da ligao com as apresentaes da palavra que lhe correspondem. So essas hipercatexias, podemos supor, que 
provocam uma organizao psquica mais elevada, possibilitando que o processo primrio seja sucedido pelo processo secundrio, dominante no Pcs. Ora, tambm estamos 
em condies de declarar precisamente o que  que a represso nega  apresentao rejeitada nas neuroses de transferncia [ver em [1]]: o que ele nega  apresentao 
 a traduo em palavras que permanecer ligada ao objeto. Uma apresentao que no seja posta em palavras, ou um ato psquico que no seja hipercatexizado, permanece 
a partir de ento no Ics. em estado de represso.
         Gostaramos de ressaltar que j dispomos h algum tempo da compreenso interna (insight) que hoje nos permite entender uma das caractersticas mais impressionantes 
da esquizofrenia. Nas ltimas pginas de A Interpretao de Sonhos, publicada em 1900, foi desenvolvido o conceito de que os processos do pensamento, isto , os 
atos de catexia que se acham relativamente distantes da percepo, so em si mesmos destitudos de qualidade e inconscientes, e s atingem sua capacidade para se 
tornarem conscientes atravs de ligao com os resduos de percepes de palavras. Mas as apresentaes da palavra, tambm, por seu lado, se originam das percepes 
sensoriais, da mesma forma que as apresentaes da coisa; poder-se-ia, portanto, perguntar por que as apresentaes de objetos no podem tornar-se conscientes por 
intermdio de seus prprios resduos perceptivos. Provavelmente, contudo, o pensamento prossegue em sistemas to distantes dos resduos perceptivos originais, que 
j no retm coisa alguma das qualidades desses resduos, e, para se tornarem conscientes, precisam ser reforados por novas qualidades. Alm disso, estando ligadas 
a palavras, as catexias podem ser dotadas de qualidade mesmo quando representem apenas relaes entre apresentaes de objetos, sendo assim incapazes de extrair 
qualquer qualidade das percepes. Tais relaes, que s se tornam compreensveis atravs de palavras, constituem uma das principais partes dos nossos processos 
do pensamento. Como podemos ver, estar ligado s apresentaes da palavra ainda no  a mesma coisa que tornar-se consciente, mas limita-se a possibilitar que isso 
acontea; , portanto, algo caracterstico do sistema Pcs., e somente desse sistema. Com essas apreciaes, contudo, evidentemente nos afastamos de nosso assunto 
propriamente dito e mergulhamos em problemas concernentes ao pr-consciente e ao consciente, que por boas razes estamos reservando para uma apreciao isolada.
         Quanto  esquizofrenia, que apenas abordamos na medida em que parece indispensvel a uma compreenso geral do Ics., devemos indagar se o processo denominado 
aqui de represso tem alguma coisa em comum com a represso que se verifica nas neuroses de transferncia. A frmula segundo a qual a represso  um processo que 
ocorre entre os sistemas Ics. e Pcs. (ou Cs.), resultando em manter-se algo  distncia da conscincia [ver em [1]], deve, de qualquer maneira, ser modificada, a 
fim de tambm poder incluir o caso da demncia precoce e outras afeces narcisistas. Mas a tentativa de fuga do ego, que se expressa na retirada da catexia consciente, 
permanece, no obstante, um fator comum [s duas classes de neurose]. A mais superficial das reflexes nos revela quo mais radical e profundamente essa tentativa 
de fuga, essa fuga do ego,  posta em funcionamento nas neuroses narcisistas.
         Se, na esquizofrenia, essa fuga consiste na retirada da catexia instintual dos pontos que representam a apresentao inconsciente do objeto, pode parecer 
estranho que a parte da apresentao desse objeto pertencente ao sistema Pcs. - a saber, as apresentaes da palavra que lhe correspondem - deva, pelo contrrio, 
receber uma catexia mais intensa. Deveramos antes esperar que a apresentao da palavra, sendo a parte pr-consciente, tivesse de suportar o primeiro impacto da 
represso e fosse totalmente incatexizvel depois que a represso tivesse chegado s apresentaes inconscientes da coisa. Isso,  verdade,  algo difcil de compreender. 
Acontece que a catexia da apresentao da palavra no faz parte do ato de represso, mas representa a primeira das tentativas de recuperao ou de cura que to manifestamente 
dominam o quadro clnico da esquizofrenia. Essas tentativas so dirigidas para a recuperao do objeto perdido, e pode ser que, para alcanar esse propsito, enveredem 
por um caminho que conduz ao objeto atravs de sua parte verbal, vendo-se ento obrigadas a se contentar com palavras em vez de coisas.  uma verdade geral que nossa 
atividade mental se movimenta em duas direes opostas: ou parte dos instintos e passa atravs do sistema Ics. at a atividade de pensamento consciente, ou, comeando 
com uma instigao de fora, passa atravs do sistema Cs. e do Pcs. at alcanar as catexias do Ics. do ego e dos objetos. Esse segundo caminho deve, apesar da represso 
que ocorre, continuar percorrvel, e permanece, at certo ponto, aberto aos esforos envidados pela neurose para recuperar seus objetos. Quando pensamos em abstraes, 
h o perigo de que possamos negligenciar as relaes de palavras com as apresentaes inconscientes da coisa, devendo-se externar que a expresso e o contedo do 
nosso filosofar comeam ento a adquirir uma semelhana desagradvel com a modalidade de operao dos esquizofrnicos. Podemos, por outro lado, tentar uma caracterizao 
da modalidade de pensamento do esquizofrnico dizendo que ele trata as coisas concretas como se fossem abstratas.
         Se  que fizemos uma verdadeira apreciao da natureza do Ics. e se definimos corretamente a diferena entre uma apresentao pr-consciente e uma inconsciente, 
ento, inevitavelmente, nossas pesquisas nos traro, de numerosos outros pontos, de volta para essa mesma compreenso interna (insight).
         
         APNDICE A: FREUD E EWALD HERING
         
         Dentre os professores de Freud em Viena figurava o fisilogo Ewald Hering (1834-1918), que, conforme sabemos pelo Dr. Jones (1953-244), ofereceu ao jovem 
um cargo como seu assistente em Praga em 1884. Um episdio ocorrido cerca de quarenta anos depois parece sugerir, como Ernst Kris (1956) ressaltou, que a influncia 
de Hering pode ter contribudo para a formao dos conceitos de Freud sobre o inconsciente. (ver acima em [1].) Em 1880, Samuel Butler publicou Unconscious Memory. 
Esse trabalho abrangia a traduo de uma conferncia pronunciada por Hering em 1870. 'Uber das Gedchtnis als eine allgemeine Funktion der organisierten Materie' 
('Sobre a Memria como uma Funo Universal da Matria Organizada'), com a qual Butler concordou de maneira geral. Um livro intitulado The Unconscious, de Israel 
Levine, veio a lume na Inglaterra em 1923; e uma traduo alem do mesmo, feita por Anna Freud, apareceu em 1926. Uma seo dessa obra, contudo (Parte I, Seo 13), 
que trata de Samuel Butler, foi traduzida pelo prprio Freud. O autor, Levine, embora mencionasse a conferncia de Hering, estava mais preocupado com Butler do que 
com Hering, e, em relao a isso (na pg. 34 da traduo alem), Freud acrescentou uma nota de rodap do seguinte teor:
         'Os leitores alemes, familiarizados com essa conferncia de Hering e considerando-a uma obra-prima, no estariam, naturalmente, inclinados a colocar em 
primeiro plano as consideraes de Butler, que nela se basearam. Alm disso, encontramos em Hering algumas observaes pertinentes, que concedem  psicologia o direito 
de presumir a existncia da atividade mental inconsciente: "Quem poderia esperar desemaranhar a tessitura de nossa vida interior, com suas complexidades multifrias, 
se estivssemos dispostos a acompanhar seus fios somente at o ponto em que atravessam a conscincia?... Cadeias como essas, de processos nervosos de material inconsciente, 
que terminam num elo acompanhado de uma percepo consciente, foram descritas como 'encadeamentos inconscientes de idias' e 'inferncias inconscientes'; e, do ponto 
de vista da psicologia, isso pode ser justificado, pois a mente quase sempre escaparia por entre os dedos da psicologia, se esta se recusasse a manter uma garra 
sobre os estados inconscientes da mente." [Hering, 1870, 11 e 13.]'
         
         APNDICE B: PARALELISMO PSICOFSICO
         
         [Ressaltou-se acima (ver em [1]) que os conceitos emitidos anteriormente sobre a relao entre a mente e o sistema nervoso foram grandemente influenciados 
por Hughlings-Jackson. Isso  indicado de maneira especfica pelo trecho que se segue, extrado de sua monografia sobre afasia (1891b, 56-8).  especialmente instrutivo 
comparar as ltimas frases sobre o tema de lembranas latentes com a posio ulterior de Freud. A fim de preservar a uniformidade da terminologia, fez-se nova traduo.]
         Aps essa digresso retornamos  considerao da afasia. Podemos recordar que,  base dos ensinamentos de Meynert, se desenvolveu a teoria de que o aparelho 
fonador consiste em centros corticais distintos, em cujas clulas se encontram as apresentaes da palavra, estando esses centros separados por uma regio cortical 
desprovida de funo, ligados por fibras brancas (fascolos associativos). De imediato, pode-se levantar a questo de saber se uma hiptese dessa natureza, que abarca 
apresentaes em clulas nervosas, pode de algum modo ser correta e permissvel. Penso que no.
         A tendncia da medicina em perodos anteriores era a de localizar faculdades mentais inteiras, conforme definidas pela nomenclatura psicolgica, em certas 
regies do crebro. Em contraste, portanto, no podia deixar de parecer um grande avano o fato de Wernick ter declarado que somente os elementos psquicos mais 
simples, as diferentes apresentaes sensoriais, poderiam legitimamente ser localizadas - localizadas na terminao central do nervo perifrico que recebeu a impresso. 
Contudo, no estaremos, em princpio, cometendo o mesmo erro, tentando localizar ou um conceito complicado, ou toda uma atividade mental, ou um elemento psquico? 
Ser que se justifica tomar uma fibra nervosa - que em toda a extenso de seu curso  uma estrutura puramente fisiolgica, sujeita a modificaes puramente fisiolgicas 
-, mergulhar-lhe a extremidade na esfera da mente, e ajustar essa extremidade a uma apresentao ou a uma imagem mnmica? Se a 'vontade', a 'inteligncia', e assim 
por diante, foram reconhecidas como termos tcnicos psicolgicos aos quais correspondem estados de coisas muito complicados no mundo fisiolgico, ser que nos podemos 
sentir um pouco mais seguros quanto ao fato de que uma 'simples apresentao sensorial' no passa de uma expresso tcnica do mesmo tipo?
         
          provvel que a cadeia de eventos fisiolgicos do sistema nervoso no esteja numa ligao causal com os eventos psquicos. Os eventos fisiolgicos no 
cessam to logo se iniciam os psquicos; ao contrrio, a cadeia fisiolgica continua. O que acontece  simplesmente que, aps certo tempo, cada um (ou alguns) de 
seus elos tem um fenmeno fisiolgico que lhe corresponde. Em conseqncia, o psquico  um processo paralelo ao fisiolgico - 'um concomitante dependente'.
         Sei muito bem que no posso acusar as pessoas, cujos conceitos estou discutindo aqui, de terem dado esse salto e alterado, sem maiores consideraes, seu 
ngulo cientfico de abordagem [isto , do fisiolgico para o psicolgico]. Obviamente, elas no querem dizer outra coisa seno que a modificao fisiolgica das 
fibras nervosas que acompanha a excitao sensorial produz outra modificao na clula nervosa central, e que essa ltima modificao se torna o correlato fisiolgico 
da 'apresentao'. J que podem dizer muito mais sobre apresentaes do que sobre modificaes, das quais absolutamente nenhuma caracterizao fisiolgica foi ainda 
alcanada, permanecendo desconhecidas, elas fazem uso da declarao elptica segundo a qual a apresentao est localizada na clula nervosa. Essa maneira de apresentar 
as coisas, contudo, leva de imediato a uma confuso entre as duas coisas, que no precisam ser semelhantes entre si. Na psicologia, uma apresentao simples  algo 
elementar, que podemos distinguir bem nitidamente de suas ligaes com outras apresentaes. Isso nos leva a supor que o correlato fisiolgico da apresentao - 
isto , a modificao que se origina na fibra nervosa excitada com sua terminao no centro - tambm  algo simples, que pode ser localizado num ponto particular. 
Traar um paralelo dessa espcie , naturalmente, totalmente injustificvel; as caractersticas da modificao devem ser estabelecidas por sua prpria conta e independentemente 
de seu equivalente psicolgico.
         O que , ento, o correlato fisiolgico de uma apresentao simples ou da mesma apresentao quando se repete? Claramente, nada de esttico, mas algo da 
natureza de um processo. Esse processo admite localizao. Parte de um ponto particular do crtex e se espalha a partir da por todo o crtex ou por certos tratos. 
Quando esse processo  includo, deixa para trs uma modificao no crtex que foi afetado por ele - a possibilidade de recordar.  tambm altamente duvidoso que 
exista algo psquico que corresponda a essa modificao. Nossa conscincia nada revela que justifique, do ponto de vista psquico, o nome de uma 'imagem mnmica 
latente'. Mas sempre que o mesmo estado do crtex  novamente provocado, o aspecto psquico passa outra vez a existir como uma imagem mnmica...
         
         APNDICE C: PALAVRAS E COISAS
         
         [A seo final do artigo de Freud sobre 'O Inconsciente' parece ter razes em sua antiga monografia sobre afasia (1891b). Por conseguinte, talvez seja de 
interesse reproduzir aqui um trecho daquele trabalho que, embora no particularmente fcil de acompanhar, lana luz sobre as suposies subjacentes a alguns dos 
conceitos ulteriores de Freud. O trecho possui ainda o interesse incidental de apresentar Freud na posio bastante inusitada de se expressar na linguagem tcnica 
da psicologia 'acadmica' do fim do sculo XIX. A passagem aqui reproduzida vem depois de uma sucesso de argumentos anatmicos e fisiolgicos destrutivos e construtivos, 
a qual conduziu Freud a um esquema hipottico a respeito do funcionamento neurolgico por ele descrito como o 'aparelho da fala'. Deve-se observar, contudo, que 
h uma diferena importante, e talvez perturbadora, entre a terminologia que Freud emprega aqui e a que emprega em 'O Inconsciente'. Aqui, o que ele denomina de 
'apresentao do objeto'  o que em 'O Inconsciente', chama de 'apresentao da coisa'; ao passo que o que em 'O Inconsciente' ele denomina de a 'apresentao do 
objeto'denota um complexo formado pela 'apresentao da coisa' e pela 'apresentao do objeto' combinadas - um complexo que no recebeu nome algum no trecho da Afasia. 
A traduo foi feita especialmente para esta ocasio, j que, por motivos de terminologia, a que foi publicada no se adapta inteiramente  finalidade presente. 
Da mesma forma que na ltima seo de 'O Inconsciente', aqui empregamos sempre a palavra 'apresentao' para traduzir o alemo 'Vorstellung', enquanto 'imagem' traduz 
o alemo 'Bild'. O trecho vai da pg. 74  pg. 81 da edio alem original.]
         Proponho agora considerar quais as hipteses necessrias para explicar as perturbaes da fala  base de um aparelho fonador construdo dessa maneira - 
em outras palavras, considerar o que o estudo da perturbao da fala nos ensina sobre a funo desse aparelho. Ao faz-lo, manterei os aspectos psicolgico e anatmico 
da questo to isolados quanto possvel.
         Do ponto de vista da psicologia, a unidade da funo da fala  a "palavra", uma apresentao complexa, que vem a ser uma combinao de elementos auditivos, 
visuais e cinestsicos. Devemos nosso conhecimento dessa combinao  patologia, que nos mostra que, nas leses orgnicas do aparelho da fala, ocorre uma desintegrao 
da fala nos moldes em que a combinao  feita. Esperamos assim verificar que a ausncia de um desses elementos da apresentao da palavra venha a ser a indicao 
mais importante para que cheguemos a uma localizao da doena. Distinguem-se, em geral, quatro componentes da apresentao da palavra: a 'imagem sonora', a 'imagem 
visual da letra', a 'imagem motora da fala' e a 'imagem motora da escrita'. Essa combinao, porm, se torna mais complicada quando se entra no processo provvel 
da associao que se verifica em cada uma das vrias atividades da fala: -
         (1) Aprendemos a falar associando uma 'imagem sonora de uma palavra' com um 'sentido da inervao de uma palavra'. Aps termos falado, ficamos tambm de 
posse de uma 'apresentao motora da fala' (sensaes centrpetas provenientes dos rgos da fala); de modo que, sob um aspecto motor, a 'palavra'  duplamente determinada 
para ns. Dos dois elementos determinantes, o primeiro - a apresentao da palavra inervatria - parece ter menor valor do ponto de vista psicolgico; na realidade, 
seu aparecimento, se  que ele ocorre, como fator psquico pode ser contestado. Alm disso, depois de falarmos, recebemos uma 'imagem sonora' da palavra falada. 
Enquanto no tivermos desenvolvido muito nossa capacidade de fala, essa segunda imagem sonora no precisa ser a mesma que a primeira, mas apenas associada a ela. 
Nessa fase do desenvolvimento da fala - a da primeira infncia -, usamos uma linguagem que ns mesmos construmos. Comportamo-nos como os afsicos motores, pois 
associamos diversos sons verbais exteriores a um nico som produzido por ns mesmos.
         (2) Aprendemos a falar a lngua de outras pessoas esforando-nos por tornar a imagem sonora produzida por ns to igual quanto possvel  que deu lugar 
 nossa inervao da fala. Aprendemos dessa forma a 'repetir' - 'dizer  imitao de' outra pessoa. Quando justapomos as palavras no discurso encadeado, retemos 
a inervao da palavra seguinte at que a imagem sonora ou a apresentao motora da fala (ou ambas) da palavra precedente nos tenha alcanado. A segurana de nossa 
fala  assim superdeterminada, podendo facilmente suportar a perda de um ou outro dos fatores determinantes. Por outro lado, uma perda da correo exercida pela 
segunda imagem sonora e pela imagem motora da fala explica algumas das peculiaridades, tanto fisiolgicas como patolgicas, da parafasia.
         (3) Aprendemos a soletrar ligando as imagens visuais das letras a novas imagens sonoras, as quais, por seu lado, devem nos lembrar os sons verbais que j 
conhecemos. Imediatamente 'repetimos' a imagem sonora que denota a letra, de modo que tambm se observa que as letras so determinadas por duas imagens sonoras que 
coincidem, e duas apresentaes motoras que se correspondem.
         (4) Aprendemos a ler ligando, de acordo com certas regras, a sucesso de apresentaes inervatrias e motoras da palavra que recebemos quando enunciamos 
letras isoladas, de modo a fazer surgir novas apresentaes motoras da palavra. Assim que dizemos em voz alta essas novas apresentaes da palavra, descobrimos por 
suas imagens sonoras que as duas imagens motoras e imagens sonoras que recebemos dessa forma, de h muito nos so familiares e idnticas s imagens empregadas no 
falar. Associamos ento o significado ligado aos sons verbais primrios s imagens sonoras adquiridas pela soletrao. Agora lemos com compreenso. Se o que foi 
falado primariamente foi um dialeto e no uma lngua literria, as imagens motoras e sonoras das palavras adquiridas pela soletrao tm de ser superassociadas s 
imagens antigas; assim, temos de aprender uma nova lngua - tarefa facilitada pela semelhana entre o dialeto e a lngua literria.
         Ver-se-, por essa descrio da aprendizagem da leitura, que se trata de um processo muito complicado, no qual o curso das associaes deve repetidamente 
mover-se para frente e para trs. Estaremos tambm preparados para verificar que perturbaes da leitura na afasia tendem a ocorrer numa grande variedade de formas. 
A nica coisa que decisivamente indica uma leso no elemento visual da leitura  uma perturbao na leitura de letras separadas. A combinao de letras numa palavra 
ocorre durante a transmisso ao trato da palavra e conseqentemente ser abolida na afasia motora. S se chega a uma compreenso do que  lido por intermdio das 
imagens sonoras produzidas pelas palavras que foram enunciadas, ou atravs das imagens motoras de palavras que surgiram ao falarmos. V-se, portanto, que se trata 
de uma funo que  extinta no somente onde h leses motoras, mas tambm onde h leses acsticas. Verifica-se, ainda, que compreender o que  lido  uma funo 
independente do desempenho da leitura. Qualquer um pode descobrir pela auto-observao que existem vrias espcies de leitura, em algumas das quais no chegamos 
a compreender o que  lido. Quando estou lendo provas com a inteno de prestar ateno especial s imagens visuais das letras e de outros sinais tipogrficos, o 
sentido do que leio me escapa to inteiramente, que tenho de ler todas as provas novamente de maneira especial, se quiser corrigir o estilo. Quando, por outro lado, 
leio um livro que me interessa, um romance, por exemplo, desprezo todos os erros de impresso; e pode acontecer que os nomes das personagens deixem apenas uma impresso 
confusa em minha mente - uma recordao, talvez, de que so longos ou curtos, ou contm alguma letra inusitada, como um 'x' ou um 'z'. Quando tenho de ler em voz 
alta, e tenho de prestar particular ateno s imagens sonoras de minhas palavras e aos intervalos entre elas mais uma vez corro o perigo de me preocupar muito pouco 
com o significado das palavras e logo que me fatigo leio de tal maneira que, embora outras pessoas ainda possam compreender o que estou lendo, eu prprio no sei 
mais o que leio. Esses so fenmenos de ateno dividida, que surgem precisamente aqui porque uma compreenso do que  lido s ocorre de forma muito indireta. Se 
o processo da prpria leitura oferece dificuldades, no h mais dvida quanto  compreenso. Isso fica claro pela analogia com o nosso comportamento quando estamos 
aprendendo a ler; devemos ter o cuidado de no considerar a ausncia de compreenso como prova de interrupo de um trato. A leitura em voz alta no deve ser considerada 
como um processo de algum modo diferente da leitura silenciosa, a no ser pelo fato de que ela ajuda a ateno da parte sensorial do processo de leitura.
         (5) Aprendemos a escrever reproduzindo as imagens visuais das letras por meio de imagens inervatrias da mo, at que essas mesmas imagens visuais ou outras 
semelhantes apaream. Em geral, as imagens da escrita so apenas semelhantes s imagens da leitura e superassociadas a elas, visto que o que aprendemos a ler  impresso 
e o que aprendemos a escrever  manuscrito. Escrever vem a ser um processo comparativamente simples e que no est to sujeito  perturbao quanto a leitura.
         (6)  de se presumir que posteriormente tambm realizemos essas diferentes funes da fala nos mesmos moldes associativos em que as aprendemos. Nessa fase 
ulterior, podem ocorrer abreviaturas e substituies, mas nem sempre  fcil dizer qual a sua natureza. Sua importncia  diminuda pela considerao de que em casos 
de leso orgnica o aparelho da fala provavelmente ser, at certo ponto, danificado em seu todo e compelido a voltar s modalidades de associao primrias, bem 
estabelecidas e mais extensas. Quanto  leitura, a 'imagem visual da palavra' indubitavelmente faz sentir sua influncia em leitores dotados de prtica, de modo 
que as palavras individuais (particularmente os nomes prprios) podem ser lidas sem que sejam soletradas.
         Uma palavra , portanto, uma apresentao complexa que consiste nas imagens acima enumeradas; ou, dizendo-o de outra forma, corresponde  palavra um complicado 
processo associativo no qual se renem os elementos de origem visual, acstica e cenestsica enumerados acima.
         Uma palavra, contudo, adquire seu significado ligando-se a uma 'apresentao do objeto', pelo menos se nos restringirmos a uma considerao de substantivos. 
A prpria apresentao do objeto , mais uma vez, um complexo de associaes formado por uma grande variedade de apresentaes visuais, acsticas, tteis, cenestsicas 
e outras. A filosofia nos diz que uma apresentao do objeto consiste simplesmente nisso - que a aparncia de haver uma 'coisa' de cujos vrios 'atributos' essas 
impresses dos sentidos do testemunho, deve-se meramente ao fato de que, ao enumerarmos as impresses sensoriais que recebemos de um objeto, pressupomos a possibilidade 
de haver grande nmero de outras impresses na mesma cadeia de associaes (J.S. Mill). Assim, a apresentao do objeto  vista como uma apresentao que no  fechada 
e quase como uma que no pode ser fechada, enquanto que a apresentao da palavra  vista como algo fechado, muito embora capaz de extenso.
         
         
         
         A patologia das perturbaes da fala leva-nos a asseverar que a apresentao da palavra est ligada em sua extremidade sensorial (por suas imagens sonoras) 
 apresentao do objeto. Chegamos, assim, a duas espcies de perturbao da fala: (1) uma afasia de primeira ordem, afasia verbal, na qual somente so perturbadas 
as associaes entre os elementos separados da apresentao da palavra; e (2) uma afasia de segunda ordem, afasia assimblica, na qual  perturbada a associao 
entre a apresentao da palavra e a apresentao do objeto.
         Emprego o termo 'assimbolia' num sentido diverso do que lhe tem sido comumente atribudo desde Finkelnburg, porque me parece que a relao entre a [apresentao 
da] palavra e a apresentao do objeto merece muito mais ser descrita como 'simblica' do que a relao entre o objeto e a apresentao do objeto. Para as perturbaes 
no reconhecimento de objetos que Finkelnburg classifica como assimbolia, gostaria de propor o termo 'agnosia'.  possvel que perturbaes 'agnsticas' (que s podem 
ocorrer em casos de leses corticais bilaterais e extensas) possam tambm acarretar uma perturbao da fala, visto que todos os incitamentos ao falar espontneo 
provm do campo das associaes de objeto. Eu chamaria essas perturbaes da fala de afasias de terceira ordem ou afasias agnsticas. A observao clnica trouxe 
de fato ao nosso conhecimento alguns casos que devem ser encarados dessa forma...
         
         






















SUPLEMENTO METAPSICOLGICO  TEORIA DOS SONHOS (1916 [1915])
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS - METAPSYCHOLOGISCHE ERGNZUNGZUR TRAUMLEHRE
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1917 Int. Z. Psychoanal., 4 (6), 277-87.
         1918 S.K.S.N., 4, 339-55. (1922, 2 ed.)
         1924 G.S., 5, 520-34.
         1924 Technik und Metapsychol., 242-56.
         1931 Theoretische Schriften, 141-56.
         1946 G.W., 10, 412-26.
         
         (b)TRADUO INGLESA:
             'Metapsychological Supplement to the Theory of Dreams'
         1925 C.P., 4, 137-151. (Trad. C. M. Baines.)
         
         A presente traduo inglesa, embora baseada na de 1925, foi amplamente reescrita.
         Este artigo, juntamente com o seguinte ('Luto e Melancolia'), parece ter sido escrito num perodo de onze dias, entre 23 de abril e 4 de maio de 1915, s 
tendo sido publicado dois anos depois. Como transparece em seu ttulo,  essencialmente uma aplicao do esquema terico recm-formulado de Freud s hipteses apresentadas 
no Captulo VII de A Interpretao de Sonhos. Termina, porm, por se transformar num exame dos efeitos produzidos pelo estado de sono sobre os diferentes 'sistemas' 
da mente. E esse exame, por sua vez, se concentra principalmente no problema da alucinao e numa investigao do modo como, em nosso estado normal, somos capazes 
de distinguir entre a fantasia e a realidade.
         Freud se ocupou desse problema desde os primeiros tempos. Muito espao foi dedicado a ele em seu 'Projeto' de 1895 (Freud, 1950a, especialmente na Parte 
I, Sees 15 e 16, e na Parte III, Seo 1). E a soluo por ele proposta, embora enunciada numa terminologia diferente, se assemelha visivelmente  formulada no 
presente artigo. Abrangia duas linhas principais de pensamento. Freud argumentava que por si mesmos os 'processos psquicos primrios' no estabelecem qualquer distino 
entre uma idia e uma percepo; precisam, em primeiro lugar, ser inibidos pelos 'processos psquicos secundrios', que, por sua vez, s podem entrar em ao onde 
h um 'ego' com reserva suficientemente grande de catexia capaz de suprir a energia necessria para acionar a inibio. A finalidade da inibio consiste em dar 
tempo para que 'indicaes de realidade' cheguem do aparelho perceptual. Mas, em segundo lugar, alm dessa funo inibidora e retardadora, o ego  tambm responsvel 
por dirigir as catexias da 'ateno' (ver acima, em [1] e nota de rodap) para o mundo externo, sem as quais as indicaes da realidade no poderiam ser observadas.
         Em A Interpretao de Sonhos (1900a), Edio Standard Brasileira, vol. V, pgs. 603 e segs. e 636 e segs., IMAGO Editora, 1972, a funo da inibio e da 
demora voltou a ser objeto de insistncia como um fator essencial no processo de julgar se as coisas so ou no reais, tendo sido novamente atribuda ao 'processo 
secundrio', embora o ego j no fosse mencionado como tal. A outra importante apreciao do assunto por parte de Freud est em seu artigo sobre 'The Two Principles 
of Mental Functioning' (1911b), onde pela primeira vez empregou a expresso 'teste da realidade'. Mais uma vez aqui a caracterstica de delonga do processo foi ressaltada, 
embora a funo da ateno tenha passado a merecer maior considerao. Foi descrita como sendo um exame peridico do mundo externo e relacionada particularmente 
aos rgos dos sentidos  conscincia.  essa ltima faceta do problema, o papel desempenhado pelos sistemas Pcpt e Cs., que  principalmente examinada no artigo 
a seguir.
         Contudo, o interesse de Freud pelo assunto de modo algum se esgotou com a presente apreciao. Em Group Psychology (1921c), por exemplo, atribuiu o trabalho 
de teste da realidade ao ideal do ego (Standard Ed., 18, 114) - uma atribuio que, no entanto, retirou logo depois, numa nota de rodap no incio do Captulo III 
de The Ego and the Id (1923b). E agora, pela primeira vez desde o incio de 'Projeto', o teste da realidade foi definitivamente atribudo ao ego. Num exame mais 
posterior ainda e particularmente interessante do assunto no artigo sobre 'Negation' (1925h), demonstrou-se que o teste da realidade depende da estreita relao 
gentica do ego com os instrumentos da percepo sensorial. Naquele artigo, tambm (bem como no final do trabalho quase contemporneo sobre o 'Mystic Writing Pad' 
(1925a), havia outras referncias ao hbito do ego de emitir catexias exploratrias peridicas para o mundo exterior - evidentemente uma aluso, em termos diferentes, 
ao que fora originalmente descrito como 'ateno'. Mas em 'Negation' Freud levou ainda mais adiante a anlise do teste da realidade, e rastreou todo o decorrer do 
seu desenvolvimento at chegar s relaes objetais mais antigas do indivduo.
         O crescente interesse de Freud pela psicologia do ego em anos ulteriores levou-o a um exame mais detalhado das relaes do ego com o mundo externo. Em dois 
breves artigos (1924b e 1924e), publicados logo aps a The Ego and the Id, examinou a distino entre a relao do ego com a realidade em neuroses e psicoses. E 
no artigo sobre 'Fetishism' (1927e) apresentou seu primeiro relato pormenorizado de um mtodo de defesa do ego - 'Verleugnung' ('repdio' ou 'negao') - que anteriormente 
no fora claramente diferenciado da represso, e que descrevia a reao do ego a uma realidade externa intolervel. Esse tema foi mais desenvolvido ainda em alguns 
dos ltimos escritos de Freud, particularmente no Captulo VII da obra pstuma Esboo de Psicanlise (1940a [1938] ).
         
         SUPLEMENTO METAPSICOLGICO  TEORIA DOS SONHOS
         
         Descobriremos em vrias conexes at que ponto se beneficiaro nossas indagaes, se certos estados e manifestaes, que podem ser considerados como prottipos 
normais das afeces patolgicas, forem evocados para fins comparativos. Entre estes podemos incluir tanto estados afetivos, como o pesar e o estar apaixonado, quanto 
o estado de sono e o fenmeno do sonhos.
         No estamos habituados a pensar muito no fato de que todas as noites os seres humanos pem de lado os invlucros com que envolvem sua pele, e qualquer coisa 
que possam usar como suplemento aos rgos de seu corpo (na medida em que tenham conseguido compensar as deficincias desses rgos por substitutos), por exemplo, 
os culos, os cabelos e os dentes postios, e assim por diante. Podemos acrescentar que, quando vo dormir, despem de modo inteiramente anlogo suas mentes, pondo 
de lado a maioria de suas aquisies psquicas. Assim, sob ambos os aspectos, aproximam-se consideravelmente da situao na qual comearam a vida. Somaticamente, 
o sono  uma reativao da existncia intra-uterina, na medida em que atende s condies de repouso, calor e excluso do estmulo; na realidade, durante o sono 
muitas pessoas retomam a posio fetal. O estado psquico de uma pessoa adormecida se caracteriza por uma retirada quase completa do mundo circundante e de uma cessao 
de todo interesse por ele.
         Na investigao dos estados psiconeurticos, somos levados a ressaltar em cada um deles o que se conhece por regresses temporais, isto , a quantidade 
de recesso de desenvolvimento que lhe  peculiar. Distinguimos duas dessas regresses - uma que afeta o desenvolvimento do ego, e outra, o da libido. No estado 
de sono, a ltima  levada ao ponto de restaurao do narcisismo primitivo, enquanto a primeira remonta  etapa da satisfao alucinatria dos desejos. [ver em [1] 
adiante]
         , sem dvida, o estudo dos sonhos que nos ensina o que sabemos das caractersticas psquicas do estado de sono.  verdade que os sonhos s nos revelam 
aquele que sonha na medida em que ele no est dormindo; no obstante, esto fadados a revelar ao mesmo tempo caractersticas do prprio sono. Viemos a conhecer 
pela observao algumas peculiaridades dos sonhos que de incio no pudemos compreender, mas que agora podemos encaixar no quadro sem dificuldade. Desse modo, sabemos 
que os sonhos so inteiramente egostas e que a pessoa que desempenha o principal papel em suas cenas deve sempre ser reconhecida como aquela que sonha. Isso  agora 
facilmente explicado pelo narcisismo do estado de sono. O narcisismo e o egosmo, na realidade, coincidem; a palavra narcisismo destina-se apenas a ressaltar o fato 
de que o egosmo  tambm um fenmeno libidinal; ou, expressando-o de outra maneira, o narcisismo pode ser descrito como o complemento libidinal do egosmo. A capacidade 
de 'diagnstico' dos sonhos - um fenmeno geralmente reconhecido, mas considerado enigmtico - se torna igualmente compreensvel. Nos sonhos, a doena fsica incipiente 
 com freqncia detectada mais cedo e mais claramente do que na vida de viglia, e todas as sensaes costumeiras do corpo assumem propores gigantescas. Essa 
amplificao  por natureza hipocondraca; depende da retirada de todas as catexias psquicas do mundo externo para o ego, tornando possvel o reconhecimento precoce 
das modificaes corporais que, na vida de viglia, permaneceriam inobservadas ainda por algum tempo.
         Um sonho nos diz que estava acontecendo alguma coisa que tendia a interromper o sono, e nos permite compreender de que maneira foi possvel desviar essa 
interrupo. O resultado final  aquele que dorme, sonha e  capaz de continuar dormindo; a exigncia interna que lutava por ocup-lo foi substituda por uma experincia 
externa, cuja exigncia foi eliminada. Um sonho , portanto, entre outras coisas, uma projeo: uma externalizao de um processo interno. Podemos recordar que j 
encontramos a projeo em outra parte, entre os meios adotados para defesa. Tambm o mecanismo de uma fobia histrica culmina no fato de que o indivduo  capaz 
de se proteger mediante tentativas de fuga contra um perigo externo que ocupa o lugar de uma reivindicao instintual interna. Adiaremos, contudo, o estudo mais 
detalhado da projeo at que cheguemos a analisar a desordem narcisista na qual esse mecanismo desempenha um papel muito marcante.
         De que forma, porm, pode surgir um caso em que a inteno de dormir se choca com uma interrupo? A interrupo pode provir de uma excitao interna ou 
de um estmulo externo. Consideremos primeiro o caso mais obscuro e mais interessante da interrupo que parte de dentro. A observao revela que os sonhos so instigados 
por resduos do dia anterior - catexias do pensamento que no foram submetidas  retirada geral das catexias, mas retiveram, apesar disso, certa quantidade de interesse 
libidinal ou de outra natureza. Assim, o narcisismo do sono, desde o incio, teve de abrir uma exceo nesse ponto, e  aqui que comea a formao de sonhos. Na 
anlise, tomamos conhecimento desses 'resduos do dia' sob a forma de pensamentos onricos latentes e, por causa tanto de sua natureza quanto de toda a situao, 
devemos consider-los como idias pr-conscientes, pertencentes ao sistema Pcs.
         No podemos prosseguir com a explicao da formao dos sonhos at que certas dificuldades tenham sido superadas. O narcisismo do estado de sono implica 
uma retirada da catexia de todas as idias de objetos, das parcelas tanto inconscientes quanto pr-conscientes dessas idias. Ento, se certos resduos do dia retm 
sua catexia, hesitamos em supor que, durante a noite, adquiram energia suficiente para exigir a ateno da conscincia; ficaramos mais inclinados a supor que a 
catexia retida  muito mais fraca do que a que possuam durante o dia. Aqui a anlise nos poupa ulteriores especulaes, porquanto revela que, se esses resduos 
do dia quiserem figurar como construtores de sonhos, devem receber um esforo que tem sua fonte nos impulsos instintuais inconscientes. Essa hiptese no apresenta 
dificuldades imediatas, pois temos todos os motivos para supor que, no sono, a censura entre o Pcs. e o Ics. fica grandemente reduzida, o que faz com que a comunicao 
entre os dois sistemas se torne mais fcil.
         Mas h outra dvida, sobre a qual no devemos silenciar. Se o estado narcisista do sono tiver resultado numa retrao de todas as catexias dos sistemas 
Ics. e Pcs., ento j no haver qualquer possibilidade de que os resduos pr-conscientes do dia venham a ser reforados por impulsos instintuais inconscientes, 
visto que estes cederam suas catexias ao ego. Aqui, a teoria da formao dos sonhos termina numa contradio, a menos que possamos salv-la mediante uma modificao 
em nossa suposio sobre o narcisismo do sono.
         Uma modificao restritiva dessa natureza, como veremos posteriormente, tambm  necessria na teoria da demncia precoce. Presumivelmente isso se deve 
ao fato de que a parcela reprimida do sistema Ics. no atende ao desejo de dormir proveniente do ego, de que retm sua catexia no todo ou em parte, e de que, em 
geral, em conseqncia da represso, adquire certa independncia do ego. Em conseqncia, tambm, parte do que  dispendido na represso (anticatexia) - teria de 
ser mantida durante a noite inteira, a fim de fazer face ao perigo instintual - embora a inacessibilidade de todos os caminhos que levam a uma liberao do afeto 
e  motilidade possa reduzir consideravelmente a altura da anticatexia necessria. Assim, deveramos configurar a situao que conduz  formao de sonhos da seguinte 
maneira. O desejo de dormir esfora-se por absorver todas as catexias transmitidas pelo ego e por estabelecer um narcisismo absoluto. Isso s pode ter um sucesso 
parcial, pois o que  reprimido no sistema Ics. no obedece ao desejo de dormir. Portanto, uma parte das anticatexias tem de ser mantida, e a censura entre o Ics. 
e o Pcs. deve permanecer, mesmo que no seja com toda a sua fora. At onde se estende o domnio do ego, todos os sistemas ficam esvaziados de catexias. Quanto mais 
fortes forem as catexias instintuais do Ics., mais instvel ser o sono. Estamos familiarizados tambm com o caso extremo em que o ego desiste do desejo de dormir, 
porque se sente incapaz de inibir os impulsos reprimidos liberados durante o sono - em outras palavras, em que renuncia ao sono por temer seus sonhos.
         Adiante, aprenderemos a reconhecer a portentosa natureza dessa hiptese referente  rebeldia dos impulsos reprimidos. No momento, acompanhemos a situao 
que ocorre na formao de sonhos.
         A possibilidade mencionada acima [ver em [1]] - de que alguns dos pensamentos pr-conscientes do dia tambm podem revelar-se resistentes e reter uma parte 
de sua catexia - deve ser reconhecida como uma segunda brecha no narcisismo. No fundo, os dois casos podem ser idnticos. A resistncia dos resduos do dia pode 
originar-se num elo com impulsos inconscientes, j existente durante a vida de viglia; ou o processo pode ser menos simples, e os resduos do dia que no tenham 
sido inteiramente esvaziados de catexia s podem estabelecer uma conexo com o material reprimido depois da ocorrncia do estado de sono, graas  facilitao da 
comunicao entre o Pcs. e o Ics. Em ambos os casos, segue-se o mesmo passo decisivo na formao de sonhos: forma-se o desejo onrico pr-consciente, e isso d expresso 
ao impulso inconsciente no material dos resduos pr-conscientes do dia.
         Deve-se distinguir acentuadamente esse desejo onrico dos resduos do dia; ele no precisa ter existido na vida de viglia e j pode exibir o carter irracional 
possudo por tudo que  inconsciente quando o traduzimos para o consciente. Alm disso, o desejo onrico no deve ser confundido com os impulsos carregados de desejo 
que podem estar presentes - embora, certamente, no precisem necessariamente estar presentes - entre os pensamentos onricos pr-conscientes (latentes). Se, contudo, 
houvesse tais desejos pr-conscientes, o desejo onrico se associara a eles, como um reforo muito eficaz dos mesmos.
         Temos agora de considerar as outras vicissitudes sofridas por esse impulso carregado de desejo, que em sua essncia representa uma exigncia instintual 
inconsciente e que se formou no Pcs. como um desejo onrico (uma fantasia que satisfaz o desejo). A reflexo nos diz que esse impulso carregado de desejo pode seguir 
trs caminhos diferentes. Pode seguir o caminho que seria normal na vida de viglia, exercendo presso do Pcs. para a conscincia; pode desviar-se do Cs. e achar 
uma descarga motora direta; ou pode tomar o caminho inesperado que a observao nos permite de fato traar. No primeiro caso, transformar-se-ia num delrio, tendo 
como contedo a satisfao do desejo; no estado do sono, porm, isso jamais acontece. Com nossos parcos conhecimentos das condies metapsicolgicas dos processos 
mentais, talvez possamos aceitar esse fato como uma indicao de que um esvaziamento completo de um sistema o torna pouco suscetvel  instigao. O segundo caso, 
o da descarga motora direta, deve ser excludo pelo mesmo princpio, pois geralmente o acesso  motilidade ainda fica outro passo alm da censura da conscincia. 
Mas no deixamos de encontrar casos excepcionais em que isso acontece, sob a forma de sonambulismo. No conhecemos as condies que tornam isso possvel, nem sabemos 
por que no ocorre com mais freqncia. O que de fato acontece na formao de sonhos  uma marcante e imprevista sucesso de eventos. O processo, iniciado no Pcs., 
e reforado pelo Ics., segue um curso s avessas, atravs do Ics. at a percepo, que exerce presso sobre a conscincia. Essa regresso  a terceira fase da formao 
de sonhos. A bem da clareza, repetiremos as duas primeiras: o reforo dos resduos do dia do Pcs. pelo Ics. e a formao do desejo onrico.
         Chamaremos essa espcie de regresso de topografia, para distingui-la da regresso temporal ou de desenvolvimento mencionada previamente ver em [1]]. As 
duas nem sempre coincidem necessariamente, mas o fazem no exemplo especfico diante de ns. A reverso do curso da excitao proveniente do Pcs., atravs do Ics. 
at a percepo,  ao mesmo tempo um retorno  etapa inicial da satisfao do desejo que ocorre na alucinao.
         J descrevemos em A Interpretao de Sonhos [Edio Standard Brasileira, Vol. V, pg. 578 e segs. IMAGO Editora, 1972] a forma pela qual a regresso dos 
resduos pr-conscientes do dia ocorre na formao de sonhos. Nesse processo, os pensamentos so transformados em imagens, principalmente de natureza visual; isto 
, as apresentaes da palavra so levadas de volta s apresentaes da coisa que lhes correspondem, como se, em geral, o processo fosse dominado por consideraes 
de representabilidade [ibid., Vol. V, ver na pg. 548]. Quando a regresso  concluda, resta grande nmero de catexias no sistema Ics. - catexias de lembranas 
de coisas. Leva-se o processo psquico primrio a relacionar-se com essas lembranas, at que, pela condensao destas e pelo deslocamento entre suas respectivas 
catexias, tenha plasmado o contedo onrico manifesto. Somente quando as apresentaes da palavra que ocorrem nos resduos do dia so resduos recentes e costumeiros 
de percepes, e no a expresso de pensamentos,  que so tratadas como apresentaes da coisa, e sujeitas  influncia da condensao e do deslocamento. Da, a 
regra formulada em A Interpretao de Sonhos [ibid., Vol. V, ver na pg. 446 e segs.], e desde ento confirmada, acima de qualquer dvida, de que as palavras e as 
falas no contedo onrico no constituem novas formaes, mas seguem o modelo de falas do dia que precedeu o sonho (ou de outras impresses recentes, tal como algo 
que se leu).  notvel quo pouco a elaborao do sonho obedece s apresentaes da palavra; ela est sempre pronta a trocar uma palavra por outra at encontrar 
a expresso mais conveniente para representao plstica.
          nesse sentido que a diferena essencial entre a elaborao de sonhos e a esquizofrenia se torna clara. Na ltima, o que se torna objeto de modificao 
pelo processo primrio so as prprias palavras nas quais o pensamento pr-consciente foi expresso; nos sonhos, o que est sujeito a essa modificao no so as 
palavras, mas a apresentao da coisa  qual as palavras foram levadas de volta. Nos sonhos h uma regresso topogrfica; na esquizofrenia, no. Nos sonhos existe 
livre comunicao entre catexias da palavra (Pcs.) e catexias da coisa (Ics.), enquanto  uma caracterstica da esquizofrenia que essa comunicao seja interrompida. 
A impresso que essa diferena causa sobre algum  diminuda precisamente pelas interpretaes de sonho que realizamos na prtica psicanaltica. Com efeito, devido 
ao fato de a interpretao de sonhos seguir o curso tomado pela elaborao de sonhos, ela segue os caminhos que vo dos pensamentos latentes aos elementos onricos, 
revela a maneira pela qual as ambigidades verbais so exploradas e ressalta as pontes verbais entre os diferentes grupos de material - devido a tudo isso, recebemos 
a impresso ora de um chiste, ora de esquizofrenia, e somos capazes de esquecer que para um sonho todas as operaes com palavras no passam de preparao para uma 
regresso a coisas.
         A concluso do processo onrico consiste no contedo do pensamento - regressivamente transformado e elaborado numa fantasia carregada de desejo -, tornando-se 
consciente como uma percepo sensorial; enquanto isso ocorre, ele passa por uma reviso secundria,  qual todo conceito perceptual est sujeito. O desejo onrico, 
como dizemos,  alucinado, e, como uma alucinao, encontra-se com a crena na realidade de sua satisfao.  precisamente em torno dessa pea concludente na formao 
de sonhos que se centralizam as mais graves incertezas, e  com o propsito de elucid-las que nos propomos comparar os sonhos com estados patolgicos que lhes so 
afins.
         A formao da fantasia carregada de desejo e a sua regresso  alucinao constituem as partes mais essenciais do trabalho onrico, mas no pertencem exclusivamente 
aos sonhos. So tambm encontradas em dois estados mrbidos: na confuso alucinatria aguda ('amncia' de Meynert) e na fase alucinatria da esquizofrenia. O delrio 
alucinatrio da amncia  uma fantasia carregada de desejo claramente reconhecvel, com freqncia inteiramente bem ordenada como um perfeito devaneio. Poder-se-ia 
falar de maneira bastante geral de uma 'psicose alucinatria carregada de desejo' e atribu-la igualmente aos sonhos e  amncia. Existem at sonhos que no passam 
de fantasias carregadas de desejo no distorcidas, com um contedo muito rico. A fase alucinatria da esquizofrenia tem sido estudada com menor aprofundamento; parece 
ser, em geral, de natureza composta, mas em sua essncia poderia corresponder a uma nova tentativa de restituio, destinada a restaurar uma catexia libidinal s 
idias de objetos. No posso estender a comparao a outros estados alucinatrios em vrias desordens patolgicas, porque no tenho experincia prpria nesses casos 
da qual me possa valer, e no posso utilizar a de outros observadores.
         Queremos esclarecer que a psicose alucinatria carregada de desejo - nos sonhos ou em outras situaes - alcana dois resultados que de modo algum so idnticos. 
Ela no s traz desejos ocultos ou reprimidos para a conscincia, como tambm os representa, com toda a crena do indivduo, como satisfeitos. A concomitncia desses 
dois resultados exige explicao.  de todo impossvel sustentar que os desejos inconscientes devem necessariamente ser considerados como realidades to logo se 
tenham tornado conscientes, pois, como sabemos, somos capazes de distinguir as realidades de idias e desejos, por mais intensos que possam ser. Por outro lado, 
parece justificvel presumir que a crena na realidade est vinculada  percepo atravs dos sentidos. Uma vez que um pensamento tenha enveredado pela regresso 
at chegar aos traos de memria inconscientes dos objetos e da  percepo, aceitamos essa percepo como real. Assim, a alucinao traz consigo a crena na realidade. 
Agora temos de nos perguntar o que  que determina a formao de uma alucinao. A primeira resposta seria a regresso, e isso substituiria o problema da origem 
da alucinao pelo do mecanismo da regresso. No tocante aos sonhos, esse ltimo problema no precisa permanecer por muito tempo sem resposta. A regresso dos pensamentos 
onricos do Pcs. s imagens mnmicas das coisas constitui claramente o resultado da atrao que os representantes instintuais do Ics. - por exemplo, lembranas reprimidas 
de experincias - exercem sobre os pensamentos postos em palavras. Mas logo percebemos que estamos numa pista falsa. Se o segredo da alucinao nada mais  que o 
da regresso, toda regresso com intensidade suficiente produziria alucinao com crena em sua realidade. Estamos, no entanto, bem familiarizados com situaes 
nas quais em processo de reflexo regressiva traz  conscincia imagens visuais mnmicas muito claras, embora nem por isso as consideremos, por um momento que seja, 
como percepes reais. Alm disso, poderamos muito bem imaginar a elaborao de sonhos penetrando em imagens mnmicas dessa natureza, tornando consciente para ns 
o que era previamente incon sciente, e nos expondo uma fantasia carregada de desejo que desperte nosso anseio, mas que no devemos considerar como uma real satisfao 
do desejo. A alucinao, portanto, deve ser algo mais que a revivescncia regressiva de imagens mnmicas que em si mesmas so Ics.
         Alm disso, tenhamos ainda em mente a grande importncia prtica de distinguir as percepes das idias, por mais intensamente que sejam recordadas. Toda 
a nossa relao com o mundo externo, com a realidade, depende de nossa capacidade nesse sentido. Formulamos a fico de que nem sempre possumos essa capacidade 
e de que, no comeo de nossa vida mental, de fato alucinamos o objeto que nos satisfaria quando sentimos necessidade disso. Mas em tal situao a satisfao no 
ocorreu, e essa falha deve ter feito com que logo crissemos algum dispositivo com a ajuda do qual fosse possvel distinguir tais percepes carregadas de desejo 
de uma real satisfao e evit-las no futuro. Em outras palavras, desistimos da satisfao alucinatria de nossos desejos ainda muito cedo e estabelecemos uma espcie 
de 'teste da realidade'. Precisamos saber agora em que  que consistia esse teste da realidade e como a psicose alucinatria carregada de desejo que aparece nos 
sonhos, na amncia e em condies semelhantes, consegue aboli-lo e restabelecer a antiga modalidade de satisfao.
         A resposta poder ser dada se agora passarmos a definir mais precisamente o terceiro de nossos sistemas psquicos, o sistema Cs., que at o momento no 
distinguimos nitidamente do Pcs. Em A Interpretao de Sonhos j tnhamos sido levados a considerar a percepo consciente como a funo de um sistema especial, 
ao qual atribumos certas propriedades curiosas, e ao qual teremos agora bons motivos para atribuir tambm outras caractersticas. Podemos considerar esse sistema, 
l denominado Pcpt., como coincidindo com o sistema Cs., de cuja atividade o tornar-se consciente em geral depende. No obstante, mesmo assim, o fato de uma coisa 
se tornar consciente ainda no coincide inteiramente com o fato de ela pertencer a um sistema, pois aprendemos que  possvel estarmos cnscios de imagens sensoriais 
mnmicas s quais de forma alguma podemos permitir uma localizao psquica nos sistemas Cs. ou Pcpt.
         Devemos, contudo, adiar o exame dessa dificuldade at que possamos focalizar nosso interesse no prprio sistema Cs. Por ora podemos presumir que a alucinao 
consiste numa catexia do sistema Cs. (Pcpt)., a qual, contudo, no se origina - como normalmente - do exterior, mas do interior, e que uma condio necessria para 
a ocorrncia da alucinao  que a regresso seja levada longe o suficiente para alcanar esse prprio sistema, sendo, assim, capaz de passar pelo teste da realidade.
         Num trecho anterior atribumos ao organismo ainda inerme a capacidade de efetuar uma primeira orientao no mundo por meio de esas percepes, distinguindo 
'externo' e 'interno' de acordo com a relao entre essas percepes e a ao muscular do organismo. Uma percepo que desaparece por meio de uma ao  reconhecida 
como externa, como realidade; nos casos em que tal ao tem influncia, a percepo se origina dentro do prprio corpo do indivduo - no  real.  valioso para 
o indivduo possuir um meio como esse, que lhe permita reconhecer a realidade, que ao mesmo tempo o ajude a lidar com ela, e ele bem gostaria de estar equipado com 
um poder semelhante contra as reivindicaes muitas vezes implacveis de seus instintos. Eis por que se d ao trabalho de transpor para fora o que se torna problemtico 
dentro dele - isto , a projet-lo.
         Essa funo de orientar o indivduo no mundo pela discriminao entre o que  interno e o que  externo deve agora, aps pormenorizada disseco do aparelho 
mental, ser exclusivamente atribuda ao sistema Cs. (Pcpt.). O Cs. deve ter  sua disposio uma inervao motora que determina se se pode fazer com que a percepo 
desaparea, ou se ela oferece resistncia. O teste da realidade nada mais precisa ser do que esse dispositivo. No podemos ser mais precisos sobre esse ponto, de 
uma vez que ainda sabemos muito pouco a respeito da natureza e da modalidade de funcionamento do sistema Cs. Situaremos o teste da realidade entre as principais 
instituies do ego, ao lado das censuras que viemos a reconhecer entre os sistemas psquicos, e esperaremos que a anlise das desordens narcisistas nos ajude a 
trazer  luz outras instituies semelhantes. [ver em [1].]
         Por outro lado, j podemos aprender com a patologia a maneira pela qual o teste da realidade pode ser eliminado ou posto fora de ao. Veremos isso mais 
claramente na psicose carregada de desejo da amncia do que na de sonhos. A amncia  a reao a uma perda que a realidade afirma, mas que o ego tem de negar, por 
ach-la insuportvel. Portanto, o ego rompe sua relao com a realidade; retira a catexia do sistema de percepes, Cs. - ou antes, talvez, retira uma catexia, cuja 
natureza especial pode ser objeto de indagao ulterior. Com esse desvio da realidade, o teste da realidade  posto de lado, as fantasias carregadas de desejo (irreprimidas, 
inteiramente conscientes) so capazes de exercer presso avanando para dentro do sistema, sendo por ali consideradas como uma realidade melhor. Tal retirada pode 
ser equiparada aos processos de represso. A amncia apresenta o interessante espetculo de um rompimento entre o ego e um dos seus rgos - talvez o que tivesse 
sido o seu servidor mais fiel e estivesse mais intimamente vinculado a ele.
         O que na amncia  realizado por essa 'represso', nos sonhos  realizado pela renncia voluntria. O estado de sono no deseja conhecer coisa alguma do 
mundo externo; no se interessa pela realidade, ou s se interessa na medida em que o abandono do estado de sono - o despertar - se acha em causa. Por conseguinte, 
retira a catexia do sistema CS., bem como dos outros sistemas, do Pcs., e do Ics., na medida em que as catexias neles obedecem ao desejo de dormir. Com o sistema 
Cs. assim no-catexizado, a possibilidade do teste da realidade  abandonada, e as excitaes que, independentemente do estado de sono, entraram no caminho da regresso, 
encontraro esse caminho desimpedido at o sistema Cs., onde elas valero como realidade indiscutida.
         Quanto  psicose alucinatria da demncia precoce, inferiremos de nosso exame que essa psicose no pode estar entre os sintomas iniciais da afeco. S 
se torna possvel quando o ego do paciente se acha de tal forma desintegrado, que o teste da realidade no atrapalha mais a alucinao.
         No que diz respeito  psicologia dos processos onricos chegamos ao resultado segundo o qual todas as caractersticas essenciais dos sonhos so determinadas 
pelo fator condicionante do sono. Aristteles, h muito tempo, estava inteiramente certo ao afirmar, em seu modesto pronunciamento, que os sonhos constituem a atividade 
mental daquele que dorme. Podemos ampliar esse conceito e afirmar: os sonhos so um resduo da atividade mental, tornado possvel pelo fato de que o estado narcisista 
de sono no pde ser completamente estabelecido. Isso no parece diferir muito daquilo que psiclogos e filsofos sempre afirmaram, mas se baseia em concepes bem 
diferentes sobre a estrutura e funo do aparelho mental. Essas concepes tm uma vantagem sobre as anteriores: a de nos terem permitido compreender, tambm, todas 
as caractersticas pormenorizadas dos sonhos.
         Finalmente, consideremos mais uma vez o significativo esclarecimento que a topografia do processo de represso nos d sobre o mecanismo das perturbaes 
mentais. Nos sonhos, a retirada da catexia (libido ou interesse) afeta igualmente todos os sistemas; nas neuroses de transferncia, a catexia do Pcs.  retirada; 
na esquizofrenia, a catexia do Ics.; na amncia, a do Cs.
         
         



LUTO E MELANCOLIA (1917[1915])
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS - TRAUER UND MELANCOLIE
         
          (a) EDIES ALEMS:
         1917 Int. Z. Psychoanal., 4 (6) 288-301.
         1918 S.K.S.N., 4, 356-77. (1922, 2 ed.)
         1924 G.S., 5, 535-53.
         1924 Technik und Metapsychol., 257-75.
         1931 Theoretische Schriften, 157-77.
         1946 G.W., 10, 428-46.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
              'Mourning and Melancholia'
         1925 C.P., 4, 152-70. (Trad. Joan Riviere.)
         
         A presente traduo inglesa, embora baseada na de 1925, foi amplamente reescrita.
         Como sabemos pelo Dr. Ernest Jones (1955, 367-8), Freud lhe expusera o tema do presente artigo em janeiro de 1914, e falou sobre ele perante a Sociedade 
Psicanaltica de Viena em 30 de dezembro daquele ano. Escreveu um primeiro rascunho do artigo em fevereiro de 1915, tendo-o submetido  apreciao de Abraham, que 
lhe enviou extensos comentrios, entre os quais a importante sugesto de que havia uma ligao entre a melancolia e a fase oral do desenvolvimento libidinal (pg. 
255). O rascunho final do artigo foi concludo em 4 de maio de 1915, mas, como o anterior, s foi publicado dois anos depois.
         Bem no incio (provavelmente em janeiro de 1895), Freud enviara a Fliess uma elaborada tentativa de explicar a melancolia (sob cuja designao ele regularmente 
inclua o que agora em geral se descreve como estados de depresso) em termos puramente neurolgicos (Freud, 1950a, Rascunho G).
         Essa tentativa no se mostrou particularmente profcua, mas foi logo substituda por uma abordagem psicolgica do assunto. S dois anos depois encontramos 
um dos exemplos mais notveis de previso de Freud. Esta ocorre num manuscrito, tambm endereado a Fliess, e trazendo o ttulo 'Notas (III)'. Esse manuscrito, datado 
de 31 de maio de 1897,  incidentalmente aquele no qual Freud, pela primeira vez, antecipa o complexo de dipo (Freud, 1950a, Rascunho N.). O trecho em questo, 
cujo significado  to condensado a ponto de ser obscuro em certas passagens, merece ser citado na ntegra:
         'Os impulsos hostis contra os pais (o desejo de que morram) so tambm um constituinte integrante das neuroses. Vm  luz conscientemente como idias obsessivas. 
Na parania, o que h de pior nos delrios de perseguio (desconfiana patolgica de governantes e monarcas) corresponde a esses impulsos. So reprimidos quando 
a compaixo pelos pais  ativa - nas ocasies de sua doena ou morte. Em tais ocasies,  uma manifestao de luto recriminar-se a si prprio pela morte deles (o 
que se conhece como melancolia) ou punir-se a si mesmo de uma maneira histrica (por intermdio da idia de retribuio) com os mesmos estados [de doena] que tenham 
tido. A identificao que ocorre aqui, como podemos ver, no passa de uma modalidade de pensar e no nos exime da necessidade de procurar o motivo.'
         A aplicao  melancolia da linha de pensamento delineada neste trecho parece ter sido deixada completamente de lado por Freud. Realmente, ele raramente 
tornou a mencionar essa condio antes do presente artigo, salvo algumas observaes num debate sobre suicdio na Sociedade Psicanaltica de Viena em 1910 (Edio 
Standard Brasileira, Vol. XI, pg. 218, IMAGO Editora, 1970), quando ressaltou a importncia de traar uma comparao entre a melancolia e os estados normais de 
luto, declarando, contudo, que o problema psicolgico em jogo ainda era insolvel.
         O que permitiu a Freud reabrir o assunto foi, naturalmente, a introduo dos conceitos de narcisismo e de ideal do ego. O presente artigo poder, talvez, 
ser considerado como um prolongamento do trabalho sobre narcisismo que Freud escrevera um ano antes (1914c). Do mesmo modo que aquele artigo havia descrito as atividades 
do 'agente crtico' em casos de parania (ver acima, em [1] e segs.), este v o mesmo agente em atuao na melancolia.
         Mas as implicaes desse artigo estavam destinadas a ser mais importantes do que a explanao do mecanismo de um estado patolgico especfico, embora essas 
implicaes no se tornassem imediatamente bvias. O material contido aqui levou  considerao ulterior do 'agente crtico' que se encontra no Captulo XI de Group 
Psychology (1921c), Standard Ed., 18, 129 e segs.; e isso por sua vez levou  hiptese do superego em The Ego and the Id (1923b) e a uma nova avaliao do sentimento 
de culpa.
         Sob um outro aspecto, esse artigo exigia um exame de toda a questo da natureza da identificao. Parece que Freud se mostrou inclinado, de incio, a consider-la 
intimamente associada e, talvez, dependente da fase oral ou canibalista do desenvolvimento libidinal. Assim, em Totem e Tabu (1912-13), Edio Standard Brasileira, 
Vol. XIII, pg. 170, IMAGO Editora, 1974, ele havia escrito, sobre a relao entre os filhos e o pai da horda primeva, que 'no ato de devor-lo realizavam sua identificao 
com ele'. E, mais uma vez, num trecho acrescentado  terceira edio dos Trs Ensaios, publicado em 1915 mas escrito alguns meses antes do presente artigo, descreveu 
a fase oral canibalista como 'o prottipo de um processo que, sob a forma de identificao, ir depois desempenhar um papel psicolgico to importante'. No presente 
artigo (ver em [1]), fala da identificao como 'uma etapa preliminar da escolha objetal... a primeira forma pela qual o ego escolhe um "objeto"', acrescentando 
que 'o ego deseja incorporar a si esse objeto, e, em conformidade com a fase oral ou canibalista do desenvolvimento libidinal em que se acha, deseja fazer isso devorando-o'. 
E na realidade, embora Abraham possa ter sugerido a relevncia da fase oral para a melancolia, o prprio Freud j comeara a se interessar por ela, como se demonstra 
pelo exame disso na anamnese do 'Homem dos Lobos' (1918b), escrita durante o outono de 1914, na qual aquela fase desempenhou um papel proeminente. (Ver Standard 
Ed., 17, 106.) Alguns anos depois, em Group Psychology (1921c), Standard Ed., 18. 105 e segs., onde o tema da identificao  retomado, explicitamente em continuao 
ao presente exame, uma modificao do conceito anterior - ou talvez apenas um esclarecimento do mesmo - parece surgir. A identificao, aprendemos ali,  algo que 
precede a catexia objetal, sendo distinta dela, embora ele ainda diga que 'ela se comporta como um derivado da primeira fase, a oral'. Esse conceito de identificao 
 reiteradamente ressaltado em muitos dos escritos ulteriores de Freud, como, por exemplo, no Captulo III de The Ego and the Id (1923b), onde ele escreve que a 
identificao com os pais 'aparentemente no , inicialmente, a conseqncia ou resultado de uma catexia objetal;  uma identificao direta e imediata, e se verifica 
mais cedo do que qualquer catexia objetal'.
         O que mais tarde Freud parece ter considerado a caracterstica mais significante deste artigo foi, contudo, o relato do processo pelo qual, na melancolia, 
uma catexia objetal  substituda por uma identificao. No Cap. III de The Ego and the Id, argumentou que esse processo no se restringe  melancolia, mas  de 
ocorrncia bastante geral. Essas identificaes regressivas, ressaltou ele, so, em grande medida, a base do que descrevemos como o 'carter' de uma pessoa. Mas, 
e isso era muito mais importante, ele sugeriu que as mais antigas dessas identificaes regressivas - as derivadas da dissoluo do complexo de dipo - vm ocupar 
uma posio muito especial, e formam, de fato, o ncleo do superego.
         
         LUTO E MELANCOLIA
         
         Tendo os sonhos nos servido de prottipo das perturbaes mentais narcisistas na vida normal, tentaremos agora lanar alguma luz sobre a natureza da melancolia, 
comparando-a com o afeto normal do luto. Dessa vez, porm, devemos comear por fazer uma confisso, como advertncia contra qualquer superestimao do valor de nossas 
concluses. A melancolia, cuja definio varia inclusive na psiquiatria descritiva, assume vrias formas clnicas, cujo agrupamento numa nica unidade no parece 
ter sido estabelecido com certeza, sendo que algumas dessas formas sugerem afeces antes somticas do que psicognicas. Nosso material, independentemente de tais 
impresses acessveis a todo observador, limita-se a um pequeno nmero de casos de natureza psicognica indiscutvel. Desde o incio, portanto abandonaremos toda 
e qualquer reivindicao  validade geral de nossas concluses, e nos consolaremos com a reflexo de que, com os meios de pesquisa  nossa disposio hoje em dia, 
dificilmente descobriramos alguma coisa que no fosse tpica, se no de toda uma classe de perturbaes, pelo menos de um pequeno grupo delas.
         A correlao entre a melancolia e o luto parece ser justificada pelo quadro geral dessas duas condies. Alm disso, as causas excitantes devidas a influncias 
ambientais so, na medida em que podemos discerni-las, as mesmas para ambas as condies. O luto, de modo geral,  a reao  perda de um ente querido,  perda de 
alguma abstrao que ocupou o lugar de um ente querido, como o pas, a liberdade ou o ideal de algum, e assim por diante. Em algumas pessoas, as mesmas influncias 
produzem melancolia em vez de luto; por conseguinte, suspeitamos de que essas pessoas possuem uma disposio patolgica. Tambm vale a pena notar que, embora o luto 
envolva graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para com a vida, jamais nos ocorre consider-lo como sendo uma condio patolgica e submet-lo 
a tratamento mdico. Confiamos em que seja superado aps certo lapso de tempo, e julgamos intil ou mesmo prejudicial qualquer interferncia em relao a ele.
         Os traos mentais distintivos da melancolia so um desnimo profundamente penoso, a cessao de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, 
a inibio de toda e qualquer atividade, e uma diminuio dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expresso em auto-recriminao e auto-envilecimento, 
culminando numa expectativa delirante de punio. Esse quadro torna-se um pouco mais inteligvel quando consideramos que, com uma nica exceo, os mesmos traos 
so encontrados no luto. A perturbao da auto-estima est ausente no luto; afora isso, porm, as caractersticas so as mesmas. O luto profundo, a reao  perda 
de algum que se ama, encerra o mesmo estado de esprito penoso, a mesma perda de interesse pelo mundo externo - na medida em que este no evoca esse algum -, a 
mesma perda da capacidade de adotar um novo objeto de amor (o que significaria substitu-lo) e o mesmo afastamento de toda e qualquer atividade que no esteja ligada 
a pensamentos sobre ele.  fcil constatar que essa inibio e circunscriso do ego  expresso de uma exclusiva devoo ao luto, devoo que nada deixa a outros 
propsitos ou a outros interesses. E, realmente, s porque sabemos explic-la to bem  que essa atitude no nos parece patolgica.
         Parece-nos tambm uma comparao adequada chamar a disposio para o luto de 'dolorosa'.  bem provvel que vejamos a justificao disso quando estivermos 
em condies de apresentar uma caracterizao da economia da dor.
         Em que consiste, portanto, o trabalho que o luto realiza? No me parece forado apresent-lo da forma que se segue. O teste da realidade revelou que o objeto 
amado no existe mais, passando a exigir que toda a libido seja retirada de suas ligaes com aquele objeto. Essa exigncia provoca uma oposio compreensvel - 
 fato notrio que as pessoas nunca abandonam de bom grado uma posio libidinal, nem mesmo, na realidade, quando um substituto j se lhes acena. Esta oposio pode 
ser to intensa, que d lugar a um desvio da realidade e a um apego ao objeto por intermdio de uma psicose alucinatria carregada de desejo. Normalmente, prevalece 
o respeito pela realidade, ainda que suas ordens no possam ser obedecidas de imediato. So executadas pouco a pouco, com grande dispndio de tempo e de energia 
catexial, prolongando-se psiquicamente, nesse meio tempo, a existncia do objeto perdido. Cada uma das lembranas e expectativas isoladas atravs das quais a libido 
est vinculada ao objeto  evocada e hipercatexizada, e o desligamento da libido se realiza em relao a cada uma delas. Por que essa transigncia, pela qual o domnio 
da realidade se faz fragmentariamente, deve ser to extraordinariamente penosa, de forma alguma  coisa fcil de explicar em termos de economia.  notvel que esse 
penoso desprazer seja aceito por ns como algo natural. Contudo, o fato  que, quando o trabalho do luto se conclui, o ego fica outra vez livre e desinibido.
         Apliquemos agora  melancolia o que aprendemos sobre o luto. Num conjunto de casos  evidente que a melancolia tambm pode constituir reao  perda de 
um objeto amado. Onde as causas excitantes se mostram diferentes, pode-se reconhecer que existe uma perda de natureza mais ideal. O objeto talvez no tenha realmente 
morrido, mas tenha sido perdido enquanto objeto de amor (como no caso, por exemplo, de uma noiva que tenha levado o fora). Ainda em outros casos nos sentimos justificados 
em sustentar a crena de que uma perda dessa espcie ocorreu; no podemos, porm, ver claramente o que foi perdido, sendo de todo razovel supor que tambm o paciente 
no pode conscientemente receber o que perdeu. Isso, realmente, talvez ocorra dessa forma, mesmo que o paciente esteja cnscio da perda que deu origem  sua melancolia, 
mas apenas no sentido de que sabe quem ele perdeu, mas no o que perdeu nesse algum. Isso sugeriria que a melancolia est de alguma forma relacionada a uma perda 
objetal retirada da conscincia, em contraposio ao luto, no qual nada existe de inconsciente a respeito da perda.
         No luto, verificamos que a inibio e a perda de interesse so plenamente explicadas pelo trabalho do luto no qual o ego  absorvido. Na melancolia, a perda 
desconhecida resultar num trabalho interno semelhante, e ser, portanto, responsvel pela inibio melanclica. A diferena consiste em que a inibio do melanclico 
nos parece enigmtica porque no podemos ver o que  que o est absorvendo to completamente. O melanclico exibe ainda uma outra coisa que est ausente no luto 
- uma diminuio extraordinria de sua auto-estima, um empobrecimento de seu ego em grande escala. No luto,  o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, 
 o prprio ego. O paciente representa seu ego para ns como sendo desprovido de valor, incapaz de qualquer realizao e moralmente desprezvel; ele se repreende 
e se envilece, esperando ser expulso e punido. Degrada-se perante todos, e sente comiserao por seus prprios parentes por estarem ligados a uma pessoa to desprezvel. 
No acha que uma mudana se tenha processado nele, mas estende sua autocrtica at o passado, declarando que nunca foi melhor. Esse quadro de um delrio de inferioridade 
(principalmente moral)  completado pela insnia e pela recusa a se alimentar, e - o que  psicologicamente notvel - por uma superao do instinto que compele todo 
ser vivo a se apegar  vida.
         Seria igualmente infrutfero, de um ponto de vista cientfico e teraputico, contradizer um paciente que faz tais acusaes contra seu ego. Certamente, 
de alguma forma ele deve estar com a razo, e descreve algo que  como lhe parece ser. Devemos, portanto, confirmar de imediato, e sem reservas, algumas de suas 
declaraes. Ele se encontra, de fato, to desinteressado e to incapaz de amor e de realizao quanto afirma. Mas isso, como sabemos,  secundrio; trata-se do 
efeito do trabalho interno que lhe consome o ego - trabalho que, nos sendo desconhecido, , porm, comparvel ao do luto. O paciente tambm nos parece justificado 
em fazer outras auto-acusaes; apenas, ele dispe de uma viso mais penetrante da verdade do que outras pessoas que no so melanclicas. Quando, em sua exacerbada 
autocrtica, ele se descreve como mesquinho, egosta, desonesto, carente de independncia, algum cujo nico objetivo tem sido ocultar as fraquezas de sua prpria 
natureza, pode ser, at onde sabemos, que tenha chegado bem perto de se compreender a si mesmo; ficamos imaginando, to-somente, por que um homem precisa adoecer 
para ter acesso a uma verdade dessa espcie. Com efeito, no pode haver dvida de que todo aquele que sustenta e comunica a outros uma opinio de si mesmo como esta 
(opinio que Hamlet tinha a respeito tanto de si quanto de todo mundo), est doente, quer fale a verdade, quer se mostre mais ou menos injusto para consigo mesmo. 
Tampouco  difcil ver que, at onde podemos julgar, no h correspondncia entre o grau de autodegradao e sua real justificao. Uma mulher boa, capaz e conscienciosa, 
no ter palavras mais elogiosas para si mesma, durante a melancolia, do que uma que de fato seja desprovida de valor; realmente, talvez a primeira tenha mais probabilidades 
de contrair a doena do que a segunda, a cujo respeito tambm ns nada teramos a dizer de bom. Por fim, deve ocorrer-nos que, afinal de contas, o melanclico no 
se comporta da mesma maneira que uma pessoa esmagada, de uma forma normal, pelo remorso e pela auto-recriminao. Sentimentos de vergonha diante de outras pessoas, 
que, mais do qualquer outra coisa, caracterizariam essa ltima condio, faltam ao melanclico, ou pelo menos no so proeminentes nele. Poder-se-ia ressaltar a 
presena nele de um trao quase oposto, de uma insistente comunicabilidade, que encontra satisfao no desmascaramento de si mesmo.
         O ponto essencial, portanto, no consiste em saber se a autodifamao aflitiva do melanclico  correta, no sentido de que sua autocrtica esteja de acordo 
com a opinio de outras pessoas. O ponto consiste, antes, em saber se ele est apresentando uma descrio correta de sua situao psicolgica. Ele perdeu seu amor-prprio 
e deve ter tido boas razes para tanto.  verdade que ento nos deparamos com uma contradio que coloca um problema de difcil soluo. A analogia com o luto nos 
levou a concluir que ele sofrera uma perda relativa a um objeto; o que o paciente nos diz aponta para uma perda relativa a seu ego.
         Antes de passarmos a essa contradio, detenhamo-nos um pouco no conceito que a perturbao do melanclico oferece a respeito da constituio do ego humano. 
Vemos como nele uma parte do ego se coloca contra a outra, julga-a criticamente, e, por assim dizer, toma-a como seu objeto. Nossa desconfiana de que o agente crtico, 
que aqui se separa do ego, talvez tambm revele sua independncia em outras circunstncias, ser confirmada ao longo de toda a observao ulterior. Realmente, encontraremos 
fundamentos para distinguir esse agente do restante do ego. Aqui, estamo-nos familiarizando com o agente comumente denominado 'conscincia'; vamos inclu-lo, juntamente 
com a censura da conscincia e do teste da realidade, entre as principais instituies do ego, e poderemos provar que ela pode ficar doente por sua prpria causa. 
No quadro clnico da melancolia, a insatisfao com o ego constitui, por motivos de ordem moral, a caracterstica mais marcante. Freqentemente, a auto-avaliao 
do paciente se preocupa muito menos com a enfermidade do corpo, a feira ou a fraqueza, ou com a inferioridade social; quanto a essa categoria, somente seu temor 
da pobreza e as afirmaes de que vai ficar pobre ocupam posio proeminente.
         H uma observao, de modo algum difcil de ser feita, que leva  explicao da contradio mencionada acima [no fim do penltimo pargrafo]. Se se ouvir 
pacientemente as muitas e variadas auto-acusaes de um melanclico, no se poder evitar, no fim, a impresso de que freqentemente as mais violentas delas dificilmente 
se aplicam ao prprio paciente, mas que, com ligeiras modificaes, se ajustam realmente a outrem, a algum que o paciente ama, amou ou deveria amar. Toda vez que 
se examinam os fatos, essa conjectura  confirmada.  assim que encontramos a chave do quadro clnico: percebemos que as auto-recriminaes so recriminaes feitas 
a um objeto amado, que foram deslocadas desse objeto para o ego do prprio paciente.
         A mulher que lamenta em altos brados o fato de o marido estar preso a uma esposa incapaz como ela, na verdade est acusando o marido de ser incapaz, no 
importando o sentido que ela possa atribuir a isso. No h por que se surpreender com o fato de haver algumas auto-recriminaes autnticas difundidas entre as que 
foram transpostas. Permite-se que estas se intrometam, de uma vez que ajudam a mascarar as outras e a tornar impossvel o reconhecimento do verdadeiro estado de 
coisas. Alm disso, elas derivam dos prs e dos contras do conflito amoroso que levou  perda do amor. Tambm o comportamento dos pacientes, agora, se torna bem 
mais inteligvel. Suas queixas so realmente 'queixumes', no sentido antigo da palavra. Eles no se envergonham nem se ocultam, j que tudo de desairoso que dizem 
sobre eles prprios refere-se, no fundo,  outra pessoa. Alm disso, esto longe de demonstrar perante aqueles que o cercam uma atitude de humildade e submisso, 
nica que caberia a pessoas to desprezveis. Pelo contrrio, tornam-se as pessoas mais maantes, dando sempre a impresso de que se sentem desconsideradas e de 
que foram tratadas com grande injustia. Tudo isso s  possvel porque as reaes expressas em seu comportamento ainda procedem de uma constelao mental de revolta, 
que, por um certo processo, passou ento para o estado esmagado de melancolia.
         No  difcil reconstruir esse processo. Existem, num dado momento, uma escolha objetal, uma ligao da libido a uma pessoa particular; ento, devido a 
uma real desconsiderao ou desapontamento proveniente da pessoa amada, a relao objetal foi destroada. O resultado no foi o normal - uma retirada da libido desse 
objeto e um deslocamento da mesma para um novo -, mas algo diferente, para cuja ocorrncia vrias condies parecem ser necessrias. A catexia objetal provou ter 
pouco poder de resistncia e foi liquidada. Mas a libido livre no foi deslocada para outro objeto; foi retirada para o ego. Ali, contudo, no foi empregada de maneira 
no especificada, mas serviu para estabelecer uma identificao do ego com o objeto abandonado. Assim a sombra do objeto caiu sobre o ego, e este pde, da por diante, 
ser julgado por um agente especial, como se fosse um objeto, o objeto abandonado. Dessa forma, uma perda objetal se transformou numa perda do ego, e o conflito entre 
o ego e a pessoa amada, numa separao entre a atividade crtica do ego e o ego enquanto alterado pela identificao.
         Uma ou duas coisas podem ser diretamente inferidas no tocante s precondies e aos efeitos de um processo como este. Por um lado, uma forte fixao no 
objeto amado deve ter estado presente; por outro, em contradio a isso, a catexia objetal deve ter tido pouco poder de resistncia. Conforme Otto Rank observou 
com propriedade, essa contradio parece implicar que a escolha objetal  efetuada numa base narcisista, de modo que a catexia objetal, ao se defrontar com obstculos, 
pode retroceder para o narcisismo. A identificao narcisista com o objeto se torna, ento, um substituto da catexia ertica, e, em conseqncia, apesar do conflito 
com a pessoa amada, no  preciso renunciar  relao amorosa. Essa substituio da identificao pelo amor objetal constitui importante mecanismo nas afeces narcisistas; 
Karl Laudauer (1914), recentemente, teve ocasio de indic-lo no processo de recuperao num caso de esquizofrenia. Ele representa, naturalmente, uma regresso de 
um tipo de escolha objetal para o narcisismo original. Mostramos em outro ponto que a identificao  uma etapa preliminar da escolha objetal, que  a primeira forma 
- e uma forma expressa de maneira ambivalente - pela qual o ego escolhe um objeto. O ego deseja incorporar a si esse objeto, e, em conformidade com a fase oral ou 
canibalista do desenvolvimento libidinal em que se acha, deseja fazer isso devorando-o. Abraham, sem dvida, tem razo em atribuir a essa conexo a recusa de alimento 
encontrada em formas graves de melancolia. 
         A concluso que nossa teoria exigiria - a saber, que a tendncia a adoecer de melancolia (ou parte dessa tendncia) reside na predominncia do tipo narcisista 
da escolha objetal - infelizmente ainda no foi confirmada pela observao. Nas observaes introdutrias deste artigo, admiti que o material emprico em que se 
fundamentou este estudo  insuficiente para as nossas necessidades. Se pudssemos presumir um acordo entre os resultados da observao e o que inferimos, no hesitaramos 
em incluir em nossa caracterizao da melancolia essa regresso da catexia objetal para a fase oral ainda narcisista da libido. Tambm nas neuroses de transferncia 
as identificaes com o objeto de modo algum so raras; na realidade, constituem um conhecido mecanismo de formao de sintomas, especialmente na histeria. Contudo, 
a diferena entre a identificao narcisista e a histrica pode residir no seguinte: ao passo que na primeira a catexia objetal  abandonada, na segunda persiste 
e manifesta sua influncia, embora isso em geral esteja confinado a certas aes e inervaes isoladas. Seja como for, tambm nas neuroses de transferncia a identificao 
 a expresso da existncia de algo em comum, que pode significar amor. A identificao narcisista  a mais antiga das duas e prepara o caminho para uma compreenso 
da identificao histrica, que tem sido estudada menos profundamente.
         A melancolia, portanto, toma emprestado do luto alguns dos seus traos e, do processo de regresso, desde a escolha objetal narcisista para o narcisismo, 
os outros.  por um lado, como o luto, uma reao  perda real de um objeto amado; mas, acima de tudo isso,  assinalada por uma determinante que se acha ausente 
no luto normal ou que, se estiver presente, transforma este em luto patolgico. A perda de um objeto amoroso constitui excelente oportunidade para que a ambivalncia 
nas relaes amorosas se faa efetiva e manifesta. Onde existe uma disposio para a neurose obsessiva, o conflito devido  ambivalncia empresta um cunho patolgico 
ao luto, forando-o a expressar-se sob forma de auto-recriminao, no sentido de que a prpria pessoa enlutada  culpada pela perda do objeto amado, isto , que 
ela a desejou. Esses estados obsessivos de depresso que se seguem  morte de uma pessoa amada revelam-nos o que o conflito devido  ambivalncia pode alcanar por 
si mesmo quando tambm no h uma retrao regressiva da libido. Na melancolia, as ocasies que do margem  doena vo, em sua maior parte, alm do caso ntido 
de uma perda por morte, incluindo as situaes de desconsiderao, desprezo ou desapontamento, que podem trazer para a relao sentimentos opostos de amor e dio, 
ou reforar uma ambivalncia j existente. Esse conflito devido  ambivalncia, que por vezes surge mais de experincias reais, por vezes mais de fatores constitucionais, 
no deve ser desprezado entre as precondies da melancolia. Se o amor pelo objeto - um amor que no pode ser renunciado, embora o prprio objeto o seja - se refugiar 
na identificao narcisista, ento o dio entra em ao nesse objeto substitutivo, dele abusando, degradando-o, fazendo-o sofrer e tirando satisfao sdica de seu 
sofrimento. A autotortura na melancolia, sem dvida agradvel, significa, do mesmo modo que o fenmeno correspondente na neurose obsessiva, uma satisfao das tendncias 
do sadismo e do dio relacionadas a um objeto, que retornaram ao prprio eu do indivduo nas formas que vimos examinando. Via de regra, em ambas as desordens, os 
pacientes ainda conseguem, pelo caminho indireto da autopunio, vingar-se do objeto original e torturar o ente amado atravs de sua doena,  qual recorrem a fim 
de evitar a necessidade de expressar abertamente sua hostilidade para com ele. Afinal de contas, a pessoa que ocasionou a desordem emocional do paciente, e na qual 
na doena se centraliza, em geral se encontra eu seu ambiente imediato. A catexia ertica do melanclico no tocante a seu objeto sofreu assim uma dupla vicissitude: 
parte dela retrocedeu  identificao, mas a outra parte, sob a influncia do conflito devido  'ambivalncia', foi levada de volta  etapa de sadismo que se acha 
mais prxima do conflito.
          exclusivamente esse sadismo que soluciona o enigma da tendncia ao suicdio, que torna a melancolia to interessante - e to perigosa. To imenso  o 
amor de si mesmo do ego (self-love), que chegamos a reconhecer como sendo o estado primevo do qual provm a vida instintual, e to vasta  a quantidade de libido 
narcisista que vemos liberada no medo surgido de uma ameaa  vida, que no podemos conceber como esse ego consente em sua prpria destruio. De h muito,  verdade, 
sabemos que nenhum neurtico abriga pensamentos de suicdio que no consistam em impulsos assassinos contra outros, que ele volta contra si mesmo, mas jamais fomos 
capazes de explicar que foras interagem para levar a cabo esse propsito. A anlise da melancolia mostra agora que o ego s pode se matar se, devido ao retorno 
da catexia objetal, puder tratar a si mesmo como um objeto - se for capaz de dirigir contra si mesmo a hostilidade relacionada a um objeto, e que representa a reao 
original do ego para com objetos do mundo externo. Assim, na regresso desde a escolha objetal narcisista,  verdade que nos livramos do objeto; ele, no obstante, 
se revelou mais poderoso do que o prprio ego. Nas duas situaes opostas, de paixo intensa e de suicdio, o ego  dominado pelo objeto, embora de maneiras totalmente 
diferentes.
         
         Quanto ao marcante trao particular da melancolia que mencionamos [ver em[1]], a proeminncia do medo de ficar pobre, parece plausvel supor que se origina 
do erotismo anal que foi arrancado de seu contexto e alterado num sentido regressivo.
         A melancolia ainda nos confronta com outros problemas, cuja resposta em parte nos escapa. O fato de desaparecer aps certo tempo, sem deixar quaisquer vestgios 
de grandes alteraes,  uma caracterstica que ela compartilha com o luto. Verificamos,  guisa de explanao [ver em [1] e [2]], que, no luto, se necessita de 
tempo para que o domnio do teste da realidade seja levado a efeito em detalhe, e que, uma vez realizado esse trabalho, o ego consegue libertar sua libido do objeto 
perdido. Podemos imaginar que o ego se ocupa com um trabalho anlogo no decorrer de uma melancolia; em nenhum dos dois casos dispomos de qualquer compreenso interna 
(insight) da economia do curso dos eventos. Na melancolia, a insnia atesta a rigidez da condio, a impossibilidade de se efetuar o retraimento geral das catexias 
necessrio ao sono. O complexo de melancolia se comporta como uma ferida aberta, atraindo a si as energias catexiais - que nas neuroses de transferncia denominamos 
de 'anticatexias' - provenientes de todas as direes, e esvaziando o ego at este ficar totalmente empobrecido. Facilmente, esse complexo pode provar ser resistente 
ao desejo, por parte do ego, de dormir.
         O que provavelmente  um fator somtico, fator este que no pode ser explicado psicologicamente, torna-se visvel na melhoria regular da condio, que se 
verifica por volta do anoitecer. Essas consideraes nos levam a perguntar se uma perda no ego, independentemente do objeto - um golpe puramente narcisista contra 
o ego -, no bastar para produzir o quadro de melancolia, e se um empobrecimento da libido do ego, diretamente por causa de toxinas, no ser capaz de produzir 
certas formas da doena.
         A caracterstica mais notvel da melancolia, e aquela que mais precisa de explicao,  sua tendncia a se transformar em mania - estado este que  o oposto 
dela em seus sintomas. Como sabemos, isso no acontece a toda melancolia. Alguns casos seguem seu curso em recadas peridicas, entre cujos intervalos sinais de 
mania talvez estejam inteiramente ausentes ou sejam apenas muito leves. Outros revelam a alterao regular de fases melanclicas e manacas que leva  hiptese de 
uma insanidade circular. Veramo-nos tentados a considerar esses casos como no sendo psicognicos, se no fosse o fato de que o mtodo psicanaltico conseguiu chegar 
a uma soluo e efetuar uma melhoria teraputica em vrios casos precisamente dessa espcie. No  apenas permissvel, portanto, mas imperioso, estender uma explanao 
analtica da melancolia tambm  mania.
         No posso prometer que essa tentativa venha a ser inteiramente satisfatria. Mal nos leva alm da possibilidade de tomarmos nossa orientao inicial. Temos 
duas coisas a empreender: a primeira  uma impresso psicanaltica; a segunda, o que talvez possamos chamar de um tema de experincia econmica geral. A impresso 
que vrios investigadores psicanalticos j puseram em palavras  que o contedo da mania em nada difere do da melancolia, que ambas as desordens lutam com o mesmo 
'complexo', mas que provavelmente, na melancolia, o ego sucumbe ao complexo, ao passo que, na mania, domina-o ou o pe de lado. Nosso segundo indicador  proporcionado 
pela observao de que todos os estados, tais como a alegria, a exultao ou o triunfo, que nos fornecem o modelo normal para a mania, dependem das mesmas condies 
econmicas. Aqui, aconteceu que, como resultado de alguma influncia, um grande dispndio de energia psquica, de h muito mantido ou que ocorre habitualmente, finalmente 
se torna desnecessrio, de modo que se encontra disponvel para numerosas aplicaes e possibilidades de descarga - quando, por exemplo, algum pobre miservel, ganhando 
uma grande soma de dinheiro, fica subitamente aliviado da preocupao crnica com seu po de cada dia, ou quando uma longa e rdua luta se v afinal coroada de xito, 
ou quando um homem se encontra em condies de se desfazer, de um s golpe, de alguma compulso opressiva, alguma posio falsa que teve de manter por muito tempo, 
e assim por diante. Todas essas situaes se caracterizam pela animao, pelos sinais de descarga de uma emoo jubilosa e por maior disposio para todas as espcies 
de ao - da mesma maneira que na mania, e em completo contraste com a depresso e a inibio da melancolia. Podemos aventurar-nos a afirmar que a mania nada mais 
 do que um triunfo desse tipo; s que aqui, mais uma vez, aquilo que o ego dominou e aquilo sobre o qual est triunfando permanecem ocultos dele. A embriaguez alcolica, 
que pertence  mesma classe de estados, pode (na medida em que  de exaltao) ser explicada da mesma maneira; aqui, provavelmente, ocorre uma suspenso, produzida 
por toxinas, de dispndios de energia na represso. A opinio popular gosta de presumir que uma pessoa num estado manaco desse tipo se deleita no movimento e na 
ao porque ela  muito 'alegre'. Naturalmente, essa falsa conexo deve ser corrigida. O fato  que a condio econmica na mente do indivduo, mencionada acima, 
foi atendida, sendo essa a razo por que ele se acha to animado, por um lado, e to desinibido em sua ao, por outro.
         Se reunirmos essas duas indicaes, encontraremos o seguinte. Na mania, o ego deve ter superado a perda do objeto (ou seu luto pela perda, ou talvez o prprio 
objeto), e, conseqentemente, toda a quota de anticatexia que o penoso sofrimento da melancolia tinha atrado para si vinda do ego e 'vinculado' se ter tornado 
disponvel [ver em [1]]. Alm disso, o indivduo manaco demonstra claramente sua liberao do objeto que causou seu sofrimento, procurando, como um homem vorazmente 
faminto, novas catexias objetais.
         Essa explicao certamente parece plausvel, mas, em primeiro lugar,  por demais idefinida, e, em segundo, d margem a mais novos problemas e dvidas do 
que podemos responder. No fugiremos a um exame dos mesmos, embora no possamos esperar que esse exame nos leve a uma compreenso ntida.
         Em primeiro lugar, tambm o luto normal supera a perda de objeto, e tambm, enquanto persiste, absorve todas as energias do ego. Por que, ento, depois 
de seguir seu curso, no h, em seu caso, qualquer indcio da condio econmica necessria a uma fase de triunfo? Acho impossvel responder a essa objeo diretamente. 
Tambm chama a nossa ateno para o fato de que nem sequer conhecemos os meios econmicos pelos quais o luto executa sua tarefa [ver em [1]]. Possivelmente, contudo, 
uma conjectura nos ajudar aqui. Cada uma das lembranas e situaes de expectativa que demonstram a ligao da libido ao objeto perdido se defrontam com o veredicto 
da realidade segundo o qual o objeto no mais existe; e o ego, confrontado, por assim dizer, com a questo de saber se partilhar desse destino,  persuadido, pela 
soma das satisfaes narcisistas que deriva de estar vivo, a romper sua ligao com o objeto abolido. Talvez possamos supor que esse trabalho de rompimento seja 
to lento e gradual, que, na ocasio em que tiver sido concludo, o dispndio de energia necessria a ele tambm se tenha dissipado.
          tentador continuar a partir dessa conjectura sobre o trabalho do luto e tentar apresentar um relato do trabalho da melancolia. Aqui, de incio, nos defrontamos 
com uma incerteza. At agora, quase no consideramos a melancolia do ponto de vista topogrfico, nem perguntamos a ns mesmos, nesse meio tempo, em que ou entre 
que sistemas psquicos o trabalho de melancolia se processa. Que parte dos processos mentais da doena ainda se verifica em conexo com as catexias objetais inconscientes 
abandonadas, e que parte em conexo com seu substituto, por identificao, no ego?
         A resposta rpida e fcil  que 'a apresentao (da coisa) inconsciente do objeto foi abandonada pela libido'. Na realidade, contudo, essa apresentao 
 composta de inumerveis impresses isoladas (ou traos inconscientes delas) e essa retirada da libido no  um processo que possa ser realizado num momento, mas 
deve, por certo, como no luto, ser um processo extremamente prolongado e gradual. Se ele comea simultaneamente em vrios pontos ou se segue alguma espcie de seqncia 
fixa no  fcil decidir; nas anlises, torna-se freqentemente evidente que primeiro uma lembrana, e depois outra,  ativada, e que os lamentos que soam sempre 
como os mesmos, e so tediosos em sua monotonia, procedem, no obstante, cada vez de uma fonte inconsciente diferente. Se o objeto no possui uma to grande importncia 
para o ego - importncia reforada por mil elos -, ento tambm sua perda no ser suficiente para provocar quer o luto, quer a melancolia. Essa caracterstica de 
separar pouco a pouco a libido deve, portanto, ser atribuda de igual modo ao luto e  melancolia, sendo provavelmente apoiada pela mesma situao econmica e servindo 
aos mesmos propsitos em ambos.
         Como j vimos, contudo [ver em [1] e segs.], a melancolia contm algo mais que o luto normal. Na melancolia, a relao com o objeto no  simples; ela  
complicada pelo conflito devido a uma ambivalncia. Esta ou  constitucional, isto , um elemento de toda relao amorosa formada por esse ego particular, ou provm 
precisamente daquelas experincias que envolveram a ameaa da perda do objeto. Por esse motivo, as causas excitantes da melancolia tm uma amplitude muito maior 
do que as do luto, que , na maioria das vezes, ocasionado por uma perda real do objeto, por sua morte. Na melancolia, em conseqncia, travam-se inmeras lutas 
isoladas em torno do objeto, nas quais o dio e o amor se digladiam; um procura separar a libido do objeto, o outro, defender essa posio da libido contra o assdio. 
A localizao dessas lutas isoladas s pode ser atribuda ao sistema Ics., a regio dos traos de memria de coisas (em contraste com as catexias da palavra). No 
luto, tambm, os esforos para separar a libido so envidados nesse mesmo sistema; mas nele nada impede que esses processos sigam o caminho normal atravs do Pcs. 
at a conscincia. Esse caminho, devido talvez a um certo nmero de causas ou a uma combinao delas, est bloqueado para o trabalho da melancolia. A ambivalncia 
constitucional pertence por natureza ao reprimido; as experincias traumticas em relao ao objeto podem ter ativado outro material reprimido. Assim, tudo que tem 
que ver com essas lutas devidas  ambivalncia permanece retirado da conscincia, at que o resultado caracterstico da melancolia se fixe. Isso, como sabemos, consiste 
no abandono, por fim, do objeto pela catexia libidinal ameaada, s que, porm, para recuar ao local do ego de onde tinha provindo. Dessa forma, refugiando-se no 
ego, o amor escapa  extino. Aps essa regresso da libido, o processo pode tornar-se consciente, sendo representado  conscincia como um conflito entre uma parte 
do ego e o agente crtico.
         No trabalho da melancolia, portanto, a conscincia est cnscia de uma parte que no  essencial, e nem sequer  uma parte  qual possamos atribuir o mrito 
de ter contribudo para o trmino da doena. Vemos que o ego se degrada e se enfurece contra si mesmo, e compreendemos to pouco quanto o paciente a que  que isso 
pode levar e como pode modificar-se. De forma mais imediata, podemos atribuir tal funo  parte inconsciente do trabalho, pois no  difcil perceber uma analogia 
essencial entre o trabalho da melancolia e o do luto. Do mesmo modo que o luto compele o ego a desistir do objeto, declarando-o morto e oferecendo ao ego o incentivo 
de continuar a viver [ver em [1]], assim tambm cada luta isolada da ambivalncia distende a fixao da libido ao objeto, depreciando-o, denegrindo-o e mesmo, por 
assim dizer, matando-o.  possvel que o processo no Ics. chegue a um fim, quer aps a fria ter-se dissipado, quer aps o objeto ter sido abandonado como destitudo 
de valor. No podemos dizer qual dessas duas possibilidades  a regular ou a mais usual para levar a melancolia a um fim, nem que influncia esse trmino exerce 
sobre o futuro curso do caso. O ego pode derivar da a satisfao de saber que  o melhor dos dois, que  superior ao objeto.
         Mesmo que aceitemos esse conceito a respeito do trabalho da melancolia, ele ainda no proporciona uma explanao do nico ponto que nos interessa esclarecer. 
Espervamos que a condio econmica para o surgimento da mania, aps a melancolia ter seguido o seu curso, fosse encontrada na ambivalncia que domina essa afeco, 
e nisso encontramos um apoio proveniente de analogias em vrios outros campos. Mas existe um fato diante do qual essa expectativa tem de se render. Das trs precondies 
da melancolia - perda do objeto, ambivalncia e regresso da libido ao ego -, as duas primeiras tambm se encontram nas auto-recriminaes obsessivas que surgem 
depois da ocorrncia de uma morte. Indubitavelmente, nesses caso  a ambivalncia que constitui a fora motora do conflito, revelando-nos a observao que, depois 
de determinado o conflito, nada mais resta que se assemelhe ao triunfo de um estado de mente manaco. Somos levados assim a considerar o terceiro fator como o nico 
responsvel pelo resultado. O acmulo de catexia que, de incio, fica vinculado e, terminado o trabalho da melancolia, se torna livre, fazendo com que a mania seja 
possvel, deve ser ligado  regresso da libido ao narcisismo. O conflito dentro do ego, que a melancolia substitui pela luta pelo objeto, deve atuar como uma ferida 
dolorosa que exige uma anticatexia extraordinariamente elevada. - Aqui, porm, mais uma vez, ser bom parar e adiar qualquer outra explicao da mania at que tenhamos 
obtido certa compreenso interna (insight) da natureza econmica, primeiro da dor fsica, depois da dor mental anloga a ela. Conforme j sabemos, a interdependncia 
dos complicados problemas da mente nos fora a interromper qualquer indagao antes que esta esteja concluda - at que o resultado de uma outra indagao possa 
vir em sua ajuda.
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         APNDICE: RELAO DOS TRABALHOS DE FREUD QUE TRATAM PRINCIPALMENTE DA TEORIA PSICOLGICA GERAL
         
         [Cada ttulo vem precedido de uma data que corresponde ao ano durante o qual o trabalho em questo provavelmente foi escrito. A data da publicao aparece 
no final e essa data servir de referncia para informaes mais detalhadas sobre o trabalho na Bibliografia e no ndice Remissivo de Autores. Os itens entre colchetes 
foram publicados postumamente.]
         [1895'Um Projeto para uma Psicologia Cientfica' (1950a).]
         [1896Cartas a Fliess de 1 de janeiro e 6 de dezembro (1950a).]
         1899 A Interpretao de Sonhos, Captulo VII (1900a).
         1910-11Formulaes sobre os Dois Princpios do Funcionamento Mental'(1911b).
         1911'Notas Psicanalticas sobre um Relato Autobiogrfico de um Caso deParania (Dementia Paranoides)', Seo III (1911c).
         1912'Uma Nota sobre o Inconsciente na Psicanlise (1912g).
         1914'Sobre o Narcisismo: Uma Introduo' (1914c).
         1915'Os Instintos e suas Vicissitudes' (1915c).
         1915'Represso' (1915d).
         1915'O Inconsciente' (1915e).
         1915'Um Suplemento Metapsicolgico  Teoria dos Sonhos' (1917d).
         1915'Luto e Melancolia' (1917e).
         1916-17Conferncias Introdutrias sobre a Psicanlise, ConfernciasXXII e XXVI (1916-17).
         1920 Mais Alm do Princpio do Prazer (1920g).
         1921 Psicologia de Grupo e a Anlise do Ego, Captulos VII e XI (1921c).
         1922'Dois Artigos de Enciclopdia: (B) A Teoria da Libido' (1923a).
         1923O Ego e o Id (1923b).
         1924'Neurose e Psicose' (1924b).
         1924'O Problema Econmico do Masoquismo' (1924c).
         1924'A Perda da Realidade na Neurose e na Psicose' (1924e).
         1925'Uma Nota sobre o "Bloco de Escrever Mgico"', (1925a).
         1925'Negao' (1925h).
         1929O Mal-Estar na Civilizao, Captulos VI, VII e VIII (1930a).
         1932 Novas Conferncias Introdutrias sobre Psicanlise, ConfernciasXXXI e XXXII (1933a).
         [1938 Esboo de Psicanlise, Captulos I, II, IV, VIII e IX (1940a).
         [1938'Algumas Lies Elementares de Psicanlise' (1940b).]
         
         
         
         



UM CASO DE PARANIA QUE CONTRARIA A 
TEORIA PSICANALTICA DA DOENA (1915)
         
         MITTEILUNG EINES DER PSYCHOANALYTISCHEN - THEORIE WINDERSPRECHENDENFALLES VON PARANOIA
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1915 Int. Z. Psychoanal., 3 (6), 321-9.
         1918 S.K.S.N., 4, 125-138. (1922, 2 ed.)
         1924 G.S., 5, 288-300.
         1926 Psychoanalyse der Neurosen, 23-37.
         1931 Neurosenlehre und Techinik, 23-36.
         1946 G.W., 10, 234-246.
         (b)TRADUO INGLESA:
         'A Case of Paranoia Running Counter to the Psycho-Analytical Theory of the Disease'
         1924 C.P., 2, 151-161. (Trad. E. Glover.)
         A presente traduo inglesa se baseia na que foi publicada em 1924.
         A anamnese apresentada neste artigo serve como confirmao ao conceito formulado por Freud em sua anlise de Schreber (1911c), segundo o qual existe estreita 
ligao entre a parania e o homossexualismo. Constitui, incidentalmente, uma lio objetiva para clnicos quanto ao perigo de fundamentarem uma opinio apressada 
sobre um caso num conhecimento superficial dos fatos. As ltimas pginas contm algumas observaes interessantes de natureza mais geral sobre os processos em ao 
durante um conflito neurtico.
         
         UM CASO DE PARANIA QUE CONTRARIA A TEORIA PSICANALTICA DA DOENA
         
         H alguns anos um advogado bastante conhecido consultou-me a respeito de um caso que havia despertado certas dvidas em seu esprito. Uma jovem pedira-lhe 
que a protegesse das investidas de um homem que a arrastava para uma aventura amorosa. Declarou que esse homem abusara de sua confiana, pois conseguira que testemunhas 
ocultas os fotografassem enquanto faziam amor; agora, com a exibio das fotografias, ele estava em condies de desonr-la e for-la a pedir demisso do emprego. 
Seu advogado era bastante experiente para reconhecer o cunho patolgico dessa acusao; observou, contudo, que, como aquilo que parece incrvel muitas vezes na realidade 
acontece, gostaria de ouvir a opinio de um psiquiatra sobre o assunto. Prometeu visitar-me novamente na companhia da queixosa.
         (Antes de prosseguir o relato, devo confessar que modifiquei o milieu do caso a fim de manter incgnitas as pessoas interessadas, mas no alterei mais nada. 
Considero prtica errnea, por excelente que seja o motivo, alterar qualquer detalhe na apresentao de um caso. Jamais se pode dizer qual aspecto de um caso pode 
ser escolhido por um leitor capaz de julgamento independente, correndo-se o risco de induzi-lo a erro.)
         Logo depois ,travei conhecimento pessoal com a paciente. Muito atraente e bela, contava trinta anos de idade e parecia muito mais jovem do que na verdade 
era, possuindo um tipo marcantemente feminino. Era evidente que se ressentia da interferncia de um mdico, e no se deu ao trabalho de ocultar sua desconfiana. 
Estava claro que s a influncia de seu advogado, que se achava presente, a induziu a narrar-me a histria que se segue e que me trouxe um problema que ser mencionado 
depois. Nem por sua atitude, nem por qualquer espcie de expresso de emoo, traa ela a menor vergonha ou acanhamento, como era de esperar que sentisse na presena 
de um estranho. Mostrou-se inteiramente dominada pela apreenso provocada por sua experincia.
         Por muitos anos ela fizera parte do quadro de uma grande firma comercial, onde ocupava um cargo de responsabilidade. Seu trabalho lhe proporcionara satisfao 
e tinha sido apreciado por seus superiores. Jamais procurara casos amorosos com homens, tendo vivido tranqilamente com sua velha me, de quem era o nico arrimo. 
No tinha irmos nem irms, e o pai morrera havia j muitos anos. Recentemente, um empregado da mesma firma, homem bastante culto e atraente, lhe dispensara atenes, 
e ela, por sua vez, se sentira atrada por ele. Por motivos externos, o casamento estava fora de cogitao, embora o homem no quisesse ouvir falar de desistir de 
sua relao por causa disso. Suplicara que no fazia sentido sacrificar s convenes sociais tudo aquilo que ambos tinham desejado ardentemente e que tinham o direito 
indiscutvel de desfrutar, algo que, como nenhuma outra coisa, poderia enriquecer-lhes a vida. Como prometera no exp-la a qualquer risco, ela por fim consentira 
em visit-lo em seus aposentos de solteiro durante o dia. Ali, deitados um ao lado do outro, beijaram-se e abraaram-se, e ele comeou a admirar os encantos ento 
parcialmente revelados. De repente, no meio dessa cena idlica, ela se assustou com um rudo, uma espcie de pancada ou estalido, vindo da escrivaninha, junto  
janela; o espao entre a escrivaninha e a janela era parcialmente ocupado por uma pesada cortina. Imediatamente ela perguntou ao amigo o que significava aquele barulho, 
tendo sido informada, pelo menos foi o que ela disse, que provavelmente viera do pequeno relgio sobre a escrivaninha. Aventurar-me-ei, contudo, a comentar em seguida 
essa parte da narrativa.
         Ao sair da casa, ela se encontrou com dois indivduos na escada, que murmuraram algo entre si quando a viram. Um dos estranhos carregava um embrulho que 
parecia uma pequena caixa. Ela ficou muito preocupada com esse encontro e, a caminho de sua casa, j havia concatenado as seguintes idias: a caixa poderia muito 
bem ter sido uma mquina fotogrfica e o homem, um fotgrafo que ficara escondido por detrs da cortina enquanto ela se encontrava no quarto; o estalido fora o rudo 
do obturador; a fotografia fora tirada to logo ele a viu numa posio particularmente comprometedora, que desejava registrar. A partir daquele momento, nada pde 
diminuir sua suspeita em relao ao amante. Ela passou a persegui-lo com recriminaes e a atorment-lo com pedidos de explicaes e garantias, no apenas quando 
se encontravam, como tambm por correspondncia. Em vo, porm, ele tentou convenc-la de que seus sentimentos eram sinceros e de que as desconfianas dela eram 
inteiramente destitudas de fundamento. Por fim, ela visitou o advogado, narrou-lhe sua experincia e entregou-lhe as cartas que o suspeito lhe havia escrito sobre 
o incidente. Depois, tive oportunidade de ver algumas dessas cartas. Causaram-me impresso bastante favorvel; consistiam, principalmente, em expresses de pesar 
pelo fato de que uma relao to bela e terna tivesse sido destruda por uma 'infeliz idia mrbida.'
         Quase no preciso justificar minha concordncia com esse julgamento. Mas o caso tinha um interesse especial para mim, alm de um mero diagnstico. J se 
expressara, na literatura psicanaltica, o conceito de que os pacientes que sofrem de parania lutam contra uma intensificao de suas tendncias homossexuais - 
fato que aponta para uma escolha objetal narcisista. E posteriormente j se fizera uma outra interpretao: que o perseguidor , no fundo, algum que o paciente 
ama ou j amou no passado. Uma sntese das duas proposies nos levaria  concluso necessria de que o perseguidor deve ser do mesmo sexo que a pessoa perseguida. 
No sustentamos,  verdade, como universalmente vlida e sem exceo, a tese de que a parania  determinada pelo homossexualismo, mas isso apenas porque nossas 
observaes no eram suficientemente numerosas; tratava-se de uma dessas teses que, em vista de certas consideraes, s se tornam importantes quando se pode reivindicar 
para elas uma aplicao universal. Na literatura psiquitrica, por certo, no faltam casos em que o paciente se imagina perseguido por uma pessoa de sexo oposto. 
Uma coisa, contudo,  ler a respeito de tais casos, e outra bem diversa  entrar em contato pessoal com um deles. Minhas prprias observaes e anlises, e as dos 
meus amigos, haviam at ento confirmado a relao entre a parania e o homossexualismo sem qualquer dificuldade. Mas o presente caso contradizia isso com toda nfase. 
A moa parecia estar-se defendendo contra o amor por um homem, transformando diretamente o amante num perseguidor: no havia sinais da influncia de uma mulher, 
nenhum vestgio de luta contra uma ligao homossexual.
         Nessas circunstncias, a coisa mais simples teria sido abandonar a teoria de que o delrio de perseguio invariavelmente depende do homossexualismo, abandonando 
ao mesmo tempo tudo o que decorria dessa teoria. Ou abandonamos a teoria, ou, em vista desse afastamento de nossas expectativas, devemos tomar o partido do advogado 
e presumir que no se tratavam de uma combinao paranica, mas de uma experincia real que fora corretamente interpretada. Contudo, vi outra sada, pela qual um 
veredicto final poderia ser momentaneamente adiado. Recordei-me de quantas vezes so adotados conceitos errneos sobre pessoas psiquicamente doentes, simplesmente 
porque o mdico no as estudou suficientemente e, assim, no aprendeu o bastante a seu respeito. Por conseguinte, disse que no podia formar uma opinio imediata, 
e pedi  paciente que me fizesse outra visita, quando ento poderia relatar-me sua histria mais uma vez, com maior amplitude, e acrescentar quaisquer detalhes subsidirios 
que talvez tivessem sido omitidos. Graas  influncia do advogado, consegui essa promessa da relutante paciente; ele ainda me ajudou de outra maneira, dizendo que 
em nosso segundo encontro sua presena seria desnecessria.
         A histria que me foi narrada pela paciente nessa segunda ocasio no entrou em choque com a anterior, mas os detalhes adicionais que ela forneceu dissiparam 
todas as dvidas e dificuldades. Para comear, ela visitara o jovem em seus aposentos no uma, mas duas vezes. Foi na segunda ocasio que ela ficou perturbada com 
o rudo suspeito: em sua histria original ela suprimiu, ou deixou de mencionar, a primeira visita porque no lhe parecera importante. Nessa primeira visita, no 
aconteceu nada digno de nota, mas no dia seguinte aconteceu. Seu departamento na firma era dirigido por uma senhora idosa, por ela descrita da seguinte forma: 'Ela 
tem cabelos brancos como minha me'. Essa chefe idosa tinha grande apreo por ela e a tratava com afeio, embora algumas vezes implicasse com ela: a moa se considerava 
como de sua predileo especial. No dia subseqente  sua primeira visita aos aposentos do jovem, ele apareceu no escritrio para discutir um assunto de natureza 
comercial com essa senhora idosa. Enquanto conversavam em voz baixa, a paciente de sbito se convenceu de que ele falava de sua aventura do dia anterior - na realidade, 
de que os dois vinham tendo h algum tempo um caso amoroso, do qual, at ento, ela no se tinha apercebido. A maternal e idosa senhora de cabelos brancos agora 
sabia de tudo, e sua conversa e conduta no decorrer do dia confirmaram a suspeita da paciente. Na primeira oportunidade, ela recriminou o amante por sua traio. 
Ele, como  natural, protestou veementemente contra o que denominou de uma acusao sem sentido. Por algum tempo, de fato, conseguiu libert-la de seu delrio, tendo 
ela recuperado bastante confiana para repetir sua visita aos aposentos do jovem pouco tempo - creio que algumas semanas - depois. O restante j sabemos pela sua 
primeira narrativa.
         Em primeiro lugar, essa nova informao elimina quaisquer dvidas quanto  natureza patolgica de sua suspeita.  fcil ver que a idosa chefe de cabelos 
brancos era uma substituta da me; que, apesar da sua juventude, o amante fora posto no lugar do pai dela; e que fora a fora do seu complexo materno que impelira 
a paciente a suspeitar de uma relao amorosa entre esses parceiros mal ajustados, por mais improvvel que tal relao pudesse ser. Alm do mais, isso remove a aparente 
contradio com a expectativa, baseada na teoria psicanaltica, de que o desenvolvimento de um delrio de perseguio vir a ser determinado por uma ligao homossexual 
muito poderosa. Aqui, o perseguidor original - o agente de cuja influncia a paciente deseja escapar -  mais uma vez no um homem mas uma mulher. A chefe soube 
da relao amorosa da moa, desaprovou-a, e demonstrou sua desaprovao mediante insinuaes misteriosas. O apreo da paciente a seu prprio sexo se opunha a suas 
tentativas de adotar uma pessoa do outro sexo como objeto amoroso. Seu amor pela me se tornara o porta-voz de todas as tendncias que, desempenhando o papel de 
uma 'conscincia', procuram embargar o primeiro passo de uma moa na nova estrada que leva  satisfao sexual normal - sob muitos aspectos perigosa -, e na realidade 
conseguiu perturbar sua relao com homens.
         Quando uma me obsta ou detm a atividade sexual de uma filha, est realizando uma funo normal cujos fundamentos so estabelecidos pelos eventos na infncia, 
cujos motivos so perigosos e inconscientes, e que recebeu a sano da sociedade. Constitui tarefa da filha emancipar-se dessa influncia e resolver por si mesma, 
num terreno amplo e racional, qual dever ser sua parcela de fruio ou negao do prazer sexual. Se, na tentativa de emancipar-se, vier a ser vtima de uma neurose, 
isso implica a presena de um complexo materno que, em geral,  superpoderoso e por certo no dominado. O conflito entre esse complexo e a nova direo tomada pela 
libido  tratado sob a forma de uma ou outra neurose, segundo a disposio do indivduo. A manifestao da reao neurtica ser sempre determinada, contudo, no 
por sua relao atual com o que sua me  hoje, mas pelas relaes infantis com sua imagem mais antiga da me.
         Sabemos que nossa paciente era rf de pai havia muitos anos: tambm podemos supor que ela no deveria ter-se conservado afastada de homens at a idade 
de trinta anos, se no tivesse sido apoiada por uma poderosa ligao emocional com sua me. Esse apoio tornou-se um pesado jugo quando sua libido comeou a se voltar 
para um homem em resposta a seus insistentes galanteios. Ela tentou libertar-se, desfazer-se de sua ligao homossexual; e sua disposio, que no precisa ser examinada 
aqui, permitiu que isso ocorresse sob a forma de um delrio paranico. A me tornou-se assim a observadora e a perseguidora hostil e malvola. Como tal, ela poderia 
ter sido dominada, se o complexo materno no tivesse conservado bastante fora para levar a cabo seu propsito de manter a paciente  distncia dos homens. Assim, 
no fim da primeira fase do conflito, a paciente se tinha afastado da me sem se ter passado definitivamente para o homem. Na realidade, ambos tramavam contra ela. 
Em seguida, os vigorosos esforos do homem conseguiram atra-la decisivamente para ele. Ela superou a oposio da me em sua mente e estava disposta a conceder ao 
amante um segundo encontro. No desenrolar ulterior dos acontecimentos, a me no reapareceu, mas podemos insistir com segurana que, nessa [primeira] fase, o amante 
no se convertera diretamente no perseguidor, mas atravs da me e em virtude da relao dele com a me, que desempenhara o papel principal no primeiro delrio.
         Pensaramos que agora a resistncia estava definitivamente superada, que a moa, at ento vinculada  me, conseguira chegar a amar um homem. Mas, aps 
a segunda visita, surgiu um novo delrio, que, fazendo uso engenhoso de algumas circunstncias acidentais, destruiu esse amor e assim atingiu com xito o propsito 
do complexo materno. Ainda parece estranho que uma mulher tenha de se proteger de amar um homem por meio de um delrio paranico; antes, porm, de examinarmos mais 
detidamente esse estado de coisas, lancemos um olhar s circunstncias acidentais que formaram a base desse segundo delrio, exclusivamente dirigido contra o homem.
         Deitada parcialmente despida no sof ao lado do amante, ela ouviu um rudo semelhante a um estalido ou batida. No conhecia a sua causa, mas atinou com 
uma interpretao aps ter-se encontrado com dois homens na escada, um dos quais carregava algo que parecia uma caixa tampada. Convenceu-se de que algum, agindo 
segundo instrues do amante, a observara e fotografara durante seu ntimo tte--tte. Nem por um momento imaginou, naturalmente, que, se o malfadado rudo no 
tivesse ocorrido, o delrio no se teria formado; pelo contrrio, deve-se ver algo de inevitvel por trs dessa circunstncia acidental, algo destinado a afirmar-se 
compulsivamente na paciente, assim como sua suposio de que havia uma liaison entre o amante e a chefe idosa, a substituta de sua me. Entre o acervo de fantasias 
inconscientes de todos os neurticos, e provavelmente de todos os seres humanos, existe uma que raramente se acha ausente e que pode ser revelada pela anlise:  
a fantasia de observar as relaes sexuais dos pais. Chamo tais fantasias - da observao do ato sexual dos pais, da seduo, da castrao e outras - de 'fantasias 
primevas'; examinarei, em outro lugar, com detalhes, sua origem e sua relao com a experincia individual. O rudo acidental, assim, desempenhou meramente o papel 
de um fator provocador que ativou a fantasia tpica de estar sendo ouvida sem saber, o que consistiu um componente do complexo parental. Na realidade,  duvidoso 
que corretamente possamos dominar o rudo de 'acidental'. Conforme Otto Rank teve ocasio de observar para mim, tais rudos constituem, pelo contrrio, parte indispensvel 
da fantasia de escutar, e reproduzem ou os sons que traem o coito parental ou aqueles pelos quais a criana que escuta teme trair-se. Agora, porm, sabemos de imediato 
onde nos encontramos. O amante da paciente ainda era o pai dela, e ela prpria havia tomado o lugar da me. O papel de ouvinte tinha de ser atribudo a uma terceira 
pessoa. Podemos ver por que meio a moa se libertou de sua dependncia homossexual em relao  me. Foi por meio de uma pequena regresso: em vez de escolher sua 
me como objeto amoroso, identificou-se com ela - ela prpria se tornou a me. A possibilidade dessa regresso aponta para a origem narcisista de sua escolha objetal 
homossexual e assim para sua disposio paranica. Poder-se-ia esboar um encadeamento de pensamentos que provocaria o mesmo resultado que essa identificao: 'Se 
minha me o faz, eu tambm posso faz-lo; tenho o mesmo direito que ela.'
         Pode-se dar um passo alm ao se negar a natureza acidental do rudo. No pedimos, contudo, a nossos leitores que nos sigam, j que a ausncia de qualquer 
investigao analtica mais profunda torna impossvel, nesse caso, ir alm de certo grau de possibilidade. Em sua primeira entrevista comigo, a paciente mencionou 
que exigira imediatamente uma explicao a respeito do rudo, tendo recebido a resposta de que, provavelmente, era o tique-taque do pequeno relgio sobre a escrivaninha. 
Aventuro-me, porm, a explicar o que ela me disse sendo uma lembrana errada. Afigura-se-me muito mais provvel que, a princpio, ela no tenha reagido absolutamente 
ao rudo, que s se tornou importante depois de seu encontro com os dois homens na escada. Seu amante, que provavelmente nem sequer ouvira o rudo, pode ter tentado, 
talvez numa ocasio posterior, quando ela o assediou com suspeitas, explic-lo dessa forma: 'No sei que rudo voc pode ter ouvido. Talvez fosse o pequeno relgio; 
algumas vezes ele faz esse barulho'. Esse uso retardado de impresses e esse deslocamento de lembranas com freqncia ocorrem precisamente na parania e so caractersticos 
dela. Como, no entanto, nunca pude encontrar o homem, nem pude continuar com a anlise da mulher, minha hiptese no pde ser provada.
         Ainda poderia ir mais adiante na anlise desse 'acidente' ostensivamente real. No creio que o relgio jamais tivesse feito barulho ou que tivesse havido 
qualquer outro tipo de rudo. A situao da mulher justificava uma sensao de pancada ou batida em seu clitris. E foi isso que, subseqentemente, ela projetou 
como sendo uma percepo de um objeto externo. A mesma espcie de coisa pode ocorrer nos sonhos. Uma de minhas pacientes histricas certa vez relatou-me um curto 
sonho do tipo que leva a acordar, ao qual no podia trazer qualquer associao espontnea. Ela simplesmente sonhara que algum estava batendo e ento acordara. Ningum 
batera  porta, mas durante as noites anteriores ela fora despertada por aflitivas sensaes de polues: dispunha assim de um motivo para despertar logo que sentia 
o primeiro sinal de excitao genital. Tinha havido uma 'pancada' em seu clitris. No caso de nossa paciente paranica, devo substituir o rudo acidental por um 
processo semelhante de projeo. Por certo no posso garantir que, no curso de nosso breve conhecimento, a paciente, que relutantemente cedia  compulso, me tenha 
feito um relato fiel de tudo que ocorrera durante os dois encontros dos amantes. Mas uma contrao isolada do clitris combinava com sua declarao de que no se 
verificara qualquer contato dos rgos genitais. Em sua subseqente rejeio do homem, a falta de satisfao indubitavelmente desempenhou um papel, bem como a 'conscincia'.
         Consideremos mais uma vez o fato relevante de que a paciente se protegia contra seu amor por um homem por meio de um delrio paranico. A chave da compreenso 
disso deve ser encontrada no histrico do desenvolvimento do delrio. Como poderamos ter esperado, este visava, a princpio,  mulher. Agora, porm, nessa base 
paranica, realizava-se o avano de um objeto feminino para um masculino. Tal avano  inusitado na parania; em geral, verificamos que a vtima da perseguio permanece 
fixada nas mesmas pessoas e, portanto, no mesmo sexo ao qual pertenciam seus objetos amorosos antes que se verificasse a transformao paranica. Entretanto, a desordem 
neurtica no impede um avano dessa espcie, e nossa observao pode ser tpica em relao a muitos outros. Muitos processos semelhantes, que ocorrem fora da parania, 
ainda no foram encarados por esse ngulo, encontrando-se entre eles alguns muito familiares. Por exemplo, a assim chamada ligao inconsciente do neurastnico a 
objetos amorosos incestuosos impede-o de escolher uma mulher estranha como seu objeto e restringe sua atividade sexual  fantasia. Mas, dentro dos limites da fantasia, 
ele alcana o progresso que lhe  negado e consegue substituir a me e a irm por objetos estranhos. De uma vez que o veto da censura no entra em ao no que diz 
respeito a esses objetos, ele pode tornar-se consciente, em suas fantasias, da escolha dessas figuras substitutas.
         Esses, portanto, so fenmenos de um avano tentado a partir do terreno novo que foi, em geral, regressivamente adquirido; e podemos colocar ao lado deles 
os esforos envidados em algumas neuroses para recuperar uma posio da libido que certa vez foi mantida e subseqentemente perdida. Na realidade, dificilmente podemos 
traar qualquer distino conceptual entre essas duas classes de fenmenos. Vemo-nos por demais inclinados a pensar que o conflito subjacente a uma neurose chega 
ao fim quando se forma o sintoma. Na realidade, depois disso a luta pode continuar de diversas maneiras. De ambos os lados surgem novos componentes instintuais que 
a prolongam. O prprio sintoma se torna um objeto dessa luta; certas tendncias, ansiosas por preserv-la, entram em conflito com outras que se esforam por remov-la 
e restabelecer o statu quo ante. Freqentemente, procuram-se mtodos para tornar o sintoma insignificante, tentando-se recuperar por outras linhas de abordagem o 
que se perdeu e  agora retido pelo sintoma. Esses fatos esclarecem bastante uma declarao feita por C.G. Jung no sentido de que uma 'inrcia psquica' peculiar, 
que se ope  modificao e ao progresso,  a precondio fundamental da neurose. Essa inrcia  realmente muito peculiar; no  geral, e sim altamente especializada; 
no  sequer todo-poderosa dentro de seu prprio campo, mas luta contra tendncias no sentido do progresso e da recuperao, que permanecem ativas mesmo depois da 
formao de sintomas neurticos. Se procurarmos o ponto de partida dessa inrcia especial, descobriremos que  a manifestao de vnculos muito antigos - vnculos 
difceis de serem desfeitos - entre instintos e impresses e os objetos envolvidos nessas impresses. Esses vnculos tm o efeito de paralisar o desenvolvimento 
dos instintos em causa. Ou, em outras palavras, essa 'inrcia psquica' especializada  apenas uma expresso diferente, embora dificilmente melhor, daquilo que em 
psicanlise estamos habituamos a denominar de 'fixao'.
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         



REFLEXES PARA OS TEMPOS DE GUERRA E MORTE
         
         ZEITGEMSSES BER KRIEG UND TOD
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1915 Imago, 4 (1), 1-21.
         1918 S.K.S.N., 4, 486-520. (1922, 2 ed.)
         1924 G.S., 10, 315-346.
         1924 Leipzig, Viena e Zurique: Internationaler Psychoanalytischer Verlag, Pg. 35.
         1946 G.W., 10, 324-355.
         
         (b) TRADUES INGLESAS:
               Reflections on War and Death
         1918 Nova Iorque: Moffat, Yard. Pgs. iii + 72. (Trad. A. A. Brill e A. B. Kuttner.)
         'Thoughts for the Times on War and Death'
         1925 C.P., 4, 288-317. (Trad. E. C. Mayne.)
         A presente traduo inglesa baseia-se na que foi publicada em 1925.
         Estes dois ensaios foram escritos por volta de maro e abril de 1915, cerca de seis meses aps o deflagrar da Primeira Guerra Mundial, e expressam algumas 
das abalizadas consideraes de Freud sobre a mesma. A descrio de suas reaes mais pessoais ser encontrada no Captulo VII do segundo volume do livro de Ernest 
Jones (1955). Uma carta escrita por ele a um seu conhecido holands, o Dr. Frederik van Eeden, foi publicada pouco antes do presente trabalho: aparece, como apndice, 
adiante, ver em [1]. Em fins do mesmo ano, 1915, Freud escreveu outro ensaio acerca de um tema anlogo, 'Sobre a Transitoriedade', que tambm ser encontrado adiante 
(ver em [1]). Muitos anos depois, mais uma vez voltou ao tema, em sua carta aberta a Einstein, Why War? (1935b). O segundo destes dois ensaios - sobre a morte - 
parece ter sido lido pela primeira vez por Freud numa reunio, no incio de abril de 1915, do B'nai B'rith, o clube judaico de Viena a que pertenceu durante grande 
parte de sua vida. (Cf. 1941e.) Este ensaio, naturalmente, se baseia em grande medida no mesmo material que a Seo II de Totem e Tabu (1912-13).
         Excertos da traduo desta obra publicados em 1925 foram includos em Civilizations, War and Death, Selections from Three Works by Sigmund Freud (1939, 
1-25).
         
         
         
         
         
         I - A DESILUSO DA GUERRA
         
         Na confuso dos tempos de guerra em que nos encontramos, confiando, como somos obrigados a, em informaes unilaterais, demasiadamente prximos das grandes 
mudanas que j se verificaram ou que comeam a se verificar, e sem um vislumbre do futuro que est sendo plasmado, ns prprios ficamos perplexos diante da importncia 
das impresses que nos pressionam e diante do valor dos julgamentos que formamos. No podemos deixar de sentir que jamais um evento destruiu tanto de precioso nos 
bens comuns da humanidade, confundiu tantas das inteligncias mais lcidas, ou degradou de forma to completa o que existe de mais elevado. A prpria cincia perdeu 
sua imparcialidade desapaixonada; seus servidores, profundamente amargurados, procuram nela as armas com que contribuir para a luta contra o inimigo. Os antroplogos 
sentem-se impelidos a declar-lo inferior e degenerado, os psiquiatras do um diagnstico da sua doena da mente do esprito. Provavemente, contudo , nosso sentimento 
quanto a esses males imediatos  desproporcionalmente forte e no temos o direito de compar-los com os males de outros tempos que no experimentamos.
         O indivduo que no  ele um combatente - e dessa forma um dente da gigantesca engrenagem da guerra - sente-se atnito em sua orientao e inibido em seus 
poderes e atividades. Creio que receber de bom grado qualquer indcio, por mais leve que seja, que lhe torne mais fcil encontrar seu rumo pelo menos dentro de 
si. Proponho escolher dois dentre os fatores responsveis pela aflio mental sentida pelos no-combatentes, fatores contra os quais constitui tarefa to pesada 
lutar, e abord-los aqui: a desiluso que essa guerra provocou, e a modificao da atitude diante da morte a que essa - como qualquer outra guerra - nos forou.
         Quando me refiro  desiluso, de imediato todos sabero o que quero dizer. No  necessrio ser sentimentalista; pode-se perceber a necessidade biolgica 
e psicolgica do sofrimento na economia da vida humana e, contudo, condenar a guerra, tanto em seus meios quanto em seus fins, e ansiar pela cessao de todas as 
guerras. J dissemos a ns mesmos, sem dvida, que as guerras jamais podem cessar enquanto as naes viverem sob condies to amplamente diferentes, enquanto o 
valor da vida individual for to diversamente apreciado entre elas, e enquanto as animosidades que as dividem representarem foras motrizes to poderosas na mente. 
Estvamos preparados para verificar que as guerras entre os povos primitivos e civilizados, entre as raas que se acham divididas pela cor da pele - as guerras at 
mesmo contra e entre as nacionalidades da Europa cuja civilizao se acha pouco desenvolvida ou se perdeu - ocupariam a humanidade ainda por algum tempo. Mas nos 
permitimos ter outras esperanas. Espervamos que as grandes naes de raa branca, dominadoras do mundo, s quais cabe a liderana da espcie humana, que sabamos 
possurem como preocupao interesses de mbito mundial, a cujos poderes criadores se deviam no s nossos progressos tcnicos no sentido do controle da natureza, 
como tambm os padres artsticos e cientficos da civilizao - espervamos que esses povos conseguissem descobrir outra maneira de solucionar incompreenses e 
conflitos de interesse. Dentro de cada uma dessas naes, elevadas normas de conduta moral foram formuladas para o indivduo, s quais sua maneira de vida devia 
conformar-se, se ele desejasse participar de uma comunidade civilizada. Esses ditames, no raro demasiado rigorosos, exigiam muito dele - uma grande dose de autodomnio, 
de renncia  satisfao dos instintos. Acima de tudo, via-se proibido de fazer uso das imensas vantagens auferidas pela prtica da mentira e da fraude na competio 
com seus semelhantes. Os Estados civilizados consideravam esses padres morais como sendo a base de sua existncia. Adotavam medidas srias se qualquer um se aventurasse 
a viol-los, e freqentemente declaravam imprprio at mesmo submet-los ao exame de uma inteligncia crtica. Devia-se supor, portanto, que o prprio Estado os 
respeitaria e no pensaria em empreender contra eles qualquer coisa que viesse a contradizer a base de sua prpria existncia. A observao demonstrou, por certo, 
que enraizados nesses Estados civilizados havia remanescentes de certos outros povos, universalmente impopulares e que, portanto, apenas de maneira relutante, e 
assim mesmo no integralmente, haviam sido admitidos  participao no trabalho comum da civilizao, trabalho para o qual se tinham revelado bastante adequados. 
Poder-se-ia supor, porm, que as prprias grandes naes adquiriam tanta compreenso do que possuam em comum, e tanta tolerncia quanto a suas divergncias, que 
'estrangeiro' e 'inimigo' j no podiam fundir-se, tal como na Antiguidade clssica, num conceito nico.
         Confiando nessa unidade entre os povos civilizados, inmeros homens e mulheres trocaram sua terra natal por uma estrangeira, e fizeram com que sua experincia 
dependesse das intercomunicaes entre naes amigas. Alm disso, qualquer um que no estivesse, por fora das circunstncias, confinado a um nico ponto, poderia 
criar para si mesmo, a partir de todas as vantagens e atraes desses pases civilizados, uma ptria nova e mais ampla, na qual poderia movimentar-se sem entraves 
ou suspeitas. Dessa forma, ele desfrutara o mar azul e o cinzento; a beleza de montanhas cobertas de neve e a de campinas verdejantes; a magia das florestas setentrionais 
e o esplendor da vegetao do sul; o estado de esprito evocado pelas paisagens que relembram grandes eventos histricos, e o silncio da natureza intocada. Para 
ele, essa nova ptria era tambm um museu, repleto de todos os tesouros que os artistas da humanidade civilizada haviam criado durante sculos sucessivos e deixado 
atrs de si. Ao caminhar despreocupadamente de uma galeria para outra desse museu, podia reconhecer com apreciao imparcial os mais variados tipos de perfeio 
que uma mescla de sangue, o curso da histria e a qualidade especial da sua terra natal produziram entre seus compatriotas nesse sentido mais amplo. Aqui, encontrava 
a energia fria e inflexvel desenvolvida at o mais alto grau; ali, a graciosa arte de embelezar a existncia; mais adiante, o sentimento da ordem e da lei, ou outras 
das qualidades que fizeram da humanidade os senhores da Terra.
         Tampouco devemos esquecer que cada um desses cidados do mundo civilizado criou para si mesmo o seu prprio 'Parnaso' e a sua prpria 'Escola de Atenas'. 
Dentre os grandes pensadores, escritores e artistas de todas as naes, escolheu aqueles a quem considerou dever o melhor do que ele fora capaz de alcanar em deleite 
e compreenso da vida, e os venerou juntamente com os antigos imortais e os mestres familiares de sua prpria lngua. Nenhum desses grandes homens lhe pareceu estrangeiro 
por falar outra lngua - nem o incomparvel explorador das paixes humanas, nem o embriagado cultor da beleza, nem o profeta poderoso e ameaador, nem o sutil satirista; 
e jamais teve razes para repreender a si prprio por ser um renegado para com sua prpria nao e sua amada lngua materna.
         A fruio dessa civilizao comum era perturbada de tempos em tempos por vozes de advertncia, que declararam que antigas divergncias tradicionais tornavam 
as guerras inevitveis, inclusive entre os membros de uma comunidade como essa. Recusvamo-nos a crer nisso; mas se essa guerra tinha de ocorrer, como  que a imaginvamos? 
Ns a vamos como uma oportunidade de demonstrar o progresso da civilidade entre os homens, desde a era em que o Conselho Anfictinico Grego proclamou que nenhuma 
cidade da liga poderia ser destruda, nem os seus olivais derrubados, nem o seu abastecimento de gua interrompido; ns a imaginvamos como um embate de armas cavalheiresco, 
que se limitaria a estabelecer a superioridade de uma faco na luta, enquanto evitaria, tanto quanto possvel, graves sofrimentos, que em nada pudessem contribuir 
para a deciso, concedendo completa imunidade aos feridos que tivessem de retirar-se da contenda, bem como aos mdicos e enfermeiras que se dedicassem  recuperao 
deles. Haveria, naturalmente, o mximo de considerao pelas camadas no-combatentes da populao - pelas mulheres que no tomam parte nas atividades guerreiras, 
e pelas crianas de ambas as faces que, quando crescerem, devem tornar-se amigos e auxiliares mtuos. E mais uma vez, todos os empreendimentos e instituies internacionais, 
nos quais a civilizao comum da poca de paz se encarnou, seriam mantidos.
         Mesmo uma guerra como essa teria produzido bastante terror e sofrimentos, mas no interrompido o desenvolvimento das relaes ticas entre os componentes 
coletivos da humanidade - os povos e os Estados.
         Ento, a guerra na qual nos recusvamos a acreditar irrompeu, e trouxe desiluso. No  apenas mais sanguinria e mais destrutiva do que qualquer guerra 
de outras eras, devido  perfeio enormemente aumentada das armas de ataque e defesa; , pelo menos, to cruel, to encarniada, to implacvel quanto qualquer 
outra que a tenha precedido. Despreza todas as restries conhecidas como direito internacional, que na poca de paz os Estados se comprometeram a observar; ignora 
as prerrogativas dos feridos e do servio mdico, a distino entre os setores civil e militar da populao, os direitos da propriedade privada. Esmaga com fria 
cega tudo que surge em seu caminho, como se, aps seu trmino, no mais fosse haver nem futuro nem paz entre os homens. Corta todos os laos comuns entre os povos 
contendores, e ameaa deixar um legado de exacerbao que tornar impossvel, durante muito tempo, qualquer renovao desse laos.
         Alm disso, trouxe  luz um fenmeno quase incrvel: as naes civilizadas se conhecem e se compreendem to pouco, que uma pode voltar-se contra a outra 
com dio e asco. Na verdade, uma das grandes naes civilizadas  to universalmente impopular, que realmente se pode tentar exclu-la da comunidade civilizada como 
sendo 'brbara', embora de h muito tenha provado sua adequao pelas magnficas contribuies que prestou a essa comunidade. Vivemos na esperana de que as pginas 
de uma histria imparcial venham provar que essa nao, em cuja lngua escrevemos e para cuja vitria nossos entes queridos esto combatendo, foi precisamente aquela 
que menos transgrediu as leis da civilizao. Mas numa poca como essa quem ousar erigir-se como juiz em causa prpria?
         Os povos so mais ou menos representados pelos Estados que formam, e esses Estados, pelos governos que os dirigem. Nessa guerra, o cidado individual pode, 
com horror, convencer-se do que ocasionalmente lhe cruzaria o pensamento em tempos de paz - que o Estado probe ao indivduo a prtica do mal, no porque deseja 
aboli-la, mas porque deseja monopoliz-la, tal como o sal e o fumo. Um estado beligerante permite-se todos os malefcios, todos os atos de violncia que desgraariam 
o indivduo. Emprega contra o inimigo no apenas as ruses de guerre aceitas, como tambm a mentira deliberada e a fraude - e isso a um ponto que parece ultrapassar 
esse emprego em guerras anteriores. O Estado exige o grau mximo de obedincia e de sacrifcio de seus cidados; ao mesmo tempo, porm, trata-os como crianas, mediante 
um excesso de sigilo e uma censura quanto a notcias e expresses de opinio, que deixa os espritos daqueles, cujos intelectos ele assim suprime, sem defesa contra 
toda mudana desfavorvel dos eventos e todo boato sinistro. Exime-se das garantias e tratados que o vinculavam a outros Estados, e confessa desavergonhadamente 
sua prpria rapacidade e sede de poder, que o cidado tem ento de sancionar em nome do patriotismo.
         No se deve objetar que o Estado no pode abster-se de praticar o mal, de uma vez que isso o colocaria em desvantagem . No  menos desvantajoso, em geral, 
para o indivduo, conformar-se aos padres de moralidade e abster-se de uma conduta brutal e arbitrria; e poucas vezes o Estado prova ser capaz de indeniz-lo pelos 
sacrifcios que exige. Nem deve constituir surpresa que esse relaxamento de todos os laos morais entre os indivduos coletivos da humanidade deva ter repercusses 
sobre a moralidade dos indivduos, pois nossa conscincia no  o juiz inflexvel que os professores de tica declaram, mas , em sua origem, 'ansiedade social' 
e nada mais. Quando a comunidade no levanta mais objees, verifica-se tambm um fim  supresso das paixes ms, e os homens perpetram atos de crueldade, fraude, 
traio e barbrie to incompatveis com seu nvel de civilizao, que qualquer um os julgaria impossveis.
          compreensvel que o cidado do mundo civilizado a quem me referi possa permanecer desamparado num mundo que se lhe tornou estranho - sua grande ptria 
desintegrada, suas propriedades comuns devastadas, seus concidados divididos e vilipendiados!
         H, contudo, algo a ser dito como crtica a seu desapontamento. Rigorosamente falando, este no se justifica, pois consiste na destruio de uma iluso. 
Acolhemos as iluses porque nos poupam sentimentos desagradveis, permitindo-nos em troca gozar de satisfaes. Portanto, no devemos reclamar se, repetidas vezes, 
essas iluses entrarem em choque com alguma parcela da realidade e se despedaarem contra ela.
         Duas coisas nessa guerra despertaram nosso sentimento de desiluso: a baixa moralidade revelada externamente por Estados que, em suas relaes internas, 
se intitulam guardies dos padres morais, e a brutalidade demonstrada por indivduos que, enquanto participantes da mais alta civilizao humana, no julgaramos 
capazes de tal comportamento.
         Comecemos pelo segundo ponto e tentemos formular, em poucas palavras, o ponto de vista que desejamos criticar. De fato, como  que imaginamos o processo 
pelo qual um indivduo se ala a um plano comparativamente alto de moralidade? A primeira resposta ser, sem dvida, simplesmente que ele  virtuoso e nobre desde 
o seu nascimento - desde o comeo mesmo de sua vida. No consideraremos mais esse ponto de vista aqui. Uma segunda resposta sugerir que estamos preocupados com 
um processo de desenvolvimento, e provavelmente presumir que o desenvolvimento consiste em erradicar as tendncias humanas ms desse indivduo e, sob a influncia 
da educao e de um ambiente civilizado, em substitu-las por boas. Caso isso seja assim, , no obstante, surpreendente que o mal ressurja com tamanha fora em 
qualquer um que tenha sido educado dessa forma.
         No entanto, essa resposta tambm encerra a tese que nos propomos contradizer. Na realidade, no existe essa 'erradicao' do mal. A pesquisa psicolgica 
- ou, falando mais rigorosamente, psicanaltica - revela, ao contrrio, que a essncia mais profunda da natureza humana consiste em impulsos instintuais de natureza 
elementar, semelhantes em todos os homens e que visam  satisfao de certas necessidades primevas. Em si mesmos, esses impulsos no so nem bons e nem maus. Classificamos 
esses impulsos, bem como suas expresses, dessa maneira, segundo sua relao com as necessidades e as exigncias da comunidade humana. Deve-se admitir que todos 
os impulsos que a sociedade condena como maus - tomemos como representativos os egosticos e cruis - so de natureza primitiva.
         Esses impulsos primitivos passam por um longo processo de desenvolvimento antes que se lhes permita tornarem-se ativos no adulto. So inibidos, dirigidos 
no sentido de outras finalidades e outros campos, mesclam-se, alteram seus objetos e revertem, at certo ponto, a seu possuidor. Formaes de reao contra certos 
instintos assumem a forma enganadora de uma mudana em seu contedo, como se o egosmo se tivesse transmudado em altrusmo ou a crueldade em piedade. Essas formaes 
de reao so facilitadas pela circunstncia de que alguns impulsos instintuais surgem, quase que desde o incio, em pares de opostos - um fenmeno muito marcante, 
e estranho ao pblico leigo, denominado 'ambivalncia de sentimento'. O exemplo mais facilmente observado e compreensvel disso reside no fato de que o amor intenso 
e o dio intenso so, com tanta freqncia, encontrados juntos na mesma pessoa. A psicanlise acrescenta que esses dois sentimentos opostos, no raramente, tm como 
objeto a mesma pessoa.
         S quando todas essas 'vicissitudes instintuais' foram superadas  que se forma aquilo que denominamos de carter de uma pessoa, e este, como sabemos, s 
de forma inadequada pode ser classificado como 'bom' ou 'mau'. Raramente um ser humano  totalmente bom ou mau; via de regra ele  'bom' em relao a determinada 
coisa e 'mau' em relao a outra, ou 'bom' em certas circunstncias externas e em outras indiscutivelmente 'mau'.  interessante verificar que, na primeira infncia, 
a preexistncia de fortes impulsos 'maus' constitui muitas vezes a condio para uma inequvoca inclinao no sentido do 'bom' no adulto. Aqueles que, enquanto crianas, 
foram os mais pronunciados egostas, podem muito bem tornar-se os mais prestimosos e abnegados membros da comunidade; a maioria dos sentimentalistas, amigos da humanidade 
e protetores de animais, evoluram de pequenos sdicos e atormentadores de animais.
         A transformao dos 'maus' instintos  ocasionada por dois fatores, um interno e outro externo, que atuam na mesma direo. O fator interno consiste na 
influncia exercida sobre os instintos maus (digamos, egostas) pelo erotismo - isto , pela necessidade humana de amor, tomada em seu sentido mais amplo. Pela mistura 
dos componentes erticos, os instintos egostas so transformados em sociais. Aprendemos a valorizar o fato de sermos amados como uma vantagem em funo da qual 
estamos dispostos a sacrificar outras vantagens. O fator externo  a fora exercida pela educao, que representa as reivindicaes de nosso ambiente cultural, posteriormente 
continuadas pela presso direta desse ambiente. A civilizao foi alcanada atravs da renncia  satisfao instintual, exigindo ela, por sua vez, a mesma renncia 
de cada recm-chegado. No decorrer da vida de um indivduo, h uma substituio constante da compulso externa pela interna. As influncias da civilizao provocam, 
por uma mescla de elementos erticos, uma sempre crescente formao das tendncias egostas em tendncias altrustas e sociais. Em ltima infncia, pode-se supor 
que toda compulso interna que se faz sentir no desenvolvimento dos seres humanos foi originalmente - isto , na histria da humanidade - apenas uma compulso externa. 
Os que nascem hoje trazem comigo, como organizao herdada, certo grau de tendncia (disposio) para a formao dos instintos egostas em sociais, sendo essa disposio 
facilmente estimulada a provocar esse resultado. Outra parte dessa transformao instintual tem de ser realizada durante a vida do prprio indivduo. Assim, o ser 
humano est sujeito no s  presso de seu ambiente cultural imediato, mas tambm  influncia da histria cultural de seus ancestrais.
         Se dermos a denominao de 'suscetibilidade  cultura'  capacidade pessoal de um homem para transformar os impulsos egostas sob a influncia do erotismo, 
poderemos ainda afirmar que essa suscetibilidade se compe de duas partes, uma inata e outra adquirida no curso da vida, e que a relao das duas, tanto entre si 
quanto com a parte da vida instintual que permanece inalterada,  muito varivel.
         Falando de forma mais geral, inclinamo-nos a atribuir demasiada importncia  parte inata; alm disso, corremos o risco de superestimar a suscetibilidade 
total  cultura em comparao com a parte da vida instintual que permaneceu primitiva - isto , somos levados enganosamente a considerar os homens como 'melhores' 
do que de fato so, de uma vez que existe ainda outro elemento que obscurece nosso julgamento e falseia o problema num sentido favorvel.
         Os impulsos instintuais de outras pessoas esto, naturalmente, ocultos  nossa observao. Inferimo-los de suas aes e de seu comportamento, remontando 
a motivos provenientes de sua vida instintual. Em muitos casos, essa inferncia est fadada a ser errnea. Esta ou aquela ao, 'boa' do ponto de vista cultural, 
pode, num determinado caso, originar-se de um motivo 'nobre', e em outro, no. Os tericos da tica classificam como 'boas' aes apenas as que resultam de bons 
impulsos; quanto s outras, recusam reconhecimento. No cmputo geral, porm, a sociedade, muito prtica em suas finalidades, no fica perturbada por essa distino; 
d-se por satisfeita se um homem regula seu comportamento e suas aes pelos preceitos da civilizao, pouco se preocupando com os seus motivos.
         Aprendemos que a compulso externa exercida sobre um ser humano por sua educao e por seu ambiente produz ulterior transformao no sentido do bem em sua 
vida instintual - um afastamento ulterior do egosmo para o altrusmo. Esse, porm, no  o efeito regular ou necessrio da compulso externa. A educao e o ambiente 
no s oferecem benefcios no tocante ao amor, como tambm empregam outros tipos de incentivo, a saber, recompensas e punies. Dessa maneira, seu efeito pode vir 
a ser que uma pessoa sujeita  sua influncia escolha comportar-se bem, no sentido cultural dessa expresso, embora nenhum enobrecimento do instinto, nenhuma transformao 
de inclinaes egostas em altrustas se tenham operado nela. O resultado ser, grosso modo, o mesmo; s uma especfica concatenao de circunstncias revelar que 
um homem sempre age bem porque suas inclinaes instintuais o compelem a isso, e que outro s  bom na medida em que, e enquanto, esse comportamento cultural for 
vantajoso para seus propsitos egostas. Contudo, o conhecimento superficial de um indivduo no nos permitir distinguir entre esses dois casos, e decerto somos 
enganosamente levados por nosso otimismo a exagerar grosseiramente o nmero de seres humanos que tm sido transformados num sentido cultural.
         A sociedade civilizada, que exige boa conduta e no se preocupa com a base instintual dessa conduta, conquistou assim a obedincia de muitas pessoas que, 
para tanto, deixam de seguir suas prprias naturezas. Estimulada por esse xito, a sociedade se permitiu o engano de tornar maximamente rigoroso o padro moral, 
e assim forou os seus membros a um alheamento ainda maior de sua disposio instintual. Conseqentemente, eles esto sujeitos a uma incessante supresso do instinto, 
e a tenso resultante disso se trai nos mais notveis fenmenos de reao e compensao. No domnio da sexualidade, onde  mais difcil realizar essa supresso, 
o resultado se manifesta nos fenmenos reativos das desordens neurticas. Em outros lugares,  verdade que a presso da civilizao no traz em seu rastro quaisquer 
resultados patolgicos, mas se revela em deformaes do carter e na perptua presteza dos instintos inibidos em irromper, em qualquer oportunidade adequada, em 
proveito da satisfao. Qualquer um, compelido dessa forma a agir continuamente em conformidade com preceitos que no so a expresso de suas inclinaes instintuais, 
est, psicologicamente falando, vivendo acima de seus meios, e pode objetivamente ser descrito como um hipcrita, esteja ou no claramente cnscio dessa incongruncia. 
 inegvel que nossa civilizao contempornea favorece, num grau extraordinrio, a produo dessa forma de hipocrisia. Poder-se-ia dizer que ela est alicerada 
nessa hipocrisia, e que teria de se submeter a modificaes de grande alcance, caso as pessoas se comprometessem a viver em conformidade com a verdade psicolgica. 
Assim, existem muito mais hipcritas culturais do que homens verdadeiramente civilizados - na realidade, trata-se de um ponto discutvel saber se certo grau de hipocrisia 
cultural no  indispensvel  manuteno da civilizao, uma vez que a suscetibilidade  cultura, que at agora se organizou nas mentes dos homens dos nossos dias, 
talvez no se revele suficiente para essa tarefa. Por outro lado, a manuteno da civilizao, mesmo numa base to dbia, fornece a perspectiva de, a cada nova gerao, 
preparar o caminho para uma transformao de maior alcance do instinto, a qual ser o veculo de uma civilizao melhor.
         J podemos extrair um consolo desse exame: nossa mortificao e nossa penosa desiluso em virtude do comportamento incivilizado de nossos concidados do 
mundo durante a presente guerra foram injustificadas. Basearam-se numa iluso a que havamos cedido. Na realidade, nossos concidados no decaram tanto quanto temamos 
porque nunca subiram tanto quanto acreditvamos. O fato de a coletividade de indivduos da humanidade, os povos e os Estados, terem mutuamente ab-rogado de suas 
restries morais, naturalmente estimulou esses cidados individuais a se afastarem momentaneamente da constante presso da civilizao e a concederem uma satisfao 
temporria aos instintos que vinham mantendo sob presso. Isso provavelmente no envolveu qualquer violao de sua moralidade relativa dentro de suas prprias naes.
         Podemos, contudo, obter uma compreenso interna (insight) mais profunda na mudana acarretada pela guerra em nossos antigos compatriotas, e, ao mesmo tempo, 
ser advertidos a no cometer uma injustia contra eles, pois o desenvolvimento da mente revela uma peculiaridade que no se acha presente em qualquer outro processo 
de desenvolvimento. Quando uma aldeia se transforma numa cidade, ou uma criana num homem, a aldeia e a criana ficam perdidas na cidade e no homem. S a memria 
pode descobrir as antigas feies nesse novo quadro; e, de fato, os antigos materiais ou formas foram abandonados e substitudos por novos. O mesmo no ocorre com 
o desenvolvimento da mente. Aqui, pode-se descrever o estado de coisas, que no encontra termo algum de comparao, com a mera afirmativa de que, nesse caso, cada 
etapa anterior de desenvolvimento persiste ao lado da etapa posterior dela derivada; aqui, a sucesso tambm envolve a coexistncia, embora toda a srie de transformaes 
tenha sido aplicada aos mesmos materiais. O estado mental anterior pode no ter-se manifestado durante anos; no obstante, est presente h tanto tempo, que poder, 
em qualquer poca, tornar-se novamente a modalidade de expresso das foras da mente, e na realidade a nica, como se todos os desenvolvimentos posteriores tivessem 
sido anulados ou desfeitos. Essa extraordinria plasticidade dos desenvolvimentos mentais no se restringe ao que diz respeito  direo; pode ser descrita como 
uma capacidade especial para a involuo - para a regresso -, de uma vez que pode muito bem acontecer que uma etapa posterior e mais elevada de desenvolvimento, 
to logo abandonada, talvez no seja alcanada de novo. Contudo, as etapas primitivas sempre podem ser restabelecidas; a mente primitiva , no sentido mais pleno 
desse termo, imperecvel.
         O que chamamos de doenas mentais inevitavelmente produz a impresso, no leigo, de que a vida intelectual e mental foi destruda. Na realidade, a destruio 
s se aplica a aquisies e desenvolvimentos ulteriores. A essncia da doena mental reside num retorno a estados anteriores de vida afetiva e de funcionamento. 
Um excelente exemplo da plasticidade da vida mental  proporcionado pelo estado do sono, que todas as noites constitui a nossa meta. Desde que aprendemos a interpretar 
os sonhos, inclusive os mais absurdos e confusos, sabemos que sempre que vamos dormir nos despojamos de nossa moralidade arduamente conquistada como se fosse uma 
pea de vesturio, tornando a enverg-la na manh seguinte. Esse desnudamento de ns mesmos, naturalmente, no  perigoso, j que ficamos paralisados, condenados 
 inatividade, pelo estado de sono. Apenas os sonhos nos podem informar a respeito da regresso de nossa vida emocional a uma das primeiras etapas de desenvolvimento. 
Por exemplo,  digno de nota que todos os nossos sonhos sejam regidos por motivos puramente egosticos. Um de meus amigos ingleses apresentou essa tese numa reunio 
cientfica nos Estados Unidos da Amrica, ao que uma senhora ali pressente observou que aquilo talvez fosse o caso na ustria, mais podia asseverar, quanto a ela 
prpria e a suas amigas, que elas eram altrustas inclusive em seus sonhos. Embora de raa inglesa, meu amigo, com base em sua prpria experincia na anlise de 
sonhos, foi obrigado a contradizer enfaticamente a senhora, declarando que, em seus sonhos, as magnnimas senhoras norte-americanas eram to egostas quanto as austracas.
         Assim, a transformao do instinto, em que se baseia nossa suscetibilidade  cultura, tambm poder ser permanente ou temporariamente desfeita pelos impactos 
da vida. Sem dvida, as influncias da guerra se encontram entre as foras que podem provocar tal involuo; dessa forma, no precisamos negar a suscetibilidade 
 cultura a todos que no momento se comportam de maneira incivilizada, e podemos prever que o enobrecimento dos seus instintos ser restaurado em tempos mais pacficos.
         Existe, porm, em nossos concidados outro sintoma do mundo que talvez nos tenha deixado to atnitos e chocados quanto a queda de suas alturas ticas que 
nos provocou tanta dor. O que tenho em mente  a falta de compreenso interna (insight) demonstrada pelos melhores intelectos, sua obstinao, sua inacessibilidade 
aos mais convincentes argumentos, e sua credulidade destituda de senso crtico para com as asseres mais discutveis. Isso realmente apresenta um quadro lamentvel 
e desejo dizer com toda nfase que, quanto a esse aspecto, no sou de modo algum um partidrio cego que s encontra todas as deficincias intelectuais apenas de 
um lado. Esse fenmeno , no entanto, muito mais fcil de explicar e muito menos inquietador do que aquele que acabamos de considerar. Os estudiosos da natureza 
humana e os filsofos de h muito nos ensinaram que nos enganamos ao considerar nossa inteligncia uma fora independente e ao negligenciar sua dependncia em relao 
 vida emocional. Nosso intelecto, segundo nos ensinam, s pode funcionar de maneira digna de confiana quando afastado das influncias de fortes impulsos emocionais; 
do contrrio, comporta-se simplesmente como um instrumento da vontade e fornece a inferncia que a vontade exige. Assim, na opinio deles, os argumentos lgicos 
so impotentes contra os interesses afetivos; por isso, os debates apoiados por razes, na frase de Falstaff 'to abundantes quanto as amoras silvestres', mostram-se 
to infrutferos no mundo dos interesses. A experincia psicanaltica, na medida do possvel, tem confirmado ainda mais essa declarao. Diariamente, ela pode indicar 
que de repente as pessoas mais sagazes se comportam sem compreenso interna (insight), como se fossem imbecis, to logo a compreenso interna (insight) necessria 
se defronta com uma resistncia emocional, recuperando, porm, inteiramente a compreenso uma vez superada essa resistncia. O aturdimento lgico que a presente 
guerra provocou em nossos concidados, no poucos dentre eles sendo o que h de melhor em sua espcie, constitui, portanto, um fenmeno secundrio, uma conseqncia 
da excitao emocional, e est fadado, conforme esperamos, a desaparecer com ela.
         Tendo assim, mais uma vez, chegado a compreender nossos concidados que agora se acham alienados de ns, suportaremos com muito maior facilidade o desapontamento 
que as naes, a coletividade de indivduos da humanidade, nos causaram, pois nossas exigncias em relao a eles devem ser muito mais modestas. Talvez estejam recapitulando 
o curso do desenvolvimento individual e, ainda hoje, representem etapas muito primitivas da organizao e da formao de unidades mais elevadas. Corrobora isso o 
fato de, at agora, o fator educativo de uma compulso externa no sentido da moralidade, cuja eficcia nos indivduos foi por ns verificada, ser muito pouco discernvel 
neles. Decerto, nutrramos a esperana de que a ampla comunidade de interesses estabelecida pelo comrcio e pela produo constituiria o germe de tal compulso, 
mas, aparentemente, as naes ainda obedecem a suas paixes muito mais prontamente do que a seus interesses. Estes lhes servem, na melhor das hipteses, como racionalizaes 
de suas paixes; elas exprimem seus interesses a fim de poderem apresentar razes para satisfazerem suas paixes. Sem dvida, constituem mistrio os motivos pelos 
quais, na coletividade de indivduos, estes devem de fato desprezar-se, odiar-se e detestar-se mutuamente - cada nao contra outra nao -, inclusive em pocas 
de paz. No posso dizer po7r que isso  assim.  algo como se, quando se trata de um grande nmero de pessoas, para no dizer milhes, todas as conquistas morais 
individuais fossem obliteradas, e s restassem as atitudes mentais mais primitivas, mais antigas e mais toscas. Talvez s etapas posteriores do desenvolvimento sejam 
capazes de efetuar alguma mudana nesse lamentvel estado de coisas. Contudo, um pouco mais de veracidade e de honestidade por parte de todas as faces - nas relaes 
dos homens uns com os outros, e entre eles e seus governantes - deve tambm aplainar o caminho para essa transformao.
         
         II - NOSSA ATITUDE PARA COM A MORTE
         
         O segundo fator ao qual atribuo nosso atual sentimento de alheamento deste mundo outrora belo e conveniente  a perturbao que ocorreu na atitude que, 
at o momento, adotamos em relao  morte.
         Essa atitude estava longe de ser direta. A qualquer um que nos desse ouvidos nos mostrvamos, naturalmente, preparados para sustentar que a morte era o 
resultado necessrio da vida, que cada um deve  natureza uma morte e deve esperar pagar a dvida - em suma, que a morte era natural, inegvel e inevitvel. Na realidade, 
contudo, estvamos habituados a nos comportar como se fosse diferente. Revelvamos uma tendncia inegvel para pr a morte de lado, para elimin-la da vida. Tentvamos 
silenci-la; na realidade, dispomos at mesmo de um provrbio [em alemo]: 'pensar em alguma coisa como se fosse a morte'. Isto , como se fosse nossa prpria morte, 
naturalmente. De fato,  impossvel imaginar nossa prpria morte e, sempre que tentamos faz-lo, podemos perceber que ainda estamos presentes como espectadores. 
Por isso, a escola psicanaltica pde aventurar-se a afirmar que no fundo ningum cr em sua prpria morte, ou, dizendo a mesma coisa de outra maneira, que no inconsciente 
cada um de ns est convencido de sua prpria imortalidade.
         Quando se trata da morte de outrem, o homem civilizado cuidadosamente evita falar de tal possibilidade no campo auditivo da pessoa condenada. Apenas as 
crianas desprezam essa restrio e desembaraadamente se ameaam uma s outras com a possibilidade de morrer, chegando inclusive ao ponto de fazer a mesma coisa 
com algum que amam, como, por exemplo: 'Querida mezinha, quando voc morrer eu farei isso ou aquilo'. Dificilmente o adulto civilizado sequer pode alimentar o 
pensamento da morte de outra pessoa, sem parecer diante de seus prprios olhos empedernido ou malvado; a menos que, naturalmente, como mdico ou advogado ou algo 
assim, tenha de lidar com a morte em carter profissional. Menos ainda ele se permitir pensar na morte de outra pessoa se algum proveito em termos de liberdade, 
propriedade ou posio estiver ligado a ela. Essa nossa sensibilidade no impede, naturalmente, a ocorrncia de mortes; quando uma de fato acontece, ficamos sempre 
profundamente atingidos e  como se fssemos muito abalados em nossas expectativas. Nosso hbito  dar nfase  causao fortuita da morte - acidente, doena, infeco, 
idade avanada; dessa forma, tramos um esforo para reduzir a morte de uma necessidade para um fato fortuito. Grande nmero de mortes simultneas nos atinge como 
algo extremamente terrvel. Para com a pessoa que morreu, adotamos uma atitude especial - algo prximo da admirao por algum que realizou uma tarefa muito difcil. 
Deixamos de critic-la, negligenciamos suas possveis ms aes, declaramos que 'de mortuis nil nisi bonum', e julgamos justificvel realar tudo o que seja de mais 
favorvel  sua lembrana na orao fnebre e sobre a lpide tumular. A considerao pelos mortos, que, afinal de contas, no mais necessitam dela,  mais importante 
para ns do que a verdade, e certamente, para a maioria de ns, do que a considerao pelos vivos.
         O complemento a essa atitude cultural e convencional para com a morte  proporcionado por nosso completo colapso quando a morte abate algum que amamos 
- um progenitor ou um cnjuge, um irmo ou irm, um filho ou um amigo ntimo. Nossas esperanas, nossos desejos e nossos prazeres jazem no tmulo com essa pessoa, 
nada nos consola, nada preenche o vazio deixado pelo ente perdido. Comportamo-nos como se fssemos um dos Asra, que morrem quando aqueles que eles amam tambm morrem. 
Mas essa nossa atitude para com a morte exerce poderoso efeito sobre nossas vidas. A vida empobrece, perde em interesse, quando a mais alta aposta no jogo da vida, 
a prpria vida, no pode ser arriscada. Torna-se to ch e vazia como, digamos, um flerte nos Estados Unidos da Amrica, no qual desde o incio fica compreendido 
que nada ir acontecer, em contraste com um caso amoroso na Europa, no qual ambas as partes constantemente devem ter em mente suas srias conseqncias. Nossos laos 
emocionais, a insuportvel intensidade de nosso pesar, nos desestimulam a cortejar o perigo para ns mesmos e para aqueles que nos pertencem. Inmeros empreendimentos, 
perigosos mas de fato indispensveis, tais como tentativas de vo artificial, expedies a pases distantes ou experincias com substncias explosivas, nem sequer 
chegam a ser considerados. Ficamos paralisados pelo pensamento de quem ir substituir o filho junto  me, o marido junto  esposa, o pai junto aos filhos, se sobrevier 
um desastre. Assim, a tendncia de excluir a morte de nossos projetos de vida traz em seu rastro muitas outras renncias e excluses. No entanto, o lema da Liga 
Hansetica dizia: 'Navigare necesse est, vivere, non necesse' ('Navegar  preciso, viver no  preciso.')
         Constitui resultado inevitvel de tudo isso que passamos a procurar no mundo da fico, na literatura e no teatro a compensao pelo que se perdeu na vida. 
Ali encontraremos pessoas que sabem morrer - que conseguem inclusive matar algum. Tambm s ali pode ser preenchida a condio que possibilita nossa reconciliao 
com a morte: a saber, que por detrs de todas as vicissitudes da vida devemos ainda ser capazes de preservar intacta uma vida, pois  realmente muito triste que 
tudo na vida deva ser como num jogo de xadrez, onde um movimento em falso pode forar-nos a desistir dele, com a diferena, porm, de que no podemos comear uma 
segunda partida, uma revanche. No domnio da fico, encontramos a pluralidade de vidas de que necessitamos. Morremos com o heri com o qual nos identificamos; contudo, 
sobrevivemos a ele, e estamos prontos a morrer novamente, desde que com a mesma segurana, com outro heri.
          evidente que a guerra est fadada a varrer esse tratamento convencional da morte. Esta no mais ser negada; somos forados a acreditar nela. As pessoas 
realmente morrem, e no mais uma a uma, porm muitas, freqentemente dezenas de milhares, num nico dia. E a morte no  mais um acontecimento fortuito. Certamente, 
ainda parece uma questo de acaso o fato de uma bala atingir esse ou aquele homem, mas uma segunda bala pode muito bem atingir o sobrevivente; e o acmulo de mortes 
pe um termo  impresso de acaso. A vida, na realidade, tornou-se interessante novamente; recuperou seu pleno contedo.
         Deve-se estabelecer aqui uma distino entre dois grupos - os que arriscam suas vidas no campo de batalha e os que permanecem em casa, tendo apenas de esperar 
pela perda de seus entes queridos por ferimentos, molstia ou infeco. Seria muito interessante, sem dvida, estudar as modificaes na psicologia dos combatentes, 
mas sei muito pouco a esse respeito. Devemos restringir-nos ao segundo grupo, ao qual ns prprios pertencemos. J tive ocasio de dizer que em minha opinio o aturdimento 
e a paralisia de capacidade de que sofremos so essencialmente determinados, entre outras coisas, pela circunstncia de que somos incapazes de manter nossa atitude 
anterior em relao  morte, no tendo encontrado, ainda, uma nova. Talvez nos sirva de ajuda proceder dessa forma, se dirigirmos nossa indagao psicolgica no 
sentido de duas outras relaes com a morte - a que podemos atribuir aos homens primevos, pr-histricos, e a que ainda existe em cada um de ns, mas que se oculta, 
invisvel  conscincia, nas camadas mais profundas de nossa vida mental.
         Naturalmente, s podemos saber qual era a atitude do homem pr-histrico para com a morte por meio de inferncias e interpretaes; creio, porm, que esses 
mtodos nos tm proporcionado concluses mais ou menos dignas de confiana.
         O homem primevo assumia uma atitude notvel em relao  morte. Longe de ser coerente, era, na realidade, altamente contraditria. Por um lado, encarava 
a morte seriamente, reconhecia-a como o trmino da vida, utilizando-a nesse sentido; por outro, tambm negava a morte e a reduzia a nada. Essa contradio surgia 
do fato de que ele assumia atitudes radicalmente diferentes para com a morte de outras pessoas, de estranhos, de inimigos, e para com sua prpria morte. No fazia 
qualquer objeo  morte de outrem; ela significava o aniquilamento de algum que ele odiava, e o homem primitivo no tinha quaisquer escrpulos em ocasion-lo. 
Era, sem dvida, uma criatura muito impulsiva e mais cruel e maligna do que outros animais. Gostava de matar, e fazia isso como uma coisa natural. O instinto que, 
segundo se diz, refreia outros animais de matar e de devorar sua prpria espcie, no precisa ser atribudo a ele.
         Por isso, a histria primeva da humanidade est repleta de assassinatos. Mesmo hoje, a histria do mundo que nossos filhos aprendem na escola  essencialmente 
uma srie de assassinatos de povos. O obscuro sentimento de culpa ao qual a humanidade tem estado sujeita desde pocas pr-histricas e que, em algumas religies, 
foi condensado na doutrina da culpa primeva, do pecado original,  provavelmente o resultado de uma culpa de homicdio em que teria incorrido o homem pr-histrico. 
Em meu livro Totem e Tabu (1912-13) tentei, seguindo pistas fornecidas por Robertson Smith, Atkinson e Charles Darwin, adivinhar a natureza dessa culpa primeva, 
e creio, tambm, que a doutrina crist de nossos dias nos permite deduzi-la. Se o Filho de Deus foi obrigado a sacrificar sua vida para redimir a humanidade do pecado 
original, ento, pela lei de talio, dente por dente, olho por olho, aquele pecado deve ter sido uma morte, um assassinato. Nada mais poderia exigir o sacrifcio 
de uma vida para a sua expiao. E, se o pecado original foi uma ofensa contra Deus Pai, o crime primevo da humanidade deve ter sido um parricdio, a morte do pai 
primevo da horda humana primitiva, cuja imagem mnmica foi depois transfigurada numa deidade.
         Para o homem primevo, sua prpria morte era certamente to inimaginvel e irreal quanto o  para qualquer um de ns hoje em dia. No entanto, no seu caso, 
uma circunstncia fez com que as duas atitudes opostas para com a morte colidissem e entrassem em conflito uma com a outra, circunstncia essa que se tornou altamente 
importante, produzindo conseqncias de longo alcance. Ocorreu quando o homem primevo viu morrer algum que lhe pertencia - a esposa, o filho, o amigo - a quem indubitavelmente 
ele amava como amamos os nossos, j que o amor no pode ser muito mais jovem do que a volpia de matar. Ento, em sua dor, foi forado a aprender que cada um de 
ns pode morrer, e todo o seu ser revoltou-se contra a admisso desse fato, pois cada um desses antes amados era, afinal de contas, uma parte de seu prprio eu amado. 
Por outro lado, porm, mortes como essas tambm o agradavam, de uma vez que em cada uma das pessoas amadas havia tambm alguma coisa de estranho. A lei de ambivalncia 
do sentimento, que at hoje rege nossas relaes emocionais com aqueles a quem mais amamos, por certo tinha uma validade muito mais ampla nos tempos primevos. Assim, 
esses mortos amados tambm tinham sido inimigos e estranhos que haviam despertado nele certo grau de sentimento hostil.
         Os filsofos declararam que o enigma intelectual apresentado ao homem primevo pelo quadro da morte forou-o  reflexo, tornando-se assim o ponto de partida 
de toda especulao. Acho que aqui os filsofos esto pensando filosoficamente demais e concedendo pouqussima considerao aos motivos que eram primordialmente 
operativos. Gostaria, portanto, de limitar e corrigir sua assero. Em minha opinio, o homem primevo deve ter exultado ao lado do corpo de seu inimigo assassinado, 
sem ser levado a dar tratos  bola sobre o enigma da vida e da morte. O que liberou o esprito de indagao no homem no foi o enigma intelectual, e nem qualquer 
morte, mas o conflito de sentimento quando da morte de pessoas amadas e, contudo, estranhas e odiadas. A psicologia foi o primeiro rebento desse conflito de sentimento. 
O homem j no podia manter a morte  distncia, pois a havia provado em sua dor pelos mortos; no obstante, no estava disposto a reconhec-la, porquanto no podia 
conceber-se a si prprio como morto. Assim, idealizou um meio-termo; admitiu tambm o fato de sua prpria morte, negando-lhe porm, o significado de aniquilamento 
- significado que ele no tivera motivo para negar no que dizia respeito  morte de seu inimigo. Foi ao lado do cadver de algum amado por ele que inventou os espritos, 
e seu sentimento de culpa pela satisfao mesclado  sua tristeza transformou esses espritos recm-nascidos em demnios maus que tinham de ser temidos. As modificaes 
[fsicas] acarretadas pela morte lhe sugeriram a diviso do indivduo em corpo e alma - originalmente vrias almas. Dessa maneira, seu encadeamento de pensamento 
corria paralelo ao processo de desintegrao que sobrevm com a morte. Sua persistente lembrana dos mortos tornou-se a base para a suposio de outras formas de 
existncia, fornecendo-lhe a concepo de uma vida que continua aps morte aparente.
         De incio, essas existncias subseqentes no passavam de apndices  existncia  qual a morte pusera termo - sombrias, vazias de contedo e de pouca valia 
at pocas ulteriores; traziam, ainda, o carter de desventurados artifcios. Podemos relembrar a resposta dada a Ulisses pela alma de Aquiles:
         'Pois desde outrora, quando estavas vivo, ns os argivos te honrvamos mesmo como a um deus, e agora que ests aqui, governas soberanamente sobre os mortos. 
Portanto, no lamentes absolutamente estares morto, Aquiles.'
         Assim falei, e ele imediatamente respondeu, dizendo: 'No, no procures falar-me brandamente da morte, glorioso Ulisses. Eu escolheria, para que pudesse 
viver na terra, antes ser o servo de outrem, de algum homem sem fortuna cujos recursos fossem os mais parcos, do que ser o senhor de todos os mortos que pereceram.'
         
         Ou na poderosa e amarga pardia de Heine:
         Der Kleinste lebendige PhilisterZu Stuckert am NeckarViel glcklicher ist erAls ich, der Pelide, der tote Held,Der Schattenfrst in der Unterwelt.
         S mais tarde as religies conseguiram representar essa vida futura como a mais desejvel, a nica verdadeiramente vlida, a reduzir a vida que termina 
com a morte a uma mera preparao. Depois disso, passou a ser apenas coerente estender a vida para trs at o passado, elaborar a noo de existncias pretritas, 
da transmigrao das almas e da reencarnao, tudo com a finalidade de despojar a morte do seu significado de trmino da vida. Assim, a origem da negao da morte, 
que descrevemos [ver em [1]] como uma 'atitude convencional e cultural', remonta aos tempos mais antigos.
         Ao lado do corpo sem vida do ente amado, passou a existir no s a doutrina da alma, a crena na imortalidade e uma poderosa fonte de sentimento de culpa 
do homem, mas tambm os primeiros mandamentos ticos. A primeira e mais importante proibio feita pela conscincia que despertava foi: 'No matars'. Surgiu em 
relao a pessoas mortas que eram amadas, como uma reao contra a satisfao do dio que se ocultava sob o pesar, estendendo-se gradativamente a estranhos que no 
eram amados e, finalmente, at mesmo a inimigos.
         Essa extenso final do mandamento j no  experimentada pelo homem civilizado. Quando a furiosa luta da guerra atual for decidida, cada um dos combatentes 
vitoriosos retornar alegremente  ptria, para sua esposa e seus filhos, sem ser questionado nem perturbado por pensamentos sobre os inimigos que, quer de perto, 
quer de longe, matou.  digno de nota que as raas primitivas que ainda sobrevivem no mundo, e que indubitavelmente se acham mais prximas do que ns do homem primevo, 
agem de modo diferente em relao a isso, ou pelo menos agiam at ficarem sob a influncia de nossa civilizao. Selvagens - australianos, boximanes, fueguinos - 
esto longe de ser assassinos implacveis; quando voltam vitoriosos da guerra no pisam em suas aldeias nem tocam em suas esposas at que tenham expiado os assassinatos 
que perpetraram na guerra por penitncias, quase sempre longas e tediosas.  fcil, naturalmente, atribuir isso  sua superstio: o selvagem ainda teme os espritos 
vingativos dos assassinados. Mas os espritos de seus inimigos mortos nada mais so do que a expresso de sua conscincia pesada por causa de sua culpa de homicdio; 
por detrs dessa superstio jaz oculta uma veia de sensibilidade tica que foi perdida por ns, homens civilizados.
         Sem dvida, as almas piedosas, que gostariam de crer que nossa natureza est distanciada de qualquer contato com o que  mau e degradante, no deixaro 
de utilizar o aparecimento e a premncia iniciais da proibio contra o assassinato como a base para concluses gratificantes quanto  fora dos impulsos ticos 
que devem ter sido implantados em ns. Infelizmente, esse argumento fortalece ainda mais o ponto de vista oposto. Uma proibio to poderosa s pode ser dirigida 
contra um impulso igualmente poderoso. O que nenhuma alma humana deseja no precisa de proibio;  excludo automaticamente. A prpria nfase dada ao mandamento 
'No matars' nos assegura que brotamos de uma srie interminvel de geraes de assassinos, que tinham a sede de matar em seu sangue, como, talvez, ns prprios 
tenhamos hoje. Os esforos ticos da humanidade, cuja fora e significncia no precisamos absolutamente depreciar, foram adquiridos no curso da histria do homem; 
desde ento se tornaram, embora infelizmente apenas em grau varivel, o patrimnio herdado pelos homens contemporneos.
         Deixemos agora o homem primevo, e passemos para o inconsciente em nossa prpria vida mental. Aqui dependemos inteiramente do mtodo psicanaltico de investigao, 
o nico que atinge tais profundezas. Qual, perguntamos,  a atitude do nosso inconsciente para com o problema da morte? A resposta deve ser: quase exatamente a mesma 
que a do homem primevo. Nesse ponto, como em muitos outros, o homem das pocas pr-histricas sobrevive inalterado em nosso inconsciente. Nosso inconsciente, portanto, 
no cr em sua prpria morte; comporta-se como se fosse imortal. O que chamamos de nosso 'inconsciente' - as camadas mais profundas de nossas mentes, compostas de 
impulsos instintuais - desconhece tudo o que  negativo e toda e qualquer negao; nele as contradies coincidem. Por esse motivo, no conhece sua prpria morte, 
pois a isso s podemos dar um contedo negativo. Assim, no existe nada de instintual em ns que reaja a uma crena na morte. Talvez, inclusive, isso seja o segredo 
do herosmo. Os fundamentos racionais do herosmo repousam num juzo segundo o qual a prpria vida do indivduo no pode ser to preciosa quanto certos bens abstratos 
e gerais. Em minha opinio, porm,  muito mais freqente o herosmo instintivo e impulsivo que desconhece tais razes e zomba do perigo, no mesmo esprito do Steinklopferhans 
de Anzengruber: 'Nada pode acontecer a mim.' Ou ento, aquelas razes servem apenas para dissipar as hesitaes que poderiam tolher a reao herica que corresponde 
ao inconsciente. O medo da morte, que nos domina com mais freqncia do que pensamos, , por outro lado, algo secundrio e, via de regra, o resultado de um sentimento 
de culpa.
         Por outro lado, admitimos a morte para estranhos e inimigos, destinando-os a ela to prontamente e to sem hesitao quanto o homem primitivo. Aqui,  verdade, 
h uma distino que ser declarada decisiva no que diz respeito  vida real. Nosso inconsciente no executa o ato de matar; ele simplesmente o pensa e o deseja. 
Mas seria completamente errado subestimar essa realidade psquica quando posta em confronto com a realidade factual. Ela  bastante importante e grave. Em nossos 
impulsos inconscientes, diariamente e a todas as horas, nos livramos de algum que nos atrapalha, de algum que nos ofendeu ou nos prejudicou. A expresso 'Que o 
Diabo o carregue!', que tantas vezes o aflora aos lbios das pessoas em tom de brincadeira e que, na realidade, significa 'Que a morte o carregue!',  em nosso inconsciente 
um srio e poderoso desejo de morte. De fato, nosso inconsciente assassinar at mesmo por motivos insignificantes; como o antigo ateniense de Drcon, ele no conhece 
outra punio para o crime a no ser a morte. E isso mostra certa coerncia, j que cada agravo a nosso ego todo-poderoso e autocrtico , no fundo, um crime de 
lesa-majestade.
         Destarte, caso sejamos julgados por nossos impulsos inconscientes impregnados de desejo, ns prprios seremos, como o homem primevo, uma malta de assassinos. 
Ainda bem que nem todos esses desejos possuem a potncia que lhes era atribuda nos tempos primevos; no fogo cruzado dos vituprios mtuos, a humanidade de h muito 
teria peredido, e com ela os melhores e mais sbios homens, e as mais formosas e belas mulheres.
         Em geral, a psicanlise no encontra crdito entre os leigos para afirmaes como essas. Rejeitam-nas como calnias que so refutadas pela experincia consciente, 
e prontamente desprezam os fracos indcios pelos quais at mesmo o inconsciente est inclinado a trair-se  conscincia. , portanto, pertinente ressaltar que muitos 
pensadores, que no poderiam ter sido influenciados pela psicanlise, acusaram de modo muito bem definido nossos pensamentos no-expressos de estarem prontos, no 
obstante a proibio contra o assassinato, para livrar-se de qualquer coisa que nos atrapalha. Dentre os muitos exemplos desse tipo escolherei um que se tornou famoso:
         Em Le Pre Gariot, Balzac faz aluso a um trecho das obras de J. J. Rousseau onde o escritor pergunta ao leitor o que ele faria se - sem deixar Paris e, 
obviamente, sem ser descoberto - pudesse matar, com grande lucro para si, um velho mandarim em Pequim por um mero ato de vontade. Rousseau d a entender que no 
daria grande coisa pela vida daquele dignitrio. 'Tuer son mandarim' tornou-se uma frase proverbial para essa disposio secreta, presente inclusive no homem moderno.
         Existe tambm grande nmero de chistes e anedotas cnicas que revelam a mesma tendncia - como, por exemplo, as palavras atribudas a um marido: 'Se um 
de ns dois morrer, eu me mudarei para Paris.' Esses chistes cnicos no seriam possveis a menos que encerrassem uma verdade no reconhecida que no poderia ser 
admitida se fosse expressa seriamente e sem disfarce. At mesmo na brincadeira - coisa bem sabida - pode-se dizer a verdade.
         Da mesma forma que para o homem primevo, tambm para nosso inconsciente h um caso em que as duas atitudes opostas para com a morte, aquela que a reconhece 
como sendo a extino da vida, e aquela que a nega porque irreal, se chocam e entram em conflito. Esse caso  idntico ao das eras primevas: a morte, ou o risco 
de morte, de algum que amamos, pai ou me, esposo ou esposa, irmo ou irm, filho ou amigo dileto. Esses seres amados constituem, por um lado, uma posse interna, 
componentes de nosso prprio ego; por outro, contudo, so parcialmente estranhos, at mesmo inimigos.  exceo de apenas pouqussimas situaes, adere  mais terna 
e  mais ntima de nossas relaes amorosas uma pequena parcela de hostilidade que pode excitar um desejo de morte inconsciente. No entanto, esse conflito devido 
 ambivalncia no conduz agora, como o fazia ento,  doutrina da alma e  tica, mas  neurose, que nos proporciona uma profunda compreenso interna (insight) 
tambm da vida mental normal. No poucas vezes mdicos que praticam a psicanlise tiveram de lidar com o sintoma de uma preocupao exagerada pelo bem-estar de parentes, 
ou com auto-recriminaes inteiramente infundadas aps a morte de uma pessoa amada. O estudo de tais fenmenos no deixou qualquer dvida quanto  extenso e  importncia 
dos desejos de morte inconscientes. 
         O leigo sente um horror extraordinrio diante da possibilidade de tais sentimentos e toma essa averso como legtimo fundamento para descrer das asseres 
da psicanlise. Erroneamente, penso eu. No se pretende aqui uma depreciao dos sentimentos de amor, depreciao que de fato no existe. Realmente,  estranho tanto 
 nossa inteligncia quanto a nossos sentimentos aliar assim o amor ao dio; mas a Natureza, fazendo uso desse par de opostos, consegue manter o amor sempre vigilante 
e renovado, a fim de proteg-lo contra o dio que jaz,  espreita, por detrs dele. Poder-se-ia dizer que devemos as mais belas floraes de nosso amor  reao 
contra o impulso hostil que sentimos dentro de ns.
         Em suma: nosso inconsciente  to inacessvel  idia de nossa prpria morte, to inclinado ao assassinato em relao a estranhos, to dividido (isto , 
ambivalente) para com aqueles que amamos, como era o homem primevo. Contudo, como nos distanciamos desse estado primevo em nossa atitude convencional e cultural 
para com a morte!
          fcil ver como a guerra se choca com essa dicotomia. Ela nos despoja dos acrscimos ulteriores da civilizao e pe a nu o homem primevo que existe em 
cada um de ns. Compele-nos mais uma vez a sermos heris que no podem crer em sua prpria morte; estigmatiza os estranhos como inimigos, cuja morte deve ser provocada 
ou desejada; diz-nos que desprezemos a morte daqueles que amamos. A guerra, porm, no pode ser abolida; enquanto as condies de existncia entre as naes continuarem 
to diferentes e sua repulsa mtua to violenta, sempre haver guerras.  ento que surge a pergunta: No somos ns que devemos ceder, que nos devemos adaptar  
guerra? No devemos confessar que em nossa atitude civilizada para com a morte estamos mais uma vez vivendo psicologicamente acima de nossos meios, e no devemos, 
antes, voltar atrs e reconhecer a verdade? No seria melhor dar  morte o lugar na realidade e em nossos pensamentos que lhe  devido, e dar um pouco mais de proeminncia 
 atitude inconsciente para com a morte, que, at agora, to cuidadosamente suprimimos? Isso dificilmente parece um progresso no sentido de uma realizao mais elevada, 
mas antes, sob certos aspectos, um passo atrs - uma regresso; mas tem a vantagem de levar mais em conta a verdade e de novamente tornar a vida mais tolervel para 
ns. Tolerar a vida continua a ser, afinal de contas, o primeiro dever de todos os seres vivos. A iluso perder todo o seu valor, se tornar isso mais difcil para 
ns.
         Lembramo-nos do velho ditado: Si vis pacem, para bellum. Se queres preservar a paz, prepara-te para a guerra.
         Estaria de acordo com o tempo em que vivemos alter-lo para: Si vis vitam, para mortem. Se queres suportar a vida, preparar-te para a morte.
         
         APNDICE: CARTA A FREDERIK VAN EEDEN
         
         [Esta carta foi escrita por Freud no fim de 1914, alguns meses depois de deflagrada a Primeira Guerra Mundial e alguns meses antes da elaborao de suas 
'Reflexes para os Tempos de Guerra e Morte.' Van Eeden, a quem a carta foi endereada, era um psicopatologista holands, mais conhecido, contudo, como homem de 
letras. Embora velho conhecido de Freud, nunca aceitou seus conceitos. A carta foi publicada pela primeira vez em alemo por Van Eeden num semanrio de Amsterdam, 
De Amsterdammer, a 17 de janeiro de 1915 (N 1960, pg. 3). Parece que at agora no foi reimpressa em alemo. Uma traduo para o ingls est includa no segundo 
volume da vida de Freud escrita pelo Dr. Ernest Jones (1955, 413), e a verso que se segue  a mesma, exceto algumas mudanas verbais.]
         Viena, 28 de dezembro de 1914.
         Prezado Dr. Van Eeden,
         Aventuro-me, sob o impacto da guerra, a lembrar-lhe duas teses formuladas pela psicanlise e que, sem dvida, contriburam para sua impopularidade.
         A psicanlise inferiu dos sonhos e das parapraxias das pessoas saudveis, bem como dos sintomas dos neurticos, que os impulsos primitivos, selvagens e 
maus da humanidade no desapareceram em qualquer de seus membros individuais, mas persistem, embora num estado reprimido, no inconsciente (para empregar nossos termos 
tcnicos) e aguardam as oportunidades para se tornarem ativos mais uma vez. Ela nos ensinou, ainda, que nosso intelecto  algo dbil e dependente, um joguete e um 
instrumento de nossos instintos e afetos, e que todos ns somos compelidos a nos comportar inteligente ou estupidamente, de acordo com as ordens de nossas atitudes 
[emocionais] e resistncias internas.
         Se, agora, o senhor observar o que est acontecendo na presente guerra - as crueldades e as injustias pelas quais as naes mais civilizadas so responsveis, 
a maneira distinta pela qual julgam suas prprias mentiras e maldades e as de seus inimigos, e a falta geral de compreenso interna (insight) que predomina -, ter 
de admitir que a psicanlise tem estado certa em ambas as suas teses.
         Talvez ela no tenha sido inteiramente original nisso; no poucos pensadores e estudiosos da humanidade fizeram afirmaes semelhantes. Nossa cincia, porm, 
as elaborou detalhadamente e as empregou a fim de lanar luz sobre muitos enigmas psicolgicos.
         Espero que venhamos a nos encontrar em tempos mais felizes.
         Seu, sinceramente,
         Sigm. Freud
         
         
         
         















SOBRE A TRANSITORIEDADE (1916 [1915])
         
         VERGNGLICHKEIT
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1916 Em Das Land Goethes 1914-1916. Stuttgart: Deutsche Verlagsanstalt. Pg. 37-8.
         1926 Almlanach 1927, 39-42.
         1928 G.S., 11, 291-4.
         1946 G.W., 10, 358-61.
         (b) TRADUO INGLESA:
               'On Transience'
         1942 Int. J. Psycho-Anal., 23 (2), 84-5. (Trad. de James Strachey.)
         1950 C.P., 5, 79-82. (Mesmo tradutor.)
         A presente traduo inglesa  uma reimpresso ligeiramente alterada da que foi publicada em 1950.
         Este ensaio foi escrito em novembro de 1915, a convite da Berliner Goetherbund (Sociedade Goethe de Berlim) para um volume comemorativo lanado no ano seguinte 
sob o ttulo de Das Land Goethes (O Pas de Goethe). Esse volume, produzido com esmero, enfeixava grande nmero de contribuies de autores e artistas conhecidos, 
passados e atuais, como von Blow, von Brentano, Ricardo Huch, Hauptmann e Liebermann. O original alemo (exceto o quadro que apresenta dos sentimetnos de Freud 
sobre a guerra, que estava ento em seu segundo ano) constitui excelente prova de seus poderes literrios.  interessante notar que o ensaio abrange um enunciado 
da teoria do luto contido em 'Luto e Melancolia' (1971e), que Freud escrevera alguns meses antes, mas que s foi publicado dois anos depois.
         
         SOBRE A TRANSITORIEDADE
         
         No faz muito tempo empreendi, num dia de vero, uma caminhada atravs de campos sorridentes na companhia de um amigo taciturno e de um poeta jovem mas 
j famoso. O poeta admirava a beleza do cenrio  nossa volta, mas no extraa disso qualquer alegria. Perturbava-o o pensamento de que toda aquela beleza estava 
fadada  extino, de que desapareceria quando sobreviesse o inverno, como toda a beleza humana e toda a beleza e esplendor que os homens criaram ou podero criar. 
Tudo aquilo que, em outra circunstncia, ele teria amado e admirado, pareceu-lhe despojado de seu valor por estar fadado  transitoriedade.
         A propenso de tudo que  belo e perfeito  decadncia, pode, como sabemos, dar margem a dois impulsos diferentes na mente. Um leva ao penoso desalento 
sentido pelo jovem poeta, ao passo que o outro conduz  rebelio contra o fato consumado. No!  impossvel que toda essa beleza da Natureza e da Arte, do mundo 
de nossas sensaes e do mundo externo, realmente venha a se desfazer em nada. Seria por demais insensato, por demais pretensioso acreditar nisso. De uma maneira 
ou de outra essa beleza deve ser capaz de persistir e de escapar a todos os poderes de destruio.
         Mas essa exigncia de imortalidade, por ser to obviamente um produto dos nossos desejos, no pode reivindicar seu direito  realidade; o que  penoso pode, 
no obstante, ser verdadeiro. No vi como discutir a transitoriedade de todas as coisas, nem pude insistir numa exceo em favor do que  belo e perfeito. No deixei, 
porm, de discutir o ponto de vista pessimista do poeta de que a transitoriedade do que  belo implica uma perda de seu valor.
         Pelo contrrio, implica um aumento! O valor da transitoriedade  o valor da escassez no tempo. A limitao da possibilidade de uma fruio eleva o valor 
dessa fruio. Era incompreensvel, declarei, que o pensamento sobre a transitoriedade da beleza interferisse na alegria que dela derivamos. Quanto  beleza da Natureza, 
cada vez que  destruda pelo inverno, retorna no ano seguinte, do modo que, em relao  durao de nossas vidas, ela pode de fato ser considerada eterna. A beleza 
da forma e da face humana desaparece para sempre no decorrer de nossas prprias vidas; sua evanescncia, porm, apenas lhes empresta renovado encanto. Um flor que 
dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela. Tampouco posso compreender melhor por que a beleza e a perfeio de uma obra de arte ou de uma realizao 
intelectual deveriam perder seu valor devido  sua limitao temporal. Realmente, talvez chegue o dia em que os quadros e esttuas que hoje admiramos venham a ficar 
reduzidos a p, ou que nos possa suceder uma raa de homens que venha a no mais compreender as obras de nossos poetas e pensadores, ou talvez at mesmo sobrevenha 
uma era geolgica na qual cesse toda vida animada sobre a Terra; visto, contudo, que o valor de toda essa beleza e perfeio  determinado somente por sua significao 
para nossa prpria vida emocional, no precisa sobreviver a ns, independendo, portanto, da durao absoluta.
         Essas consideraes me pareceram incontestveis, mas observei que no causara impresso quer no poeta quer em meu amigo. Meu fracasso levou-me a inferir 
que algum fator emocional poderoso se achava em ao, perturbando-lhes o discernimento, e acreditei, depois, ter descoberto o que era. O que lhes estragou a fruio 
da beleza deve ter sido uma revolta em suas mentes contra o luto. A idia de que toda essa beleza era transitria comunicou a esses dois espritos sensveis uma 
antecipao de luto pela morte dessa mesma beleza; e, como a mente instintivamente recua de algo que  penoso, sentiram que em sua fruio de beleza interferiam 
pensamentos sobre sua transitoriedade.
         O luto pela perda de algo que amamos ou admiramos se afigura to natural ao leigo, que ele o considera evidente por si mesmo. Para os psiclogos, porm, 
o luto constitui um grande enigma, um daqueles fenmenos que por si ss no podem ser explicados, mas a partir dos quais podem ser rastreadas outras obscuridades. 
Possumos, segundo parece, certa dose de capacidade para o amor - que denominamos de libido - que nas etapas iniciais do desenvolvimento  dirigido no sentido de 
nosso prprio ego. Depois, embora ainda numa poca muito inicial, essa libido  desviada do ego para objetos, que so assim, num certo sentido, levados para nosso 
ego. Se os objetos forem destrudos ou se ficarem perdidos para ns, nossa capacidade para o amor (nossa libido) ser mais uma vez liberada e poder ento ou substitu-los 
por outros objetos ou retornar temporariamente ao ego. Mas permanece um mistrio para ns o motivo pelo qual esse desligamento da libido de seus objetos deve constituir 
um processo to penoso, at agora no fomos capazes de formular qualquer hiptese para explic-lo. Vemos apenas que a libido se apega a seus objetos e no renuncia 
queles que se perderam, mesmo quando um substituto se acha bem  mo. Assim  o luto.
         Minha palestra com o poeta ocorreu no vero antes da guerra. Um ano depois, irrompeu o conflito que lhe subtraiu o mundo de suas belezas. No s destruiu 
a beleza dos campos que atravessava e as obras de arte que encontrava em seu caminho, como tambm destroou nosso orgulho pelas realizaes de nossa civilizao, 
nossa admirao por numerosos filsofos e artistas, e nossas esperanas quanto a um triunfo final sobre as divergncias entre as naes e as raas. Maculou a elevada 
imparcialidade da nossa cincia, revelou nossos instintos em toda a sua nudez e soltou de dentro de ns os maus espritos que julgvamos terem sido domados para 
sempre, por sculos de ininterrupta educao pelas mais nobres mentes. Amesquinhou mais uma vez nosso pas e tornou o resto do mundo bastante remoto. Roubou-nos 
do muito que amramos e mostrou-nos quo efmeras eram inmeras coisas que considerramos imutveis.
         No pode surpreender-nos o fato de que nossa libido, assim privada de tantos dos seus objetos, se tenha apegado com intensidade ainda maior ao que nos sobrou, 
que o amor pela nossa ptria, nossa afeio pelos que se acham mais prximos de ns e nosso orgulho pelo que nos  comum, subitamente se tenham tornado mais vigorosos. 
Contudo, ser que aqueles outros bens, que agora perdemos, realmente deixaram de ter qualquer valor para ns por se revelarem to perecveis e to sem resistncia? 
Isso parece ser o caso de muitos de ns; s que, na minha opinio, mais uma vez, erradamente. Creio que aqueles que pensam assim, de e parecem prontos a aceitar 
uma renncia permanente porque o que era precioso revelou no ser duradouro, encontram-se simplesmente num estado de luto pelo que se perdeu. O luto, como sabemos, 
por mais doloroso que possa ser, chega a um fim espontneo. Quando renunciou a tudo que foi perdido, ento consumiu-se a si prprio, e nossa libido fica mais uma 
vez livre (enquanto ainda formos jovens e ativos) para substituir os objetos perdidos por novos igualmente, ou ainda mais, preciosos.  de esperar que isso tambm 
seja verdade em relao s perdas causadas pela presente guerra. Quando o luto tiver terminado, verificar-se- que o alto conceito em que tnhamos as riquezas da 
civilizao nada perdeu com a descoberta de sua fragilidade. Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, e talvez em terreno mais firme e de forma mais duradoura 
do que antes.
         
         












ALGUNS TIPOS DE CARTER ENCONTRADOS NO TRABALHO PSICANALTICO
         
         
         EINIGE CHARAKTERTYPEN AUS DERPSYCHOANALYTISCHEN ARBEIT
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1916 Imago, 4 (6), 317-336.
         1918 S.K.S.N., 4, 521-552. (1922. 2 ed.)
         1924 G.S., 10, 287-314.
         1924 Dichtung und Kunst, 59-86.
         1925 Almanach 1926, 21-6. (Somente a Seo I.)
         1936 Psychoan. Pdagog., 9, 193-4. (Somente a Seo III.)
         1946 G.W., 10, 364-391.
         (b) TRADUO INGLESA:
         [Some Character-Types Met with in Psycho-Analytic Work]
         1925  C.P., 4, 318-344. (Trad. E. C. Mayne.)
         A presente traduo inglesa baseia-se na que foi publicada em 1925.
         Estes trs ensaios foram publicados no ltimo nmero de Imago referente ao ano de 1916. O terceiro deles, embora o mais curto, provocou tantas repercusses 
quanto qualquer dos escritos no mdicos de Freud, pois lanou uma luz inteiramente nova sobre os problemas da psicologia do crime.
         Trechos da traduo deste trabalho publicados em 1925 foram includos em A General Selection from the Works of Sigmund Freud, de Rickman (1937, 111-17).
         
         ALGUNS TIPOS DE CARTER ENCONTRADOS NO TRABALHO PSICANALTICO
         
         Quando um mdico empreende o tratamento psicanaltico de um neurtico, seu interesse no se dirige de modo algum em primeiro lugar para o carter do paciente. 
Prefere saber o que significam os sintomas, quais os impulsos instintuais ocultos por detrs deles e por eles satisfeitos, e qual o curso seguido pelo caminho misterioso 
que conduziu dos desejos instintuais aos sintomas. Contudo, a tcnica que ele  obrigado a seguir logo o compele a dirigir sua curiosidade imediata para outros objetivos. 
Observa que sua investigao se acha ameaada por resistncias erguidas contra ele pelo paciente, podendo o mdico, com razo, encarar essas resistncias como parte 
do carter do paciente. Isso passa a adquirir a prioridade de seu interesse.
         O que se ope aos esforos do mdico nem sempre so os traos de carter que o paciente reconhece em si mesmo e que lhe so atribudos por pessoas que o 
cercam. As peculiaridades que parecera possuir apenas em grau modesto so com freqncia trazidas  luz com intensidade surpreendentemente maior, ou ento nele se 
revelam atitudes que no tinham sido denunciadas em outras relaes da vida. As pginas que se seguem sero dedicadas a descrever e a rastrear alguns desses surpreendentes 
traos de carter.
         
         I - AS EXCEES 
         
         O trabalho psicanaltico continuamente se defronta com a tarefa de induzir o paciente a renunciar a uma dose imediata e diretamente atingvel de prazer. 
No se pede a ele que renuncie a todo prazer; talvez no se possa esperar isso de nenhum ser humano, e at mesmo a religio  obrigada a apoiar sua exigncia de 
que o prazer terreno seja posto de lado prometendo proporcionar em seu lugar uma quantidade incomparavelmente maior de um prazer superior no outro mundo. No, apenas 
se pede ao paciente que renuncie s satisfaes que inevitavelmente traro conseqncias prejudiciais. Sua privao deve ser apenas temporria; ele s tem de aprender 
a trocar uma dose imediata de prazer por uma mais segura, ainda que adiada. Ou, em outras palavras, sob a orientao do mdico, pede-se a ele que avance do princpio 
do prazer para o princpio da realidade pelo qual o ser humano maduro se distingue de uma criana. Nesse processo educativo, dificilmente se pode dizer que a compreenso 
interna (insight) mais ntida do mdico desempenha um papel decisivo; via de regra, ele s poderia dizer a seu paciente o que a prpria razo deste pode dizer-lhe. 
Mas saber uma coisa em nossa prpria mente no  o mesmo que ouvi-la de algum de fora. O mdico desempenha o papel eficaz estranho; faz uso da influncia que um 
ser humano exerce sobre outro. Ou - recordando que  hbito da psicanlise substituir o que  derivado e estiolado pelo que  original e bsico - digamos que o mdico, 
em seu trabalho educativo, faz uso de um dos componentes do amor. Nesse trabalho de educao posterior, provavelmente nada mais faz do que repetir o processo que, 
de incio, tornou possvel qualquer espcie de educao. Lado a lado com as exigncias da vida, o amor  o grande educador, e  pelo amor daqueles que se encontram 
mais prximos dele que o ser humano incompleto  induzido a respeitar os ditames da necessidade e a poupar-se do castigo que sobrevm a qualquer infrao dos mesmos.
         Quando, dessa maneira, pedimos ao paciente que renuncie provisoriamente a alguma satisfao agradvel, que faa um sacrifcio, que se mostre disposto a 
aceitar um sofrimento temporrio a fim de chegar a um resultado melhor, ou mesmo, simplesmente, que se decida a se submeter a uma necessidade que se aplica a todos, 
encontramos indivduos que resistem a esse apelo por um motivo especial. Dizem que j renunciaram bastante e j sofreram bastante e tm direito de ser poupados de 
quaisquer outras exigncias; no se submetero mais a qualquer necessidade desagradvel, pois so excees e, alm disso, pretendem continuar assim. Nesse tipo de 
paciente essa reivindicao se transforma na convico de que uma providncia especial vela por ele, protegendo-o de quaisquer sacrifcios penosos dessa natureza. 
Os argumentos do mdico nada conseguem contra uma confiana interna que se expressa de forma to vigorosa quanto esta; mesmo a influncia dele, na realidade,  inicialmente 
impotente, ficando evidente para ele que deve descobrir as fontes das quais essa preveno prejudicial se alimenta.
         Ora, sem dvida  verdade que cada um gostaria de se considerar uma 'exceo' e reivindicar privilgios em relao aos demais. Mas, precisamente por causa 
disso, deve haver uma razo especfica, e no universalmente presente, para que algum realmente se proclame uma exceo e se comporte como tal. Essa razo pode 
ser de mais de uma natureza; nos casos que investiguei, consegui descobrir uma peculiaridade comum s experincias mais antigas das vidas desses pacientes. Suas 
neuroses se ligavam a alguma experincia ou sofrimento a que estiveram sujeitos em sua primeira infncia, e em relao aos quais eles prprios sabiam no ter culpa, 
podendo encar-los como sendo uma desvantagem injusta a eles imposta. Os privilgios que reclamavam como resultado dessa injustia, e a rebeldia que ela engendrava, 
contriburam, e no em pequena dose, para intensificar os conflitos que levaram  irrupo de sua neurose. Num desses pacientes, uma mulher, a atitude para com a 
vida, ora objeto de seu exame, chegou ao mximo quando ela soube que uma perturbao dolorosa, de ordem orgnica, que a havia impedido de alcanar seus objetivos 
na vida, era de origem congnita. Enquanto considerou esse mal como uma aquisio acidental e tardia, suportou-o pacientemente; to logo, porm, verificou ser ele 
parte de uma herana inata, tornou-se rebelde. Um jovem que se acreditava velado por uma providncia especial, em sua infncia fora vtima de uma infeco acidental 
provocada por sua ama-de-leite, e depois passou toda a sua vida fazendo reivindicaes de compensao, uma penso por acidente, por assim dizer, sem ter qualquer 
idia que servisse de base para essas alegaes. Nesse caso, a anlise que construiu esse fato a partir de resduos mnmicos obscuros e de interpretaes dos sintomas, 
foi confirmada objetivamente por informaes prestadas pela famlia.
         Por motivos que sero facilmente compreendidos, no posso alongar-me muito sobre essas e outras anamneses, nem me proponho penetrar na evidente analogia 
entre deformaes de carter resultantes de uma prolongada doena na infncia e o comportamento de naes inteiras cuja histria passada foi cheia de sofrimentos. 
Em vez disso, contudo, aproveitarei a oportunidade para chamar a ateno para uma figura criada pelo maior dos poetas - uma figura em cujo carter a reivindicao 
 exceo se mostra estreitamente vinculada  circunstncia de uma desvantagem congnita, sendo por ela motivada.
         No monlogo inicial de Ricardo III, de Shakespeare, Gloucester, que depois vem a ser Rei, diz
         Mas eu, que no fui talhado para habilidades esportivas, nem para cortejar um espelho amoroso; que, grosseiramente feito e sem a majestade do amor para 
pavonear-me diante de uma ninfa de lascivos meneios; eu, privado dessa bela proporo, desprovido de todo encanto pela prfida natureza; disforme, inacabado, enviado 
por ela antes do tempo para este mundo dos vivos; terminado pela metade e isso to imperfeitamente e fora de moda que os ces ladram para mim quando paro perto deles;
                                                          * * *
         E assim, j que no posso mostrar-me como amante, para entreter estes belos dias da galanteria, resolvi portar-me como vilo e odiar os frvolos prazeres 
deste tempo.
          primeira vista, essa investida talvez d a impresso de no estar relacionada a nosso presente tema. Ricardo parece nada dizer alm de: 'Considero tediosos 
esses tempos frvolos, e quero divertir-me. Como no posso desempenhar o papel de amante por causa da minha deformidade, serei o vilo; conspirarei, assassinarei 
e farei tudo o que quiser. Essa motivao frvola s sufocaria qualquer sentimento de simpatia no auditrio, se no fosse um pano de fundo para algo mais grave. 
Do contrrio, a pea seria psicologicamente impossvel, pois o escritor deve saber como nos fornecer antecedentes secretos que despertem simpatia pelo seu heri, 
a fim de que possamos admirar sua ousadia e desembarao sem protesto interior; e essa simpatia s pode basear-se na compreenso ou no sentimento de uma possvel 
solidariedade interior em relao a ele.
         Penso, portanto, que o monlogo de Ricardo no diz tudo, dando meramente uma sugesto, e deixando que preenchamos o que ele sugere. Quando o fazemos, contudo, 
a aparncia de frivolidade desaparece, a amargura e a minudncia com que Ricardo retratou sua deformidade exercem todo o seu efeito, e percebemos claramente o sentimento 
de solidariedade que compele nossa simpatia mesmo para com um vilo como ele. Assim, o que o monlogo significa : 'A Natureza me causou um doloroso mal ao negar-me 
a beleza das formas que conquista o amor humano. A vida me deve uma reparao por isso, e farei tudo para consegui-la. Tenho o direito de ser uma exceo, de desprezar 
os escrpulos pelos quais os outros se deixam tolher. Posso fazer o mal, j que a mim foi feito mal.' Agora, sentimos que ns mesmos poderamos ficar como Ricardo; 
que em pequena escala, realmente, j somos como ele. Ricardo  uma enorme ampliao de algo que encontramos em ns mesmos. Todos ns pensamos que temos motivo para 
repreender a Natureza e o nosso destino por desvantagens congnitas e infantis; todos exigimos reparao por antigos ferimentos ao nosso narcisismo, ao nosso amor-prprio. 
Por que a Natureza no nos deu os cachos dourados de Balder ou a fora de Siegfried, ou a expresso altaneira do gnio, ou o nobre perfil de aristocracia? Por que 
nascemos num lar de classe mdia e no num palcio real? Poderamos exibir beleza e distino to bem quanto qualquer um daqueles em quem agora somos obrigados a 
invejar essas qualidades.
         Constitui, contudo, uma sutil economia de arte no poeta no permitir a seu heri exprimir franca e completamente todos os seus motivos secretos. Por esse 
meio, obriga-nos a suplement-los; ele ocupa nossa atividade intelectual, desvia-a da reflexo crtica e nos mantm firmemente identificados com seu heri. Um indivduo 
canhestro, em seu lugar, daria expresso consciente a tudo que desejasse revelar-nos, e ento se depararia com nossa inteligncia fria e sem entraves, que impediria 
qualquer aprofundamento da iluso.
         Antes de deixarmos as 'excees', contudo, podemos ressaltar que a reivindicao das mulheres a privilgios e  iseno de tantas das importunidades da 
vida repousa na mesma base. Conforme aprendemos pelo trabalho psicanaltico, as mulheres se consideram como tendo sido prejudicadas na infncia, como tendo sido 
imerecidamente privadas de algo e injustamente tratadas; e a amargura de tantas filhas contra suas mes provm, em ltima anlise, da censura contra estas por as 
terem trazido ao mundo como mulheres e no como homens.
         
         II - OS ARRUINADOS PELO XITO
         
         O trabalho psicanaltico proporcionou-nos a tese segundo a qual as pessoas adoecem de neurose como resultado de frustrao. Referimo-nos  frustrao da 
satisfao de seus desejos libidinais, fazendo-se necessria uma digresso a fim de tornarmos a tese inteligvel. Para que uma neurose seja gerada, deve haver um 
conflito entre os desejos libidinais de uma pessoa e a parte de sua personalidade que denominamos de ego, que  a expresso do seu instinto de autopreservao e 
que tambm abrange os ideais de sua personalidade. Um conflito patognico dessa espcie s ocorre quando a libido tenta seguir caminhos e objetivos que o ego de 
h muito superou e condenou e, portanto, proibiu para sempre, e isso a libido s faz se for privada da possibilidade de uma satisfao ego-sintnica ideal. Por isso, 
a privao, a frustrao de uma satisfao real,  a primeira condio para a gerao de uma neurose, embora, na verdade, esteja longe de ser a nica.
         Parece ainda mais surpreendente, e na realidade atordoante, quando, na qualidade de mdico, se faz a descoberta de que as pessoas ocasionalmente adoecem 
precisamente no momento em que um desejo profundamente enraizado e de h muito alimentado atinge a realizao. Ento,  como se elas no fossem capazes de tolerar 
sua felicidade, pois no pode haver dvida de que existe uma ligao causal entre seu xito e o fato de adoecerem.
         Tive oportunidade de obter uma compreenso interna (insight) da anamnese de uma mulher, que me proponho descrever como algo tpico dessas ocorrncias trgicas. 
Era bem nascida e bem educada; no entanto, ainda muito jovem, no pde conter seu gosto de viver; fugiu de casa e perambulou pelo mundo em busca de aventuras, at 
travar conhecimento com um pintor, que no s pde apreciar seus encantos femininos mas tambm captar, apesar de sua degradao, as qualidades mais requintadas que 
ela possua. Levou-a para viver com ele e ela provou ser uma companheira fiel, parecendo apenas carecer de reabilitao social para alcanar uma felicidade completa. 
Aps muitos anos de vida em comum, o pintor conseguiu fazer com que a famlia dele se reconciliasse com ela; estava ento preparado para torn-la sua esposa legtima. 
Foi nesse momento que ela comeou a desmoronar. Descuidou da casa da qual agora estava prestes a tornar-se dona por direito; imaginou-se perseguida pelos parentes 
dele, que desejavam faz-la parte da famlia; proibiu ao amante, com seu cime insensato, todo contato social; prejudicou-o em seu trabalho artstico, e logo sucumbiu 
a uma doena mental incurvel.
         Em outra ocasio, defrontei-me com o caso de um respeitvel senhor, professor universitrio, que nutria havia muitos anos o desejo natural de ser o sucessor 
do mestre que o iniciara nos estudos. Quando esse professor mais antigo se aposentou e os colegas informaram ao pretendente que ele fora escolhido para substitu-lo, 
comeou a hesitar, depreciou seus mritos, declarou-se indigno de preencher o cargo para o qual fora designado, e caiu numa melancolia que o deixou incapaz de toda 
e qualquer atividade durante vrios anos.
         No obstante esses dois casos serem diferentes sob outros aspectos, existe uma concordncia no seguinte ponto: a doena seguiu de perto a realizao de 
um desejo e ps termo a toda fruio do mesmo.
         A contradio entre tais experincias e a norma segundo a qual aquilo que induz  doena  a frustrao no  insolvel. Desaparecer se estabelecermos 
uma distino entre uma frustrao externa e uma interna. Se o objeto no qual a libido pode encontrar sua satisfao est contido na realidade, isso constitui uma 
frustrao externa. Em si, ela  inoperante, no patognica, at que uma frustrao interna se junte a ela. Esta ltima deve provir do ego, e deve disputar o acesso 
da libido a outros objetos, objetos estes que agora a libido procura apreender. S ento surgem um conflito e a possibilidade de uma doena neurtica, isto , de 
uma satisfao substitutiva alcanada indiretamente por meio do inconsciente reprimido. Por conseguinte, a frustrao interna est potencialmente presente em todos 
os casos, s que no entra em ao at que a frustrao externa real tenha preparado o terreno para ela. Nos casos excepcionais em que as pessoas adoecem por causa 
do xito, a frustrao interna atua por si mesma; na realidade, s surge depois que uma frustrao externa foi substituda por realizao de um desejo.  primeira 
vista, h algo de estranho nisso, mas, por ocasio de um exame mais detido, refletiremos que no  absolutamente incomum para o ego tolerar um desejo to inofensivo 
na medida em que ele s existe na fantasia e cuja realizao parece distante; pelo contrrio, porm, o ego se defender ardentemente contra esse desejo to logo 
este se aproxime da realizao e ameace tornar-se uma realidade. A distino entre isso e as situaes comuns na formao da neurose consiste meramente em que, via 
de regra, so as intensificaes internas da catexia libidinal que transformam a fantasia, at ento merecedora de pouca considerao e tolerada, num oponente temido, 
ao passo que nesses casos o sinal para a irrupo do conflito  dado por uma mudana externa real.
         O trabalho analtico no encontra dificuldade alguma em demonstrar que so as foras da conscincia que probem ao indivduo obter a to almejada vantagem 
proveniente da feliz mudana da realidade. Constitui tarefa difcil, contudo, descobrir a essncia e a origem dessas tendncias julgadoras e punitivas, cuja existncia, 
onde no esperamos encontr-las, tantas vezes nos surpreende. Pelas razes habituais, no examinarei o que sabemos ou conjecturamos em relao a casos de observao 
clnica, mas em relao a figuras que grandes autores criaram a partir de seu rico conhecimento da mente.
         Podemos tomar como exemplo de pessoa que sucumbe ao atingir o xito, aps lutar exclusivamente por ele com todas as suas foras, a figura de Lady Macbeth, 
criada por Shakespeare. De incio, no h qualquer hesitao, qualquer sinal de conflito interno nela, qualquer esforo seno o de vencer os escrpulos de seu ambicioso, 
embora compassivo, marido. Ela se mostra pronta a sacrificar at mesmo sua feminilidade  sua inteno assassina, sem refletir no papel decisivo que esta feminilidade 
dever desempenhar quando, posteriormente, surgir a questo de preservar a finalidade de sua ambio, alcanada atravs de um crime.
         Vinde, espritos sinistros
         Que servis aos desgnios assassinos!Dessexuai-me, enchei-me, da cabeaAos ps, da mais horrvel crueldade!
         (Ato I, Cena 5.)
         
         ...Bem conheoAs delcias de amar um tenro filhoQue se amamenta: embora! eu lhe arrancaras gengivas sem dente, ainda quandoVendo-o sorrir-se para mim, 
o bicoDe meu seio, e faria sem piedadeSaltaram-lhe os miolos, se tivesse Jurado assim fazer, como jurasteCumprir esta empreitada. (Ato I, Cena 7.)
         Apenas um leve e isolado frmito de relutncia dela se apossa antes do feito:
         ...Se no seu sono no lembrasse tantoMeu pai, t-lo-ia eu mesma apunhalado!
         (Ato II, Cena 2.)
         Ento, quando se torna Rainha pelo assassinato de Duncan, ela trai por um momento algo como um desapontamento, algo como uma desiluso. No podemos dizer 
por que razo.
         ...Tudo perdemos quando o que queramos,Obtemos sem nenhum contentamento:Mais vale ser a vtima destrudaDo que, por a destruir, destruir com elaO gosto 
de viver.
         (Ato III, Cena 2.)
         No obstante, ela se mantm firme. Na cena do banquete que se segue a essas palavras, somente ela se conserva serena, encobre o estado de confuso do marido 
e encontra um pretexto para dispensar os convivas. E ento desaparece de vista. A seguir, vmo-la na casa de sonambulismo do ltimo Ato, fixada nas impresses da 
noite do assassinato. Mais uma vez, como antes, procura incutir coragem ao marido:
         Por quem sois, meu senhor, que vergonha!Um soldado com medo?Por que havemos de recear que algum o saiba,se ningum nos pode pedir contas?
         (Ato V, Cena 1.)
         Ela ouve a pancada na porta, que apavorou o marido depois do feito. Mas ao mesmo tempo luta por 'desfazer a ao que no pode ser desfeita'. Lava as mos, 
manchadas de sangue e que cheiram a sangue, e fica cnscia da futilidade da tentativa. Ela que parecia to sem remorsos, parece ter sido abatida pelo remorso. Quando 
morre, Macbeth, que nesse meio tempo se tornou to inexorvel quanto ela no comeo, encontra apenas um breve epitfio para ela:  morta... No devia ser agora.Sempre 
seria tempo para ouvir-seEssas palavras.
         (Ato V, Cena 5.)
         E agora nos perguntamos: o que foi que quebrantou esse carter que parecia ter sido forjado do metal mais rijo? Ter sido somente a desiluso - o aspecto 
diferente revelado pelo fato consumado -, e devemos inferir que, mesmo em Lady Macbeth, uma natureza originalmente dcil e feminina foi levada a um ponto de concentrao 
e de alta tenso que no pde suportar por muito tempo, ou devemos procurar indcios de uma motivao mais profunda, que tornar essa derrocada mais humanamente 
inteligvel para ns?
         Parece-me impossvel chegar a uma deciso. Macbeth, de Shakespeare,  uma pice d'occasion, escrita para a ascenso de Jaime, at ento Rei da Esccia. 
O enredo foi feito de encomenda e j fora trabalhado por outros escritores contemporneos, de cuja obra Shakespeare provavelmente se utilizou, como costumava fazer. 
Apresentava notveis analogias com a situao real. A 'virginal' Elisabeth, de quem se dizia que jamais fora capaz de ter filhos e que certa vez se descrevera a 
si prpria como um 'tronco estril', numa angustiosa exclamao pela notcia do nascimento de Jaime, foi obrigada por essa mesma esterilidade a fazer do rei escocs 
seu sucessor. E ele era o filho de Maria Stuart, cuja execuo ela, embora relutantemente, ordenara, e que, apesar do toldamento de suas relaes por causa de preocupaes 
polticas, era no obstante do seu sangue e podia ser chamada de sua hspede.
         A ascenso de Jaime I foi como uma demonstrao da maldio da esterilidade e das bnos da gerao contnua. E a ao do Macbeth de Shakespeare baseia-se 
nesse mesmo contraste.
         As Bruxas asseguram a Macbeth que seria rei, mas a Banquo prometeram que seus filhos herdariam a coroa. Macbeth se enfurece com esse ditame do destino. 
No fica contente com a satisfao de sua prpria ambio. Deseja fundar uma dinastia - e no ter cometido assassinato em benefcio de estranhos. Esse ponto ser 
negligenciado se a pea de Shakespeare for considerada apenas como uma tragdia de ambio.  claro que Macbeth no pode viver para sempre, e assim existe apenas 
uma forma para que ele invalide a parte da profecia que lhe  desfavorvel - a saber, ter ele mesmo filhos que possam suced-lo. E ele parece esper-los de sua indomvel 
esposa:
         No concebas nuncaSeno filhos vares; tua alma indomvelO pede assim.
         (Ato I, Cena 7.)
         E  igualmente claro que, se for desapontado nessa expectativa, dever submeter-se ao destino; do contrrio, suas aes perdem toda finalidade e so transformadas 
na fria cega de algum condenado  destruio, que est resolvido a destruir de antemo tudo o que pode alcanar. Vemos Macbeth passar por esse processo, e no clmax 
da tragdia ouvimos o grito lancinante de Macduff, que com tanta freqncia  considerado ambguo e que talvez possa conter a chave da mudana em Macbeth:
         Ele no tem filhos!
         (Ato IV, Cena 3.)
         No h dvida de que isso significa: 'Somente porque ele prprio no tem filhos  que pde assassinar meus filhos.' No entanto, algo mais pode estar implcito 
nisso e, acima de tudo, poderia pr a nu o motivo mais profundo que no apenas fora Macbeth a ir muito alm de sua prpria natureza, como tambm toca no nico ponto 
fraco do carter insensvel de sua esposa. Se se examinar toda a pea, a partir do clmax assinalado pelas palavras de Macduff, ver-se- que ela est repleta de 
referncias  relao pai-filhos. O assassinato do bondoso Duncan no passa de parricdio; no caso de Banquo, Macbeth mata o pai, enquanto o filho se lhe escapa; 
e no de Macduff, ele mata os filhos porque o pai fugira dele. Uma criana ensangentada e a seguir uma coroada lhe so mostradas pelas Bruxas na cena da apario; 
a cabea armada que  vista antes sem dvida  o prprio Macbeth. Mas no segundo plano ergue-se a forma sinistra do vingador, Macduff, ele prprio uma exceo s 
leis da gerao, visto que no nasceu de sua me mas foi arrancado de seu ventre.
         Seria um exemplo perfeito de justia potica  maneira de talio se a ausncia de filhos de Macbeth e a infecundidade de sua Lady fossem o castigo pelos 
seus crimes contra a santidade da gerao - se Macbeth no pudesse tornar-se pai porque roubara de um pai os filhos, e dos filhos um pai, e se Lady Macbeth sofresse 
o assexuamento que exigira dos espritos do assassinato. Creio que a doena de Lady Macbeth, a transformao de sua impiedade em penitncia, poderia ser explicada 
diretamente como uma reao  sua infecundidade, pela qual ela se convence de sua impotncia contra os ditames da natureza, sendo ao mesmo tempo lembrada de que 
foi atravs de sua prpria falta que seu crime foi roubado da melhor parte dos seus frutos.
         Na Chronicle (1577), de Holinshed, da qual Shakespeare extraiu o argumento de Macbeth, Lady Macbeth  mencionada apenas uma vez como a esposa ambiciosa 
que instiga o marido ao assassinato para que ela possa tornar-se rainha. No h meno a seu destino subseqente nem ao desenvolvimento de seu carter. Por outro 
lado, afigurar-se-ia que a transformao de Macbeth num tirano sanguinrio  atribuda aos mesmos motivos que sugerimos aqui, pois em Holinshed decorrem dez anos 
entre o assassinato de Duncan, atravs do qual Macbeth se torna rei, e suas ms aes ulteriores; e nesses dez anos ele  mostrado como um governante severo porm 
justo. S depois desse lapso de tempo  que se inicia nele a mudana, sob a influncia do medo atormentador de que a profecia a Banquo possa realizar-se, assim como 
aconteceu com a profecia de seu prprio destino. S ento  que ele engendra o assassinato de Banquo, e, como em Shakespeare,  impelido de um crime a outro. No 
 expressamente mencionado em Holinshed que foi a ausncia de filhos que o impeliu a esses caminhos, mas se d bastante tempo e espao para esse motivo plausvel. 
Isso no ocorre em Shakespeare. Os eventos nos chegam de roldo na tragdia, com pressa ofegante, de modo que, a julgar pelas declaraes de suas personagens, o 
curso de sua ao abrange cerca de uma semana. Essa acelerao retira a base de todas as nossas interpretaes dos motivos da mudana no carter de Macbeth e no 
de sua esosa. No h tempo para que um longo desapontamento quanto s suas esperanas de nascimento de filhos faa a mulher sucumbir e leve o homem a uma fria desafiadora, 
e permanece a contradio de que, apesar de tantas inter-relaes sutis no enredo, e entre este e a sua ocasio, apontarem para uma origem comum no tema da infecundidade, 
a economia de tempo na tragdia, no obstante, impede expressamente um desenvolvimento de carter oriundo de quaisquer motivos que no sejam aqueles inerentes  
prpria ao.
         Quais, contudo, teriam sido os motivos que, num to curto espao de tempo, puderam transformar o homem hesitante e ambicioso num desabrido tirano, e sua 
instigadora de corao empedernido numa mulher doente corroda pelo remorso, , na minha opinio, impossvel adivinhar. Devemos, penso eu, abandonar toda e qualquer 
esperana de penetrar na trplice camada de obscuridade em que se condensaram a m preservao do texto, a inteno desconhecida do dramaturgo e o propsito oculto 
da lenda. Mas eu no aprovaria a objeo de que investigaes como estas so vs, em face do poderoso efeito que a tragdia exerce sobre o espectador. O dramaturgo 
pode realmente, durante a representao, dominar-nos pela sua arte e paralisar nossos poderes de reflexo; mas no nos pode impedir de que, subseqentemente, tentemos 
aprender seu efeito mediante o estudo de seu mecanismo psicolgico. Nem o argumento de que um dramaturgo tem a liberdade de encurtar  vontade a cronologia natural 
dos fatos que ele apresenta diante de ns, se pelo sacrifcio da probabilidde comum ele puder realar o efeito dramtico, me parece pertinente nesse caso, pois tal 
sacrifcio s se justifica quando meramente interfere na probabilidade, e no quando rompe a relao causal; alm disso, o efeito dramtico dificilmente teria sido 
afetado se se tivesse deixado a passagem do tempo indeterminada, em vez de ficar expressamente limitada a poucos dias.
         Fica-se to pouco inclinado a abandonar um problema como o de Macbeth por consider-lo insolvel, que me aventurarei a apresentar um novo ponto, que talvez 
oferea outra sada para a dificuldade. Ludwig Jekels, num recente estudo shakesperiano, pensa ter descoberto uma tcnica particular do poeta, e isso poderia aplicar-se 
a Macbeth. Ele cr que Shakespeare muitas vezes divide um tipo em duas personagens, as quais, tomadas isoladamente, no so inteiramente compreensveis e somente 
vm a s-lo quando reunidas mais uma vez numa unidade. Macbeth e Lady Macbeth poderiam estar nesse caso. Ainda sendo, seria destitudo de fundamento consider-la 
como um tipo independente e procurar os motivos de sua modificao, sem considerar o Macbeth que a completa. No seguirei mais essa pista; no obstante, gostaria 
de ressaltar algo que confirma esse ponto de vista de maneira impressionante: os germes do medo que irrompem em Macbeth na noite do assassinato j no se desenvolvem 
nele, mas nela.  ele quem tem a alucinao do punhal antes do crime; mas  ela quem depois adoece de uma perturbao mental.  ele que aps o assassinato ouve o 
grito na casa: 'No durmas mais! Macbeth de fato trucida o sono...' e assim 'Macbeth no mais dormir', contudo, mais! ouvimos dizer que ele dormiu mais, ao passo 
que a Rainha, como vemos, ergue-se de seu leito e, falando enquanto dorme, trai sua culpa.  ele que fica desamparado com as mos cobertas de sangue, lamentando 
que 'todo o grande oceano de Netuno' no as limpar, enquanto ela o consola: 'Um pouco de gua nos limpa desta ao'; mas depois  ela que lava as mos durante um 
quarto de hora e no consegue livrar-se das manchas de sangue: 'Todas as essncias da Arbia no purificaro esta mozinha.' Assim, o que ele temia em seus tormentos 
de conscincia, se realiza nela; ela se torna toda remorso e ele, todo desafio. Juntos esgotam as possibilidades de reao ao crime, como duas partes desunidas de 
uma individualidade psquica, sendo possvel que ambos tenham sido copiados de um prottipo nico.
         Se fomos incapazes de responder por que Lady Macbeth sucumbiu aps seu xito, talvez tenhamos uma oportunidade melhor, passando  criao de outro grande 
dramaturgo, que muito parecia acompanhar, com inflexvel rigor, problemas de responsabilidade psicolgica.
         Rebecca Gamvik, filha de uma parteira, foi educada por seu pai adotivo, o Dr. West, para ser uma livre-pensadora e para desprezar as restries que uma 
moral fundamentada na crena religiosa procura impor aos desejos da vida. Aps a morte do mdico, ela encontra um emprego em Rosmersholm, o lar, por muitas geraes, 
de uma antiga famlia cujos membros desconhecem o riso e que sacrificaram a alegria ao rgido cumprimento do dever. Seus ocupantes so Johannes Rosmer, ex-pastor, 
e sua esposa invlida, a infecunda Beata. Dominada por 'uma paixo selvagem e incontrolvel' pelo amor de Rosmer, de alta linhagem, Rebecca resolve eliminar a esposa, 
que constitui um obstculo para seus planos; para tanto, faz uso da sua vontade 'impvida e livre', no restringida por quaisquer escrpulos. Arquiteta um plano 
para que Beata leia um livro de medicina, no qual a finalidade do casamento  representada como sendo a procriao, de modo que a pobre mulher comea a duvidar da 
razo de ser de seu prprio casamento. Rebecca ento d a entender que Rosmer, de cujos estudos e idias ela partilha, est prestes a abandonar a velha f e aliar-se 
ao 'grupo dos esclarecidos'; e aps ter assim abalado a confiana da esposa na integridade moral do marido, finalmente lhe d a entender que ela, Rebecca, logo abandonar 
a casa, a fim de ocultar as conseqncias de suas relaes ilcitas com Rosmer. A trama criminosa  coroada de xito. A pobre esposa, que passa por deprimida e irresponsvel, 
atira-se da estrada ao lado do moinho no aude, dominada pelo sentimento de sua prpria inutilidade e no mais desejando antepor-se entre seu amado marido e a felicidade 
dele.
         Por mais de um ano, Rebecca e Rosmer vivem sozinhos em Rosmesholm, mantendo uma relao que ele deseja considerar como uma amizade puramente intelectual 
e ideal. Mas, quando essa relao comea a ser obscurecida de fora pela primeira sombra de bisbilhotice e quando, ao mesmo tempo, surgem em Rosmer dvidas atormentadoras 
sobre os motivos que levaram a esposa a pr termo  existncia, ele suplica a Rebecca que seja sua segunda esposa, de modo a poder contrabalanar o passado infeliz 
com uma nova realidade viva (Ato II). Por um momento, ela solta uma exclamao de alegria diante de sua proposta, mas logo depois declara que isso nunca poder acontecer, 
e que, se ele continuar a insistir, ela 'seguir o mesmo caminho que Beata'. Rosmer no consegue compreender essa rejeio e muito menos ns, que conhecemos as aes 
e desgnios de Rebecca. S podemos ter certeza de uma coisa: de que seu 'no'  veemente.
         Como veio a acontecer que a aventureira dotada de vontade 'impvida e livre', que forjou implacavelmente seu caminho para a meta desejada, agora se recuse 
a colher o fruto do xito, quando este lhe  oferecido? Ela prpria nos d a explicao no quarto Ato: 'Esta  a parte terrvel de tudo isso: que agora, quando toda 
a felicidade da vida se acha ao meu alcance ... meu corao esteja mudado e meu prprio passado dela me exclua. Isto , nesse meio tempo, ela se tornou um ser diferente; 
sua conscincia despertou, ela adquiriu um sentimento de culpa que a priva de fruio.
         E o que lhe despertou a conscincia? Ouamos o que ela mesma tem a dizer, e consideremos depois se podemos acreditar nela inteiramente. 'Foi a viso rosmeriana 
da vida - ou, seja como for, sua viso da vida - que contaminou minha vontade. E a tornou doente. Escravizou-a a leis que antes no tinham qualquer poder sobre mim. 
Voc - a vida com voc - enobreceu minha mente.'
         Essa influncia, devemos ainda compreender, s se tornou efetiva a partir do momento em que ela pde viver sozinha com Rosmer. 'Na quietude...na solido...quando 
sem reservas voc me revelou todos os seus pensamentos...todos os sentimentos ternos e delicados, exatamente como lhe vinham...ento se operou a grande mudana em 
mim.'
         Pouco antes disso, ela havia lamentado o outro aspecto da mudana: 'Porque Rosmersholm minou minhas foras. Aqui, minha antiga vontade indmita teve suas 
asas cortadas. Ficou aleijada! J se foi a poca em que eu tinha coragem para tudo no mundo. Perdi o poder de ao, Rosmer.'
         Rebecca faz essa declarao aps ter-se revelado uma criminosa, numa confisso voluntria a Rosmer e ao Prior Kroll, irmo da mulher de quem se descarta. 
Ibsen deixa claro, por pequenos toques de magistral sutileza, que Rebecca na realidade no est dizendo mentiras, mas nunca  inteiramente honesta. Do mesmo modo 
que, apesar de toda a sua liberdade quanto a preconceitos, ela diminui sua idade de um ano, assim tambm sua confisso aos dois homens  incompleta, e em decorrncia 
de insistncia de Kroll  suplementada em alguns pontos importantes. Por isso, -nos permitido supor que sua explicao de sua renncia expe um motivo apenas para 
ocultar outro.
         Por certo, no temos motivos para no acreditar nela quando declara que a atmosfera de Rosmersholm e sua ligao com o brioso Rosmer a enobreceram - e a 
aleijaram. Aqui, ela expressa o que sabe e o que sentiu. Mas isso no  necessariamente tudo o que aconteceu dentro dela, nem  preciso que ela tenha compreendido 
tudo o que ocorreu. A influncia de Rosmer pode ter sido apenas um vu, que ocultou outra influncia atuante, e um notvel indcio aponta nessa outra direo.
         Mesmo aps a confisso dela, Rosmer, na ltima conversa entre os dois que encerra a pea, mais uma vez lhe suplica que seja sua esposa. Perdoa-lhe o crime 
que ela cometeu em nome do amor que sentia por ele. E agora ela no responde, como devia, perdo algum pode livr-la do sentimento de culpa em que incorreu por ter 
maldosamente enganado a pobre Beata; mas se recrimina por outra coisa que nos atinge por originar-se estranhamente dessa livre-pensadora, e est longe de merecer 
a importncia que Rebecca lhe atribui: 'Querido - nunca mais fale nisso!  impossvel! Pois voc deve saber, Rosmer, que eu tenho um... um passado.' Ela quer dizer, 
naturalmente, que teve relao sexuais com outro homem, e no deixamos de observar que essas relaes, que ocorreram numa poca em que ela era livre e no tinha 
de dar contas a ningum, lhe parecem um empecilho maior  unio com Rosmer do que seu verdadeiro comportamento criminoso para com a esposa dele.
         Rosmer recusa-se a ouvir o que quer que seja sobre esse passado. Podemos adivinhar o que foi, embora tudo que se refira a ele na pea seja, por assim dizer, 
subterrneo e tenha de ser construdo a partir de indcios e fragmentos. No obstante, trata-se de indcios inseridos com tal arte que  impossvel no compreend-los.
         Entre a primeira recusa de Rebecca e sua confisso ocorre algo que exerce influncia decisiva sobre seu futuro destino. O Prior Kroll chega um belo dia 
 casa com o fito de humilhar Rebecca, dizendo-lhe que ele sabe que ela  uma criana ilegtima, filha do prprio Dr. West que a adotou aps a morte da me dela. 
O dio lhe aguou as percepes, mas mesmo assim ele no supe que isso seja novidade para ela. 'Realmente no supunha que ignorasse isso, caso contrrio teria sido 
muito estranho que voc tivesse deixado o Dr. West adot-la...' 'E ento ele a leva para a casa dele - logo que sua me morre. Ele a trata asperamente. Mas voc 
fica com ele. Voc sabe que ele no lhe deixar um vintm - na verdade, s lhe coube uma estante com livros -, mas voc continua; voc o atura; voc cuida dele at 
o fim.'... 'Atribuo seu cuidado por ele ao natural instinto filial de uma filha. Realmente, creio que toda a sua conduta  um resultado natural da sua origem.'
         Mas Kroll est enganado. Rebecca no tinha a menor idia de que pudesse ser filha do Dr. West. Quando Kroll comeou com as sombrias aluses a seu passado, 
ela deve ter pensado que se referia a uma outra coisa. Depois de ter compreendido o que ele queria dizer, pde ainda conservar sua compostura por algum tempo, pois 
foi-lhe possvel supor que seu inimigo baseava seus clculos na idade dela, sobre a qual ela mentira, quando de uma visita anterior. Kroll, porm, arrasa essa objeo 
dizendo: 'Bem, que seja assim, mas, apesar disso, meu clculo pode estar certo, pois o Dr. West esteve l numa breve visita um ano antes de obter o cargo'. Depois 
dessa nova informao, ela perde a presena de esprito. 'No  verdade!' Anda de um lado para o outro retorcendo as mos. ' impossvel. O senhor quer induzir-me 
a acreditar nisso. Isso nunca, nunca pode ser verdade. No pode ser verdade. Jamais neste mundo!...' A agitao dela  to extrema, que Kroll no pode atribu-la 
apenas  informao dele.
         'KROLL: Mas, minha cara Senhorita West... por que, em nome dos cus, est to terrivelmente agitada? Voc me deixa assustado. Em que devo pensar... acreditar...?
         'REBECCA: Em nada. O senhor no deve pensar nem acreditar em nada.
         'KROLL: Ento, voc deve realmente dizer-me como pode levar esse caso... essa possibilidade... to terrivelmente a srio.
         'REBECCA (dominando-se):  perfeitamente simples, Prior Kroll. De forma alguma desejo ser tomada por uma filha ilegtima.'
         O enigma do comportamento de Rebecca  suscetvel de uma nica soluo. A notcia de que o Dr. West era seu pai  o golpe mais rude que lhe pode sobrevir, 
pois no s era sua filha adotiva, como tambm fora sua amante. Quando Kroll comeou a falar, ela pensou que estivesse fazendo aluso a essas relaes, cuja verdade 
ela teria provavelmente admitido e justificado por causa de suas idias emancipadas. Isso, porm, estava longe da inteno do Prior; ele nada sabia da ligao amorosa 
com o Dr. West, assim como ela nada sabia a respeito de o Dr. West ser pai dela. Ela no pode ter tido outra coisa em sua mente a no ser essa ligao amorosa, quando 
justificou sua rejeio final de Rosmer sobre o fundamento de que tinha um passado que a tornava indigna de ser sua esposa. E, provavelmente, se Rosmer tivesse consentido 
em ouvir falar desse passado, ela teria s confessado metade de seu segredo e teria silenciado sobre a parte mais grave.
         Agora, porm, compreendemos, naturalmente, que esse passado lhe deve ter parecido o obstculo mais grave  unio dos dois - o crime mais grave.Depois de 
saber que fora amante de seu prprio pai, ela se entrega inteiramente a seu j ento superdominador sentimento de culpa. Faz a Rosmer e a Kroll a confisso que a 
estigmatiza como assassina; rejeita para sempre a felicidade para a qual preparou o caminho pelo crime, e se prepara para partir. Mas o verdadeiro motivo de seu 
sentimento de culpa, que faz com que ela seja destroada pelo xito, permanece um segredo. Como vimos,  algo bem diverso da atmosfera de Romersholm e da aprimoradora 
influncia de Rosmer.
         Nessa altura, qualquer um que nos tenha acompanhado no deixar de formular uma objeo passvel de justificar algumas dvidas. A primeira recusa de Rosmer 
por Rebecca ocorre antes da segunda visita de Kroll e, portanto, antes da revelao feita por ele quanto  sua origem ilegtima, e numa ocasio em que ela nada sabe 
ainda sobre seu incesto - se  que compreendemos bem o dramaturgo. Todavia, essa primeira recusa  enrgica para valer. O sentimento de culpa que a convida a renunciar 
ao fruto de suas aes  assim efetivo antes que ela saiba de qualquer coisa sobre seu crime fundamental; e se admitimos isso, devemos talvez pr inteiramente de 
lado seu incesto como uma fonte desse sentimento de culpa.
         At agora tratamos Rebecca West como se ela fosse uma pessoa viva e no uma criao da imaginao de Ibsen, sempre dirigida pela mais crtica inteligncia. 
Podemos, portanto, tentar manter a mesma posio ao lidarmos com a objeo levantada. A objeo  vlida: antes do conhecimento de seu incesto, a conscincia j 
havia despertado parcialmente em Rebecca, nada impedindo que responsabilizemos por essa mudana a influncia admitida e acusada pela prpria Rebecca. Mas isso no 
nos isenta de reconhecermos o segundo motivo. O comportamento de Rebecca quando ouve o que Kroll tem a lhe dizer, a confisso que  sua reao imediata, no deixa 
dvida de que s ento o motivo mais forte e decisivo de renncia comea a fazer efeito. Trata-se de fato de um caso de motivao mltipla, no qual um motivo mais 
profundo aparece por detrs do mais superficial. As leis de economia potica exigem que seja esta a maneira de apresentar a situao, pois esse motivo mais profundo 
no podia ser explicitamente enunciado. Tinha de permanecer oculto, afastado da fcil percepo do espectador ou do leitor; do contrrio, teriam surgido srias resistncias, 
baseadas nas emoes mais aflitivas, as quais talvez pusessem em perigo o efeito do drama.
         Temos, contudo, o direito de exigir que o motivo explcito no fique desprovido de uma ligao interna com o oculto, mas aparea como uma atenuao e uma 
derivao deste ltimo. E, se pudermos confiar no fato de que a combinao criadora consciente do dramaturgo surgiu logicamente de premissas inconscientes, poderemos 
agora tentar mostrar que ele atendeu a essa exigncia. O sentimento de culpa de Rebecca tem sua fonte na exprobrao do incesto, mesmo antes de Kroll, com perspiccia 
analtica, t-la tornado consciente disso. Se reconstruirmos o passado dela, ampliando e preenchendo os indcios fornecidos pelo escritor, poderemos sentir-nos seguros 
de que ela no pode ter deixado de suspeitar da existncia de uma relao ntima entre sua me e o Dr. West. Deve ter ficado fortemente impressionada ao se tornar 
a sucessora da me junto a esse homem. Ficou sob o domnio do complexo de dipo, embora no soubesse que, em seu caso, essa fantasia universal se convertera em realidade. 
Quando chegou a Rosmersholm, a fora interna dessa primeira experincia impeliu-a a provocar, por uma ao vigorosa, a mesma situao que j se realizara no exemplo 
original devido  sua inao - a livrar-se da esposa e da me, de modo a poder ocupar o lugar desta junto ao marido e ao pai. Ela descreve com insistncia convincente 
como, contra vontade, foi obrigada a avanar, passo a passo, at a eliminao de Beata.
         'O senhor pensa ento que eu era fria, calculista e serena o tempo todo! No era ento a mesma mulher que sou agora, quando estou aqui a lhe contar tudo. 
Alm disso, existem duas espcies de vontade em ns, creio eu! Queria Beata afastada, de uma maneira ou de outra, mas nunca realmente acreditei que isso viesse a 
acontecer.  medida que avanava cautelosamente, a cada passo que eu aventurava, parecia ouvir alguma coisa dentro de mim que exclamava: No v adiante! Nem mais 
um passo  frente! E contudo eu no podia parar. Tinha de aventurar s mais um pouquinho. E somente mais um milmetro. E logo depois mais um - e sempre mais um. 
E ento aconteceu. -  assim que essas coisas acontecem.'
         No se trata de uma verso enfeitada das coisas, mas de uma descrio autntica. Tudo que lhe aconteceu em Rosmersholm, sua paixo por Rosmer e sua hostilidade 
para com a esposa dele, foi, desde o comeo, uma conseqncia do complexo de dipo - uma rplica inevitvel de suas relaes com sua me e com o Dr. West.
         Assim, o sentimento de culpa, que inicialmente faz com que ela rejeite a proposta de Rosmer, no fundo no difere do sentimento de culpa maior que a impele 
 confisso, depois que Kroll lhe abriu os olhos. Da mesma forma, porm, que sob a influncia do Dr. West ela se tornara uma livre-pensadora e passara a menosprezar 
a moral religiosa, assim tambm ela se transforma, por seu amor a Rosmer, num ser de conscincia e nobreza. Ela chega a compreender esse aspecto dos processos mentais 
dentro de si, justificando-se assim ao descrever a influncia de Rosmer como o motivo de sua mudana - o motivo que se tornara acessvel a ela.
         O clnico psicanalista sabe quo freqentemente, ou quo invariavelmente, uma moa que entra para o servio de uma casa como criada, dama de companhia ou 
governanta, consciente ou inconscientemente tece um devaneio, oriundo do complexo de dipo, no qual a dona da casa desaparece, vindo o dono a receber a recm-chegada 
como sua esposa no lugar da outra. Rosmersholm  a maior obra de arte desse tipo que aborda essa fantasia comum em moas. O que a transforma num drama trgico  
a circunstncia extra de que o devaneio da herona tenha sido precedido na sua infncia por uma realidade precisamente correspondente.
         Aps essa longa digresso pela literatura, retornemos  experincia clnica - mas apenas para estabelecermos em poucas palavras a inteira concordncia entre 
elas. O trabalho psicanaltico nos ensina que as foras da conscincia que induzem  doena, em conseqncia do xito, em vez de, como normalmente, em conseqncia 
da frustrao, se acham intimamente relacionadas com o complexo de dipo, a relao com o pai e a me - como talvez, na realidade, se ache o nosso sentimento de 
culpa em geral.
         
         III - CRIMINOSOS EM CONSEQNCIA DE UM SENTIMENTO DE CULPA
         
         Ao me terem falado sobre sua juventude, mormente antes da puberdade, pessoas que, mais tarde, freqentemente se tonaram muito respeitveis, me informaram 
sobre aes proibidas que praticam naquele perodo - tais como furtos, fraudes e at mesmo incndio voluntrio. Eu tinha o hbito de me descartar dessas declaraes 
com o comentrio de que estamos familiarizados com a fraqueza das inibies morais daquele perodo de vida e no fazia qualquer tentativa para localiz-las em um 
contexto mais importante. Mas eventualmente fui levado a proceder a um estudo mais completo de tais incidentes por alguns casos gritantes e mais acessveis, nos 
quais as ms aes eram cometidas enquanto os pacientes se encontravam sob meus cuidados, e j no eram to jovens. O trabalho analtico trouxe ento a surpreendente 
descoberta de que tais aes eram praticadas principalmente por serem proibidas e por sua execuo acarretar, para seu autor, um alvio mental. Este sofria de um 
opressivo sentimento de culpa, cuja origem no conhecia, e, aps praticar uma ao m, essa opresso se atenuava. Seu sentimento de culpa estava pelo menos ligado 
a algo.Por mais paradoxal que isso possa parecer, devo sustentar que o sentimento de culpa se encontrava presente antes da ao m, no tendo surgido a partir dela, 
mas, inversamente - a iniqidade decorreu do sentimento de culpa. Essas pessoas podem ser apropriadamente descritas como criminosas em conseqncia do sentimento 
de culpa. A preexistncia do sentimento de culpa fora, naturalmente, demonstrada por todo um conjunto de outras manifestaes e efeitos.
         O trabalho cientfico, porm, no se satisfaz com o estabelecimento de um fato curioso. Existem ainda duas outras perguntas a responder: qual a origem desse 
obscuro sentimento de culpa antes da ao;  provvel que essa espcie de causao desempenhe um papel considervel no crime humano?
         Um exame da primeira questo mantinha a promessa de nos trazer informaes sobre a fonte do sentimento de culpa da humanidade em geral. O resultado invarivel 
do trabalho analtico era demonstrar que esse obscuro sentimento de culpa provinha do complexo de dipo e constitua uma reao s duas grandes intenes criminosas 
de matar o pai e de ter relaes sexuais com a me. Em comparao com esses dois, os crimes perpetrados com o propsito de fixar o sentimento de culpa em alguma 
coisa vinham como um alvio para os sofredores. Nesse sentido, devemos lembrar que o parricdio e o incesto com a me so os dois grandes crimes humanos, os nicos 
que, como tais, so perseguidos e execrados nas comunidades primitivas. Tambm devemos lembrar como outras investigaes nos aproximaram da hiptese segundo a qual 
a conscincia da humanidade, que agora aparece como uma fora mental herdada, foi adquirida em relao ao complexo de dipo.Para responder  segunda pergunta, devemos 
ir alm do mbito do trabalho psicanaltico. No tocante s crianas,  fcil observar que muitas vezes so propositadamente 'travessas' para provarem o castigo, 
e ficam quietas e contentes depois de terem sido punidas. Freqentemente, a investigao analtica posterior pode situar-nos na trilha do sentimento de culpa que 
as induziu a procurarem punio. Entre criminosos adultos devemos, sem dvida, excetuar aqueles que praticam crimes sem qualquer sentimento de culpa; que, ou no 
desenvolveram quaisquer inibies morais, ou, em seu conflito com a sociedade, consideram sua ao justificada. Contudo, no tocante  maioria dos outros criminosos, 
aqueles para os quais medidas punitivas so realmente criadas, tal motivao para o crime poderia muito bem ser levada em considerao; ela poderia lanar luz sobre 
alguns pontos obscuros da psicologia do criminoso e oferecer punio com uma nova base psicolgica.
         Um amigo chamou minha ateno para o fato de que o 'criminoso em conseqncia de um sentimento de culpa' tambm j era do conhecimento de Nietzsche. A preexistncia 
do sentimento de culpa e a utilizao de uma ao a fim de racionalizar esse sentimento cintilam diante de ns nas mximas de Zaratustra 'Sobre o Criminoso Plido'. 
Deixemos para uma futura pesquisa a deciso quanto ao nmero de criminosos que devem ser includos entre esses 'plidos'. 
         
         











BREVES ESCRITOS (1915-1916)
         
         
         UM PARALELO MITOLGICO COM UMA OBSESSO VISUAL (1916)
         
         Num paciente com cerca de vinte e um anos de idade, os produtos da atividade mental inconsciente tornavam-se conscientes no apenas em pensamentos obsessivos, 
mas tambm em imagens obsessivas. Ambos podiam acompanhar-se mutuamente ou aparecerem independentemente. Numa ocasio especfica, sempre que via o pai entrar no 
quarto, vinha-lhe  mente, em estreita relao, uma palavra obsessiva e uma imagem obsessiva. A palavra era 'Vaterarsch' ['father-arse' (nus do pai)]; a imagem 
concomitante representava o pai com a parte inferior de um corpo despida, provida de braos e pernas, mas sem a cabea ou qualquer outra parte superior. No havia 
indicao dos rgos genitais e as feies do rosto apareciam pintadas no abdome.
         Ajudar  explicao desse sintoma, mais absurdo do que o comum, a meno de que o paciente, homem de intelecto plenamente desenvolvido e elevados ideais 
morais, manifestou um erotismo anal muito vvido, das mais variadas formas, at os dez anos de idade. Superado isso, sua vida sexual foi mais uma vez forada a voltar 
 fase anal preliminar devido  sua luta ulterior contra o erotismo genital. Ele amava e respeitava muito o pai, e tambm o temia bastante; contudo, a julgar por 
seus prprios altos padres no tocante ao ascetismo e  supresso dos instintos, o pai lhe parecia uma pessoa inclinada  devassido e  busca do prazer em coisas 
materiais.
         A palavra 'Vaterarsch' logo foi explicada como uma germanizao jocosa do ttulo honorfico de 'Patriarch' (patriarca). A imagem obsessiva  uma caricatura 
evidente. Lembra outras representaes que, tendo em vista um fim depreciativo, substituem toda uma pessoa por um de seus rgos, por exemplo, os rgos genitais; 
tambm nos faz recordar fantasias inconscientes que levam  identificao dos rgos genitais com a pessoa toda, e tambm jocosas figuras de linguagem, como 'Sou 
todo ouvidos'.
         De incio, a colocao das feies do rosto no abdome da criatura me pareceu algo muito estranho. Mas logo me lembrei de ter visto a mesma coisa em caricaturas 
francesas. O acaso me levou ento a uma representao antiga, que coincidia exatamente com a imagem obsessiva do meu paciente.
         De acordo com a lenda grega, Demter dirigiu-se a Elusis em busca da filha raptada, tendo sido recebida como hspede por Dysaules e sua esposa Baubo; mas 
em sua grande dor recusou-se a tocar em qualquer alimento. Logo depois, sua anfitrioa Baubo f-la rir levantando subitamente o vestido e expondo seu corpo. Um exame 
dessa anedota, que provavelmente se destinava a explicar um cerimonial mgico que j no era compreendido, encontra-se no quarto volume da obra de Salomon Reinach, 
Cultes, Mythes, et Religions, 1912 [115]. No mesmo trecho, o autor menciona que, no correr das escavaes em Priene, na sia Menor, foram encontradas algumas terracotas 
que representavam Baubo. Mostram o corpo de uma mulher sem a cabea ou o peito, com o rosto desenhado no abdome: o vestido erguido emoldura esse rosto como uma coroa 
de cabelos (ibid., 117).
         
         UMA LIGAO ENTRE UM SMBOLO E UM SINTOMA (1916)
         
         A experincia na anlise dos sonhos estabeleceu suficientemente bem o chapu como um smbolo do rgo genital, mais freqentemente do rgo masculino. No 
se pode dizer, contudo, que o smbolo seja inteligvel. Nas fantasias e em numerosos sintomas, tambm a cabea aparece como um smbolo dos rgos genitais masculinos, 
ou, se assim se prefere dizer, como algo que os representa. Algumas vezes, ter-se- observado que pacientes que sofrem de obsesses expressam uma dose muito maior 
de abominao e de indignao contra pena pela decapitao do que por qualquer outra forma de morte; em tais casos o analista pode ser levado a lhes explicar que 
esto considerando a decapitao como um substituto da castrao. J foram analisados e publicados numerosos casos de sonhos de pacientes jovens ou relatados como 
tendo ocorrido na juventude, que diziam respeito ao assunto da castrao, nos quais era mencionada uma bola redonda que s poderia ser interpretada como a cabea 
do pai daquele que sonhou. Recentemente, fui capaz de solucionar um cerimonial realizado por uma paciente antes de ir dormir, no qual ela tinha de colocar o pequeno 
travesseiro superior disposto em forma de losango sobre os outros, e de repousar a cabea exatamente no sentido da diagonal maior. O losango tinha o significado 
que os desenhos nas paredes [grafitos] nos tornou familiar; a cabea supostamente representava um rgo masculino.
         Pode ser que o significado simblico do chapu provenha do da cabea, na medida em que um chapu possa ser considerado como um prolongamento da cabea, 
embora destacvel. Com relao a isso, recordo-me de um sintoma por meio do qual neurticos obsessivos conseguem causar a si prprios tormentos contnuos. Quando 
esto na rua, ficam constantemente de sobreaviso para ver se algum conhecido os cumprimenta primeiro tirando o chapu, ou se parece estar esperando pelo cumprimento 
deles; e cortam relaes com grande nmero de seus conhecidos aps descobrirem que no os sadam mais ou no retribuem sua prpria saudao de maneira apropriada. 
No que diz respeito a isso, suas dificuldades no tm fim; encontram-nas por toda parte conforme seu estado de nimo e sua fantasia. No alteram seu comportamento 
quando lhes dizemos, o que todos eles j sabem, que uma saudao mediante o ato de retirar o chapu tem o significado de uma humilhao perante a pessoa cumprimentada 
- que um grande do reino de Espanha, por exemplo, gozava do privilgio de permanecer com a cabea coberta na presena do rei -, e que sua prpria sensibilidade no 
tocante  saudao significa, portanto, que esto pouco dispostos a demonstrar que so menos importantes do que a outra pessoa julgar ser. A resistncia de sua sensibilidade 
a explicaes como essa sugere que um motivo menos familiar  conscincia est em ao; e a fonte desse sentimento exagerado pode ser facilmente encontrada em sua 
relao com o complexo de castrao.
         
         
         
         
         
         CARTA  DRA. HERMINE VON HUG-HELLMUTH (1919-[1915])
         
         O dirio  uma pequena jia. Realmente acredito que jamais foi possvel obter uma viso to ntida e verdadeira dos impulsos mentais que caracterizam o 
desenvolvimento de uma jovem em nosso meio social e cultural durante os anos que precedem a puberdade. Temos a indicao de como seus sentimentos desabrocham de 
um egosmo infantil at alcanarem a maturidade social; aprendemos que forma assumem inicialmente suas relaes com os pais e com os irmos e irms, e como gradativamente 
ganham em seriedade e sentimento interior; como as amizades so feitas e desfeitas; como sua afeio vai tateando no sentido de seus primeiros objetos; e, acima 
de tudo, como o segredo da vida sexual comea a despontar indistintamente, adquirindo ento plena posse da mente da criana; como, na conscincia de seu conhecimento 
secreto, ela inicialmente sofre, mas pouco a pouco supera isso. Tudo  expresso de modo to encantador, to natural e to srio nessas notas despretensiosas, que 
elas no podem deixar de despertar o maior interesse em educadores e psiclogos...  seu dever, julgo eu, publicar o dirio. Meus leitores lhe ficaro gratos por 
isso. 
         
         
         
         
         
         
         
         



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A histria do movimento psicanaltico, artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos - Sigmund Freud
